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O Meu Clube É a Seleção!

Mulher de muitas paixões, a Seleção Nacional é uma delas.

Portugal 0 Espanha 0 – Rui Patrício de um lado, trave do outro

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Na passada quarta-feira, 7 de outubro, a Seleção Portuguesa de Futebol empatou sem golos com a sua congénere espanhola, no Estádio de Alvalade, em jogo de carácter particular.

 

Este jogo ficou marcado pelo regresso do público a um estádio de futebol, em Portugal Continental – pela primeira vez após o início da pandemia. Não foram colocados bilhetes à venda, apenas convites. Na quinta-feira descobri que eu fora uma das felizes contempladas, por estar inscrita no Portugal +. O convite duplo fora-me enviado na manhã do dia do jogo – mas eu só vi o e-mail mais de vinte e quatro horas depois. 

 

Em minha defesa, eles podiam ter enviado o convite mais cedo – uns dias antes ou, no mínimo, de véspera. Eu por acaso estava livre nesse fim de tarde, podia ter ido ao jogo – mas não teria companhia. 

 

Bem, pode ser que volte a receber convites para o jogo com a Suécia. Agora sei que tenho de estar atenta ao e-mail.

 

De qualquer forma, foi bom ver um jogo de futebol com público, ainda que reduzido. Eram apenas duas mil e quinhentas pessoas, cinco por cento da capacidade do Estádio de Alvalade, mas eram audíveis. Ouviam-se os aplausos, as exclamações, os assobios. Viam-se mãos nas cabeças nas repetições dos remates falhados. Os Marmanjos não estavam sozinhos.

 

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O futebol não é o mesmo sem isto.

 

Portugal não entrou nada bem no jogo. Não prestei muita atenção à primeira meia hora, pois estava a fazer o jantar, mas até eu reparei que nuestros hermanos encostaram-nos às cordas. Como dá para ver neste vídeo, os espanhóis fizeram sete remates antes dos vinte minutos de jogo, quatro deles nos primeiros dez minutos da partida. Nós mal conseguíamos sair do nosso meio-campo – o guarda-redes espanhol, Kepa, devia ter aproveitado para fazer uma siesta.

 

Este domínio só não se traduziu em golos graças a uma boa intervenção de Raphael Guerreiro, intercetando uma possível assistência de Sergio Canales para Gerard Moreno. Mas sobretudo graças a Rui Patrício. 

 

Já tinha saudades de vê-lo a este nível: imperial perante equipas grandes, um dos melhores guarda-redes da Europa, se não for do Mundo. Não me lembro da última vez que ele teve uma exibição assim. Mas sabem como é que é, quando o guarda-redes se destaca demasiado…

 

Fernando Santos sabia. Os seus gritos eram bem audíveis. E a transmissão televisiva chegou a mostrá-lo no banco, com a mão na testa.

 

Quem nunca?

 

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Felizmente, a partir dos vinte e cinco minutos, Portugal começou a entrar mais nos eixos, a criar oportunidades de perigo. Trincão, por exemplo, assistiu para Raphael Guerreiro aos quarenta e três minutos. Este, no entanto, desperdiçou, chutando para as nuvens. 

 

Em defesa dele, Raphael chutou com o seu pior pé, o direito. Era o que estava mais à mão. Se tivesse podido usar o pé esquerdo, o resultado podia ter sido outro.

 

Ainda houve tempo para Cristiano Ronaldo cabecear ao lado. Portugal terminou a primeira parte em crescendo – crescendo esse que se manteve na segunda parte, depois de Fernando Santos ter trocado João Moutinho, Pepe e André Silva (nem me lembro de ver este último em campo) por William Carvalho, Ruben Dias e Bernardo Silva. 

 

Tivemos um par de lances caricatos, em que a bola bateu na trave e caiu exatamente da mesma forma: em cima da linha de baliza, sem a cruzar. O primeiro foi aos cinquenta e dois minutos: William assistiu, de uma distância considerável, para Ronaldo disparar. Quinze minutos depois, foi Ronaldo quem assistiu, em grande estilo, um belo passe curvo (fez-me lembrar a assistência de Nani para o segundo golo de Ronaldo frente à Holanda, no Euro 2012). Renato Sanches enviou o míssil que atingiu a barra. Como diziam no Facebook das Seleções de Portugal, a trave ainda deve estar a tremer. 

