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O Meu Clube É a Seleção!

Mulher de muitas paixões, a Seleção Nacional é uma delas.

Era preciso exagerar?

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No passado sábado, dia 30 de novembro, realizou-se o sorteio para a fase de grupos do Europeu do próximo ano, que terá lugar em várias cidades europeias. Portugal foi sorteado para o grupo F, juntamente com a Alemanha, a França e o vencedor da Liga A dos play-offs que terão lugar em março.

 

Antes de mais nada, se não se importam…

 

 

Obrigada. Estava a precisar.

 

Havia muito boa gente a desejar um grupo difícil para este Europeu. Começando pelo próprio Fernando Santos, terminando em mim, até certo ponto. Estamos fartinhos de sabê-lo, eu mesma tenho referido-o várias vezes aqui no blogue, nos últimos tempos: tradicionalmente, Portugal dá-se melhor em condições adversas. Quando os adversários são considerados fáceis, Portugal atrapalha-se. Também se sabia que, estando no pote 3, a Seleção dificilmente calharia num grupo demasiado difícil.

 

Mas também não era preciso exagerar. Queriam um grupo difícil? Ora tomem!

 

Pude acompanhar o sorteio pela televisão. Doeu um bocadinho ver Ricardo Carvalho e João Mário entregando a Henri Delaunay – é nossa! Nós conquistámo-la com sangue, suor e muitas lágrimas (de tristeza e alegria). Falando por mim, ainda não estava preparada para me separar dela.

 

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Enfim. Ficam as recordações.

 

Como habitual, os potes 1 e 2 foram sorteados primeiro. Quando a Alemanha e a França calharam no mesmo grupo, soltei logo um gemido: estava definido o Grupo da Morte. 

 

Devia ter adivinhado logo. 

 

Este foi mais um caso de sofrimento até ao fim. Tivemos de ver as outras seleções do pote 3 sendo sorteadas para outros grupos, até só sobrarmos nós para o grupo F.  

 

 

Se espreitarem as minhas publicações na página do Facebook deste blogue na altura do sorteio, verão que não reagi muito bem. Ainda não recuperei por completo. Mas também, para ser sincera, não era para menos. Naquele momento, se apanhasse os Marmanjos a jeito, dava-lhes um abanão:

 

– Estão a ver no que dá complicar a Qualificação sem necessidade?!?

 

Alemanha e França, os últimos dois Campeões do Mundo! Mesmo sem ter em conta o (péssimo) histórico que temos com estas duas equipas, não sei se era possível termos um grupo mais difícil. Pelo menos a nível europeu, a única outra seleção que se equipara em termos de dificuldade e de histórico desfavorável é a Espanha. 

 

Mas agora procuremos analisar as coisas com mais calma. Começando pela Alemanha. 

 

Como se poderão recordar, os últimos quatro jogos que disputámos com eles não correram bem. Em 2006, jogámos pelo terceiro lugar no Mundial e perdemos por 3-1. Em 2008, já tinha eu este blogue, perdemos por 3-2, nos quartos-de-final do Europeu – embora, tanto quanto me recordo, não tenhamos jogado muito mal. Também não jogámos mal quando perdemos com eles, no Euro 2012

 

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Mas a nossa recordação mais recente de jogarmos com alemães é de sermos massacrados em Salvador. Esse é um trauma que ainda não passou. Não admira que Joachim Löw diga que guarda boas recordações de Portugal. Claro que guarda.

 

Dito isto, a Alemanha não parece ser, neste momento, o tubarão futebolístico que era há uns anos. No Mundial 2018 defendiam o título mas foram eliminados logo na fase de grupos – provando que a maldição é real, logo eles que eu pensava que seriam a exceção à regra. A crise continuou na Liga das Nações, quando ficaram em último lugar na fase de grupos – mas também estava lá com a França e com a Holanda. 

 

Pelo meio, Joachim Löw operou uma pequena revolução na equipa. Deixou pelo caminho vários dos seus habituais, até só sobrarem Manuel Neuer, Toni Kroos, Marco Reus e Ilkay Gundongan. Ao mesmo tempo, encheu a equipa de jovens. De facto, Löw não considera esta Alemanha favorita ao título europeu por ser uma equipa demasiado inexperiente.

 

Talvez seja… mas não deixam de ser jogadores de boa qualidade, alinhando em grandes clubes europeus. Não deixam de ser a Alemanha. Ninguém com dois dedos de testa vai subestimá-los. 

 

Por sua vez, a França será, sem sombra de dúvidas, a melhor seleção do mundo neste momento. Desde que perderam o Europeu para nós, fizeram praticamente tudo bem. Venceram o Mundial 2018, para grande azia minha. Os únicos tropeções que deram nos últimos dois anos foi ficarem em segundo lugar na fase de grupos da Liga das Nações (recordo que ficaram no mesmo grupo que a Alemanha e a Holanda) e perderem contra a Turquia neste Apuramento – o único motivo pelo qual ficaram no pote 2. A seleção francesa está recheada de nomes sonantes, aponta para o título e, agora que nos apanharam no grupo… vão querer vingança.

 

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Apesar de lhes termos ganho o Europeu, não tenhamos ilusões. Houve muito mérito nosso, mas algo que jogou a nosso favor foi o facto de os franceses nos terem subestimado. Ainda aquando deste sorteio, Didier Deschamps apelidou Fernando Santos de “espertalhão” por ter dito, na altura, que a França era favorita ao Europeu… mas era alguma mentira? A França jogava em casa e, ao contrário de nós, já tinham vencido o Europeu antes. Não é culpa nossa que eles tenham achado que eram favas contadas – nós tínhamos, e continuamos a ter, menos currículo, mas ninguém chega a uma final por acaso.

 

De qualquer forma, sabemos agora que os franceses não vão cometer esse erro de novo. E para além do que disse acima sobre eles serem os actuais melhores do mundo, se considerarmos o nosso histórico com eles, tirando a final do Europeu… não é animador. Mais de quarenta anos sem conseguirmos vencê-los, três derrotas em meias-finais. 

 

Dizer que não vai ser fácil é eufemismo.

 

Com isto tudo, ainda mal referi o terceiro adversário. Este só será definido daqui a uns meses, o que me é estranho – estava habituada a ter grupos decididos por completo nesta altura. Para sermos sinceros, este adversário é a menor das nossas preocupações – em parte porque é difícil preocupar-nos com um adversário por definir. 

 

Em princípio, o terceiro adversário será o vencedor da Liga A: Islândia, Hungria ou Bulgária. Tecnicamente a Roménia também joga na Liga A mas, uma vez que Bucareste é uma das cidades-anfitriãs do grupo C, se a Roménia se Qualificar irá para esse grupo, de modo a poder jogar em casa. Nesse caso, as outras equipas que poderão entrar na equação serão a Geórgia, a Bielorrússia, a Macedónia e o Kosovo. 

 

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Não quero perder muito tempo com estas últimas equipas, já que é menos provável virem para o nosso grupo. Se isso acontecer, logo escreverei sobre isso. 

 

Por algum motivo, os meus pressentimentos dizem-me que será a Islândia a Qualificar-se – a nossa velha amiga com quem nos estreámos no Euro 2016. No Mundial 2018 os islandeses não passaram da fase de grupos e, na Liga das Nações, ficaram em último lugar no seu grupo. Sempre estavam na Liga A, mas… Não estou a vê-los fazendo frente à Alemanha ou à França (se mesmo nós estamos aqui aflitos…), mas sempre guardam boas recordações de Portugal. Pode não ser suficiente para nos vencerem, mas sempre lhe dará alguma motivação.

