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O Meu Clube É a Seleção!

Os pensamentos de uma simples adepta da Seleção Nacional, que não percebe assim tanto de futebol mas que é completamente maluca pela Equipa de Todos Nós.

Selecção 2010



Mais um ano encontra-se à beira do fim, mais um ano encontra-se à beira do início. É costume as pessoas reflectirem sobre os acontecimentos mais marcantes dos últimos doze meses e tentarem prever o que acontecerá nos próximos doze. No que toca à Selecção Nacional, este foi um ano de altos e baixos, alguns muito altos, alguns muito baixos. Há um ano atrás eu não imaginava, nem nos meus mais delirantes sonhos, que a nossa Selecção passasse por tais coisas, que fizesse tais coisas.

Comecemos pelo primeiro jogo do ano, um particular de preparação para o Mundial, frente à China, realizado em Coimbra, no dia 3 de Março. Por esta altura, já tinha estalado a polémica devido a uma alegada troca de agressões entre Carlos Queiroz e Jorge Baptista, no dia do sorteio da fase que qualificação do Euro 2012. Um episódio desagradável, mas hoje parece uma ninharia quando comparado com o que aconteceu no Verão.

O jogo representava a "última oportunidade de contactar com os jogadores antes da Convocatória Final". Servia ainda para preparar o embate com a Coreia do Norte. A Convocatória para este encontro causou polémica por não incluir nenhum jogador do Benfica, equipa que, semanas mais tarde, sagrar-se-ia campeã. Portugal venceu a China por duas bolas a zero, golos de Hugo Almeida e João Moutinho.

Um aparte só para observar que o Hugo marcou não só o primeiro golo da Selecção no ano de 2010 mas também marcou o último do ano. Parece mesmo que ele foi o maior marcador deste ano, tendo feito um total de seis bolas cruzar a linha de baliza. Quando marcou frente à China, eu desejei que o fosse o primeiro golo de muitos. E, de facto, marcou-se bastante este ano.

Voltando ao particular, foi um jogo mediano. Manifestaram-se os problemas na finalização que haviam marcado a fase de qualificação. O rendimento da equipa ressentiu-se das substituições ao intervalo. A segunda parte foi ainda marcada pelos assobios dos adeptos, desagradados com a fraca exibição.

Os Convocados foram Anunciados em Maio. Poucos dias antes, Queiroz havia dado uma entrevista a "A Bola". Aqui disse, entre outras coisas que "o padrão de continuidade é o único que dá mais hipóteses a uma Selecção como Portugal de se intrometer entre os grandes" - o que hoje é irónico visto que, depois de trocarmos de Seleccionador, demos quatro à Campeã Europeia e Mundial.

Mas, voltando à Convocatória, esta foi anunciada com pompa e circunstância - que hoje, que sabemos que a nossa participação no Mundial deixou muito a desejar, parece ridícula. O Estágio na Covilhã começaria alguns dias mais tarde. Enquanto este decorria, eu julgava que tudo corria bem, que o ambiente na Selecção e a relação entre jogadores e treinador era positiva - hoje sei que não foi bem assim. Foi também durante o Estágio que se deu o incidente que, depois do Mundial, desencadearia uma série de acontecimentos que culminariam no despedimento de Carlos Queiroz.

No dia 24 de Maio, poucos dias depois do início do Estágio, numa altura em que o grupo ainda não se encontrava completo, Portugal recebeu a Selecção Cabo-Verdiana, no primeiro de três particulares com equipas africanas que visavam a preparação do embate com a Costa do Marfim. Foi um jogo fraquinho, que terminou com o marcador por abrir. Nani e Fábio Coentrão foram os poucos com um desempenho positivo. Jogadores e Seleccionador invocaram o pouco tempo de estágio e a "falta de frescura física" como desculpas, perdão, razões para a má exibição, garantindo no entanto que "a partir de agora é a sério".

E, de facto, o particular que se seguiu, frente aos Camarões, no dia 1 de Junho, foi significativamente melhor do que o anterior. A Selecção venceu por três bolas a uma. Marcou o fim do Estágio na Covilhã.

Uma semana mais tarde, já na África do Sul, a Selecção Nacional venceu a sua congénere moçambicana por três bolas sem resposta, num dia marcado pelo regresso de Nani a casa, por lesão. Este regresso causou polémica e ainda hoje não consigo perceber porquê. Carlos Queiroz tinha deixado bem claro  que fora "o caso mais difícil que tiver de gerir do ponto de vista humano", que "A entrega e a obstinação que ele mostrou para disputar o Mundial foram uma das maiores provas de profissionalismo a que já assisti" e que "o Nani é um exemplo para todos". Quer dizer, quem seria idiota ao ponto de abdicar de tal jogador sem uma fortíssima razão? Não percebo, realmente...

E, como já referi antes, não consigo evitar pensar que o Mundial poderia ter corrido de maneira diferente se o Nani tivesse estado lá.

Portugal estreou-se no Mundial uma semana depois, frente à Costa do Marfim, no dia 15. O jogo terminou sem que o marcador abrisse. As opiniões sobre se este resultado era positivo ou negativo para a Selecção dividiram-se. Este jogo ficou ainda marcado pelas polémicas declarações de Deco, que abalaram ainda mais a já fragilizada credibilidade do Seleccionador.

No dia 21 de Junho, a Selecção Nacional entrou em campo com a Coreia do Norte, no Estádio da Cidade do Cabo. Até àquele momento, nenhuma Selecção havia triunfado naquele estádio. Esperava-se que Portugal, um pouco à semelhança do que Bartolomeu Dias havia feito, fosse de novo o primeiro a dobrar o Cabo das Tormentas, transformando-o em Cabo da Boa Esperança.

E foi o que aconteceu. A Selecção Portuguesa venceu a Norte-coreana por sete bolas sem resposta. Os marmanjos jogaram com mais garra, coragem, determinação, alegria e com muito menos medo, como não jogavam há muito e como só voltariam a jogar em Outubro. Todos os jogadores estiveram bem, com destaque para Tiago. Esperava-se que esta vitória representasse o ponto de viragem.