 

 

Eu neste momento só me ria e comentava “Só podem estar a gozar…”. Isto era a maldição dos postes a outro nível. E nem sequer era a primeira vez que a trave ficava do lado de nuestros hermanos, impedindo mais golos que o guarda-redes espanhol. A minha mãe dizia que a baliza tinha um escudo invisível – não vi provas em contrário!

 

Os espanhóis tiveram mais uma oportunidade ou outra, na segunda parte – uma delas obrigou Rui Patrício a mais um momento imperial, defendendo com o joelho. Se a memória não me falha, imediatamente a seguir o recém-lançado João Félix, que substituiu Ronaldo, foi colocar a braçadeira de Capitão no braço de Patrício. Achei apropriado – teria sido melhor se fosse uma coroa. 

 

Ainda assim, se não me engano, foi Portugal quem teve mais oportunidades em toda a segunda parte – pena nenhuma delas se ter concretizado. Perto do fim do jogo, Félix assistiu para Trincão, mas Kepa meteu-se à frente. Mesmo no sopro final da partida, na sequência de um canto, a bola chegou a Félix, mesmo junto à linha da baliza. O jovem podia ter encostado para golo e conseguido a vitória, mas a bola passou-lhe entre as pernas. 

 

O jogo terminou assim, com o marcador teimosamente fechado. O que é chato para o público. Eu teria ficado desiludida por não ter podido gritar “GOLO!” – já aconteceu antes. Mas o que se podia fazer? Na nossa baliza estava Rui Patrício, na baliza dos espanhóis estava um escudo invisível. Estava a trave.

 

Tirando isso, não tendo sido um jogo especialmente memorável, não foi mau para um particular. Teve os seus momentos. O empate foi um resultado justo tendo em conta o que ambas as equipas fizeram. Portugal podia ter feito mais: podia não ter entrado com vinte e cinco minutos de atraso, podia não ter tido pontaria a mais. Mas se é para entrar mal num jogo, se é para ter azar, que o faça quando é a feijões, em vez que fazê-lo quando é a doer. 

 

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Como hoje, frente à França. 

 

França essa que, no mesmo dia do nosso jogo com a Espanha, venceu a Ucrânia, também num jogo particular, por nada menos que sete bolas contra uma. Contra a Ucrânia! Não é propriamente um tubarão, mas sempre está na primeira divisão da Liga das Nações – e venceu-nos no ano passado.

 

Creio que, neste momento, a França é a seleção mais perigosa, mais letal, do momento. Mesmo a Alemanha não parece estar ao nível de há uns anos – empataram com a Turquia num jogo particular (o que também vale o que vale). Não vai ser nada fácil. É bom que Rui Patrício esteja preparado para ser imperial outra vez – palpita-me que vamos precisar.

 

É engraçada a forma como as circunstâncias são tão parecidas com o 10 de julho. O estádio é o mesmo, a hora é a mesma, é também um domingo. Vamos voltar a um sítio onde já fomos felizes. Fernando Santos podia ter Convocado o Éder só para ele estar lá no banco, só para gozar com os franceses. 

 

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Dito isto… isto não é uma final. É apenas um jogo da fase de grupos. Nem sequer é particularmente decisivo – quem ganhar passa para o topo da tabela, mas tem de manter-se lá durante mais três jogos. Um empate não seria um mau resultado mas, como referi antes, todos queremos ganhar. 

 

Vou preparar-me para um jogo de sofrimento – aconselho-vos a fazerem o mesmo. Estou contente por ter conseguido publicar este texto antes do jogo com a França. O próximo cobrirá, então, a partida de hoje e da de quarta-feira, com a Suécia. 

 

Como o costume, obrigada por estarem desse lado. Acompanhem o resto desta jornada tripla comigo, quer aqui no blogue quer na sua página no Facebook

Agora é que vão ser elas

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Na próxima quarta-feira, dia 7 de outubro, a Seleção Portuguesa de Futebol receberá a sua congénere espanhola, em jogo de carácter particular. Quatro dias mais tarde, a Seleção deslocar-se-á ao Stade de France, em Paris, para defrontar a seleção local. Três dias mais tarde, regressa a Portugal para receber a seleção sueca. Estes dois últimos jogos contarão para a fase de grupos da segunda edição da Liga das Nações. Ambos os jogos em casa decorrerão no Estádio de Alvalade.