 

Por sua vez, a Hungria não parece estar ao nível a que esteve durante o Europeu, naquele jogo tão parvo. Ainda assim, se se Qualificarem, jogarão em casa. Da última vez que jogámos em Budapeste, vencemos mas não foi fácil e trouxemos mais pontos do que precisávamos. 

 

Por fim, a Bulgária não foi ao Mundial 2018. Na Liga das Nações, esteve na Liga C. Nos últimos anos só disputámos um jogo particular com eles, em 2016 (antes de pesquisar para este texto já nem me lembrava deste jogo), de onde saímos derrotados por 1-0. Ainda assim, não estou a vê-los, criando grandes dificuldades a Portugal (meu Deus, espero não me arrepender destas palavras…).

 

Em todo o caso, a qualquer que seja a seleção a Qualificar-se para o nosso grupo… os meus pêsames. Se estivesse no lugar deles, quase preferia ficar de fora do Europeu. 

 

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Uma das coisas que me preocupa nesta fase de grupos é o facto de nos estrearmos com o vencedor do playoff. Portugal tem a infeliz mania de não ganhar o primeiro jogo de uma fase final, conforme já assinalei aqui no blogue. Desta feita não vai dar para perder pontos – com dois tubarões no nosso tanque, não nos podemos dar ao luxo de levar dentadas da sardinha. Vamos ter de entrar a matar – mais sobre isso já a seguir. 

 

A única vantagem do grupo F é o facto de ser dos melhores em termos de deslocações. Entre Munique, na Alemanha, e Budapeste, na Hungria, são “só” 553 quilómetros de distância. Em comparação com as cidades dos outros grupos é metade ou menos. 

 

Isto de fazer o Europeu um pouco por todo o continente é muito bonito, mas muito complicado em termos de logística. Jogadores e equipas técnicas das várias seleções vão chegar ao fim do campeonato completamente esgotados. 

 

Fernando Santos lamentou o facto de não termos ficado no grupo de Bilbau – sempre daria para ficarmos em casa, na Cidade do Futebol. Continuo a achar que devíamos ter candidatado Lisboa e/ou Porto para a organização deste Europeu. No entanto, em 2013-2014, com a troika a respirar sobre os nossos pescoços, quem estava disposto a arriscar? Ninguém calculava que nos sagraríamos Campeões Europeus nem que Portugal se tornaria um dos melhores destinos turísticos do Mundo. Assim sendo, deveremos instalar-nos em Budapeste. 

 

Resumindo e concluindo, espera-nos uma viagem dura e turbulenta para defendermos o Europeu. Não faltará emoção, disso podemos ter a certeza. Precisamente por isso, em vez de Grupo da Morte, há quem prefira chamar a conjuntos como este Grupo da Vida ou Grupo da Glória, como ouvi no outro dia. Tudo muito bonito e não nego que haja verdade nisso. Mas é fácil dizer que é o Grupo da Vida, um grupo emocionante quando se está do lado de fora, com um balde de pipocas. Não quando é a nossa equipa em palco.

 

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É muito simples: vamos ter de dar o nosso melhor. Vamos ter de deixar as nossas habituais parvoíces de lado, vestir o fato de super-heróis, invocar a força, o espírito, o que quer que seja que nos permitiu sagrar-nos Campeões Europeus. Repetindo mais uma vez, temos a fama de nos sairmos melhor em circunstâncias difíceis, de nos superar-nos. Vamos ter de passar da fama à prática.

 

Quanto a nós, adeptos, temos de nos preparar para muito sofrimento. Agora é uma boa altura para marcar consulta no cardiologista, arranjar umas receitas para nitroglicerina (o comprimido que se põe debaixo da língua). Vai ser duro… mas a verdade é que não queríamos que fosse de outra maneira. 

 

Eu acredito que será possível sobrevivermos a este grupo, nem que seja pelo terceiro lugar. Até ao momento ultrapassámos sempre a fase de grupos de Europeus – alguns em circunstâncias quase tão difíceis ou mesmo igualmente difíceis. E se conseguirmos sobreviver a um grupo com a Alemanha e a França – sobretudo se conseguirmos vencer pelo menos um deles – seremos capazes de sobreviver a praticamente tudo neste Europeu. Estou certa de que jogadores, equipa técnica e Federação em geral farão tudo para que isso aconteça.

 

Até lá… 

Portugal 1 França 0 - Quebrando todas as maldições

 

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Há dez anos, no dia 9 de julho de 2006 - uma manhã de domingo de verão, um calor insuportável - eu estava no Estádio Nacional, no Jamor, juntamente com a Seleção em peso e milhares de adeptos equipados a rigor. Sentia-me feliz por estar ali, mas também me sentia prestes a desmaiar, com aquele calor desértico (costumo dizer que, nesse dia, dava para fritar ovos nas bancadas). Acabei mesmo por ter uma quebra de tensão. Não sem antes ouvir o Selecionador da altura, Luiz Felipe Scolari, dizendo:

 

- Vocês são os campeões do carinho e do sentimento. Não deixem de acreditar! Alegrem-se com este quarto lugar no Campeonato do Mundo e acreditem que, um dia, pode ser que breve, estaremos aqui para comemorar uma grande vitória.

 

Scolari deixaria, dois anos mais tarde, o lugar de Selecionador (mas continua, até hoje, a sofrer à distância), mas eu fiz o que ele disse. Não tenho feito outra coisa, no que toca à Seleção. Cerca de um ano depois daquela manhã de domingo, tive a ideia de criar um blogue, onde pudesse escrever sobre a Equipa de Todos Nós. Menos de um ano mais tarde, criei-o. E hoje, doze anos após o Euro 2004, dez anos após o Mundial 2006, oito anos após inaugurar O Meu Clube é a Seleção, é com um orgulho indescritível que escrevo: Portugal conquistou o seu primeiro título como Seleção A. A Seleção Portuguesa de Futebol é campeã da Europa.

 

Alerta: neste texto, não vou ser muito simpática para o povo francês, o que não significa, de todo, que não esteja solidária para com eles, à luz do recente atentado terrorista em Nice. Antes de ser adepta de futebol e mesmo portuguesa, sou ser humano, cidadã do Mundo e repudio todo o tipo de violência. Todas as críticas que tecer aqui limitam-se ao espectro futebolístico. 

 

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Sonhei com uma noite como a de domingo, dia 10 de julho, durante muitos anos. Cheguei a passar para o papel essas fantasias, embora não as tenha partilhado com ninguém. A realidade, no entanto, foi melhor que a imaginação. Duvido que alguém tenha imaginado que Portugal conquistaria o seu primeiro título desta forma: na casa do seu adversário, adversário esse que não vencia há mais de quarenta anos; com o seu Capitão e melhor jogador saído do jogo, de maca; com um golo do ponta-de-lança em quem quase ninguém acreditava.

