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O Meu Clube É a Seleção!

Mulher de muitas paixões, a Seleção Nacional é uma delas.

Antes da nossa estreia no Euro 2020

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No passado dia 4 de junho, a Seleção Portuguesa de Futebol empatou sem golos com a sua congénere espanhola. Mais tarde, no dia 9, venceu a sua congénere israelita por quatro bolas sem resposta. Ambos os jogos foram de carácter particular. Agora, estamos em contagem decrescente para a nossa estreia no Euro 2020, perante a Hungria, em Budapeste. 

 

Antes de começarmos, não posso deixar de falar sobre o que aconteceu no jogo entre a Dinamarca e a Finlândia. Eu, como muita gente, apanhei um susto, apesar de não saber nada sobre Christian Eriksen – e à semelhança de muitos amantes portugueses de futebol, tive recordações horríveis do que aconteceu com Miklos Feher em 2004. 

 

Felizmente, evitou-se a tragédia e o mundo do futebol respirou de alívio. Já muitas pessoas elogiaram os intervenientes (os colegas de equipa, os adversários, os médicos, os adeptos gritando por Eriksen no estádio). Eu assino por baixo de todas. É muito triste que isto tenha acontecido no Europeu que já tinha sido adiado por motivos de saúde, num dos poucos jogos com público esta época. Mas o mais importante é que Christian sobreviveu. A história teve um final feliz.

 

Passemos à frente.

 

Este é apenas o meu segundo texto aqui no blogue desde que entrámos em modo Europeu. Eu tinha avisado que seria assim, mas ainda é estranho. Nestes últimos dias às vezes penso em Europeus e Mundiais anteriores. Escrevia muito mais aqui, andava mesmo mais entusiasmada do que me sinto hoje.

 

A verdade é que estou mais velha e menos disponível para andar sempre a pensar na Seleção. Além disso, já são treze anos de blogue, muitos jogos, muitos campeonatos, parte da novidade perdeu-se – pelo menos no que toca aos estágios de preparação.  Os jogadores dão quase sempre as mesmas respostas politicamente corretas nos contactos com os jornalistas e os jogos particulares têm pouco valor preditivo do que acontece quando é a doer – mais sobre isso já a seguir.

 

 

Também não tenho muito a dizer sobre as campanhas publicitárias: não são más, mas nenhuma é absolutamente extraordinária. Gosto do facto de a do Continente não se limitar à Seleção A e estou a fazer a coleção de cromos deles. A da Galp também está gira – eles nunca desiludem. 

 

Quanto à música de apoio, Vamos Com Tudo… aprecio a intenção e não desgosto. No entanto, como cheguei a explicar na página de Facebook (a publicação já lá não está porque houve cometi a asneira de reativar a versão antiga das páginas e perdi os últimos três meses de publicações, mais coisa menos coisa. Ao menos ainda tenho este tweet), nesta fase a FPF tem de tirar a cabeça da areia e fazer d’A Minha Casinha a música oficial da Seleção. 

 

Falemos então dos particulares, começando pelo primeiro. O jogo com a Espanha não foi brilhante da parte de Portugal. Vejam-se as estatísticas ao intervalo: setenta por cento de posse de bola para nuestros hermanos. Ainda assim, como disse Fernando Santos mais tarde, os espanhóis não fizeram nada de transcendente. Rui Patrício teve poucas ocasiões para brilhar, ao contrário do que tinha acontecido no jogo anterior com a Espanha, em outubro do ano passado.

 

Por outro lado, foi bom ver Pepe de novo a jogar pela Seleção, passados estes meses todos. Já tinha saudades dele. Ao mesmo tempo, José Fonte esteve bem, tirando uma falha ou outra. Chegou mesmo a enfiar a bola na baliza aos vinte e dois minutos – o único em todo o jogo a conseguir fazê-lo. O problema foi ter-se empoleirado em Pau Torres para chegar à bola – árbitro nenhum deixaria passar.

 

Pena Fonte não ter conseguido marcar de maneira legal. Teria piada: outro golo contra a corrente do jogo, cerca de 24 horas depois das meias-finais dos sub-21. 

 

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Já que falamos de centrais, adiantemo-nos um bocadinho e falemos de Danilo. Fernando Santos colocou-o a central na segunda parte e acho que todos concordam que ele se saiu bem. Podemos não concordar com esta opção de Fernando Santos, mas ao menos a qualidade de Danilo não será um problema. 

 

Quem gostei muito de ver neste jogo (e não fui a única) foi Renato Sanches. Tirando umas faltas parvas que ele cometeu na primeira parte, terá sido um dos melhores portugueses em campo – com umas arrancadas fazendo lembrar o Euro 2016. Num dos contactos com os jornalistas, Renato disse que se sente melhor jogador hoje do que há cinco anos. Preciso de vê-lo mais vezes em campo para confirmá-lo, mas parece-me que está pelo menos ao mesmo nível.

 

Não há muito mais a dizer sobre este jogo. Como disse antes, Portugal não começou bem, mas foi crescendo ao longo dos primeiros quarenta e cinco minutos. A segunda parte foi mais aberta, mais individualista – os lançados Pedro Gonçalves e Nuno Mendes deram uns ares de sua graça – mas mesmo assim nada por aí além. Apesar da ligeira superioridade espanhola, o empate acabou por ser um resultado justo. 

 

Muitos de nós estavam à espera de um bocadinho mais, eu incluída, mas um empate com uma das nossas maiores bestas negras – só lhes ganhámos uma vez em jogos oficiais e, mesmo em jogos particulares, a última vitória foi há mais de dez anos – nunca é um mau resultado. 

 

Além disso, da minha experiência, os primeiros particulares da preparação para um Europeu ou Mundial nunca são brilhantes e nunca ficam na História. Por exemplo, quantos de nós se lembram que antes do Mundial 2018, há três anos, empatámos com a Tunísia? Eu não me lembrava! 

 

Nessa linha, os últimos particulares não são necessariamente mais memoráveis mas, nos últimos anos, a tradição tem sido escolher um adversário mais acessível para garantir uma vitória fácil, mesmo generosa. Para dar moral e quebrar alguns enguiços (não é, Cristiano?). Antes do jogo, não incluía Israel nesse grupo, estava até à espera de um jogo um pouco mais difícil, mas é provável que tenha sido essa a intenção. 

 

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Suponho que ainda estava com os nossos jogos de 2013 na mente. Esqueci-me que, hoje, Portugal é melhor equipa. 

 

Os portugueses entraram bem no jogo, com uma oportunidade logo aos dois minutos – eu ainda mal me aperceber que o jogo tinha começado. Como disse Fernando Santos, “podíamos ter feito dois ou três golos nos primeiros vinte e cinco minutos”. O problema era a finalização – Diogo Jota, por exemplo, não estava inspirado.

 

Por estes dias, tem havido quem fale em alinhar André Silva ao lado de Cristiano Ronaldo: o segundo melhor marcador do campeonato alemão ao lado do melhor marcador do campeonato italiano. Compreendo que critiquem Fernando Santos por, ao que parece, não investir nessa opção. Até concordo em parte – afinal de contas, essa dupla deu bons resultados entre 2016 e 2018, mais coisa menos coisa.

 

Dito isto, também compreendo que Fernando Santos não queira ir por aí, para já. André Silva teve um par de épocas menos conseguidas e acabou por perder lugar na Seleção – nas poucas oportunidades de que tem disposto, ainda não deu motivos ao Selecionador para apostar nele. Ao mesmo tempo, Diogo Jota tem sido uma peça importante na Turma das Quinas após o hiato da pandemia – e toda a gente sabe o que se diz sobre equipas que ganham. 

 

É daquelas coisas que, em teoria, são boa ideia mas que é difícil passar à prática. Infelizmente não estou a ver André Silva como opção de primeira linha neste Europeu. Mas poderá vir a ser um trunfo secreto numa situação de aperto. 

 

Regressando ao jogo com Israel, foram precisos quarenta e dois minutos para se chegar ao golo. Bom entendimento à direita entre Bernardo Silva e João Cancelo, este último assistiu para Bruno Fernandes que não falhou. 

 

 

Este jogo estava fadado para ter golos aos pares, perto do final de cada uma das partes. O segundo golo veio poucos minutos depois do primeiro. Bruno Fernandes também esteve neste – assistiu para Ronaldo, que beneficiou de um frango do guarda-redes Marciano. 

 

Na segunda parte, Fernando Santos mudou a estratégia e, como acontece em muitos particulares deste género, a qualidade decaiu. Chegou a ser secante nalguns momentos. Mas felizmente tivemos direito a um segundo par de golos, ao cair do pano.