 

A preparação destes jogos começa  na próxima semana, provavelmente na segunda-feira. São muitas viagens e pouco tempo, poucos dias para treinar. É certo que daqui a Paris são apenas duas horas, duas horas e meia de voo. Mesmo assim, deve custar.

 

(Por outro lado… será que eles vão ficar alojados em Marcoussis outra vez? Seria giro.)

 

Ao menos os jogos em Lisboa já vão ter público! Poucos milhares de pessoas se não me engano. À hora desta publicação, ainda não se sabe nada sobre a venda de bilhetes para estes jogos. O que é estranho, tendo em conta que faltam poucos dias para o particular com a Espanha. 

 

Eu gostava de ir a um dos jogos – em circunstâncias normais se calhar preferia o da Espanha, mas hoje em dia não sou esquisita. Vivo perto de Alvalade e, bolas, quero voltar a um estádio! Quero ver a Seleção! Mas acho que vai ser difícil conseguir bilhetes.

 

Mesmo que eu não possa ir, ao menos sei que os nossos meninos não estarão sozinhos, que não terão de cantar o hino para um estádio vazio. Já é um consolo. No entanto, confesso que me custa imaginar um jogo da Seleção sem grandes multidões, à chegada, à saída, nas bancadas. 

 

Fernando Santos revelou os Convocados para este triplo compromisso ontem, quinta-feira. Regressam William Carvalho, Rafa Silva, Daniel Podence e Rúben Semedo. Não houve nenhuma estreia absoluta em Convocatórias – embora Podence e Semedo ainda não contem internacionalizações. Eu estava à espera de mais mudanças, mas Fernando Santos trouxe o habitual argumento da estabilidade do grupo. 

 

Bem, também não sou suficiente versada no assunto para criticar.

 

Podence é um dos muitos portugueses no Wolverhampton. O clube já se tornou num meme, com tantos jogadores lusos – e equipa técnica! – mais que alguns clubes que a I Liga. Obra de Jorge Mendes, segundo consta. Ao ponto de o equipamento alternativo deles, esta época, ser vermelho e verde (mais bonito que o nosso equipamento alternativo, aqui entre nós). Há quem graceje que o Wolverhampton é uma seleção portuguesa alternativa.

 

Pessoalmente não me importo. Dá sempre jeito a qualquer seleção ter jogadores competindo no mesmo clube, arrotinados uns com os outros. Por uma questão de patriotistmo preferia que fosse num clube português – não sendo possível, ao menos é um campeonato prestigiado, competitivo, como a Premier League. 

 

Além disso, eu até gosto de lobos. Tenho uma linda pastora-alemã e muitas crianças que se cruzam com ela pensam que é o Lobo Mau (quando não pensam que é o Inspetor Max). E ela de facto é um bocadinho parecida… mas é mais um cordeirinho com pele de lobo. 

 

Regressando a Podence, acho que ele tem estado bem nos últimos tempos. Fez uma assistência num jogo contra o Sheffield e, no jogo contra o Manchester City, fez uma maldade a Kevin De Bruyne e as imagens correram mundo. 

 

 

Uma coisa que descobri agora, enquanto pesquisava para este texto: Podence é mais baixo do que eu, um metro e sessenta e cinco. Bem, a altura vale o que vale. 

 

Sobre Rúben Semedo, não sei muito das suas andanças, apenas que o Benfica o deseja mas o Olympiacos não quer deixá-lo sair. À hora desta publicação, a coisa ainda não está resolvida. Seja qual for o clube, este tem de dar-lhe oportunidades para se desenvolver. 

 

William e Rafa são Campeões Europeus e jogadores que acompanho há uns anos, logo, estou contente por tê-los de volta. Sobre o momento de William? Tem dado sinais contraditórios. Marcou ao Real Madrid há poucos dias e, há coisa de duas semanas, marcou um golo espetacular ao Valladolid. No entanto, no jogo com o Getafe, cometeu um erro que custou um golo – o Getafe acabaria por vencer o Bétis por 3-0. 

 

Acontece. Mas espero que não se repita na Seleção. 