 

Têm sido uns dias loucos, sobretudo o dia da final e o que se seguiu. Foi em parte por isso que demorei tanto tempo a escrever este texto. Passei o domingo inteiro na página de Facebook do blogue partilhando pequenos textos de motivação, música, vídeos, tudo o que me ocorreu, as minhas armas todas. Aproveito, aliás, para agradecer ao Sapo Blogs por ter destacado o meu texto anterior durante o domingo todo, até à hora da final. À medida que a hora do jogo se aproximava, os nervos iam apertando, em jeito de antecipação do sofrimento que seria. Na última meia hora antes, já respondia torto a toda a gente.

 

Mesmo a condizer com o meu humor, o jogo começou mal. Os portugueses entraram nervosos, cometendo erros, fazendo lembrar um pouco os nosso primeiros jogos neste Europeu. O pior nem sequer foi isso. Foi quando, aos sete minutos, Dimitri Payet faz uma entrada dura sobre Cristiano Ronaldo e o seu joelho cedeu. O nosso Capitão ainda se obrigou a continuar em campo durante mais algum tempo, mas acabou por se dar por vencido e pedir a substituição, lavado em lágrimas. Gostei de ver Nani abraçando-lhe o rosto enquanto recebia a braçadeira de Capitão e, depois, começado de imediato a puxar pelo resto da equipa. Tenho alguma curiosidade em saber as palavras exatas de Nani ao choroso Cristiano (estou, aliás, surpreendida por ninguém o ter perguntado até agora), mas não terá sido algo muito diferente de:

 

- Não chores. Nós vamos ganhar isto por ti.

 

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Cristiano saiu de maca, ao som de aplausos do estádio inteiro, mas tais aplausos não me comoveram. Pelo contrário, nunca tinha tido tanta raiva aos franceses, em termos futebolísticos. Eles roubaram-nos os nossos sonhos em 1984, 2000 e 2006 (se foi com justiça ou não, não me era relevante naquele momento); quando as coisas não lhes corriam bem nos últimos anos, os mais altos dirigentes do futebol manipulavam as regras a seu favor; a Imprensa francesa tratou-nos abaixo de cão; os franceses tomaram a vitória na final como garantida, até tiveram a arrogância de colocar o autocarro de campeões que tinham preparado a circular pelas ruas de Paris antes do jogo (olhando agora, os franceses estavam mesmo a pedi-las...). E agora tinham-nos tirado o Ronaldo, num lance em que nem sequer foi marcada falta. Esta nem sequer seria a última jogada violenta por parte dos franceses: Ricardo Quaresma apanharia umas duas. E nós é que jogávamos de forma nojenta...

 

Basta!, pensei eu, naquele momento. Os franceses não mereciam ganhar o Europeu jogando assim. Eles tiraram-nos o Ronaldo? Nós tirar-lhes-íamos o campeonato! Que ninguém se atrevesse a atirar a toalha ao chão!

 

Felizmente, o resto dos Marmanjos também pensou assim. Mesmo sem o seu elemento mais importante, a Equipa de Todos Nós não vacilou. A França dominava, tinha o árbitro do seu lado (a sério, os franceses fizeram jogo sujo mas, na primeira parte, só os portugueses é que viram amarelos), mas era incapaz de traduzir essa vantagem em golos graças a Pepe, José Fonte e, sobretudo, Rui Patrício. Mais do que qualquer um dos outros Marmanjos, via-se que o guarda-rede estava a fazer o jogo da vida dele, pela maneira como se atirava, sem hesitações, para a bola, como se esta fosse o filho que tem por nascer, arriscando-se a levar com outros jogadores em cima. Dizer que ele "estava inspirado", como ia comentando a minha mãe, é quase insultuoso. Aquilo não é "sorte", ou "inspiração", são anos de experiência, perícia e muita entrega. Teve uma única falha que poderia ter deitado tudo a perder, arruinar-lhe um jogo até ao momento perfeito, em cima dos noventa minutos (a meia-final de 1984, em que o três vezes maldito Michel Platini marcou à beira do fim, passou-me pela cabeça) mas, por uma vez, o poste esteve do nosso lado.

 

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Com o tempo, incapazes de quebrar Portugal, os franceses foram perdendo o ânimo. Não lhes terá ajudado a cantoria constante dos adeptos portugueses. A sério, eles não deviam passar de um quinto da ocupação das bancadas e foram os que mais se ouviram. Só uma vez ou outra é que os franceses se puseram a fazer o haka islandês, que nem sequer é originalmente deles (e, na minha opinião, não tinham o direito de usá-lo). Por usa vez, não me lembro de alguma vez ter ouvido cânticos assim da parte dos portugueses num jogo da Seleção. Parecia a curva sul dos jogos do Sporting, e isso é um elogio. Não será por acaso, que ouvi dizer que elementos dos Super Dragões e da Juve Leo estiveram em França, liderando os adeptos portugueses durante o Europeu. Para além de ser sempre bonito por princípio ver adeptos deixando as rivalidades clubísticas de lado e unindo-se pela Seleção (algo que devia acontecer sempre), tornou o décimo-segundo jogador mais ativo e determinante nesta vitória. Foi uma ótima ideia, que devia ser aplicada em todos os jogos da Seleção.

 

A equipa soltou-se mais no ataque depois de João Moutinho e Éder substituírem Adrien e Renato Sanches, respetivamente (e o pobre Adrien teve de aturar Ronaldo no banco... Não estava fácil para ninguém!). Mais ou menos nessa altura comecei a acreditar que, se marcássemos um golo, ganharíamos o jogo. Mas, naturalmente, não me atrevia a verbalizar esse pressentimento.

 

Não sei como foi com vocês, no sítio onde vivem, mas na minha rua, depois do noventa, desatou tudo a gritar por Portugal, à janela. Eu aproveitei a ocasião, aliás, para estrear a transmissão em direto da página de Facebook, filmando a cena (obviamente, a qualidade deixou muito a desejar...). Como podem ver, houve ali uma mistura de gritos de apoio e celebrações do empate. Ao mesmo tempo, no Stade de France, Ronaldo andava à volta dos companheiros de equipa, dando-lhes força para o prolongamento.

  

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Muitos contavam com um desempate por grandes penalidades mas eu, sinceramente, preferia resolver a situação antes dos cento e vinte ou era desta que me ia dar uma coisinha má. Estivemos perto com aquele livre do Raphael Guerreiro que bateu na trave. Para ser sincera, fiquei um bocadinho aliviada por a bola ter batido na trave nesse lance, visto que aquele livre fora mal marcado a nosso favor (a mão na bola não era de Koscielny, era de Éder. Uma pessoa pergunta-se como que é o árbitro se confundiu, quando os dois jogadores tinham cores de pele bem distintas... Confesso que me fartei de rir com esse momento). Não que fosse propriamente injusto, tendo em conta a maneira como Ronaldo saiu do jogo, e que não fosse de uma ironia deliciosa depois da mãozinha do Abel Xavier no Euro 2000. No entanto, se já como foi os franceses se têm queixado de injustiça (ao ponto de pedir repetição da final, o que acho pura e simplesmente patético), o que não diria se o golo viesse de um livre irregular.

 

No fim, as coisas desenrolaram-se de maneira perfeita. Ou quase perfeita. Estamos muito avançados tecnologicamente e tal, mas ainda ninguém arranjou maneira de resolver os lapsos na transmissão entre rádio e televisão, quer por fibra ótica quer por box, para evitar spoilers em jogos como este. A nossa rua explodiu de alegria antes de o golo passar na nossa televisão. Não que isso tenha estragado muito a coisa. Quando vi a bola ir às redes, não gritei "GOLO!", gritei antes como uma menina de doze anos num concerto do Justin Bieber. No Stade de France também não faltaram emoções, com toda a gente abraçada ao Éder, o Renato Sanches por cima do novelo humano, o Cristiano Ronaldo a chorar outra vez, desta feita de alegria.