 

Aquele remate de João Cancelo, encontrando um corredor para a baliza no meio de uma grande área cheia, para começar. E depois o tiro de Bruno Fernandes (após assistência de Gonçalo Guedes), à entrada da área, mesmo no canto superior esquerdo da baliza. Ninguém podia defender aquela.

 

Para mim estes foram os melhores em campo: Cancelo e Bruno Fernandes. Quem diria que finalistas europeus de clubes fariam a diferença, não é? 

 

Pena é Cancelo ter testado positivo para o Coronavírus e ir falhar o Europeu. Logo agora que ele se revelava tão promissor, ele que podia combinar-se com Bernardo Silva! 

 

Ao menos sempre é uma oportunidade para o Diogo Dalot.

 

 

Regressando ao particular com Israel, este foi um bom jogo. É claro que temos de dar um desconto por ser uma equipa como Israel, no entanto. Quem nos dera que as coisas fossem assim tão fáceis no Euro.

 

...e daí talvez não. Como toda a gente sabe, é quando as coisas são demasiado difíceis que Portugal se atrapalha.

 

De qualquer forma, os particulares são águas passadas, o Europeu já começou. Citando Rui Reininho, “agora é a doer”. E vai doer, não se iludam. 

 

Ainda não tive oportunidade de falar sobre a Hungria como adversário. São a seleção mais fraca do grupo F, ninguém discorda, mas eu não os descreveria como sardinhas, como fiz antes. Mal por mal, vão em onze jogos sem perder e, na última fase de grupos da Liga das Nações, subiram à divisão A.

 

Isto para não falar do caricato jogo da fase de grupos de 2016. Por outro lado, recordar que os húngaros vão jogar em casa, com um estádio cheio e tudo. Da última vez que visitámos a Hungria vencemos… mas houve sangue.

 

Por fim, recordo que Portugal tem a mania infeliz de não ganhar o primeiro jogo de um Europeu ou Mundial. A última vez que o conseguiu foi em 2008, ainda este blogue era um bebé. Mas desta feita não vai dar – não podemos dar-nos a esse luxo.

 

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Em suma, não esperem facilidades. Nem perante a Hungria, nem perante a Alemanha ou a França, nem perante qualquer adversário que se cruze connosco, caso passemos a fase de grupos. Estive a ver este vídeo de uma previsão do Europeu e olhemos para as possíveis seleções no nosso caminho: ele é Espanha, ele é Croácia, ele é Inglaterra, ele é Bélgica, ele é uma Itália que teve uma boa estreia neste Europeu… 

 

Eu não sei se vou aguentar, minha gente. 

 

Dito isto, na minha opinião, pelo menos no que toca a individualidades, esta é a melhor seleção que temos em anos – desde o Euro 2004 e o Mundial 2006, arrisco-me a dizer. Como referi antes, temos três finalistas europeus de clubes (tínhamos quatro, mas o FDP do Covid…), temos muitos jogadores que foram campeões nos respectivos campeonatos, temos o Melhor do Mundo. Se há Equipa de Todos Nós à altura deste desafio... é esta. 

 

É claro que o talento por si só não basta. É preciso saber usá-lo – e há muita gente que não perdoará a Fernando Santos, se ele não for capaz de canalizar esta qualidade toda para um bom desempenho neste Europeu.

 

Pois bem, eu acredito. Vai ser difícil, cada jogo vai ser um sofrimento atroz. Racionalmente, não ponho as mãos no fogo. Mas acredito dos jogadores e equipa técnica, acredito na sua determinação e entrega, na sua capacidade de superação. Afinal de contas, Portugal costuma dar-se bem em circunstâncias como estas. É certo que, até agora, só a Espanha foi capaz de revalidar um título europeu, mas nunca se sabe… 

 

O melhor é ir encarando um jogo de cada vez. Para já é importante começarmos com uma vitória perante a Hungria, o que nos facilitará bastante a vida no chamado Grupo da Morte, ou Grupo da Vida, ou Grupo da Glória (é bom que Portugal ultrapasse as suas manias de não ganhar o primeiro jogo, de se boicotar a si mesmo). Depois logo se vê.

 

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O jogo é terça-feira às cinco da tarde, que é a hora a que saio do trabalho. Estive a pensar em hipóteses diferentes, mas em princípio venho ver o jogo para casa, mesmo que tenha de acompanhar a primeira parte na rádio, no caminho. Por um lado, quero ver se não perco muita coisa por não ter acesso à televisão. Por outro, até será simpático se marcarem um golo durante o meu regresso a casa – para além das vantagens de marcar um golo cedo, dava para eu cumprir um desejo antigo de festejar com buzinadelas. 

 

Em relação a este blogue, ainda não sei quando tornarei a publicar de novo, mas em princípio vou tentar escrever uma crónica sobre os dois primeiros jogos. Em último caso, escrevo um texto sobre os três jogos da fase de grupos. De qualquer forma, como habitual, vou deixando as minhas impressões na página de Facebook deste blogue. 

 

Terça-feira saltamos para a toca de coelho. Vemo-nos no outro lado. 

 

Teremos sempre Paris

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Na passada quinta-feira, dia 20 de março, Fernando Santos divulgou a lista de Convocados para representar Portugal no Euro 2020.

 

Isto já não é novidade para quem conheça este blogue há algum tempo. Para mim, o Europeu começa com a Convocatória. O que não é tão habitual para mim é só escrever depois da Divulgação. Deve-se a falta de tempo, em parte, mas também porque receei não ter muito a dizer sobre os Convocados – pelo menos não o suficiente para merecer um texto em separado.

 

Este vai ser um Europeu especial em muitos aspetos. Decorre com um ano de atraso (estamos em 2021, mas ainda lhe chamamos Euro 2020) e durante uma pandemia (mais sobre isso adiante). Será também um campeonato onde entramos como detentores do título – e com desejos de renová-lo. 

 

O problema é que o caminho para a renovação passa pelo chamado Grupo da Morte, conforme vimos na altura – meu Deus, parece que o sorteio foi noutra vida!

 

Fernando Santos já disse que somos candidatos ao título, que “espera só regressar a 12 de julho”, ainda que admita que não somos favoritos. Eu concordo com essa ideia. Quero vencer o Europeu outra vez e hei de reforçá-lo nos próximos textos. 

 

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Hoje no entanto quero sacudir a pressão sobre os Marmanjos e dizer que, se não conseguirmos ganhar de novo, não faz (muito) mal porque, ao menos, já ganhámos uma vez.

 

Já lá vão quase cinco anos desde a final do Euro 2016, mas ainda não nos cansámos de falar sobre ela. Duvido que algum dia nos cansemos. Foi o primeiríssimo título após anos de ameaças, de excelentes jogadores. Além disso, o jogo em si foi uma epopeia, cheia de momentos e pormenores deliciosos, conforme recordei aqui.

 

É possível que fiquemos sem a Taça dentro de mês e meio. No entanto, nunca nos tirarão o 10 de julho. Teremos sempre Paris. Teremos sempre aquela final cinemática, as celebrações madrugada fora e no dia seguinte. Adversário nenhum pode roubar-nos recordações – mesmo que percamos faculdades mentais, temos o documentário “10 de julho”, ocasionais reposições do jogo, notícias, blogues como este e o testemunho verbal de milhões para nos reavivar a memória.

 

Tal como ninguém poderá tirar o Euro 2004 aos gregos, para mal dos nossos pecados. 

 

Se tornarmos a ganhar, dificilmente será a mesma coisa, dificilmente será tão especial. Ou melhor, até pode ser especial, até podemos vir a ter outra epopeia, quer na final, quer nos jogos anteriores. Mas será diferente – e não terá aquele sabor de um sonho realizado ao fim de tanto tempo. 

 

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Será diferente sobretudo porque, ganhemos ou não no final, não vamos poder vivê-lo da mesma forma. Pandemia e tal. Veja-se o que aconteceu há coisa de duas semanas, quando o Sporting ganhou o campeonato (finalmente! A minha irmãzinha sportinguista já o merecia há muito!).

 

Concordo que foi uma imprudência o que aconteceu, para não dizer pior, que devia ter sido melhor planeado e ainda estamos para ver quais serão as consequências no controlo da doença. 