 

Em relação a Rafa, não sei muito bem como se tem saído no Benfica. Marcou um golo ao PAOK ao cair do pano, que infelizmente não chegou para evitar a derrota. Sei no entanto que é um jogador de talento – espero voltar a vê-lo nesta jornada.

 

Vão ser uns dias giros com a Seleção – vamos defrontar não uma, mas duas das nossas bestas negras. Uma delas, felizmente, será num jogo particular: a Espanha, no Estádio de Alvalade. 

 

No mês passado comentámos que, com tanto tubarão no nosso caminho, fazia sentido praticarmos com um. Por outro lado, a Espanha também tem um tubarão com que ligar – a Alemanha está no seu grupo da Liga das Nações. Talvez tenha sido por isso, pelo menos em parte, que nuestros hermanos aceitaram jogar connosco.

 

E no entanto, neste momento, os espanhóis estão à frente no seu grupo. A Alemanha empatou os dois jogos até agora, só conta dois pontos. Já não são o que eram? Bom sinal para nós, no grupo do Europeu? Eu não fiava. 

 

Como se devem recordar, a última vez que jogáms contra nuestros hermanos foi no Mundial 2018 – empatámos três a três, com um hat-trick de Cristiano Ronaldo. Talvez seja mais rigoroso dizer que Ronaldo empatou contra a Espanha, pois o coletivo português em si deixou a desejar, tirando uma ou outra exceção. 

 

Foi um bom resultado, até porque, até ao momento, o único jogo oficial em que ganhámos à Espanha foi no Euro 2004 – o jogo mais importante da minha vida, conforme já referi várias vezes aqui no blogue, e que por sinal se realizou no mesmo estádio. Por outro lado, da última vez que recebemos a Espanha para um jogo particular, a coisa correu bem.

 

Desde a última vez que jogámos com a Espanha, os nossos vizinhos falharam o acesso à fase final da primeira edição da Liga das Nações – a Inglaterra Qualificou-se à frente deles. Para o Europeu, no entanto, Apuraram-se em primeiro, à frente da Suécia.

 

Dos grandes da Europa, ao que parece, fomos os únicos que não nos Qualificámos em primeiro para o Euro 2020. E somos os detentores do título – tanto do Europeu como da Liga das Nações! Que vergonha…

 

Tendo isto tudo em conta, coloco o favoritismo ligeiramente do lado dos espanhóis. É apenas um particular, de resto, se não ganharmos não será dramático. É claro que uma vitória iria saber bem… mas o mais importante será praticarmos para os próximos desafios. 

 

E que desafios serão esses, senhores… Agora é que vão ser elas.

 

É a primeira vez que nos cruzamos com os nossos amigos franceses desde a final do Euro 2016. Quis o destino que o primeiro reencontro ocorresse exatamente no mesmo palco – não teria sido assim se o Europeu deste ano não tivesse sido adiado.

 

Acontece que agora os franceses são Campeões do Mundo, o que nos deixa numa posição… estranha. Nós conquistámos o Europeu perante eles, ainda temos esse título… mas tecnicamente o Campeão do Mundo há de ser melhor que o Campeão da Europa, certo? E no entanto, um ano depois do Mundial, nós ganhámos a Liga das Nações, que no fundo é um campeonato europeu noutros moldes. A França nem sequer chegou à final four.

 

Em defesa dos franceses, eles só não se Qualificaram por causa da diferença de golos – a Holanda Apurou-se à frente deles. Quem sabe o que teria acontecido se tivesse vindo à fase final? Teria sido giro se, mais uma vez, disputassem a final connosco.

 

Em todo o caso encontramo-nos agora, na fase de grupos da segunda edição. Estamos empatados com eles na tabela classificativa com seis pontos – estamos à frente por termos mais dois golos marcados. O Campeão do Mundo contra o Campeão da Europa, uma espécie de Supertaça em seleções. Acho que vamos ter muitos olhos neste jogo.

 

Ninguém poderá criticar demasiado a Seleção na eventualidade de perdermos. São os Campeões do Mundo e um adversário tradicionalmente difícil para Portugal – a final de Paris foi a nossa primeira vitória perante os franceses em mais de quarenta anos. E a França não nos vai subestimar segunda vez. 