 

Adaptando as célebres declarações de Ricardo Araújo Pereira ao meu caso, eu leito e escrevo livros, oiço música, vou a concertos, vejo séries e filmes, já viajei imenso para uma pessoa da minha idade, mas muito poucas coisas que emocionaram mais do que este golo de Éder, de fora da área, que as lágrimas de Cristiano nas celebrações - vou dizer isto durante toda a minha vida.

 

 

Mas, na altura, não me atrevi a dar nada por garantido antes do apito final. A Equipa das Quinas também pensou assim. Foi, aliás, depois deste golo que Cristiano Ronaldo se fez treinador-adjunto, para delícia do Mundo inteiro. Noutras circunstâncias e se isto ocorresse com frequência, treinador nenhum acharia assim tanta graça - sobretudo tendo em conta em que o Cristiano é um bocadinho bruto com Fernando Santos, que já está longe de ter trinta anos - mas eram os últimos minutos de uma final, estava muita coisa em jogo. Qualquer um deixaria passar. E, sejamos sinceros, teve imensa piada. Felizmente, Portugal conseguiu aguentar a vantagem até aos cento e vinte minutos.

 

Sabem durante quantos anos sonhei com o momento em que a Seleção recebeu a Taça Henri Delaunay? Quantas entregas de taças em futebol vi ao longo dos anos, imaginando a nossa Seleção no lugar dos vencedores? Quantas vezes vi, com os olhos da mente, o Cristiano Ronaldo erguendo a Taça bem no ar, os colegas à volta dele explodindo de alegria, os coffetis verdes e vermelhos, o fogo de artifício? Não cheguei a chorar, mas estive perto disso quando, finalmente, vi com os meus próprios olhos aquilo que, durante anos, só via nos meus sonhos.

 

 

No dia seguinte, tal como tinha prometido, fui receber a Seleção ao aeroporto. Só mais tarde é que descobri que a Seleção ia festejar para a Alameda. Não sei, no entanto, se teria disponibilidade para passar a tarde toda à espera da Equipa de Todos Nós. Além de que aquelas horas todas no calor e no meio da multidão ainda me davam outra coisinha má. Eu queria fazer parte da festa, de uma maneira ou de outra, que eu passei demasiado tempo à espera disto e fiquei satisfeita. Ainda estive um par de horas à espera no aeroporto, eu e uma multidão generosa que se prolongava até ao Palácio de Belém, provavelmente. Não nos aborrecemos pois houve cantoria do princípio ao fim: quer o hino nacional, quer cânticos de louvor ao herói de Paris, invocações a um episódio icónico deste Europeu e aquele que está em vias de se tornar o tema oficial da nossa participação no Euro 2016. Finalmente, o autocarro saiu e fez-se a festa, que se prolongou pela tarde fora.

 

 

Uma parte de mim ainda tem dificuldades em acreditar, mesmo passada uma semana, que isto aconteceu mesmo, que Portugal ganhou mesmo um título. Que estes 23 conseguiram aquilo que as Seleções Portuguesas de 1966, 1984, 2000, 2004, 2006 ou 2012 não conseguiram. Estão a ver a frase-feita que os Marmanjos iam repetindo, no rescaldo do jogo com a Islândia, à laia de desculpa? Que não era como se começava, era como se acabava? Bem, a frase-feita confirmou-se. O início de Portugal neste Europeu não foi famoso. Houve muita ansiedade, muitos erros, umas quantas más escolhas, alguns momentos medíocres e, há que admiti-lo, mérito dos nossos adversários, sobretudo da Islândia. Portugal soube melhorar, corrigir os erros, transformar as fraquezas em forças e isso foi fundamental para o nosso sucesso. Não foi um Europeu brilhante nem particularmente empolgante no que toca a Portugal e não deixei de assinalá-lo. Há quem diga que tivemos imensa sorte, por a Islândia ter marcado aquele golo à Áustria no tempo de compensação, que nos atirou para o caminho mais fácil até Paris. Não estão errados mas, como assinalei antes, é tudo uma questão de perspectiva, pois equipas como a Croácia, Polónia e País de Gales chegaram a onde chegaram por mérito próprio, não apenas por sorte.

 

Numa coisa concordo: dificilmente se repetirão circunstâncias tão favoráveis a Portugal. Mas isso acontece em todos os campeonatos, de seleções e não só: o mérito de uns coincide sempre com o demérito de outros. Acham, por exemplo, que o Leicester teria conseguido ganhar a Premier League se o Manchester United, o Chelsea e os outros clubes ditos grandes do futebol inglês estivessem a fazer tudo bem? O futebol é mesmo assim. 

 

 

Neste final feliz, o nosso primeiro, no meu coração ficam os vinte e três Marmanjos, o nosso Selecionador (cuja fé estava corretíssima) e o restante staff. Se tivesse de escolher entre pegar na Taça Henri Delaunay e um abraço a pelo menos um dos jogadores, escolhia a segunda opção. A Taça em si nada me diz sem os meus Marmanjos, que tanto lutaram para a levar "para o nosso Portugal". Um dia hei de fazê-lo. Hei de abraçá-los e agradecer-lhes esta vitória. Depois de anos e anos acompanhando-os (uns mais do que outros, evidentemente), ouvindo outros dizendo que eles são apenas os protegidos de Jorge Mendes, os mais-dez do Ronaldo, não tinham tanta qualidade como os seus antecessores ou elementos de outras seleções, foi um orgulho enorme vê-los dando cartas neste Europeu, fazendo frente a jogadores com mais prestígio, impressionando um pouco por todo o mundo, sendo eleitos para a equipa ideal do Europeu. Adrien, William, João Mário, Raphael Guerreiro, Cédric, Quaresma, Nani... e, claro, Éder.

 

Quero, aliás, comentar a atenção toda que tem sido dedicada ao "herói improvável" da final do Europeu. Atenção essa que tem o seu quê de hipocrisia. Escrutina-se a vida toda de Éder, comenta-se que ele cresceu quase como um órfão, mas quem queria saber disso quando, mesmo antes do Europeu, lhe chamavam "cone" ou diziam que era "menos um"? Há sites onde as pessoas se inscrevem para pedir desculpa a Éder, mas eu não assino por baixo. Todas as críticas que lhe teci relacionavam-se apenas com o seu desempenho em campo (e, vejamos os factos, ele só começou a marcar pela Seleção há um ano), penso que nunca resvalaram para o insulto. Como poderão ler aqui, não me passou despercebido o seu bom desempenho no Lille e, quando ele foi Convocado, dei-lhe o benefício da dúvida. Por sinal, o Éder até marcou em dois dos três particulares antes do Europeu. Desse modo, ao contrário do que aconteceu com muitos, o golo na final não me pareceu surgido do nada. Acho possível, até, que o Éder marcasse mais neste Europeu se tivesse tido mais tempo em campo.