 

Dito isto, não consigo ser demasiado dura para com os adeptos que saíram às ruas. Se tivesse sido a vitória no Europeu, eu também não ficava em casa. Há coisa de um ano, durante as ordens de confinamento, tínhamos um meme a circular pelas internetes mostrando um doente entubado com a seguinte legenda: "Que bem me soube aquele passeio pela Marginal”. Eu acho que existem por aí muitas pessoas que, mesmo que tivessem de ficar ligadas a um ventilador, pensariam “Ao menos pude ver o Sporting campeão, dezanove anos depois, e ir festejar para o Marquês”

 

Eu mesma pensaria o mesmo, no lugar deles. Eu que não vou a jogos de futebol há quase dois anos e raramente fui tão feliz como quando festejei as conquistas do Europeu e da Liga das Nações

 

Mesmo sem me colocar no lugar dos sportinguistas, eu gostei de ver pessoas nas ruas com camisolas e cachecóis futebolísticos, poucas horas antes do jogo com o Boavista. Já não via isso há mais de um ano – e como vivo mais ou menos a meio caminho entre o Estádio de Alvalade e o Estádio da Luz, antes da pandemia isto era uma visão habitual no meu bairro. 

 

O pior é que isto não afeta só o individual – o nosso último ano, ano e meio teria sido muito mais fácil se assim fosse. Aqueles adeptos podiam não querer saber do coronavírus, mas isso pode não ser verdade para as pessoas que, mais tarde, contactaram com eles. 

 

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Tendo isto em conta, eu tentaria um meio-termo. Como fez a minha irmã: em vez de ir para a confusão do Marquês, ficou no Campo Grande, onde estava menos gente, e esteve sempre de máscara (pelo menos foi o que me disse). 

 

Portanto, se voltarmos a ganhar o Europeu, dificilmente poderemos celebrar sem restrições. Talvez tenhamos mais liberdade do que agora: será daqui a um mês e meio, quase dois meses, mais pessoas estarão vacinadas, talvez a doença esteja mais controlada… mas teremos de ter cuidado à mesma, quase de certeza. 

 

Mesmo antes, acho que não existirão fan zones, como aquela onde fui entrevistada durante o Mundial 2018. Eu tinha ficado com o desejo de ver um jogo de um Europeu ou Mundial desde essa altura – ou pelo menos numa esplanada. Em parte para evitar os meus vizinhos, que me dão spoilers dos golos em jogos desta envergadura. Mas até isso não deverá ser permitido. 

 

E mesmo que o seja… serei capaz de fazê-lo sem medo ou culpa?

 

A vitória no Euro 2016 veio na altura certa por vários motivos – um deles por ter ocorrido quando ninguém sabia ainda o que era um coronavírus. Não havia necessidade de colocar entraves à nossa diversão, pudemos disfrutar como deve ser. Todas estas medidas preventivas – bem como o cansaço psicológico de viver em pandemia – estragam-me um pouco o entusiasmo por este Europeu. 

 

Com um bocadinho de sorte, esse há de crescer à medida que nos aproximamos do Euro. Em todo o caso, fica o desabafo. Passemos à frente.

 

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Acho que ninguém ficou muito surpreendido com a Convocatória para o Euro 2020. Era mais ou menos o que se esperava de Fernando Santos. A grande novidade é a inclusão de Pedro Gonçalves, também conhecido por Pote. Menos de vinte e quatro horas depois de se ter sagrado o melhor marcador da Liga Portuguesa – o primeiro português a consegui-lo desde… Domingos Paciência, que hoje é treinador e tem um filho profissional há já vários anos. 

 

Eu não tinha a certeza de que Pote viria ao Europeu. A sua ausência nos jogos de março deu-me sinais confusos. Fernando Santos explicou que só não chamou Pote em março porque não teria tempo para observá-lo como deve ser. Como vimos na altura, foram três jogos em menos de uma semana, os treinos serviam para muito pouco. 

 

Aceita-se.

 

Não tenho visto grandes objeções a esta lista. Muitos têm contestado a Chamada de William Carvalho, que tem jogado pouco no Bétis. Compreendo as críticas, mas também compreendo que William seja um jogador da confiança de Fernando Santos. Uma incoerência numa lista de vinte e seis não é problemática, na minha opinião – até porque também gosto de William.

 

Quanto à parte de só levar três centrais, aí concordo com a opinião popular: má ideia. Levamos dois centrais que, como diria Manuel José, já são quase avôs. Pepe falhou inclusivamente os dois últimos compromissos da Turma das Quinas por lesão – quem nos garante que ele não se lesiona outra vez, que estamos em fim de época? Fernando Santos diz que outros jogadores, como William ou Palhinha, podem jogar como defesas, se for necessário. Mas não seria mais seguro termos um central de raiz?

 

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Além de que este continua a ser um setor que precisa de sangue novo. Temos o jovem Rúben Dias (que tinha dez anos quando Pepe se estreou na Seleção, quase podia ser filho dele), um dos melhores centrais da Europa atualmente, um dos nossos orgulhos, mas não chega. Se levássemos outro central – por exemplo, Rúben Semedo – matávamos dois coelhos com uma cajadada. A curto prazo, teríamos um central extra. A longo prazo, investíamos no futuro do setor defensivo. 

 

Enfim, tudo isto são problemas menores na minha opinião. Temos um conjunto cheio de talento – vários que foram campeões pelos respectivos clubes, um que chegou à final da Liga Europa e três que estão na final da Liga dos Campeões (é refrescante por uma vez não ser o Ronaldo a chegar atrasado à Cidade do Futebol). Um grupo digno de tentar a revalidação do título. Além disso, Fernando Santos já nos ganhou dois títulos, merece a nossa confiança.

 

Dito isto, para os críticos de Fernando Santos (uns mais legítimos do que outros), esta será a prova dos nove. Aqui o Selecionador não se poderá esconder atrás do “ai e tal, tive pouco tempo para treinar”. Agora é que vamos ver se Fernando Santos é o homem certo no lugar certo ou se o seu tempo já acabou.

 

A preparação começa oficialmente amanhã. Posso ter começado este texto retirando a pressão sobre os ombros dos Marmanjos, mas isso não significa que não quero a Taça – nem que não vou ficar triste se não a conseguirmos. Mesmo que não dê para celebrar da forma que desejo, quero vitórias à mesma. Não vai ser fácil, mas eu acredito na Seleção. Sei que temos capacidade para sobreviver a este grupo difícil – e, dos oitavos-de-final para a frente, tudo é possível. 

 

Vale a pena recordar que serão jogos de muito sofrimento. Repito o conselho que dei em dezembro de 2019: preparem-se (sobretudo se forem do Sporting, o vosso coração já teve a sua dose esta época). Se calhar já não vão a tempo de irem ao cardiologista, mas tentem arranjar receitas para comprimidos de nitroglicerina, para meter debaixo da língua nas alturas mais difíceis.

 

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No que toca a este blogue, não se chegou a confirmar aquilo de que falei no meu último texto: ainda tenho tempo para escrever aqui. No entanto, as coisas deverão mudar à mesma, porque estamos a falar de um campeonato longo de seleções. O Mundial 2018 foi um período muito stressante para mim, tentando conjugar o blogue com um emprego recente. Na altura prometi a mim mesma que, no próximo campeonato de seleções deste género, tiraria pelo menos alguns dias de férias. 

 

O pior é que estou outra vez num emprego novo – ainda não posso tirar férias. Isto não teria acontecido se o Europeu tivesse decorrido na altura certa, maldita pandemia!

 

Assim, mantenho o plano de fazer as coisas de maneira um pouco diferente. Não me vou obrigar a escrever um texto para cada um dos jogos, para começar. Escreverei e publicarei quando conseguir – vou falando sobre os meus planos na página do Facebook. A prazo mais curto, não deverei publicar antes do jogo com a Espanha – jogámos com eles há pouco tempo, não há muito a dizer sobre os espanhóis – a menos que surja algo de interessante nos primeiros dias da preparação. 

 

Como habitual, obrigada pela vossa visita. Estou ansiosa por viver este Europeu na vossa companhia. Esperemos que termine da mesma maneira que o último.

Tédio, roubo e falta de intensidade

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No passado dia 24 de março, a Seleção Portuguesa de Futebol venceu a sua congénere azeri por uma bola a zero. Três dias mais tarde, em Belgrado, empatou a duas bolas com a sua congénere sérvia. Finalmente, no dia 30, venceu a sua congénere luxemburguesa por três bolas a uma. Todos estes jogos contaram para a Qualificação para o Mundial 2022 e, com estes resultados, Portugal conta sete pontos e segue em primeiro da classificação do grupo.