 

Um empate não seria de todo um mau resultado. Adiaria a disputa pelo primeiro lugar para mais tarde, talvez para o jogo com eles em nossa casa. Nós continuaríamos à frente – por definição, um empate não altera a diferença de golos.

 

No entanto, todos queremos uma vitória. Todos queremos recriar o maior feito da História da Seleção Nacional, pelo menos em parte – o mesmo adversário, o mesmo palco. Uma nova vitória perante a França ajudaria a silenciar aqueles que ainda hoje alegam que não merecemos ganhar o Europeu. E permitir-nos-ia darmos um grande passo em frente na corrida por um lugar na final four.

 

Depois deste jogo, temos outro com a Suécia, desta vez em casa, em Alvalade. Como já jogámos contra eles no mês passado, não tenho nada de novo a dizer sobre eles. Passemos à frente.

 

Ainda não sei como vou fazer com as crónicas sobre estes jogos. São logo três, com poucos dias de intervalo entre eles. A próxima semana será complicada para mim em termos do meu emprego, não devo conseguir publicar antes do jogo com a França. Talvez consiga publicar entre esse jogo e o da Suécia… mas o mais provável é eu escrever sobre os três jogos no mesmo texto.

 

Eu vou dando informações sobre isso na página do Facebook. Para já, quero saborear a oportunidade inédita que é ter uma jornada tripla de Seleção. Continuem desse lado saboreando também!

 

CORREÇÃO A 5/10/2020: Na publicação original vinha referido que o jogo com a Espanha teria lugar na Luz. 

Portugal 3 Espanha 3 – Como é possível?

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Na passada sexta-feira, dia 15 de junho, a Seleção Portuguesa de Futebol empatou com a sua congénere espanhola por três bolas, em jogo a contar para a fase de grupos do Mundial 2018.

 

Conforme tinha dito que faria, em vez de uma análise em texto corrido, partilho com vocês algumas notas sobre o jogo. Assim, sem mais delongas...

 

1) O jogo não podia ter começado da melhor forma: eu mesma gritei “Penálti!” quando Cristiano Ronaldo caiu na área. Felizmente o árbitro concordou. Confesso que receei que Cristiano falhasse – não seria a primeira vez e poderia ser grave em termos anímicos. Mas não: Ronaldo converteu. Ainda não tinham passado cinco minutos e Portugal já seguia na frente.

 

2) Este e os outros golos foram estragados pelos meus vizinhos – que festejaram antes de o árbitro ter apitado, na nossa televisão. Quando foi na final do Europeu, não me ralei, mas neste – um jogo menos tenso – chateou-me. Se isto continuar, talvez deixe de ver os jogos em casa.

 

3) Portugal foi conseguindo dominar nos primeiros dez, vinte minutos de jogo. Houveram várias ocasiões em que a defesa recuperava a bola e, depois, ou Ronaldo ou Gonçalo Guedes partiam para o contra-ataque.

 

4) O que nos leva à muito comentada jogada, em que Ronaldo, após um sprint daqueles, centrou para Guedes e este não soube o que fazer com a bola – oportunidade de ouro desperdiçada. Ele, Bernardo Silva, Bruno Fernandes e os outros miúdos estiveram uns furos abaixo do que lhes é habitual. Acho que foi sobretudo nervosismo: era o primeiro jogo deles no Mundial e era a Espanha. Qualquer um que não estivesse habituado aquelas andanças ficaria nervoso. Nesse aspeto, talvez os próximos jogos, com adversários de menor prestígio (não necessariamente mais acessíveis), os habituem a estes palcos.

 

Mas se chegarmos ao jogo com Marrocos e eles continuarem abaixo do que deviam, vão ter de arranjar outra desculpa.

 

5) A Espanha marcou numa altura em que começava a mandar no jogo. Diego Costa fez falta a Pepe para lhe roubar a bola, fez o que quis com o resto da defesa portuga (aqui entre nós, se o Pepe tivesse parado mais cedo com a fita, talvez tivesse conseguido travar o golo) antes de rematar – Rui Patrício não pôde fazer nada.