 

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Este nosso triunfo serviu, aliás, para desmontar uma série de mitos sobre a Seleção, para, mais uma vez, matar demónios, quebrar maldições, as maiores que nos assolavam. Depois deste Europeu, mais ninguém vai dizer que o Éder não é opção para o ataque. Mais ninguém vai dizer que a Seleção não tem estaleca para equipas grandes e falha sempre nos momentos cruciais. Mais ninguém vai dizer que a Seleção é só Ronaldo-mais-dez - nós ganhámos literalmente uma final contra a França com Ronaldo no banco, lesionado. Mais ninguém vai, aliás, dizer que Portugal não tem nenhum título em seleções A. O nosso trajeto até à final de Paris pode não ter sido o mais empolgante, mas tudo o que ocorreu no Stade de France, tudo o que enumerei acima, é a matéria da qual são feitas as lendas.

 

Dito isto tudo, esta vitória não desvaloriza o trabalho de outras grandes figuras da Seleção Portuguesa, só porque estas não conqusitaram nenhum título com a Camisola das Quinas. Pelo contrário, este título também é um pouco deles, pois foram eles que criaram as tradições, que deram o exemplo e a inspiração aos vinte e três que foram a França. Enquanto viveu, Eusébio esteve sempre ao lado da Equipa de Todos Nós, a sofrer - e os campeões da Europa não se esqueceram dele nesta vitória. Cristiano Ronaldo via Luís Figo, Rui Costa e restante Geração de Ouro enquanto crescia, ainda apanhou alguns deles na Seleção e estou certa que os veteranos lhe serviram de mentores - tal como hoje Ronaldo apadrinha os mais novos das Convocatórias. Se não fosse Eusébio, Chalana, Luís Figo, entre tantos outros, não estaríamos aqui, a celebrar esta vitória

 

E não é só a eles que devemos estar gratos. Também a todos os outros que vestiram a Camisola das Quinas, com maior ou menor sucesso. Tudo o que aconteceu na Seleção até agora, todas as derrotas dolorosas, todas as pequenas e grandes crises, todas as trocas de treinadores, todos os momentos em que estivemos à beira de perder a fé valeram a pena pois prepararam-nos para isto, tornaram-nos mais fortes, permitiram-nos conquistar aquilo que nos escapou drante demasiado tempo.

 

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Esta parte, agora, é nova. Não se sabe ainda ao certo qual será o impacto prático da conquista do primeiro título. A curto prazo já deu para ver: não se falou de outra coisa durante dias, havia sempre um novo vídeo de Ronaldo no banco de Portugal, uma nova reação ao golo de Éder, uma nova entrevista, uma nova crónica sobre o jogo. Ficamos, agora, à espera do efeito a médio e longo prazo nas aventuras e desventuras da Seleção.

 

Uma das consequências já conhecidas deste triunfo é a presença na Taça das Confederações. Esta é, na minha opinião, uma das melhores: um campeonato de seleções num ano ímpar! É certo que não tem o mesmo prestígio que um Europeu ou um Mundial, mas sempre serão jogos interessantes, sempre é uma desculpa para a Equipa de Todos Nós se concentrar durante algumas semanas e para aqui a "je" escrever neste blogue!

 

Não quero pensar muito nisso, ainda, nem no Mundial 2018 e respetiva Qualificação. Para já, quero saborear este nosso primeiro título, pelo qual esperámos tanto tempo.

 

 

Quero terminar com um sentido agradecimento a todos os que acompanharam este feito inesquecível comigo, quer através deste blogue, quer através da página do Facebook. Tanto àqueles que só me descobriram há pouco mais de uma semana, como àqueles que já me seguem há anos. Esta vitória pertence a todos os portugueses mas nós, que já vimos a Seleção no seu pior e recusámo-nos a virar costas, merecemos esta vitória mais do que o adepto comum. Reservámo-nos a esse direito. Sabe tão bem conquistar finalmente um título...

Cheios d'a fé

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Esta noite, pelas oito horas e trinta minutos, o Selecionador Nacional Fernando Santos divulgará a Lista de Convocados para representar Portugal no Euro 2016.

 

Para quem acompanha o meu blogue há uns anos... bem, por um lado, obrigada do fundo do coração... mas por outro, estará farto de saber que eu considero o momento da Convocatória como o início do Europeu. Já é tradição eu dedicar uma entrada aqui do blogue a algumas reflexões de antecipação a esse início. No caso do próximo campeonato de seleções, este texto corresponde à altura certa para escrever sobre algo que tenho vindo a adiar há imenso tempo.

 

Há cerca de um ano, mais coisa menos coisa, Fernando Santos deu uma entrevista a um jornal desportivo qualquer (já não me lembro qual foi) em que disse que quer ser campeão da Europa com Portugal, que assumiu esse objetivo desde o seu primeiro dia como Selecionador. Para muitos, esta declaração era expectável, mesmo exigível, da parte de um Selecionador responsável por uma seleção que se tem mantido no top 10 do ranking da FIFA, de forma mais ou menos constante, nos últimos anos e que conta com um dos melhores jogadores da atualidade. Não estão errados. No entanto, quando li estas declarações pela primeira vez, tive uma mini-crise existencial. 

 

Eu desabituara-me a pensar assim há muitos anos. Já não assumia com todas as letras que queria o título. Não me atrevia a sonhar abertamente com isso. Habituara-me a pensar um jogo de cada vez e, de resto, o antigo Selecionador Paulo Bento também pensava assim (ao definir sempre como primeiro objetivo passar a fase de grupos). Era a opção segura. Sejamos realistas, todos os campeonatos de seleções têm acabado da mesma forma, mesmo que, nalguns deles, os desempenhos até tenham sido bons. Na altura destas primeiras declarações, aliás, a Qualificação para este Europeu ainda ia a meio e as últimas exibições da Equipa de Todos Nós não tinham sido brilhantes, mesmo tendo resultado em vitórias. O fraco desempenho no Mundial 2014 ocorrera menos de um ano antes, ainda estava fresco na memória. Eu não estava preparada para ouvir Fernando Santos falar assim, não estava preparada para voltar a acreditar desta forma. Ainda hoje, uma parte de mim pensa que estamos a sonhar um bocadinho alto de mais.

 

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A minha irmã resumiu bem a situação, há uns tempos. Vimos uma notícia sobre aquele que será o quartel-general português durante o Europeu, em França. Fernando Santos disse que tinha o centro de estágios reservado até dia 11 de julho, para Portugal poder jogar a final do Euro 2016 e festejar no dia seguinte. Em resposta a isto, a minha irmã disse qualquer coisa como:

 

- Bem, este 'tá chei'da fé!

 

É uma expressão que ela tem usado várias vezes ultimamente e que eu adoro.

 

Depois dessa entrevista há cerca de um ano, Fernando Santos foi reiterando várias vezes esta ambição de ganhar o Europeu e eu fui-me habituando à ideia, abrindo-me à possibilidade. O facto de termos concluído a Qualificação com os melhores número de sempre ajudou. Não garante nada, é certo, mas tal como disse na altura sete vitórias seguidas em jogos oficiais não são desprezáveis em circunstância alguma. Ao mesmo tempo, tem estado a surgir uma nova geração de jogadores, muito promissora - destaque óbvio para a equipa que chegou à final do Europeu de sub-21. O jogo com a Bélgica deixou bons sinais relativamente ao momento da Seleção, de resto. Em termos de qualidade do plantel, considero, portanto, que estamos um pouco melhor fornecidos que há dois anos, no Mundial 2014 - mas já será um enorme progresso se os vinte e três Escolhidos não se lesionarem.