Não foi bem isso o que aconteceu. No dia 25 de Junho, a Selecção defrontou a sua congénere brasileira. Tratava-se de um jogo praticamente a feijões, praticamente só para disputar os dois primeiros lugares do grupo. Como tal, foi um jogo morno, sem golos. O Brasil ficou em primeiro lugar e Portugal ficou em segundo. Nesse dia descobrimos ainda que nos oitavos-de-final, no dia 29 de Junho, defrontaríamos nuestros hermanos espanhóis.

O jogo até começou bem, a primeira parte foi muito equilibrada. Ao intervalo, Queiroz optou por tirar Hugo Almeida. Tal decisão causou polémica, pensa-se que a saída do ponta-de-lança terá resultado no golo espanhol. "O coração parou de bater aos 63 minutos..." Portugal ressentiu-se, não conseguiu anular a desvantagem, o jogo acabou e a Selecção foi expulsa do Mundial.

No fim do jogo, Eduardo chorava. Ele, talvez mais do que qualquer outro, merecia mais. Cristiano Ronaldo não ajudou. As suas polémicas palavras "Perguntem ao Queiroz", bem como o "Assim não ganhamos, Carlos!" que terá atirado ao Professor aquando do golo espanhol foram duas das muitas pedras posteriormente atiradas ao Seleccionador. Metade do país exigia a sua demissão. Por sua vez, Queiroz, longe de abdicar do cargo, afirmou que "vamos continuar com a cabeça erguida" e de da próxima vez voltaríamos "mais fortes e mais competitivos". Na altura concordava com ele, achava que o seu afastamento pouco ou nenhum benefício traria à Selecção.

Mas agora, tendo em conta tudo o que aconteceu depois, talvez tivesse sido melhor. Qualquer coisa teria sido melhor do que o que aconteceu depois.

Eu nem quero recordar os pormenores todos. Aquele foi, sem dúvida, a pior fase por que a Selecção passou desde que me lembro. Parece que foi mesmo a pior de sempre. A polémica arrastou-se durante quase todo o Verão, sem solução à vista, ou melhor, sem que ninguém se esforçasse por encontrar uma solução. Quase nenhum dos jogadores veio defender o Seleccionador, Paulo Ferreira, Simão e Miguel até escolheram aquele momento para fugirem, perdão, saírem da Selecção. O que era mais do que esclarecedor em relação ao ambiente entre jogadores e treinador. Ninguém parecia ter noção dos danos que aquilo estava a provocar à Equipa de Todos Nós, ninguém fazia o mínimo esforço para resolver de vez aquela confusão. A Selecção ia sendo destruída aos poucos e ninguém via, ninguém mexia um dedo para o impedir. Gilberto Madaíl foi ao extremo de opinar, a poucos dias do primeiro jogo de qualificação para o Campeonato da Europa de 2012, que nada daquilo afectaria a equipa, que os marmanjos sabiam "jogar em piloto automático". Se todos os pilotos automáticos fossem como aquele, haveria acidentes aéreos todos os dias...

Para mim não foi, portanto, surpresa que a jornada dupla tivesse terminado com um empate e uma derrota, cinco golos sofridos, cinco pontos perdidos. A qualificação equilibrava-se num trapézio sem rede e acabara de começar. A situação havia conseguido minar a confiança dos jogadores, minar a defesa que pouco tempo antes era o nosso maior ponto forte.

A situação chegara a um ponto em que a única solução era correr com Queiroz. E foi o que aconteceu.

Quase imediatamente a seguir ao despedimento, já se falava de Paulo Bento como possível sucessor. Contudo, ainda houve tempo para Gilberto Madaíl fazer uma visita a Madrid e pedir a Mourinho que viesse orientar a Selecção Nacional apenas durante a seguinte dupla jornada de qualificação. Já dei voltas à cabeça mas as únicas palavras que encontro para descrever a situação são mesmo "WTF?!?!" ou "mas que raio...?!?!?". Realmente, não percebo em que raio estava o Presidente da Federação a pensar. Mourinho por sua vontade aceitaria a súplica, perdão, o convite sem cobrar nada, mas o Presidente do Real Madrid não deixou.

Madaíl teve então de voltar a Portugal e contratar Paulo Bento. Tal escolha revelou-se bastante consensual na opinião pública. Eu é que não estava a ver como poderíamos dar a volta ao texto. No primeiro treino da Selecção com Bento como Seleccionador Nacional, os adeptos foram assistir em força e mostraram ostensivamente o seu apoio. Mais do que nos dois anos anteriores, dizia-se. Não sei se acreditavam sinceramente do novo Técnico ou se queria apenas provocar o anterior...

Entretanto, mais ou menos nessa altura, a poucos dias do nosso terceiro jogo de qualificação, Mourinho enviou uma mensagem apelando à união em torno da Selecção e de Paulo Bento. Com esta e com a sua reacção ao convite disparatado de Gilberto Madaíl, o treinador do Real Madrid subiu consideravelmente na minha consideração. No meio de todos os corruptos por detrás do "caso Queiroz", José Mourinho era provavelmente a única pessoa íntegra, a única que colocou os interesses da Selecção à frente dos seus. E mesmo que tivesse sido só para se auto-promover, o que é certo é que o seu gesto beneficiou a Selecção e os gestos de outros apenas a atiraram ainda mais para o charco.

No dia 8 de Outubro, Portugal recebeu a Dinamarca no Estádio do Dragão e venceu-a por três bolas a uma. Dois golos seguidos de Nani, um auto-golo de Ricardo Carvalho e um de Cristiano Ronaldo. E a Selecção voltava a jogar com o entusiasmo e a alegria de antigamente. Paulo Bento não poderia ter pedido melhor estreia ao comando da Turma das Quinas.

No dia 12, Portugal foi à Islândia vencer pelo mesmo resultado. Cristiano Ronaldo, Raúl Meireles e Hélder Postiga marcaram os três golos da Selecção. A Equipa de Todos Nós parecia estar de regresso.