 

Esta foi uma jornada tripla bastante atribulada. Começando pelo primeiro jogo – uma maneira triste e entediante de começar o ano da Seleção. Cheguei a perguntar-me se fora mesmo daquilo que tivera saudades durante semanas – até porque nesse tempo andei a ver os jogos do Sporting com a minha irmã. 

 

Não diria que a Seleção jogou mal. Portugal não comprometeu, não cometeu erros. No entanto, não houve intensidade, não houve inspiração no ataque, nada que entusiasmasse. Ao mesmo tempo, o “Azérbaijão” (o novo “Félich” que me irritou tanto que, na segunda parte, mudei para a SportTV) mal saiu do seu meio campo durante a primeira parte. Mesmo quando conseguiu sair, mais tarde, não chegava a ameaçar a baliza de Anthony Lopes.

 

O resultado disto tudo foi um dos jogos mais enfadonhos de que há memória. É verdade que ganhámos – e não ganhávamos num primeiro jogo de Apuramento há oito anos e meio – mas este é o pior tipo de vitória. Nem sequer tivemos o prazer de festejar um golo. Foi Medvedev a marcar na própria baliza. A única coisa em que este jogo foi melhor que outras estreias em Apuramentos foi mesmo os três pontos.

 

Na altura as reações nas redes sociais a este jogo foram duras. Eu, embora concordasse com o essencial das críticas, achava um exagero. Sim, fora um jogo mau, mas estava longe de ser o pior de sempre da Equipa de Todos Nós – acreditem, eu sei do que falo. Não fazia sentido estar a pôr tudo em causa por um jogo em que ganhámos. Eu sabia que da próxima vez, com um adversário mais estimulante, a coisa correria melhor. Certo?

 

Acho que não se justifica dizer “Errado!”, mas…

 

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O resultado abaixo das expectativas no jogo com a Sérvia desiludiu-me um pouco mais do que o costume porque eu estava a ter um dia bom. Dias bons em tempos de pandemia são raros. Tinha ido dar sangue de manhã – por mera coincidência era Dia Nacional do Dador. Já agora, deem sangue! – estava bom tempo, dera um agradável passeio higiénico, tivera pizza para o jantar. 

 

A boa disposição manteve-se durante a primeira parte. Portugal não foi brilhante, mas dominou o jogo – um alívio após a fraca exibição em Turim. O primeiro golo foi marcado logo aos dez minutos – Bernardo Silva assistiu para a cabeça de Diogo Jota. O segundo golo, aos trinta e cinco minutos, foi idêntico ao primeiro – desta vez com Cédric Soares a assistir. 

 

Ao intervalo sentia-me satisfeita e otimista em relação ao resto do jogo. Os Marmanjos manteriam o nível, mais ou menos, marcariam mais um golo ou, pelo menos, conservariam a vantagem. Reconheço agora que este otimismo era um tudo nada exagerado. O género de engano de alma ledo e cego que já deveríamos saber que a Fortuna não deixaria durar muito.

 

Não cheguei a ver o primeiro golo da Sérvia pois atrasei-me a mudar de canal no fim do intervalo – foi logo aos primeiros minutos. Na altura não me preocupei muito pois continuávamos em vantagem. No entanto, a intensidade da primeira parte desaparecera sem deixar rasto. Pior de tudo, aos sessenta minutos, na sequência de (tenho de reconhecer) uma bela jogada de contra-ataque, os sérvios empataram a partida.

 

Não se pode dizer que Portugal tenha procurado febrilmente regressar à vantagem. António Tadeia é da opinião que, a certa altura, Fernando Santos resignara-se ao empate. No entanto, Portugal chegou a conseguir enfiar a bola na baliza, mesmo no último minuto, a minha irmã até desatou aos guinchos… mas não valeu. 

 

Vamos então falar deste infame momento e da reação de Ronaldo. Um episódio que tem feito correr muita tinta digital e, à boa maneira das redes sociais, as discussões chegaram a extremos ridículos. 

 

 

Deixo aqui o meu contributo para o debate. Para começar, sim, o golo era legal – dá para ver no vídeo acima – custou-nos dois pontos. Não culpo os árbitros, são humanos. É para compensar as suas limitações que existe o vídeo-árbitro e a tecnologia da linha de golo… que, no entanto, continuam a não ser usadas nas fases de Apuramento porque… razões.

 

Já não é a primeira vez que a falta de VAR, passe a expressão, nos lixa. A outra vez foi há dois anos, mais dia menos dia, por sinal também frente à Sérvia, também num segundo jogo de Apuramento. Estive a ouvir a Conferência de Imprensa depois do jogo e tive um dejá-vu quando Fernando Santos disse que o árbitro lhe pedira desculpa. 

 

Nos dias seguintes a FIFA chutou as responsabilidades para a UEFA, a UEFA chutou as responsabilidades para as federações dos países que organizam os jogos – qualquer coisa sobre a federação do país-anfitrião ter de pedir licença à federação do país visitante para implementar a tecnologia da linha de golo. 

 

O que a mim cheira a treta. Haverá alguma federação que recuse as tecnologias? 

 

Para juntar achas a esta fogueira, ao pesquisar para este texto, encontrei notícias de finais de 2019 que indicam que a UEFA aprovou o VAR para os jogos de Qualificação, estava só à espera da luz verde da FIFA. Porque é que não passou da decisão à prática? A FIFA não autorizou e, agora, está a mentir? A FIFA autorizou mas a UEFA “esqueceu-se” de implementar a tecnologia?

 

Não faz sentido. 

 

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Regressando ao momento do golo, não gostei nada da reação de Ronaldo. Sim, foi uma reação humana, no calor do momento, não serei eu a atirar a primeira pedra – se bem que, da última vez que tive uma reação semelhante (também a propósito do jogo com a Sérvia na Luz) estava mais cafeínada que o costume. Sei também que Ronaldo é daquelas pessoas que tem mau génio, tem sempre as emoções à flor da pele, sente tudo – sobretudo no que toca àquilo que adora, o futebol – não é capaz de esconder nada.

 

Ainda assim… Ronaldo tem trinta e seis anos. Está no futebol profissional há quase duas décadas. Este não foi o primeiro nem o segundo caso de má arbitragem que ele testemunhou e é possível que não seja o último. Ele não devia ter mais controlo sobre si mesmo nesta altura do campeonato?

 

Quanto ao facto de ter atirado com a braçadeira de Capitão… não foi bonito, não foi correto, percebo que algumas pessoas tenham ficado incomodadas com o gesto. No entanto, não acho que tenha sido intencional. Era o que estava à mão. Se ele tivesse um apito ao pescoço ou o telemóvel no bolso, teriam sido esses objetos a voar. 

 

Na verdade, o que me irritou neste episódio é que Ronaldo foi reclamar com o árbitro quando o jogo ainda estava a decorrer. Não houve pausa, tirando alguns segundos depois. Bernardo Silva tentara a recarga. Ronaldo podia ter adiado a birra por um minuto ao dois e ter ficado em campo com ele e os colegas tentando não desperdiçar a jogada. Talvez ele (ou outro qualquer) tivessem conseguido marcar, teríamos agora nove pontos e a conversa hoje seria outra. 

 

Um dos argumentos que tem circulado por aí é que Ronaldo adora a Seleção, adora marcar golos (e tem andado algo ansioso com isso), leva-o a peito, daí essa reação. Eu respeito isso, admiro-o, mas este caso pedia um pouco menos amor e um pouco mais juízo. 

 

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Além disso, sejamos sinceros, se fosse uma mulher a fazer uma birra daquelas, as críticas seriam muito mais duras. Veja-se o que aconteceu com Serena Williams

 

Adiante. Apesar de nos terem roubado a vitória, não se pode dizer que tenhamos feito o suficiente para merecê-la. É claro que “merecer” é relativo: no futebol ganha-se marcando golos e não seria a primeira vez que Ronaldo faria de Deus Ex Machina. Ainda assim, estivemos a ganhar por 2-0 e perdemos essa vantagem. Não foi só culpa do árbitro. 

 

Havemos de falar sobre as falhas da Seleção mais à frente. Antes, o jogo com o Luxemburgo. 

 

Depois da turbulência dos jogos anteriores, só queria uma vitória tranquila. Não precisava de ser uma grande exibição: apenas um jogo sem stress, três pontos ganhos sem grandes complicações, sem dar motivos para polémicas. 