 

Adicionalmente, por norma os Europeus costumam correr melhor a Portugal do que os Mundiais. Conseguimos sempre passar a fase de grupos do Euro. Além disso, em três edições do campeonato chegámos às meias-finais (em 1984, em 2000, em 2012) e, claro, em 2004 chegámos a final. A explicação possível é o facto de os jogadores e respetivas seleções nos serem mais familiares e, claro, por o clima não ser tão agreste como noutros sítios - por exemplo, o Brasil.

 

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Por fim, o facto de termos Cristiano Ronaldo é um dos maiores catalisadores desta nossa ambição. Como toda a gente sabe, ele já ganhou tudo, excepto um título pela Equipa de Todos Nós. Não deixará de ser inglório se ele terminar uma carreira, já de si extraordinária, mas com esse vazio. E visto que ele já passou a barreira dos 30 anos, está poderá ser a última oportunidade dele (embora eu tenha pensado mais ou menos o mesmo na altura do Mundial 2014).

 

Por isso, sim. Pela primeira vez em anos, neste Europeu não vou pensar apenas jogo a jogo. Pela primeira vez em anos, estou a assumir com todas as letras que quero Portugal campeão europeu. O título é o sonho, sempre o foi. Um sonho é algo irreal, fantasioso. O que o Selecionador fez - ao deixar o objetivo bem claro perante os jogadores no primeiro dia em que trabalhou com eles, ao recordar-lhes esse objetivo em todas as concentrações - foi transformá-lo numa ambição, num objetivo, em algo real, concreto e... assustador. Porque, ao se tornar real, torna-se também falível.

 

Espero que o Selecionador tenha noção do que nos está a pedir. Como escrevi antes, não é fácil voltar a acreditar depois do que aconteceu em 2014 - eu demorei meses. Fernando Santos não pode pedir-nos para voltarmos a acreditar se, depois, a Seleção fizer um Europeu para esquecer - assim vai doer ainda mais. Ele e os Marmanjos têm a responsabilidade de levarem essas ambições para o campo e jogarem para torná-las realidade. Não me quero arrepender de voltar a acreditar. 

 

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Ainda não sei de que forma estas ambições vão influenciar as comunicações com a Imprensa durante o estágio, se os Marmanjos vão dizer, preto no branco, que estão a trabalhar para ganhar o Europeu. Ainda não sabemos quem vai ao Euro, sequer (vamos descobrir hoje), nem se esse grupo terá o que é preciso para chegar lá (os particulares servirão para descobri-lo, com as devidas atenuantes). No entanto, vou assumir que Fernando Santos está a ser sincero, que sabe o que está a fazer e que os jogadores partilham a mesma ambição. Se assim for, poderemos todos - jogadores, Selecionador, restante equipa técnica, adeptos - partir para este Europeu cheios d'a fé.

Seleção 2015

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Mais um ano prestes a acabar, mais um ano prestes a começar. Eis a minha habitual revisão do ano da Equipa de Todos Nós.

 

Tal como previ/desejei há um ano, 2015 foi um ano tranquilo para a Seleção, o primeiro ano assim desde 2011. Na verdade - e isto surpreenderia muitos em 2014, sobretudo na ressaca do Mundial - este é capaz de ser o melhor ano no seu todo da Equipa de Todos Nós desde 2005. Ainda que nem sempre tenha sido essa a sensação - porque, em termos exibicionais, não foi um ano brilhante. Mas a verdade é que 2015 viu Portugal concluindo a sua melhor fase de Qualificação, evitando os playoffs pela primeira vez numa eternidade. De igual modo, 2015 viu o desenvolvimento de uma nova geração de promessas e o início da sua integração na equipa principal. Agora aguardamos o Euro 2016 e Fernando Santos diz que quer ganhá-lo.

 

Tal como acontecerá em 2016, o primeiro jogo da Seleção em 2015 ocorreu só em finais de março. Foi frente à Sérvia, no Estádio da Luz, a contar para a Qualificação e eu estive lá. Quem não esteve - no banco, pelo menos - foi Fernando Santos, cumprindo o castigo que, pouco antes, fora reduzido para dois jogos. Portugal ganhou por 2-1. Como em muitas ocasiões este ano, houve mais pragmatismo que brilhantismo. Mesmo assim, considero que este foi o nosso melhor jogo este ano - e um dos meus fins de tarde/princípios de noite mais felizes. Ricardo Carvalho marcou o primeiro golo - e lesionou-se nos festejos. Em vantagem, a Seleção abrandou, até consentir o golo de Matic, de pontapé de bicicleta. Nos minutos que se seguiram, todo o Estádio vibrou com os gritos de "POR-TU-GAL! POR-TU-GAL!" vindos das bancadas. Pouco depois, em resposta, Fábio Coentrão colocou Portugal de novo em vantagem no marcador, selando o resultado.

 

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Visto que o jogo solidário com Cabo Verde se realizou apenas dois dias depois, nenhum dos que jogaram contra a Sérvia puderam alinhar. Fernando Santos teve mesmo de fazer uma segunda Convocatória só para este jogo. Como tal, o desempenho de Portugal foi fraco, tirando as iniciativas de Bernardo Santos. Perdemos por 2-0. Não há muito mais a dizer.

 

A concentração da Seleção que se seguiu a essa dupla jornada coincidiu com uma altura, digamos, interessante no futebol: quando Jorge Jesus trocou o Benfica pelo Sporting e quando rebentou o escândalo da corrupção na FIFA, que culminou agora, com Blatter e Michel Platini banidos do futebol durante oito anos. Não há muito a dizer sobre o primeiro acontecimento. Por sua vez, o segundo é, na minha opinião, um da das melhores coisas que aconteceram no futebol este ano. Há muito que se sabe que existe corrupção nas mais altas instâncias do futebol. Já era altura de algo ser feito em relação a isso. 

 

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O jogo com a Arménia foi encarado com alguma cautela. Uma vez que a Seleção nunca tinha ganho nada naquele terreno. E a verdade é que Portugal cometeu mais erros nesse jogo do que aquilo que foi a norma no resto da Qualificação. Houve alguma apatia por parte dos portugueses e Rui Patrício teve culpas nos primeiros dois golos que sofreu. Cristiano Ronaldo, tipicamente, resolveu a questão com um hat-trick - mesmo assim, Tiago fez-se expulsar após o quarto golo português e os arménios conseguiram reduzir a desvantagem para 2-3.

 

Daí a três dias, Portugal disputou um jogo amigável com a sua congénere italiana. Faltavam titulares habituais a ambos os lados e era um jogo de fim de época, logo, o desafio foi decorrendo em ritmo de treino. Por uma vez, os nossos adversários estavam com mais azar do que nós. O único golo da partida foi apontado por Éder, numa jogada começada pelo Eliseu, que passou a Quaresma, que assistiu de trivela para o ponta-de-lança. O milagre do ano, essencialmente - estou a brincar!

 

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Não posso deixar de referir a excelente prestação dos sub-21 no Europeu, chegando à final, caindo apenas nos penálties. Catalisada pelo excelente trabalho de Rui Jorge, esta é uma das melhores gerações de futebolistas dos últimos vinte anos, cheia de talento, magia (mais do que a atual Seleção A, diga-se, com as devidas exceções), maturidade e espírito ganhador. São um exemplo a seguir por muitos veteranos. A Seleção A, se quiser mesmo ganhar o Europeu, deveria olhar para a paixão dos sub-21.