Tal voltou a confirmar-se um mês depois. No dia 17 de Novembro, houve um particular entre as duas Selecções Ibéricas, a propósito da Candidatura à Organização do Mundial de 2018. A Selecção Portuguesa venceu a actual Campeã da Europa e do Mundo por quatro golos sem resposta. Foi o melhor jogo da Selecção dos últimos anos, uma exibição perfeita. Parecia que estávamos a jogar contra uma equipa vulgar, não com a Campeã. Não ganhámos três pontos, ganhámos muito mais.

Em suma, a Selecção de 2010 esteve a milímetros de ir por água abaixo, mas conseguiu voltar a erguer-se, subiu, subiu e até deu quatro à Espanha. Termina o ano no melhor nível desde há séculos, deixando boas promessas para 2011.

Ainda não acredito que isto aconteceu, nunca me tinha passado pela cabeça que uma simples troca de Seleccionador tivesse tal efeito. Por mais cruel que me pareça, parece mesmo que a culpa era de Carlos Queiroz. Como diziam no Record, "onde com Queiroz havia medo, há agora segurança. Onde com Queiroz se inventava, há agora simplicidade. Onde com Queiroz se bocejava, há agora espectáculo. Onde com Queiroz era derrota certa" - ou empate, digo eu - "há agora sempre esperança". Cada vitória de Paulo Bento representa uma derrota para Queiroz. E por muitas voltas que dê ao texto, contra factos não há argumentos. Eis os factos: com Bento ao leme, a Selecção marcou dez golos em três jogos (e não jogámos propriamente com o Luxemburgo, longe disso!) e os Marmanjos voltaram a jogar alegres como o Waka Waka. 


Eu não consigo esquecer que Queiroz fez muito pela Selecção, fez-me acreditar na Selecção e a forma como foi despedido foi tudo menos justa. Mas a verdade é que a Selecção já não precisa dele. Quem me dera que ele tivesse saído logo a seguir ao Mundial para que recebesse a indemnização e tudo a que tinha direito de acordo com o contrato assinado e a qualificação nunca tivesse sido prejudicada. Mas a História escreve-se a tinta-da-china e não há maneira de alterá-la. Agradeço ao Professor tudo o que fez pela Selecção, desejo-lhe toda a sorte do Mundo e que encontre justiça, mas Carlos Queiroz já não faz falta.

Por outro lado, não sei se não terá sido o facto de termos afundado tanto, de termos empurrado tanto a mola até ao fundo que nos catapultou para a melhor fase em anos.

Temos já uns quantos particulares marcados. Um com a Argentina, dia 9 de Fevereiro, um com o Chile no dia 26 de Março e outro com a Finlândia no dia 29 do mesmo mês. Em Junho, a qualificação é retomada com a recepção à Noruega no Estádio da Luz.

É um dos meus desejos para 2011 que a boa fase que a Selecção actualmente atravessa tenha vindo para ficar. Tenho quase a certeza que pelo menos este se cumprirá. É uma das poucas coisas boas com que poderemos contar no ano que vem, no meio do IVA a 23%, dos salários cortados e da ameaça do FMI.

Desejo, portanto, a todos os leitores que consigam fazer frente às dificuldades que o Ano Novo trouxer consigo. Que a Selecção Nacional, a Turma das Quinas, a Equipa de Todos Nós seja, como já foi, este ano (pelo menos para mim), um motivo de alegria, algo que nos ajude a enfrentar a crise, algo que nos dê argumentos, por mais fúteis que sejam, para desejar a todos um Feliz Ano Novo!

Fim da fase aguda

Ontem, a Selecção Espanhola derrotou a sua congénere holandesa, arrecadando deste modo o título de Campeã Mundial, no jogo que encerrou o Campeonato do Mundo de 2010, que se realizou na África do Sul. O próximo Mundial realizar-se-à daqui a quatro anos, no Brasil. Antes, em 2010, haverá Campeonato Europeu, a realizar-se na Polónia e na Ucrânia.


O resultado da final não me surpreendeu. Pensando friamente, pondo de parte a minha fé na Selecção, ainda antes do Campeonato começar, a Espanha era a minha aposta para Campeã desta edição do Mundial. Nuestros hermanos mereceram o título - escrevo isto sem quaisquer ressentimentos por nos terem expulso do Mundial.


Como já tinha escrito antes, o resultado dos oitavos-de-final foi justo. Eu sei que o golo foi em fora-de-jogo - só o soube depois de publicar a última entrada do blogue - e que isso condicionou o resto da partida, mas também nunca mostrámos ser claramente superiores.

E, para ser sincera, nunca percebi a lógia da regra do fora-de-jogo.


Oficialmente o Mundial só terminou agora, mas para nós já terminou há muito. No que toca ao desporto, as prioridades já regressaram aos clubes e a tudo o que com reles se relaciona - o que, para mim, é extremamente deprimente.


Como o costume, abundam as críticas ao Seleccionador Nacional. A pior situação de todas ocorreu durante a recepção da Selecção no Aeroporto da Portela, vinda da África do Sul. Estavam cerca de trinta adeptos, alguns para demonstrar apoio, mas também lá estava um sujeito (embora tenha em mente vários epítetos bem menos carinhosos) gritando com um megafone, na fala arrastada, típica da "peixeirada", passe a expressão:


- Vai p'ra casa!... Vai-t'embora! Demite-te, já não 'tás aí a fazer nada. Só queres é dinheiro!


O que mais me aborreceu nem foi isto. Pessoas de fraco carácter hão sempre de existir, não há volta a dar. O que me enraiveceu a sério foi o facto de o jornalista da RTP ter abordado o homem, dando-lhe exactamente o que ele queria mas que não merecia: tempo de antena.


Ainda agora tremo de indignação só por escrever sobre este episódio. Há quem ache patético o meu amor incondicional à Selecção, mas eu acho ainda mais patétioc ir às sete da manhã à Portela só para vociferar insultos contra o Seleccionador. E patético é mesmo a palavra mais carinhosa que encontro para descrever a situação. Mas adiante, que não vale a pena gastar cera com tão ruins defuntos.