 

Era bom, não era? Aqueles Marmanjos… 

 

Péssima primeira parte, péssima. Uma vez mais, faltou agressividade, faltou concentração. Como diria o próprio Fernando Santos, Portugal estava a jogar a passo, uma espécie de peladinha. Enquanto isso, o Luxemburgo vinha catalisado pela vitória perante a República da Irlanda (!). Com os luxemburgueses entusiasmados e os portugueses apáticos, quem é que acham que marcou primeiro? 

 

 

Só quando deram por si em desvantagem é que os portugas acordaram para a vida. Bernardo Silva passou para o meio, Pedro Neto rendeu o lesionado João Félix. Portugal começou a jogar melhor. Finalmente, em cima do intervalo, Pedro Neto assistiu para Diogo Jota marcar de cabeça. 

 

Dias mais tarde, Jota marcaria da mesma forma pelo Liverpool. Quatro golos de cabeça no espaço de uma semana. O miúdo deixa-me sem palavras. Ninguém diria que esteve três meses lesionado – parece, aliás, que Jota passou esse tempo a treinar cabeceamentos!

 

Depois do intervalo, aos cinquenta minutos, Cristiano Ronaldo colocou Portugal em vantagem, após assistência de João Cancelo. Antes do jogo, eu tinha previsto que ele ia marcar – já são muitos anos, sei como ele funciona. 

 

Acertei… mas acho que todos concordamos que o enguiço ainda não passou por completo. Veja-se a oportunidade dupla que ele desperdiçou aos setenta e oito minutos (após outro período mais apagado da Seleção). Ronaldo não costuma falhar estas. 

 

Algo que é em simultâneo uma vantagem e uma desvantagem da Equipa de Todos Nós é não acompanharmos diretamente o seguimento de momentos específicos das carreiras dos jogadores. Depois das jornadas os Marmanjos regressam aos clubes e, quando voltam à Seleção, as suas histórias já estão num capítulo completamente diferente. Pode ser que Ronaldo já tenha recuperado o faro para o golo quando começarmos a preparar o Europeu.

 

 

Regressando ao jogo contra o Luxemburgo, Portugal conseguiu ampliar a vantagem a dez minutos do fim – com um golo de João Palhinha, na sequência de um canto cobrado por Pedro Neto. Espero que o tenham visto mais tarde, nas entrevistas rápidas: os olhos de Palhinha até brilhavam, estava tão feliz!

 

Ele e o outro estreante, o Nuno Mendes, estiveram muito bem nesta tripla jornada. O segundo em particular, como li algures, tem dezoito anos, mas joga como se tivesse sido internacional a vida toda. Veja-se a assistência dele para o golo não validado de Ronaldo. 

 

Este jogo com o Luxemburgo fez-me lembrar o de 2012, com o mesmo adversário. Nesse também começámos mal, com o Luxemburgo a marcar primeiro. Também conseguimos empatar antes do intervalo, também chegámos à vantagem no início da segunda parte. 

 

Na minha opinião, o jogo de 2012 foi pior – nessa altura, a seleção do Luxemburgo estava menos profissionalizada do que hoje. Ainda assim, a Turma das Quinas está melhor fornecida agora, tem capacidade para melhor.

 

O que me leva ao denominador comum aos três jogos deste compromisso: a falta de intensidade, de concentração. As redes sociais têm colocado as culpas em Fernando Santos, porque é isso que o povo faz. No entanto, tirando algumas decisões, não acho que a culpa seja dele. 

 

A falta de tempo de qualidade com os jogadores é um argumento tão velho como, se calhar, o próprio conceito de seleção nacional mas, para sermos justos, esta é apenas a terceira jornada tripla – e a primeira em que os três encontros são a doer. Foram três jogos em menos de uma semana! Segundo Fernando Santos, entre viagens e jogos, os treinos servem apenas para recuperação, não propriamente para treinar. E suponho que, nesta fase da época, isso pese mais aos jogadores que em outubro ou novembro. 

 

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Há um par de anos talvez torcesse o nariz a essa desculpa. No entanto, se formos a ver, houveram outras seleções com resultados menos bons. A França empatou com a Ucrânia – os ucranianos não são nenhuns bananas, nós mesmos o descobrimos, mas a França sempre os goleou em outubro último – a Holanda perdeu contra a Turquia, a Espanha empatou com a Grécia e, mais chocante de todas, a Alemanha perdeu com a Macedónia do Norte!

 

Tendo isto em conta, os nossos resultados nesta tripla jornada não foram assim tão maus. E não são, mesmo em circunstâncias melhores, como veremos já a seguir. Não será apenas coincidência termos várias seleções de topo com resultados abaixo das expectativas. Alguma coisa se passa e deve ter mesmo que ver com o calendário atual das seleções.

 

Não sou a melhor pessoa para falar disso, mas penso ter lido alguém sugerindo dedicarem um mês, um mês e meio, às fases de Qualificação. Mais ou menos como fazem com os Europeus e Mundiais. Teria a grande desvantagem de aumentar os hiatos entre concentrações da Seleção, mas as vantagens seriam maiores. Os selecionadores teriam mais tempo de seguida para trabalhar com os jogadores e criarem rotinas, logo, a qualidade do futebol aumentaria. Em relação aos clubes, talvez fosse menos prejudicial abdicarem dos jogadores apenas uma ou duas vezes por época, mesmo que durante várias semanas, do que abdicarem-no várias vezes ao ano, por vezes em alturas críticas dos campeonatos. 

 

A hipótese devia ser discutida, no mínimo. 

 

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Nessa linha, concordo com António Tadeia quando diz para guardarmos as pedras para Fernando Santos para depois do Europeu. Será mais adequado avaliarmos as competências do Selecionador quando este tiver oportunidade para trabalhar como deve ser com os Marmanjos.

 

Por agora, apesar das controvérsias todas, do drama, no fim do dia o que conta são os resultados, são os pontos. E a verdade é que estes não são assim tão maus. Como disse antes, foi a primeira vez em oito anos e meio que ganhámos o primeiro jogo da Qualificação. Ainda mais tempo passou, nem sei bem quanto, desde a última vez que conseguimos tantos pontos nos três primeiros jogos de Qualificação – tanto quanto me lembro, tem havido quase sempre um jogo que perdemos ou dois empates. 

 

É claro que nove pontos seriam melhores que sete – ainda não é desta que fazemos uma Qualificação imaculada. Além disso, só conseguimos o Apuramento direto se ficarmos em primeiro lugar. Estamos em primeiro agora, mas a margem de erro não é larga.

 

Eu no entanto estou confiante. Como dei a entender, já nos Qualificámos em circunstâncias mais difíceis. Não há nenhum motivo para falharmos agora. 

 

Mas para já a Qualificação ficará em pausa até setembro. Quando a Seleção se reunir de novo será para preparar o Europeu.

 

Devo avisar que ainda não sei como irei cobrir o Euro 2020 neste blogue. Mudei recentemente para um emprego que me vai roubar tempo de escrita. Ainda não sei ao certo quando, mas será muito difícil eu conseguir escrever uma crónica para cada jogo, ou pares de jogos. Se o blogue não ficar completamente parado durante o Europeu – algo que quero evitar a todo o custo – os textos terão quase de certeza um formato diferente. 

 

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Fico um bocadinho triste, mas sempre soube que isto iria acontecer. Mais cedo ou mais tarde, deixaria de ter a mesma disponibilidade para este blogue. Por outro lado, para ser sincera, às vezes fico um pouco farta da fórmula atual destas crónicas. Talvez uma mudança não seja assim tão má. 

 

Em todo o caso, na pior das hipóteses, se não conseguir voltar cá, fico satisfeita por ter aguentado durante tanto tempo (quase treze anos!) e por ter apanhado tantos momentos felizes. Destaque óbvio para os nossos primeiros dois títulos. 

 

Além disso, vou continuar na página do Facebook – as minhas postas de pescada em torno da Seleção não vão desaparecer por completo das internetes. Não é o meu formato preferido, mas é melhor do que nada. Também servirá para vos manter atualizados em relação a futuros planos para este blogue.

 

Aconteça o acontecer, como sempre, muito obrigada pelas vossas visitas. Até uma próxima!

Primavera

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Na próxima quarta-feira, dia 24 de março, a Seleção Portuguesa de Futebol recebe a sua congénere azeri em casa emprestada, no Estádio de Turim. Três dias mais tarde, defrontará a sua congénere sérvia, no Estádio Estrela Vermelha, em Belgrado. Três dias depois desse, será recebida na cidade do Luxemburgo pela seleção local. Todos estes jogos contarão para a Qualificação para o Mundial 2022, que terá lugar no Qatar.