 

Aparentemente o vídeo-árbitro não viu nada de mal na jogada – claro que não, nunca veem. Ainda hoje levo com pessoas dizendo que Portugal não mereceu ganhar o Euro 2016 – mas nós não precisámos de favores de árbitros para ganharmos. Bem pelo contrário, tivemos de lutar durante anos contra o colinho das autoridades do futebol a um lote exclusivo de seleções. E continuamos, mesmo depois de Campeões Europeus. De que serve o VAR se as equipas beneficiadas e as prejudicadas continuam as mesmas?

 

6) O segundo golo de Cristiano Ronaldo veio em cima do intervalo, um bocadinho contra a corrente do jogo. De Gea ficou muito mal na fotografia. Confesso que reagi de forma um bocadinho intempestiva a este golo. Posso ter twittado coisas como “Contra árbitros e contra VARS! É por isto que somos Campeões Europeus!”, pontuadas por palavras ainda mais expressivas – quando o resultado estava a ser melhor que a exibição. Eu mereci o que aconteceu a seguir. Em minha defesa… sabia mesmo bem estar a ganhar à Espanha num jogo oficial pela primeira vez desde 2004 – sobretudo depois de termos sido roubados.

 

7) Na segunda parte, passámos da vantagem à desvantagem em cerca de cinco minutos. No primeiro, Busquets assistiu de cabeça para Diego Costa chutar para as redes, no segundo, Nacho disparou de fora da grande área, sem hipótese para Rui Patrício – um golo verdadeiramente espetacular.

 

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8) Passámos a meia hora seguinte a correr atrás do resultado, sem grande sucesso, assistindo ao famoso tiki-taka Fernando Santos fez entrar João Mário, Ricardo Quaresma e André Silva e sempre melhorou um bocadinho. Finalmente, aos 88 minutos, Piqué deu um empurrão desnecessário a Ronaldo e o árbitro marcou livre a nosso favor.

 

9) Cá em casa, achámos todos piada ao ar concentrado, mesmo feroz, de Ronaldo enquanto se preparava para marcar o livre – como se quisesse desfazer a barreira espanhola com os olhos. O meu pai estava armado em Velho do Restelo, a dizer que ele ia falhar, que ele já estava velho, enfim. Depois do golo, éramos três – eu, a minha mãe, a minha irmã – a cantarolar-lhe: “Bem feita! Bem feita!”

 

Aqui entre nós, antes do golo, eu não me atrevia a acreditar. Era demasiado presunçoso, sonhar demasiado alto, esperar que Ronaldo rematasse, desenhando uma parábola perfeita por cima da barreira espanhola, diretamente para as redes. Mas foi isso que ele fez.

 

10) Em suma, Cristiano Ronaldo, quase sozinho, garantiu-nos um empate com a Espanha. Com a Espanha – a mesma seleção a quem só tínhamos ganho uma vez em jogos oficiais, aquela que muitos referiam com uma das favoritas ao título, aquela que inclui meia dúzia de campeões europeus em clubes.

 

Como é possível? Ele tem trinta e três anos! Com a idade dele, Luís Figo retirou-se da Seleção (nem te atrevas, Ronaldo…)! Longe disso, Ronaldo parece cada vez melhor – ao longo dos anos fomos enfrentando equipas deste nível e ele nunca tinha feito isto. Nem em 2010, nem em 2012, nem em 2014, nem mesmo em 2016 – embora, nesta última, talvez pudesse tê-lo feito, se não se tivesse lesionado. Como é possível?

 

11) Como já devem saber, irrita-me quando dizem que a Seleção é Ronaldo-mais-dez. Nos últimos tempos, tenho mudado um pouco a minha perspetiva sobre o assunto: às vezes é problemático quando dependemos demasiado de Ronaldo, mas qualquer equipa abdicaria de metade do seu plantel para ter um jogador como ele. Nós somos abençoados. E, se temos Ronaldo, é para usá-lo.

 

12) Não foi de todo uma má estreia. Eu estava disposta a aceitar uma derrota. Em vez disso, conseguimos um empate e, na minha modesta e nada especializada opinião, os principais motivos para não termos conseguido um melhor resultado foram nervosismo e erros – não falta de argumentos. Conseguimos fazer melhor. Posso estar enganada, claro, mas Fernando Santos parece concordar comigo e já todos vimos jogadores como Guedes, Bernardo Silva, Bruno Fernandes num nível bem melhor.