Uma das coisas que atenuou a minha desilusão pela expulsão do Mundial foi a Conferência de Imprensa que Carlos Queiroz deu no dia seguinte ao jogo dos oitavos-de-final. Queiroz afirmou que "vamos continuar de cabeça erguida" e que, da próxima vez voltaremos "mais fortes e mais competitivos". Em Setembro começará a fase de qualificação para o Euro 2012. Não começaremos do zero: de acordo com Queiroz, "temos um grupo de jogadores e uma estrutura base consolidada". Já não teremos de passar pela adaptação a um novo treinador. Esta qualificação correrá melhor do que a última e daqui a dois anos estaremos mais fortes.


Gostei de ouvir o Professor. Correcção: gosto de ouvir o Professor. Ele fala bem, é inteligente e sensato, dá-me quase sempre razões para continuar a acreditar na Selecção. É claro que a Comunicação Social e afins arranjam sempre maneira de o contradizer, de o acusar de "optimismo exagerado", de "arrogância", etc, mas eu não ligo. Talvez seja ingénua, mas a minha lealdade vai para a Selecção e quem quer que a oriente. Há anos que é assim e é pouco provável que deixe de ser. Tenho mais motivos para acreditar nas palavras do Seleccionador, cujo interesse é, entre outros, o bem-estar da Selecção e muito menos motivos para acreditar nas palavras dos comentadores, cujo interesse é vender jornais. Mesmo que não concorde com muitas decisões do Professor (por exemplo, ainda não consegui compreender porque é que ele não Convocou o Quim, nem que fosse só para o caso de o Eduardo se lesionar). A verdade é que não percebo o suficiente de futebol para criticar abertamente as atitudes de Queiroz. Contudo, suspeito que haja muito comentador por aí a perceber ainda menos do que eu de futebol, mas a fingir saber mais.
Ontem à noite, depois da vitória da Espanha, não consegui evitar sentir-me deprimida. Quando é que chegará a nossa vez de festejarmos a conquista de um título? Sonho com isso há anos, já o imaginei milhões de vezes: os marmanjos recebendo as medalhas, o Cristiano Ronaldo recebendo a Taça e erguendo-a no ar. Nesse momento, voam confettis verdes e vermelhos, todos os jogadores erguem os punhos em sinal de triunfo - esta imagem surge nas capas de jornais de todo o Mundo na manhã seguinte. Entretanto, os adeptos saem à rua vestidos a rigor. Abraçamo-nos uns aos outros, há cerveja e champanhe, lançam-se foguetes. E a festa prolonga-se madrugada dentro.
Eu já nem me atrevo a pedir isso. Já me dava por satisfeita com um campeonato semelhante ao Euro 2004 ou ao Mundial 2006. Em que o pessoal acreditava mesmo na conquista do título sem acrescentar:
- É melhor eu não conduzir, não é?
Eu até noto um certo padrão descendente. 2004, final; 2006, meia-final; 2008, quartos-de-final; 2010, oitavos-de-final. Se continuarmos assim, em 2012 ficaremos pela fase de grupos e nem nos qualificamos para o Mundial de 2014. Espero bem estar enganada.
Será que só temos direito a campanhas como a de 2004 e de 2006 de quarenta em quarenta anos? Será que só voltaremos a chegar a uma final em 2046? Recuso-me a acreditar nisso! Mas mesmo que me reforme antes de ver a Selecção ganhar um título, não deixarei de apoiar.
Apesar de termos saído mais cedo do que o que desejava, foi bom enquanto durou. Uma das melhores coisas foi a revelação de novos talentos, que no futuro poderão fazer muito mais pela Selecção: Fabio Coentrão, Eduardo, Tiago... E ficaram boas recordações. Estes dois meses foram, para mim, mais felizes do que o costume, graças à Selecção. O que mais me dói é que só voltarei a ter dias assim daqui a dois anos. Se/Quando (escolham vocês) nos qualificarmos para o Europeu. E mesmo assim, o Mundial é mais grandioso do que o Euro. Quatro anos até termos um novo...
Ainda ando um bocado em baixo por causa disso, mas hei-de ultrapassar. Temos, aliás, o Verão para nos recompormos. Depois, em Setembro, pegamos de novo nas armas e voltamos a ir à luta. Mesmo que ainda não seja desta, não será por não tentarmos que falharemos. Deixo aqui o calendário da fase de qualificação para o Euro 2012:

03.09.2010
Portugal - Chipre

07.09.2010
Noruega - Portugal

08.10.2010
Portugal - Dinamarca

12.10.2010
Islândia - Portugal

04.06.2011
Portugal - Noruega

02.09.2011
Chipre - Portugal

07.10.2011
Portugal - Islândia

11.10.2011
Dinamarca - Portugal
Acho que não vou poder ver o primeiro jogo da qualificação, visto que nessa altura estarei de férias no estrangeiro. Mas, assim que puder, actualizarei o blogue. Entretanto, vou ver se envio para o YouTube nos próximos dias outro vídeo sobre a Selecção. Um vídeo de recomeço.
Há que continuar a acreditar que um dia a Taça virá para Portugal. Até lá...

Espanha 1 Portugal 0 - Fim da linha

A Espanha venceu-nos há pouco por uma bola sem resposta e expulsou-nos do Campeonato do Mundo 2010 da África do Sul. Fim da linha para a Turma das Quinas.

Ainda não acredito que já tenha tudo acabado. A verdade ainda não me atingiu por completo. Estava bastante optimista antes do jogo. Vocês leram a entrada anterior, que acabei de escrever poucas horas antes do início do encontro. Sabia que ia ser difícil, que não tínhamos os argumentos que tivemos noutras competições deste género, que havia equipas muito melhores do que a nossa, que a Espanha é uma das grandes candidatas ao título, mas tinha imensa fé na Selecção, imensa fé nestes homens, acreditava mesmo num milagre. Não foi o que aconteceu, agora vamos para casa.