 

Cá estamos nós outra vez, quatro meses depois da última jornada tripla de Seleção. Já tinha saudades. Este ano, o regresso coincide com a primeira fase do segundo desconfinamento – e estes dois eventos coincidem com o início da primavera. 

 

Nos últimos anos, a primavera tem sido a minha estação do ano preferida. Os dias mais compridos, o tempo mais ameno (nem demasiado frio nem demasiado calor), flores silvestres em todo o lado. No ano passado, a primavera foi boicotada pelo primeiro confinamento e pelo adiamento dos jogos da Seleção. Este ano está a acontecer o exato oposto. 

 

Por isso sim, estes jogos vêm em boa altura, num momento em que a vida em geral parece um bocadinho melhor – por enquanto. Por outro lado, da última vez que usei metáforas sazonais neste blogue, estas viraram-se contra mim.

 

Fernando Santos divulgou os Convocados para este triplo compromisso na passada terça-feira, dia 16. Não houve grande contestação – pelo menos não de início. Os sportinguistas Nuno Mendes e João Palhinha são as novidades – merecidamente, pelo seu contributo para o excelente desempenho do Sporting esta época. (Espero que seja este ano que o clube finalmente ganhe o campeonato, que a minha irmãzinha sportinguista já o merece há muito tempo.) No entanto, Pedro Gonçalves, também conhecido por Pote, ficou de fora – foi Chamado para os Sub-21.

 

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Suponho que haja muita concorrência para a posição dele. Não estava à espera, por exemplo, que Diogo Jota fosse Convocado, vindo ele de uma lesão. No entanto, ele marcou no jogo contra o Wolverhampton e também não dá para ignorar o seu histórico recente pela Equipa das Quinas. 

 

Isto são problemas de equipa grande: podermos dar-nos ao luxo de deixarmos o melhor marcador da Liga Portuguesa nos Sub-21. Dito isto, todos concordamos que será uma questão de tempo até Pote vir aos séniores. 

 

Maior controvérsia ocorreu nos últimos dias. Pepe lesionou-se no último jogo do F.C. Porto e vai falhar o compromisso da Seleção… outra vez (Porquê, Pepe?!? Tiveste quatro meses para te lesionares…). Para o seu lugar foi Chamado o sportinguista Luís Neto. 

 

O problema é que Neto tem estado no banco. No seu lugar tem jogado Gonçalo Inácio, de dezanove anos, que até tem estado em ascensão, marcou no último jogo… mas nem para os Sub-21 foi Convocado. 

 

Pelo menos nesta concordo com as críticas. Podiam dar uma oportunidade ao miúdo! Até porque continuamos a precisar de rejuvenescer a defesa. Por outro lado, Luís Neto já conta pelo menos algumas Chamadas à Seleção – se calhar Fernando Santos prefere experiência. 

 

Para além de Luís Neto, também regressa Rafa e André Silva – que está num momento excelente, conta vinte e um golos na Bundesliga. Continua a não faltar talento na nossa Seleção. Há que aproveitar.

 

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Num registo diferente, Rui Patrício chegou a constar da Convocatória inicial, mesmo tendo sofrido um traumatismo craniano na véspera. Infelizmente, no sábado descobriu-se que Rui não recuperaria a tempo e Chamou José Sá para o seu lugar.

 

Depois do susto que Rui nos pregou, não me queixo desta substituição. Deixem-no descansar, coitado. Anthony Lopes e os outros darão conta do recado – e também merecem uma oportunidade para mostrarem o seu valor. Uma coisa que descobri é que é a primeira vez em quase uma década que Rui falha um jogo de Apuramento – é uma das nossas constantes, ainda mais que Pepe ou Cristiano Ronaldo.

 

Vamos então começar a Qualificação para o Mundial 2022. Ainda me é estranho começar uma fase de Apuramento em março em vez de setembro (é apenas a segunda vez). Ainda mais estranho é começar uma fase de Qualificação para um campeonato de seleções quando o anterior ainda não se realizou. Mais um sinal dos estranhos tempos que vivemos.

 

Fernando Santos diz, no entanto, que não quer ninguém a falar ou sequer a pensar no Europeu durante esta jornada tripla. É o mais sensato, para manter a concentração.

 

Até porque a Turma das Quinas tem a mania de tropeçar no início das fases de Qualificação. A última vez que ganhámos num primeiro jogo de Apuramento foi em 2012 – há não muito menos que uma década. E foi frente ao Luxemburgo! E mesmo assim não foi grande coisa!

 

Como desta vez vamos abrir o Apuramento com o Azerbaijão, os Marmanjos terão de se esforçar para não ganharem… e no entanto esta Seleção por vezes tem uma queda infeliz para a auto-sabotagem, sobretudo em fases de Qualificação. Mesmo que até se vença o primeiro jogo, podemos não vencer o segundo…

 

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Os azeris são velhos conhecidos nossos, ainda que não joguemos com eles há quase exatamente oito anos, mais dia menos dia. O histórico é favorável a nós, de caras: tirando um empate em 1999, têm sido só vitórias. Os últimos dois jogos decorreram durante a atribulada, e por vezes caricata, Qualificação para o Mundial 2014. 

 

Não há muito a dizer sobre o primeiro jogo, em casa – ganhámos por 3-0. No entanto, depois desse encontro, não tornaríamos a ganhar uma vez que fosse até reencontrarmos os azeris, em Baku. mesmo esse jogo não foi nada por aí além – vitória por 2-0, mínimo dos mínimos. Mas na altura achei que seria um ponto de viragem na fase de Qualificação.

 

E não me enganei. Tirando um (outro) tropeção perante Israel, ganhámos os jogos que faltavam e tivemos os inesquecíveis play-offs perante a Suécia.

 

A propósito da crónica do jogo de Baku, a música que referi nesse texto? Que na altura só se conhecia um excerto? Last Hope, dos Paramore? Hoje é uma das minhas preferidas de todos os tempos. 

 

Os dois adversários seguintes são repetidos da Qualificação anterior. É o problema destes campeonatos: o número de possíveis adversários é limitado, de tanto em tanto tempo há reencontros. Além disso, pela maneira como os grupos são sorteados, são sempre adversários de qualidade média/baixa (com as devidas exceções, claro), pouco estimulantes e perante os quais, demasiadas vezes, complicamos sem necessidade. 

 

E há quem reclame da Liga das Nações. 

 

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Dito isto, confesso que até saberá bem termos uns jogos mais fáceis, entre competições cheias de tubarões. Para não stressar demasiado. 

 

Não vale a pena alongar-me muito sobre estes dois adversários, então. Dizer apenas que o jogo com a Sérvia terá lugar em Belgrado, o que apresenta um problema. Os clubes franceses avisaram que não vão libertar os internacionais que realizem jogos de seleções fora da União Europeia e do Espaço Económico Europeu – as autoridades de saúde francesas obrigá-los-iam a ficar de quarentena durante uma semana. 

 

Até aqui compreende-se. A FIFA deu esse poder aos clubes. Não gosto, mas compreendo. É por isso que o nosso jogo “em casa” com o Azerbaijão terá lugar em Turim – porque metade da Seleção atual joga em Inglaterra e o Reino Unido obriga pessoas vindas de Portugal a cumprir quarentena.

 

O que me irrita nesta história é a regra não se aplica à seleção francesa. A França vai jogar contra o Cazaquistão, mas os clubes franceses não podem impedir os seus jogadores de representarem os Campeões do Mundo. Claro que não! Regras como estas são para os simples mortais, não são para a motherfucking França! Alguma vez a FIFA ou a UEFA fariam isso aos franceses? É que nem sequer surpreende. 

 

Percebem a raiva que às vezes tenho à seleção francesa?

 

Pode ser que mudem as regras entretanto mas, à hora desta publicação, parece certo que Marmanjos como José Fonte e Renato Sanches não poderão ir para Belgrado. Fico à espera de saber como irá Fernando Santos gerir essa situação.

 

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Em relação ao Luxemburgo, dizer apenas que foi o nosso último adversário antes do hiato imposto pela pandemia. Cheguei a ressentir-me desse jogo por isso. Por ter tido de ver a primeira parte no meu telemóvel, por não ter sido grande coisa em termos exibicionais, por não merecer ser a recordação mais recente que tinha da Equipa de Todos Nós durante quase um ano. 

 

Mas felizmente, por estes dias, a Seleção continuará a jogar, a criar novas recordações. No que toca ao jogo com o Luxemburgo, este terá lugar no mesmo terreno. Espero que esteja em melhor estado que da última vez, mas tenho as minhas dúvidas. Não esperemos um jogo de grande qualidade exibicional – os últimos dois em casa do Luxemburgo não o foram.