 

A Seleção A só se voltou a reunir em finais de agosto, princípios de Setembro, para um particular com a França e o antepenúltimo jogo da Qualificação com a Albânia. O particular decorreu no Estádio de Alvalade e eu estive lá. Para um jogo entre grandes seleções, foi anticlimático e um pouco enfadonho. A França estava mais motivada para o jogo que Portugal, que estava mais preocupado com o restante da Qualificação. Portugal limitou-se a defender e até conseguiu fazê-lo até aos oitenta e cinco minutos, antes de sofrer um golo, cortesia de Valbuena. Este jogo serviu para provar que o estilo de jogo implementado por Fernando Santos tem os seus méritos, mas não chega para tudo.

 

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O jogo contra a Albânia foi um jogo tão típico da era Fernando Santos que chega a ser caricato. Portugal jogou melhor que contra a França - não admira, havia mais em jogo. Conseguiu o domínio durante a larga maioria do jogo, tirando durante uns dez, quinze minutos, após a marca dos sessenta. Quaresma entrou entrou a meio da segunda parte e assistiu para o golo de Miguel Veloso, marcado no último minuto. Com mais esta vitória, Portugal ficou a um ponto de se Qualificar.

 

Esse ponto e mais dois extra forma ganhos no jogo seguinte, em Braga, contra a Dinamarca. Mais um jogo típico, pouco empolgante, sobretudo na primeira parte - a Dinamarca estacionou o autocarro e Portugal não se esforçou por aí além por quebrá-lo. Na segunda parte, os dinamarqueses abriram mais o jogo, atacaram mais, mas defenderam menos. Finalmente João Moutinho marcou - um belo tiro, diga-se. Ficou selado o Apuramento.

 

 

O jogo contra a Sérvia realizou-se apenas para cumprir calendário, mas Portugal não deixou de levar o jogo a sério. Por uma vez, marcámos cedo, antes dos cinco minutos, cortesia de Nani. Depois do golo, Portugal estacionou o autocarro. Conseguiu aguentá-lo durante toda a primeira parte do jogo, mas na segunda parte os sérvios conseguiram abrir buracos na nossa defesa. Aos 66 minutos empataram o jogo. Entretanto, João Moutinho entrou e tornou a resolver a situação com mais um golo espectacular. Concretizou-se, assim, a nossa sétima vitória consecutiva em jogos oficiais.

 

Já que, por uma vez, não houve necessidade de irmos a playoffs, os jogos de novembro foram apenas particulares (contra a Rússia e o Luxemburgo) e Fernando Santos pôde dispensar alguns dos titulares habituais e de chamar gente nova. Não vou falar muito sobre estes jogos pois não os vi. Portugal perdeu por 1-0 contra a Rússia e ganhou ao Luxemburgo por 2-0 - tal como disse antes, soube a goleada depois de uma data de vitórias pela margem mínima.

 

Finalmente, este mês, a Seleção foi sorteada para o grupo F do Euro 2016, juntamente com a Hungria, a Islândia e a Áustria, um grupo que, todos concordam, está perfeitamente ao alcance de Portugal, só uma grande catástrofe impedir-nos-á de falharmos os oitavos-de-final, em princípio.

 

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Foi assim o ano da Seleção, um ano tranquilo, é certo, mas pouco excitante. Os playoffs seriam sempre arriscados, mas também poderiam dar um pouco de emoção a um ano, por vezes, demasiado monótono. Por outro lado, estávamos a precisar de um ano assim, depois de tudo o que aconteceu em 2014.

 

Anos pares são sempre mais excitantes para mim. Trazem com eles campeonatos de seleções e Portugal têm conseguido estar presete em todos.Continuo a não querer ainda falar concretamente do que espero do Europeu. No entanto, como o costume passarei os primeiros meses de 2016 ansiosa pelo Anúncio dos Convocados para o Euro 2016 e o início de toda a excitação. Mal posso esperar pela data desse Anúncio, bem como pelas datas e adversários dos particulares de março. As coisas têm estado calmas na Seleção desde finais de 2014 até agora... mas não ficarão por muito mais tempo. O Europeu irá agitar tudo isto e o seu desfecho determinará o estado de espírito com que estaremos daqui a um ano.

 

Por esta altura, gosto de fazer uma espécie de renovação de votos, reafirmar a minha devoção pela Equipa de Todos Nós. Devoção essa que tem cada vez menos a ver com patriotismo. Já não acho que tenhamos obrigatoriamente de apoiar a seleção do país onde nascemos nem que seja errado torcermos pela seleção de um país que, teoricamente, nada tem a ver connosco. Percebi isso há cerca de um ano, quando Martunis (o menino que sobreviveu ao tsunami  no Índico em fins de 2004 durante três semanas vestindo uma camisola da Seleção Portuguesa) revelou que sonha um dia voltar a vestir a Camisola das Quinas, desta feita em campo. 

 

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Não sei se Martunis é bom jogador, se é suficientemente bom para representar a Seleção. Se for esse o motivo pelo qual não será Convocado, não tenho nada a dizer Mas haverá alguém com a ousadia de recusar-lhe uma Convocatória tendo apenas por base a sua nacionalidade? Não sei se ele já obeteve a nacionalidade portuguesa, mas eu acredito que, capacidades futebolísticas à parte, ele merece mais vir à Equipa de Todos Nós do que, se calhar, metade dos que lá estão agora merecem. Martunis acredita que o nosso país, a nossa Seleção lhe salvaram a vida e, de facto, a FPF doou-lhe 40 mil euros à sua família para se restabelecer, trouxe-o a Portugal para visitar a Turma das Quinas (lembro-me perfeitamente de vê-lo nas bancadas do Estádio da Luz no jogo com a Eslováquia, comemorando o golo do Cristiano Ronaldo com o Rui Costa) e, este ano, o Sporting trouxe-o até ao nosso país e ele vive hoje na academia do Sporting. Se ele viesse à Seleção, ninguém duvidaria do seu amor à camisola.

 

Cada vez acredito mais que a nacionalidade é apenas uma categoria em documentos oficiais, um aspeto burocrático. Uma pessoa é definida pelas escolhas que faz, não por aquilo que lhe é imposto. Isso significa que, sim, por princípio não sou contra nacionalizações na Equipa de Todos Nós, desde que seja por convicção e não por interesse. Se formos a ver, metade dos atuais Marmanjos não nasceram em Portugal: Nani e Eliseu nasceram em Cabo Verde, William Carvalho nasceu em Angola, Cédric nasceu na Alemanha, Adrien e Raphael Guerreiro nasceram em França (o último, quando se estreou na Seleção A, ainda mal falava o português), mas ninguém questionou a sua Convocatória. Por outro lado, concordo com a atual política de a Federação não interferir nos processos de mudança de nacionalidade.