Os nossos vizinhos entraram muito bem, fizeram para aí uns três ou quatro remates nos primeiros minutos, mas também serviu para o Eduardo "mostrar as garras", fazendo umas defesas espectaculares. Contudo, os portugueses, embora sem conseguirem ter muitas oportunidades, lá conseguiram travar o ímpeto espanhol. A primeira parte acabou, portanto, por ser muito equilibrada.

Na segunda parte, não percebi porque é que o Hugo Almeida saiu e pelos vistos não sou a única - e o pessoal já começa a pegar nesta substituição para esfaquear o treinador. O golo da Espanha foi o golpe fatal. Imediatamente antes do golo, eu e a minha irmã (com quem estava a ver o jogo) soltávamos gritinhos do género: "Agarra a bola!". Quando a bola cruzou a linha de baliza, emudecemos. No Telejornal da RTP usaram uma expressão excelente para descrever esses momentos: gelo absoluto. "O coração parou de bater aos 63 minutos..." Eu realmente sentia-me como se parte do meu cérebro tivesse sido congelada.

Antes do jogo, já se previa que a equipa que marcasse primeiro tinha o jogo quase ganho. Foi, de facto, o que aconteceu. Sofremos um golo e desfizémo-nos. Eu nem os posso censurar, pois também tive de fazer um esforço por me manter fiel à minha máxima: "Até o árbitro apitar três vezes". Eu nunca deixei de acreditar, embora fosse uma crença muito frágil.

Ainda não percebi muito bem porque é que o Ricardo Costa foi expulso. Nas repetições só mostravam o jogador espanhol agarrado à cara. Também não percebi muito bem porque é que o Ricardo Costa alinhou de início, mas não vou seguir o exemplo de muita gente por aí, que se prepara para crucificar o Seleccionador, quando provavelmente nem devem ter metade dos conhecimentos futebolísticos que Carlos Queiroz tem.

E o árbitro lá apitou três vezes, acabando de vez com o nosso sonho. Os espanhóis em festa, os portugueses com semblantes carregados, o Eduardo de lágrimas nos olhos. Ele realmente não merecia isto, depois de tudo o que fez pela Selecção, neste jogo e não só. De facto, já o elegeram, a ele e a Fábio Coentrão, como as grandes revelações da Selecção Nacional.

Entretanto, o Cristiano desceu na minha consideração. Quando ele passou, de lágrimas nos olhos, diga-se, na zona mista, quando os jornalistas lhe pediram explicações para a derrota, ele disse:

- Fale com o Carlos Queiroz!

Não sei se estas são as palavras exactas, mas isso não interessa para o caso. A polémica ainda não rebentou por completo, mas já se fala em "infantilidade", "birra" e "arrogância" e certamente esta frase será outra pedra atirada a Queiroz. Tal como critiquei Deco quando ele fez a sua declaração polémica, também critico o Cristiano pelo que disse. Eu pensava que ele tinha crescido, que estava a assumir-se como líder da Selecção, que estava a seguir os passos do Figo, mas pelos vistos estava redondamente enganada. Francamente, Ronaldo... Já se fala que o madeirense arrisca-se a perder a braçadeira de capitão. Eu concordo, mas duvido que tal aconteça. Contudo, também acho que o mediatismo associado a ele é exagerado: o Fábio Coentrão e o Eduardo fizeram muito mais pela Selecção neste Mundial do que ele e não se puseram a mandar bocas deste género. OK, ele não devia estar a pensar friamente, mas ele é adulto, valha-me Deus. Já não tem a desculpa de ser "jovem"... E ele é o capitão da equipa! Nas vitórias e nas derrotas!

Eu detesto estas situações, da mesma maneira que odiei o murro de João Pinto em 2002 e o "murro" de Scolari no Apuramento para o Euro 2008. Eu sei que não é comparável, mas já é mau perdermos, será pedir demais que o façam com um mínimo de dignidade, mantendo a equipa unida? Tem sempre de haver uma questão polémica para nos deitar ainda mais abaixo? O pior é que eu acho que esta polémica ainda agora começou...

Mudando de assunto, aposto que nos próximos dias vão pedir (ou exigir) a demissão de Carlos Queiroz. É o costume, o técnico é sempre a vítima preferida. Contudo, não acho que existam culpados para este resultado. Tanto quanto sei, todos fizeram o melhor que puderam. Já sabíamos que ia ser difícil. Os espanhóis marcaram, nós não, ponto final. Em relação ao Seleccionador, eu acho que ele deve continuar no comando da Selecção. Ele não tem feito um trabalho assim tão mau na Selecção. Nós demos luta neste Mundial. Não foi um completo fracasso. Se o treinador é responsável pelas coisas más, também é responsável pelas coisas boas. Além disso, a adaptação de Queiroz foi complicada e afectou o percurso da Selecção. Não precisamos de outra fase de adaptação.

Eu devia dizer algo do género: "OK, perdermos, agora temos de pensar na qualificação para o Euro 2012", mas ainda não estou nessa fase. A ferida é ainda recente. Contudo, existe algo que não mudou: o meu apoio à Selecção. Eu não sou daqueles pseudo-adeptos bipolares, que quando ganhamos é só elogiros à Selecção, mas quando perdermos só dizem cobras e lagartos de tudo e de todos. Eu não faço isso. Nunca o fiz e nunca o farei. Posso deixar de ser tão expressiva no meu apoio, mas não deixarei de apoiar. O meu clube é a Selecção. É o meu clube nas vitórias e nas derrotas. Até depois de morta. E não me interessa o que pensam disso.

Portugal 0 Brasil 0 - Dos grupos ao "mata-mata"

Devia ter escrito mais cedo, mas fui passar o fim-de-semana fora, sem acesso à Internet. Na Sexta-feira, a Selecção Portuguesa empatou sem golos com a sua congénere brasileira e qualificou-se para os oitavos-de-final. A passagem aos quartos-de-final será disputada com a Espanha, uma das principais favoritas ao título mas que não mete medo à Turma das Quinas.