 

Nesse aspeto, os reparos de Fernando Santos, no final do jogo, a sua exigência, dão-me mais confiança. Ele e os jogadores hão de corrigir os erros e talvez façamos coisas giras neste Mundial. Com um bocadinho de sorte, quando voltarmos a encontrar equipas do calibre de Espanha, conseguiremos mais do que um empate.

 

Mas também, se voltarmos a cumprir o “de empate em empate até ao empate final” com o mesmo sucesso de 2016, não tenho nada contra.

 

13) De nada vai servir este empate se não ganharmos amanhã a Marrocos, claro. Dizem que, depois de terem perdido frente ao Irão com um auto-golo no último minuto, os marroquinos vão querer descarregar em nós. Não vai ser um jogo fácil, mas acredito nos nossos jogadores, acredito em Fernando Santos. Vamos conseguir.

 

14) Antes de terminar, uma nota para as montagens que a RTP3 iam exibindo, com imagens do jogo e a música Sangue Oculto, dos GNR e Javier Andreu. Adorei-as: sempre gostei imenso desta música, é um membro recorrente da minha playlist da Seleção. E, claro, sendo um dueto ibérico, é mais do que adequada a um Portugal-Espanha. Muito bem sacado.

 

15) Por fim, fiquem atentos à página do Facebook deste blogue. Em breve, terei algo para anunciar, estou só à espera de receber luz verde para fazê-lo. Continuem desse lado e... força Portugal!

 

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Escolhido a dedo

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Na passada sexta-feira, dia 1 de dezembro, realizou-se o sorteio para a fase de grupos do Campeonato do Mundo, que terá lugar na Rússia, no próximo ano. Portugal foi sorteado para o grupo B, juntamente com a Espanha, o Irão e Marrocos.

 

Conforme comentou a minha irmã depois do sorteio, este grupo parece ter sido escolhido a dedo. Bem, dois terços dele. Vamos defrontar a seleção que nos expulsou do Mundial 2010… e a seleção comandada pelo treinador que nos orientou nesse mesmo Mundial.

 

Com um sorteio marcado para o Primeiro de Dezembro, acho que era inevitável Portugal e Espanha serem colocados no mesmo grupo. Eu mesma comentei-o na página de Facebook deste blogue, umas horas antes. Deus Nosso Senhor não conseguiu resistir.

 

Eu, para ser sincera, também não resistiria se estivesse no lugar d’Ele.

 

Não nos faltavam motivos para não querermos Espanha como adversária. Nuestros hermanos são um dos nossos maiores borregos. O único jogo oficial em que vencemos foi no Euro 2004 – que continua a ser o jogo mais importante da minha vida (sim, acima da final do Euro 2016. Mais sobre isso um dia destes.) E mesmo assim, em trinta e oito jogos, só contamos oito vitórias.

 

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Nesse aspeto, até dá jeito enfrentarmos a Espanha na fase de grupos e não no mata-mata. Desde que não ocorra nenhuma tragédia, como no último Mundial, bem entendido.

 

Por outro lado, Portugal até tem matado muitos borregos desde que Fernando Santos assumiu o comando – os maiores morreram na final do Euro 2016. Pode ser que Portugal consiga vencer a Espanha… mas continuo a achar pouco provável.

 

Não posso deixar de comentar o motivo pelo qual os espanhóis estavam no pote 2, em vez de entre os cabeças-de-série. A culpa é da Polónia que, para se manter no top 10 do ranking da FIFA e garantir um lugar no pote 1, não realizou nenhum particular durante um ano, até novembro passado.

 

Se o karma funcionasse como deve ser, os polacos teriam ficado com a Espanha no grupo, mas pronto. Só prova aquilo que venho a defender há anos: o ranking não reflete o valor real das seleções – se a Polónia conseguiu manipulá-lo!

 

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Mas regressemos à nossa Seleção.

 

Não fiquei lá muito contente com o sorteio do Irão para o nosso grupo – por causa do seu Selecionador. Ainda não consegui perdoar Carlos Queiroz – não tanto pelo que aconteceu em 2010, mais pela maneira como reagiu, as declarações que prestou ao longo dos anos que se seguiram.

 

Além disso, sejamos sinceros, os dois anos de Queiroz no leme da Seleção foram dos piores da última década.