 

Que seja desta que comecemos uma Qualificação com o pé direito, para variar. Que tenhamos um Apuramento mais ou menos tranquilo, sem complicações, em primeiro – para evitarmos um cenário como o da fase de grupos do Euro 2020. Além de que golos e vitórias da Seleção sabem sempre bem, mesmo que as exibições nem sempre satisfaçam.

 

Vou tentar desfrutar, então. Façam-no comigo, quer aqui no blogue, quer na sua página de Facebook. Como sempre, obrigada pela vossa visita.

Lá se vai

01.pngNo passado dia 11 de novembro, a Seleção Portuguesa de Futebol venceu a sua congénere andorrana por sete bolas sem resposta, em jogo de carácter particular. Três dias depois, a Seleção Portuguesa perdeu contra a sua congénere francesa pela margem mínima, ficando assim afastada da final four da Liga das Nações. Três dias depois desse jogo, a Seleção venceu a sua congénere croata por três bolas contra duas. 

 

Bem, lá se vai um dos nossos dois únicos títulos. 

 

Comecemos pelo início. Nesta jornada tripla saiu-me a fava no que toca a horários de trabalho: saí às oito da noite nos dias dos dois jogos que decorreram durante a semana. Como na jornada tripla anterior saí sempre a tempo de ver os jogos – e como os dois jogos em questão foram pouco interessantes – não foi grave.

 

No dia do jogo com a Andorra, tive o duplo “azar” de a minha mãe fazer anos e irmos jantar fora (éramos apenas quatro e todos do mesmo agregado familiar). No caminho, ou seja durante a primeira parte, fui ouvindo o relato na rádio. O restaurante, infelizmente, não tinha televisão. Ainda liguei o meu telemóvel no RTP Play, mas mal olhava para ele. Acabei por desligá-lo, pois estava a ficar sem bateria e estava mais interessada na refeição e na conversa. Ou seja, mal acompanhei o jogo.

 

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Aparentemente não perdi nada por aí além. O onze inicial foi muito diferente do que fora a regra nos jogos anteriores. Uma das melhores coisas deste jogo foi o facto de os dois estreantes, tanto em Convocatórias como em internacionalizações, terem marcado. Parece que isso não acontecia há mais de cinquenta anos. Pedro Neto, o mais novinho, abriu o marcador depois de uma bonita jogada. Paulinho bisou – marcou em ambas as partes do jogo.

 

Só na segunda parte é que entraram titulares habituais, como Cristiano Ronaldo, João Félix, Diogo Jota. Segundo dizem, Ronaldo estava impaciente por marcar – não admira, ele quer atingir o recorde de Ali Dalei – e os colegas tentaram ajudá-lo. Neste tipo de jogos, que não contam para nada, não faz mal. É mais uma prova do bom ambiente entre os Marmanjos. Além disso, lembro-me de, algures em 2004, num jogo contra o Luxemburgo, Ronaldo devia ter marcado um penálti mas ofereceu-o a Pedro Pauleta, que na altura estava atrás do recorde de Eusébio. 

 

Infelizmente Ronaldo devia estar menos inspirado que o costume. Só marcou um golo. Foi melhor assim, para que ninguém diga que ele só marca a equipas pequenas. Ele há de chegar lá, mais cedo ou mais tarde.

 

Não me arrependo de não ter visto o jogo como deve ser. Eram os anos da minha mãe e, se havia jogo que se podia não ver era este. Fernando Santos nem sequer queria disputá-lo. À hora desta publicação, provavelmente só os estreantes Pedro Neto, Paulinho e Domingos Duarte se recordam dele. 

 

Dito isto, não consegui deixar de ter pena por não ter visto este jogo. Se a Seleção joga, mesmo a feijões, mesmo perante equipas como a Andorra, eu quero ver. Mas às vezes não dá. 

 

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Suponho que agora tenha de escrever sobre o jogo com a França. Lá terá de ser. Não sei se alguma vez o referi aqui, mas custa-me mais escrever sobre jogos que correm mal do que sobre jogos que correm bem. Foi o que aconteceu com este. 

 

Antes de mais nada, em defesa dos Marmanjos… sabíamos que ia ser difícil. Eu mesma o referi na habitual nota pré-jogo na página de Facebook deste blogue. Era a França! Como tenho dito várias vezes aqui no blogue, era a atual Campeã do Mundo e uma das nossas maiores bestas negras. 

 

Aliás, para não estar sempre a escrever o mesmo, vou passar a escrever apenas, passe a expressão, “a motherfucking França. Por favor, considerem que a parte dos Campeões do Mundo e bestas negras ficam implícitos no “motherfucking”. Já devia ter adotado esta expressão há mais tempo… 

 

Dizia eu que era a motherfucking França e que sabíamos que era uma tarefa hercúlea. Ainda assim, acho que estávamos todos à espera de um bocadinho mais, sobretudo depois de até termos feito um bom jogo em Paris

 

Já aí vamos. 

 

Na primeira parte quase só deu França. Portugal parecia incapaz de segurar a bola. Muitos acusaram a Seleção de ter jogado à defesa, “para o empate”, mas pode-se sequer dizê-lo quando os franceses chegavam à nossa grande área sem dificuldade nenhuma? 

 

 

Ia-nos valendo Rui Patrício, imperial como já nos habituou há anos. Numa das primeiras defesas que ele fez, por exemplo, a um remate de Anthony Martial isolado por Antoine Griezmann, eu já dava o golo como marcado. Numa das últimas da segunda parte, também a uma iniciativa de Martial, Patrício acabou mesmo lesionado numa zona sensível (a minha irmã disse mesmo “Ficou infértil”). 

 

Aparentemente, ao intervalo Fernando Santos considerava o zero-zero um bom resultado, tendo em conta o que se sucedera na primeira parte. Não estava errado… mas não havia grandes motivos para festejos, na minha opinião. Todas as belas defesas de Rui Patrício resultaram de confrontos de um para um, avançado versus guarda-redes, que deviam ter sido evitados pelos outros jogadores. Patrício não podia fazer tudo sozinho. 

 

Teríamos defendido melhor com Pepe? A minha opinião vale o que vale, mas acho que sim. No entanto, Pepe vai a caminho dos trinta e oito, a médio/longo prazo não é viável estarmos sempre dependentes dele. 

 

Não posso, assim, dizer que o golo sofrido ao início da segunda parte (apesar de até termos reentrado bem depois do intervalo) tenha sido uma surpresa. Quem anda à chuva molha-se – e, parecendo que não, Rui Patrício é humano. 

 

Portugal passou o resto do jogo a correr atrás do resultado. Fernando Santos, não tendo já nada a perder, colocou a carne toda no assador: Diogo Jota, Trincão, Paulinho… João Moutinho entrou muito bem. Até pareceu que Portugal estava a dominar, finalmente acordado para a vida… mas a França já tinha tirado o pé do acelerador, soube ser fria e defender o resultado. O marcador não se alterou até ao final do jogo. 

 

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A França foi melhor. É tão simples quanto isso. Podíamos ter feito melhor? É difícil avaliar. Nas redes sociais acusaram a Seleção de jogar à defesa, para o empate – levando Fernando Santos a responder à letra. Vários comentadores, como António Tadeia, defendem que o problema estava no meio-campo, sem comparação com o francês. Provavelmente têm razão. 

 

Eu ainda assim (e, uma vez mais, a minha opinião vale o que vale) acho que, mesmo que tivéssemos feito tudo bem, dificilmente teríamos ganho. Talvez conseguíssemos o empate a zeros… A França não é Campeã do Mundo por acaso. 

 

Havemos de regressar ao jogo com a França. O jogo com a Croácia, três dias depois, era suposto ser um jogo para o orgulho, para provar que o que acontecera no sábado fora apenas um deslize. Fernando Santos veio com essa conversa na antevisão do jogo e Rúben Dias, que o acompanhou, afinou pelo mesmo diapasão. 

 

Por aquilo que fez no jogo, acredito que Rúben estava a ser sincero. Mas, apesar da vitória, não sei se este jogo ajudou a limpar a imagem deixada três dias antes. 

 

Tal como já tinha dito, no dia do jogo saí do trabalho às oito, logo, só consegui acompanhar a primeira parte (e, mesmo assim, não toda) pela rádio. Só houveram golos portugueses na segunda parte, quando eu já tinha acesso a uma televisão, o que foi simpático. Por outro lado, segundo o Record, o relato dos golos por José Pedro Pinto, da Antena 1, impressionou os jornalistas croatas – o que me deixou com pena se não ter podido ouvir. 