Desta feita, fui assistir ao nosso terceiro jogo no Mundial ao Campo Pequeno na companhia de amigos. Ou melhor, assistimos ao jogo no exterior da Praça, ao ar livre, através de um ecrã gigante, juntamente com centenas de adeptos. A larga maioria eram portugueses, mas também havia um número considerável de brasileiros. Felizmente, o ambiente era amigável, não houve quaisquer desacatos. Do meu grupo, eu era a única que vinha "equipada", como disse a Inês: com um top, um boné e um cachecol de Portugal e ela nem viu as meias... Mas também se via gente ainda mais expressiva do que eu em termos de roupa. Também se ouviam vuvuzelas e buzinas que emitiam um som semelhante - e, realmente, aquilo acaba por fazer dores de cabeça ao fim de algum tempo. Ainda por cima, mais tarde, quando ia para o Metro, um deles teve a triste ideia de começar a tocar no túnel. Adicionem ao som incomodativo o eco de um túnel do Metro...

Foi bom ver o jogo junto àquela gente toda, cantar o hino em coro, de cachecol esticado, puxar pelos jogadores em coro, soltar exclamações de quase-que-era-golo em coro, gemer quando os outros apontam à nossa baliza em coro. O jogo até não foi mau, foi bastante equilibrado, ambas as equipas deram luta. Não foi o jogo intenso e vibrante que eu esperava de um Portugal-Brasil, mas também era difícil que assim fosse num jogo praticamente a feijões. Só faltaram mesmo os golos: tive imensa pena de não poder celebrar um golo em coro com aquela gente toda.

Na primeira parte, estranhei os cartões amarelos todos que o árbitro ia mostrando. Graças a Deus, que nenhum deles foi mostrado a um Navegador previamente amarelado. Se tivesse sido o Ronaldo, era o bom e o bonito. Na altura, cheguei mesmo a comentar com os meus amigos:

- Não acham que ele está a exagerar nos amarelos?

Outras coisas que também marcaram a primeira parte foram as constantes faltas sobre Pepe. O David até comentou:

- Os brasileiros estão mesmo zangados por ele se ter neutralizado português...

Eu tinha era medo de que aquelas entradas todas lhe agravassem a lesão.

Felizmente, as coisas pareceram acalmar-se na segunda parte. Portugal esteve mais vezes perto de marcar, mas o marcador teimava em não abrir. E manteve-se fechado até ao apito final. O Brasil ficou em primeiro lugar do grupo e Portugal ficou em segundo. Findo o jogo, aguardámos ansiosamente pelos jogos do grupo H, para saber quem era o nosso adversário. Eu ainda mantive a secreta esperança de que a Espanha ficasse em segundo, mas tal não aconteceu. Vamos hoje enfrentar os nossos vizinhos nos oitavos-de-final.

Quando se soube o resultado do jogo de Espanha, a primeira coisa que disse foi:

- Eu acredito em milagres.

Contudo, agora penso que não será propriamente um milagre se conseguirmos vencer os espanhóis. No início do Mundial eles eram a minha aposta, mas depois da derrota com a Suíça... Além disso, dizem que temos dos melhores ataques da prova - embora ache um bocado precipitado dizer isso, quando só marcámos num jogo, mesmo que tenham sido sete golos - e das melhores defesas - com esta concordo. Os grandes candidatos ao título (a Argentina, a Alemanha, a Holanda, o Brasil), bem como os ex-grandes candidatos ao título (a França, a Itália e a Inglaterra) já sofreram golos, mas nós não - e estivémos no "grupo da morte"! O Eduardo não deixa nada cruzar a linha de baliza! O Eduardo e não só.... também os nossos defesas. Tendo em conta os golos que sofremos, os jogos que perdemos, por "erros defensivos", é reconfortante pensar que a defesa já não é um problema.

Eu sei que a Espanha continua a ser uma forte candidata ao título, que a forma como se aborda um jogo em que os pontos contam é diferente da forma como se aborda o "mata-mata". Os castelhanos entrarão para ganhar. Contudo, também sei que os Navegadores se deixarão de rodeios e entrarão para ganhar. E mesmo que não entrem, mesmo que se ponham à defesa, mesmo que não marquem golos... bem, se não sofrermos golos, não somos vencidos. Por isso, é que acredito que a coisa se arrastará até aos penálties - isto se não marcarmos antes, o que eu duvido, mesmo assim. Se de facto chegarmos aos penálties tudo pode acontecer. Contudo, estou a pensar na primeira final da Taça da Liga, que opôs o Vitória de Setúbal ao Sporting. Não sei se já falei deste jogo cá no blogue. Na altura o Eduardo jogava pelo Vitória. Lembro-me de me rir ao ver o contraste entre o Eduardo, alto e bem constituído, e o guarda-redes do Sporting (o Rui Patrício?), um autêntico magricela - passe a expressão. Se não me engano, o Eduardo defendeu três penálties. Eu sei que não dá para comparar o Sporting com a Selecção Espanhola, mas...

Eu acredito na passagem aos quartos. Será difícil como o catano, mas não é de todo impossível. Ontem disseram-me que hoje faz dois anos desde que eles ganharam o Euro 2008 - 'bora estragar-lhes a enfeméride? 'Bora repetir Aljubarrota? 'Bora repetir o 1º de Dezembro? 'Bora repetir o jogo de 20 de Junho de 2004 (o primeiro a que assisti ao vivo, o jogo em que o Cristiano se estreou como titular na Selecçao)? Vamos fazê-los amaldiçoar o dia em que Afonso Henriques resolveu tornar o Condado Portucalense independente de Leão e Castela! Vamos a eles! Força Portugal!

Portugal 7 Coreia do Norte 0 - Das Tormentas à Boa Esperança e o Adamastor ficou cheio de Ketchup

Vinte e quatro horas atrás, se alguém me dissesse que, no encontro entre Portugal e a Coreia do Norte, a Selecção Nacional ia enfiar sete bolas na baliza adversária, sem resposta, eu diria:

- Meu, isso é delírio!

Mesmo agora, mais ou menos vinte e duas horas depois, ainda não consigo acreditar que ganhámos por uma margem tão grande. Nem nos meus sonhos mais irrealistas imaginava que íamos vencer por 7-0. Sete-zero!