 

 

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Já não acho que todos os portugueses têm, obrigatoriamente, de apoiar a Equipa de Todos Nós só por serem portugueses - vocês, que acompanham este blogue e a minha página, sabem o quão frustrante e desanimador isto consegue ser. Não esqueçamos também que a Turma das Quinas tem apoiantes por todo o globo, com ou sem relação com Portugal. Não me vou arrogar ao ponto de falar em nome da Seleção, mas eu aceitaria qualquer um como adepto. Quer seja por gostar do nosso país, por a Seleção lhe ter salvo a vida, por causa de um jogador em específico, porque se identificam com o espírito e/ou estilo de jogo, porque de tanto em tanto tempo lhes dá alegrias. Os mesmos motivos pelos quais se escolhe um clube como todos os outros, no fundo. Na verdade, o motivo pelo qual se começa a ser adepto não é importante, desde que se mantenham como adeptos quer nos bons, quer nos maus momentos - essa é a parte mais difícil, mas poucas coisas são mais gratificantes do que testemunhar as primeiras vitórias, os primeiros sinais de recuperação, após um período de crise.

 

Na verdade, sou cada vez mais amante do futebol em geral, não apenas o que está relacionado com a Turma das Quinas. Pelas paixões que move, as histórias a ele associaas, a maneira como ele pode salvar vidas, como a do Martunis, em vários sentidos. O meu clube é a Seleção e isso nunca vai mudar. No entanto, também me considero adepta de todos os clubes ao mesmo tempo e de nenhum em particular. E orgulho-me disso. 

 

Vou continuar a amar o futebol e a apoiar a Seleção no próximo ano, qualquer que seja o desfecho da nossa participação no Europeu. Que 2016 seja um ano muito positivo para o futebol, sobretudo para o futebol português, sobretudo para a Equipa de Todos Nós. Deixo também aqui os votos de um Natal muito feliz e de um Ano Novo cheio de coisas boas. Regressem connosco em 2016!

Portugal 0 França 1 - A maldição continua, parte 2

IMG_20150904_193912.jpgNa passada sexta-feira, dia 4 de setembro, a Seleção Portuguesa de Futebol recebeu, no Estádio de Alvalade a sua congénere francesa, em jogo de carácter particular. Eu estive lá. Este encontro terminou com uma vitória pela margem mínima para a seleção visitante.

 

Chegámos ao estádio um bocadinho em cima da hora - por minha vontade chegaríamos pelo menos meia hora antes, sem grande stress, com tempo para absorver o ambiente. Indo com várias pessoas, sobretudo num dia de semana, é difícil isso acontecer... Ao menos chegámos a tempo do hino, que é sempre um dos momentos mais icónicos de um jogo de Seleção.

 

Estava uma casa bem composta - pouco menos de quarenta mil espectadores - com uma quantidade considerável de franceses, bastante barulhentos por sinal. Passaram o jogo quase todo a cantar, tendo sido poucas as alturas em que nós, portugueses, conseguimos abafar-lhes as vozes. O queme faz pensar de novo na questão dos cânticos para a Equipa de Todos Nós. Já se tentou, mas a única maneira que vejo para um potencial cântico pegar seria se a Seleção tivesse uma claque - algo que seria difícil de pôr em prática.

 

Mas fechemos este àparte. 

 

 

 

Este é capaz de ter sido um dos jogos da Seleção mais secantes a que assisti ao vivo - mesmo que não tenham sido muitos - sobretudo por ter sido o primeiro em que a Turma das Quinas não marcou. A primeira parte não foi má, teve equilíbrio. Os franceses atacavam com mais frequência, mas iam-nos valendo Pepe, Ricardo Carvalho (antes de ser substituído) e, sobretudo com o jogo já avançado, Rui Patrício. A segunda parte da Seleção Portuguesa foi pior, como costuma acontecer nos particulares - nesta altura, estávamos sentados do lado do meio-campo francês e, durante os primeiros quinze minutos, pouco ou nada se viu do nosso lado. A equipa portuguesa suibiu de rendimento após as substituições, mesmo assim, embora continuasse a produzir pouquíssimas ocasiões de golo. O tento da França acabou por surgiu um pouco contra a corrente da partida, numa altura em que eu já preparava mentalmente a reação a um empate sem golos. É claro que, depois de sofrer,a Seleção teve de correr atrás do empate. Mais uma vez, poucos minutos após o golo sofrido, todo o Estádio se pôs a gritar por Portugal, sobretudo aquando de uma série de cantos a nosso favor. Mais uma vez, Fernando Santos agradeceu-nos por isso. No entanto, desta feita, a Seleção não acordou a tempo.

 

É evidente que as duas equipas disputaram o jogo com motivações diferentes. Os franceses vinham de uma série de maus resultados, precisavam de uma vitória. Por nossa vez, ao contrário dos nossos amigos bleu, nós temos uma Qualificação com que nos preocuparmos, estávamos a três dias de um jogo difícil. Aquele foi um particular mais importante do que o costume, mas menos do que o jogo com a Albânia, ainda assim.

 

De qualquer forma, mesmo que Portugal não tenha jogado muito bonito, não achei que tivéssemos jogado propriamente mal. Podem dizer o que quiserem da capacidade finalizadora de Portugal (e não estão errados), mas a França só conseguiu marcar a partir de uma bola parada, aos oitenta e cinco minutos. Isso também é importante. Tenho, aliás, vindo a dar cada vez mais valor à capacidade defensiva, de baixar as linhas, jogar na expectativa. Começo a achar cada vez mais que o futebol é uma maratona, não uma prova de cem metros e muito menos ballet. É importante saber gerir o esforço, que eu estou convencida que foi isso que custou a final do Europeu aos sub-21 - os jovens portugueses cansaram-se mais que os suecos durante os cento e oitenta minutos e não bateram os penálties devidamente. Tambem não me surpreenderia se o cansaço tivesse, igualmente, sido fator nas meias-finais do Euro 2012.

 

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No entanto, este jogo também para provar que não chega jogar com linhas baixas, sobretudo perante equipas como a França. Equipas grandes que, ao contrário da Argentina e de Itália, querem mesmo ganhar. Como tenho vindo a dizer, as coisas estão a correr bem na Qualificação, ao contrário do que acontecia há dois anos. O futebol que temos praticado tem chegado para isso. No entanto, o jogo de sexta provou que o futebol atual não vai chegar para as seleções que encontraremos no Euro 2016. Fernando Santos diz que quer ser campeão da Europa, mas ainda existe muito a fazer antes de podermos realisticamente aspirar a tal.

 

De qualquer forma, nesta altura do campeonato, a primeira preocupação será sempre o Apuramento. Que poderá ser conseguido ainda hoje se ganharmos e se a Dinamarca perder contra a Arménia. Eu acho pouco provável os dinamarqueses perderem, mas não nego que me agradaria a possibilidade de ficarmos com a questão do Apuramento arrumada já hoje, mais de dois meses antes da altura habitual. Fazê-lo frente à Albânia, a Seleção que, há precisamente um ano, nos lançou numa crise, quase nos fez perder a esperança no Apuramento, seria particularmente poético.

 

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Com Apuramento imediato ou não, a vitória será sempre essencial para ficarmos mais perto do Europeu. Tal como afirmei na entrada anterior, não vai ser fácil. Continuo convicta de que não tenhos nenhum motivo para não conseguir, mesmo que tenhamos um histórico de complicar o que é fácil. No entanto, como podem ver, Fernando Santos revelou ontem a mensagem acima, que tem deixado à vista aquando das concentrações da Seleção, desde o seu primeiro dia. Tal mensagem terá catalisado as nossas quatro vitórias seguidas nesta Qualificação, há de catalisar uma quinta, hoje. Que consigamos, então, o Apuramento o mais cedo possível, para que depois possamos focarmo-nos em tornar a Equipa de Todos Nós numa candidata a campeã da Europa.