 

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Diz que os portugueses até não entraram mal na partida, se bem que com pouca agressividade. O mau estado do relvado não ajudou. Acabou por ser a Croácia a chegar à vantagem, perto da meia hora de jogo. O Rúben Semedo tentou cortar um passe na grande área, falhou, deixando Mario Palasic assistir para Mateo Kovacic. Rui Patrício ainda defendeu o primeiro remate, mas na recarga não pôde fazer nada. 

 

Em defesa de Semedo, ele não foi o único a cometer fífias destas neste jogo. 

 

A segunda parte começou melhor para Portugal – sobretudo quando Rog foi expulso e a Croácia se viu reduzida a dez. Ronaldo cobrou o livre resultante dessa falta. O guarda-redes Livakovic fez uma defesa incompleta. Rúben Semedo tomou controlo da bola e assistiu para Rúben Dias, que se estreou a marcar pela Seleção.

 

Portugal acabaria por chegar à vantagem com um golo que, noutras circunstâncias, teria sido anulado – Diogo Jota ajeitou a bola com a mão antes de assistir para João Félix. Porque é que não há VAR na fase de grupos da Liga das Nações? A tecnologia já não é nova, está disponível em praticamente todas as competições, qual é a lógica de deixá-la de fora? Se eu estivesse do lado dos croatas – e, para ser justa, se eles estivessem mais dependentes do resultado para não descer de divisão – estaria fula.

 

De qualquer forma, os croatas não ficaram em desvantagem durante muito tempo. Kovacic tornou a marcar, numa jogada em que, uma vez mais, a defesa portuguesa ficou mal na fotografia. 

 

Felizmente conseguimos regressar à vantagem, mesmo ao cair do pano, num lance caricato. Na sequência de um canto nosso, Livakovic conseguiu agarrar a bola mas deixou-a cair depois de chocar com um colega de equipa. Rúben Dias agarrou a oportunidade e bisou.

 

 

Consta que esta foi a primeira vez em vinte e um anos que um central bisa pela Seleção – o que me surpreendeu, pois até temos tido vários centrais marcando golos nos últimos anos. O Bruno Alves teve uma fase bastante goleadora. Antes disto, era capaz de jurar que houve pelo menos uma ocasião em que ele bisou. Pelos vistos estava enganada. 

 

Espero que o Rúben Dias dê os mesmos passos que Bruno Alves e Pepe. Neste momento é apenas um jovem, fazendo os primeiros jogos pela Seleção, marcando os primeiros golos. Mas, se tudo correr bem, daqui a uns anos será um líder.

 

Em suma, longe de deixar uma melhor imagem em relação ao jogo anterior, este encontro teve a qualidade exibicional de um particular. Destaquem-se os erros defensivos de ambas as equipas. 

 

Não é dramático, atenção. O jogo valia pouco, sempre era a atual vice-campeã do Mundo (com todas as atenuantes) e, se é para cometer erros, para marcar e sofrer golos ilegais, que seja em jogos com este.

 

Ainda assim, depois da conversa de Fernando Santos e Rúben Dias na véspera, estava à espera de mais. O Selecionador esteve, aliás, invulgarmente crítico depois do jogo. Ninguém percebeu a parte do “jogar bonitinho”, mas percebe-se se o desagrado dele foi por nem todos os Marmanjos terem levado o jogo a sério. 

 

Eu também não gostei. Por outro lado, não vou dizer que não compreendo, ou mesmo que não fizesse o mesmo no lugar dos jogadores. Era o último jogo de uma jornada tripla, que não contava para nada, após uma viagem longa, num terreno mais indicado para plantar batatas do que para jogar futebol. Vinham de uma derrota desmoralizadora. Por fim, por estes dias, já quase toda a gente se esqueceu deste jogo. 

 

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Em suma, um Marmanjo não é de ferro. Não acho que se justifique censurá-los por esta (a história é diferente com o jogo com a França). Parece-me também que, se não fosse o jogo anterior, Fernando Santos não teria sido tão duro. O Selecionador desejava ter um treino no dia seguinte, poder continuar o trabalho com a Seleção. Não dá – os próximos jogos serão daqui a quatro meses. Nessa altura já muito terá mudado, a atitude será completamente diferente.

 

Não vou mentir, esta jornada tripla soube-me a pouco. Depois de ter passado a crónica anterior enchendo vários jogadores portugueses de elogios… Não me orgulho disso, mas por estes dias, quando os Marmanjos se saem bem e marcam golos pelos seus clubes, sinto-me um bocadinho ciumenta, aziada por termos visto muito pouco disso nos jogos da Seleção. 

 

A derrota perante a França foi uma desilusão. Roubou-nos a possibilidade de defender o título. Ninguém gosta de fracassar – muito menos uma Seleção que não falhava fases finais desde que a minha irmã nasceu, há vinte e três anos. 

 

É certo que estes são moldes muito diferentes de uma qualificação para um Europeu ou Mundial. Temos um grupo de seleções teoricamente ao mesmo nível que nós, em vez de haver uma estratificação. Só quatro seleções é que passam. Na primeira edição tivemos a vida facilitada, num grupo com apenas dois adversários. Agora calhou-nos a motherfucking França.

 

A parte mais dura é que, ao contrário do que quase acontece em todos os apuramentos para Mundiais ou Europeus, não se pode dizer que tenha sido um fracasso por auto-sabotagem. Até ao jogo com a França estávamos a fazer tudo bem nesta fase de grupos, até mesmo nos particulares. Bastou um jogo mau para ir tudo por água abaixo. 

 

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É duro mas não é dramático. Ao contrário do que as redes sociais deram a entender, não passámos de bestiais a bestas de um dia para o outro. E, tal como Fernando Santos apontou, é impressionante a maneira como, há um par de anos, estava toda a gente nas tintas para a Liga das Nações mas, agora, toda a gente quer a cabeça do Selecionador. 

 

É um fracasso, um fracasso doloroso. Temos de perceber o que correu mal, de aprender com os erros – até porque vamos voltar a cruzar-nos com os nossos amigos franceses em breve. Mas esta não é a altura para colocar tudo em causa. 

 

Eu pelo menos não vou colocar tudo em causa. Vocês sabem que tenho um viés favorável às Quinas, costumo ter boa vontade para com a Seleção. Mas já a acompanho há muitos anos e, sinceramente, já passámos por bem pior. Estou desiludida mas não é isto que me tira o sono – muito menos no ano da desgraça de 2020!

 

Agora só temos jogos da Seleção daqui a quatro meses, conforme já tinha referido antes. Confesso que me custa um bocadinho – parece que foi ainda há pouco tempo que a Equipa de Todos Nós regressou após meses e meses e, agora, fica outra vez em pausa. 

 

Serão os primeiros jogos da Qualificação para o Mundial 2022 (meu Deus, já estamos de olhos no Mundial do Qatar!). O sorteio dos grupos realiza-se no dia 7 de dezembro. Não quero especular sobre esse sorteio – só espero que não seja um grupo demasiado fácil. É nesses que a coisa dá para o torto.

 

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Como este ano só houveram jogos no outono, não vou escrever a habitual retrospetiva de fim de ano. O que escreveria? O melhor do ano? A fase de grupos da Liga das Nações estava a correr bem até ter corrido mal? O pior? Por onde começar? O adiamento do Europeu? O Ronaldo apanhando Covid e toda a gente com medo de um surto na Seleção? O fracasso aos pés da França?

 

Não, não vale a pena.

 

O pior é que isto significa que este blogue também vai ficar em pausa durante estes quatro meses. Disso tenho pena. Mas pode ser que, quando nos encontrarmos de novo, as coisas estejam melhores que agoa. Pode ser que já estejam a dar uma vacina para o Coronavírus (eu acho que as previsões atuais são demasiado otimistas, no entanto) ou, pelo menos, que os jogos tenham público outra vez – estou convencida de que o jogo com a França nos teria corrido melhor se nós, os adeptos, tivéssemos estado lá. 

 

Assim, deixo já os meus votos de boas festas e boas entradas em 2021 – dentro do possível com a pandemia. Cuidem de vocês mesmos, usem máscaras, lavem as mãos, respeitem as ordens de confinamento. Vão visitando a página do Facebook daqui do blogue. Saúde, ânimo (incluindo para mim mesma). Até à próxima!