Vou, então, recuar vinte e quatro horas. Como ia ter exame às duas da tarde, impossibilitando-me de ver o jogo todo, tinha vindo de manhã para a Faculdade. Como queria ver pelo menos a primeira parte, fui almoçar cedo. Tinha ouvido dizer que na Sala de Alunos da Faculdade de Medicina costumavam projectar os jogos, mas não queria almoçar lá. Naquela a que nós, os alunos, chamamos Cantina Velha, as refeições são mais baratas. Além disso, tinha esperança de que passassem lá o jogo também. Cheguei lá cedo, ainda antes de começarem a servir as refeições. Optei por comer lasanha de soja da Macrobiótica, mas vim comer cá para fora, que o dia estava bonito. Ao mesmo tempo, ia ouvindo a Antena1 através do meu leitor de MP3. Fiquei a conhecer a constituição do onze incial e que aquele estádio, na Cidade do Cabo, tinha até agora merecido a metáfora de "Cabo das Tormentas", visto que até agora ninguém tinha ganho lá, incluindo anteriores campeãs mundiais, como a Itála, a Inglaterra e o Paraguai. Seriam os portugueses, novamente, os primeiros a dobrar o Cabo das Tormentas, a transformá-lo em Cabo da Boa Esperança? Eu esperava que sim.

Outra coisa que ouvi era que o Verão começaria rigorosamente ao meio-dia e vinte e oito minutos, pouco antes de a Selecção entrar em campo. Desejei que fosse também a essa hora que acabasse de vez esta fase um pouco nublada da Equipa de Todos Nós.

Entretanto, o Nani tinha já enviado uma mensagem de apoio aos companheiros de Selecção:

Meus queridos guerreiros nacionais

Há 522 anos, o português Bartolomeu Dias conseguiu, pela primeira vez, ultrapassar o Cabo das Tormentas, demonstrando que era possível ultrapassar o extremo sul de África por mar, apesar das muitas tempestades e perigos. O nome foi mudado para Cabo da Boa Esperança e é esta esperança que hoje, quase sete séculos depois, vocês vão continuar a alimentar. Na mesma cidade, apesar de todas as dificuldades e perigos, contra ventos e marés, vocês conseguirão manter bem vivo o sonho português, conseguirão dobrar todas as tormentas.
E eu estarei aqui, tão longe e tão perto, a torcer, a vibrar e a festejar com vocês. Hoje, todo o Mundo perceberá quem são os guerreiros nacionais.
Com votos das maiores felicidades
Um forte abraço deste vosso companheiro e amigo
Nani

Foi querido. No Destak, na parte das cartas dos leitores, havia este poema:

Força Portugal
Continuamos confiantes
Na nossa Selecção
Porque não são apenas
Uma equipa com emoção
São também uma Nação

Que a próxima disputa
Tenha emoção e luta
Tenhamos confiança
E até ao último minuto
Na Selecção Nacional
Com fervor e sem igual
Força Portugal

Alexandrina Silva

Nem Nani nem a autora deste poema calculava quão verdadeiras se tornariam as suas palavras em poucas horas. Ninguém calculava.

Um pouco antes do início do jogo, uns alunos pediram que se ligasse a televisão junto ao balcão dos bitoques, para ver o jogo. Eu ainda não tinha acabado de comer, mas fui logo marcar lugar junto à televisão. Era uma das antigas, sem grande qualidade, com muitos reflexos no ecrã que dificultavam a visualização, pré-histórica quando comparada com o tão publicitado HD, mas tinha uma grande vantagem: a sincronização com o relato da rádio era quase perfeita. No dia do jogo com a Costa do Marfim tentei ouvir o rádio enquanto via a emissão na RTP HD mas a descrepância era de quase dez segundos - e acontece muita coisa em dez segundos. Se até os comentários da televisão estavam desfasados com as imagens... O entusiasmo dos locutores da rádio (pelo que apanhei, eram Alexandre Afonso e Nuno Matos) era contagiante e aumentou os meus níveis de excitação.

Os portugueses entraram bem no jogo, de resto, se bem que os norte-coreanos fossem dando luta e pregando uns sustos ocasionais. Ontem, houve muito mais garra, muito mais determinação, muito menos medo, isso ficou evidente quase logo desde início.

Até que, perto da meia-hora de jogo:

- GOLO! - gritei eu em coro com todos os que assistiam, libertando a ansiedade e o nervosismo que, apesar de tudo, me acompanhavam desde o início. Levantámo-nos todos, com os punhos cerrados em sinal de triunfo, e uns miúdos de um campo de férias que estavam lá a almoçar correram para junto de nós mal ouviram os gritos. Um deles até me perguntou:

- Quem marcou?

- Foi o Raúl Meireles.

Na altura, agradeci mentalmente aos jogadores (e tenho quase a certeza de que eles ouviram) e esperei que aquele que era o nosso primeiro golo no Mundial fosse o primeiro de muitos neste campeonato. Não calculava é que muitos desses golos seriam marcados já neste jogo.

Finda a primeira parte, resolvi ir-me embora. Entraria em exame daí a pouco mais de meia hora, se começasse a ver a segunda parte certamente não conseguiria sair a meio. Regressei então à minha Faculdade, sem, contudo, deixar de ouvir a rádio. Mesmo quando me juntei a colegas para revisões de última hora - revisões que, por sinal, ajudaram-me - continuei a ouvir a emissão em volume baixo, embora tivesse a atenção voltada para outra coisa.

Quando o Simão marcou o segundo golo, eu não percebi logo. O locutor só gritava:

- Já lá mora! Já lá mora!

E eu só pensava: "Eh pá, não podias gritar GOLO! primeiro? Assim uma pessoa baralha-se". Depois, foi eu quem comunicou às minhas colegas:

- Olhem, o Simão marcou.

Fiquei satisfeita. 2-0 certamente já consolidaria a vitória, podia fazer o exame descansada, aquilo estava no papo. Contudo, ainda digeria o golo do Simão, já o Hugo Almeida marcava o terceiro. Quando o anunciei, a Sara, que estava um bocado nervosa com o exame, comentou:

- Ao menos que corra bem a alguém.

E logo a seguir, mais um golo. Desta feita, como já aumentara o número de alunos naquela zona, à espera de entrar para exame, já houve quem gritasse golo. Foi aí que percebi: o ketchup estava a jorrar. A minha irmã, que não sabia se eu estava a ver o jogo, ia-me enviando mensagens anunciando os golos. Neste quarto golo, escreveu o seguinte: Nós hoje não paramos, o tiago traz outro! Eu entretanto já tinha enviado uma dizendo: E vão 4! Não sei se foi nesse golo se noutro, acho que foi em vários, mas achei imensa graça a algo que o locutor da rádio disse, enquanto festejava o golo:

- É meu, é teu, é nosso, é de Portugal!

Pouco depois, entrámos para o auditório, onde íamos fazer o exame. Eu ia já com um sorriso no rosto. Distribuídos os exames por todos, numa altura em que os primeiros a receber o exame já escrevinhavam, um dos professores de vigia, de telemóvel e respectivo auricular na mão, disse:

- OK, Portugal está a 4-0, a gente avisa se marcarem.

Ouviram-se risos. Pouco depois, contudo, já ele anunciava o quinto golo, mas não disse quem tinha marcado. Concentrámo-nos no exame. A onda positiva estendeu-se ao teste, que era mais fácil do que eu estava à espera e me correu bastante bem. Uns minutos depois, penso que nessa altura já o jogo tinha acabado, uma professora de outra cadeira entrou e, com os dedos, fez sete-zero.

- E o Ronaldo marcou - acrescentou ela.

Quando o exame acabou não fui para casa uma vez que ainda tinha uma consulta no dentista daí a duas horas. Voltei a sintonizar a Antena1 no meu leitor de MP3, de modo a ir acompanhando o rescaldo do jogo e as avaliações do desempenho. Segundo um dos comentadores (o Joaquim Rita?), a Selecção libertou-se finalmente do "atadismo", jogou com garra, com coragem, com alegria. Como dizia hoje no Record, a Selecção assumiu "atitude ambiciosa para parecer digna do lugar que ocupa no ranking da FIFA". Agora estamos "com um pé e meio" (não me lembro de quem disse isto) nos oitavos-de-final, até podemos qualificarmo-nos se perdermos com o Brasil. No Trio D'Ataque de ontem, o apresentador Carlos Daniel disse mesmo que tínhamos saído dali com "mais equipa", já que se todos os jogadores demonstraram ter valor em campo.

O Tiago é capaz de ter sido o jogador que mais surpreendeu pela positiva. A noção que eu tinha dele nunca foi de um jogador brilhante. Acima da média, mas não era nada do outro mundo. Lembro-me até de ouvir, há uns anos, já nem me lembro por quem, que se o Tiago, se fosse mais rápido, podia ser o melhor do Mundo. Eterno suplente de Deco na Selecção, nunca se conseguiu impôr. Ontem, nem o reconhecia. No Record resumiram bem o jogo dele: "exibição esmagadora (...) como que querendo recuperar num só jogo todo o tempo perdido nestes anos para se afirmar como uma mais-valia indiscutível da Selecção Nacional". Ficou provado que, sem tirar qualquer mérito a Deco que, apesar de já ter visto melhores dias, já fez muito pela Selecção, os habituais comentários de que "o Deco é insubstituível", que "a Selecção não é a mesma sem Deco" não eram totalmente verdade. É sempre bom saber que temos alternativas. Por outro lado, o seu caso é semelhante aos casos de Nani e Hugo Almeida, que não sendo titulares permanentes, aproveitam todas as oportunidades para mostrar o seu valor, para dizerem ao Mister que eles também são opção.

Por falar no Nani, tenho pena de ele não ter participado nesta festa. Tenho a certeza de que ele também teria marcado um golo ou dois e celebrado com o seu mortal.

O Cristiano Ronaldo lá quebrou o seu jejum, com um golo bizarro, mas para mim, mais marcante do que isso, foi ele ter oferecido o prémio de Homem do Jogo a Tiago. Foi um gesto bonito. Vê-se que ele está mais maduro, que começa a desempenhar o papel que Figo desempenhou, como líder da Selecção. Isso, para mim, tem mais valor do que os golos que ele marca.

Talvez seja ainda euforia pós-goleada, mas tenho esperanças de que seja um ponto de viragem, que seja como o Portugal-Rússia do Euro 2004, em que começámos mal e chegámos à final. Eu sei que a Coreia do Norte é uma equipa fraca, que pode haver quem ache que Portugal "não fez mais do que a sua obrigação", mas ninguém pode negar que soube tão bem... Nem me lembro de um resultado tão dilatado em Europeus ou Mundiais. Só me lembro do 7-1 à Rússia, na qualificação para o Mundial. Pode não valer mais do que três pontos, mas servirá para aumentar a confiança e talvez para estimular ainda mais o apoio por parte dos adeptos. Eu, pelo menos, já vi mais bandeiras nas janelas da minha avenida...

O nosso próximo jogo é na Sexta-feira, frente ao Brasil. Deve ser provavelmente um dos jogos mais aguardados da fase de grupos. Eu tenho pena de o Kaká não jogar - apesar de nos facilitar a vida, é mau para o espectáculo. Se é para termos um Portugal-Brasil no Mundial, o ideal seria se fosse um jogo daqueles de igual para igual, renhido, cheio de bom futebol, cada equipa com o seu "melhor do Mundo". Não dá, paciência. Em todo o caso, todos os que ouvi estão de acordo e eu também: convém entrarmos a matar, com o espírito, a garra e a paixão com que entrámos hoje, esforçarmo-nos por fazer um bom resultado. Mesmo que já não seja certo que o primeiro lugar ajuda a fugir da Espanha. Para reforçar aquilo que começámos a demonstrar ontem: que estamos aqui para fazer estragos, para ir o mais longe possível. Como diz o Nani, para mostrar ao mundo quem são os guerreiros portugueses!