 

Dito isto, Carlos Queiroz não parece tão rancoroso como antes – pelo contrário, em declarações pós-sorteio, afirmou-se “muito contente”. Se ele continuar a deixar de lado o eventual azedume que ainda sinta pelo que aconteceu, eu farei o mesmo. A vida é demasiado curta.

 

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Dizem que o Irão era a equipa do pote 3 que todos desejavam para os seus grupos. Eu, no entanto, não acredito que os iranianos nos tragam facilidades. É certo que Portugal ganhou os únicos jogos que disputou contra eles – um particular em 1972 (3-0) e um na fase de grupos do Mundial 2006 (2-0). Mas o Irão estará uns furos acima do que estava nessa altura. Muito graças a Queiroz, na verdade, que os orienta desde 2011.

 

Esta foi, aliás, a primeira vez que o Irão se Qualificou para dois Mundiais de seguida. Foram, também, a primeira seleção asiática a garantir o Apuramento. Pelo meio, tiveram uma série de doze jogos sem sofrer golos. São definitivamente uma equipa a respeitar.

 

Só falta falar sobre o jogo com Marrocos. O nosso histórico com esta Seleção é reduzido: um só jogo, no Mundial de 1986, no México.

 

É o problema dos Mundiais, de resto: enfrentamos equipas de outros continentes, contra quem raramente jogamos, logo, que conhecemos mal.

 

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No caso do histórico com Marrocos, o nosso único jogo com eles não nos permite tirar grandes ilações – deu-se durante o chamado “caso Saltillo” Eu já tinha lido ou ouvido uma ou outra coisa sobre este caso mas só agora, em preparação para este texto, é que fui ao Google e… meu Deus. Tão cedo não me apanham a queixar-me do que aconteceu em 2010 e 2014.

 

Eu gostava de perceber porque raio todos os Mundiais em que Portugal participou, tirando o de 66 (que eu saiba!) e o de 2006, resultaram numa crise, com maior ou menor gravidade, mas sempre pouco dignificante para o futebol português.

 

Acho que a Federação já aprendeu com todos estes erros e tem procurado corrigi-los. Com a construção da Cidade do Futebol, com uma escolha mais cuidada dos locais de estágio e medidas como pedir boleia à Força Aérea para a Andorra. Este profissionalismo foi um dos motivos pelos quais nos sagrámos Campeões Europeus. Se este Mundial não correr a nosso favor, não será por falta de organização – espero!

 

Regressemos a Marrocos (a seleção, não o país). Os marroquinos estão de volta ao Mundial vinte anos após a sua última participação. Foram a única equipa africana a Qualificar-se para o Mundial sem sofrer golos.

 

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Ou seja, vamos defrontar dois adversários de menor prestígio e experiência, mas com boas defesas. Portugal não costuma dar-se muito bem com seleções assim. Não podemos facilitar.

 

Estes prognósticos valem o que valem. Na maior parte das vezes, a realidade troca-nos as voltas, para o melhor e para o pior. Veja-se o que aconteceu no grupo do Euro 2016: um dos mais “fáceis” de sempre, um dos nossos piores desempenhos.

 

Isto também se explica, pelo menos em parte, pelo facto de, por muitos sorteios que se façam, o pior adversário de Portugal continua a ser… ele próprio.

 

Em todo o caso, temos seis meses para nos prepararmos para este Mundial, começando por estes três adversários. Alguns adeptos apontam já para o título… mas isso é conversa para as vésperas da Convocatória Final, como já é costume.

 

Para já, as próximas crónicas serão as revisões de 2016 e 2017, tal como tinha referido no texto anterior. Estou já a trabalhar na de 2016 e, desta vez, espero conseguir acabá-la e publicá-la sem grandes dramas.

 

Continuem por aí – quer através do blogue, quer através da página do Facebook.

Especial Aniversário: Top 10 Jogos da Seleção Portuguesa #2

Segunda parte do meu top 10 de jogos da Seleção. Primeira parte aqui.

 

4) Portugal x Dinamarca (2012)

 

 

Este é outro jogo de que estou sempre a falar. Para começar, foi o primeiro jogo em anos que, na minha opinião, esteve ao nível dos grandes jogos da história da Equipa de Todos Nós em termos de epicidade. Foi um dos jogos em que gritei mais vezes ao longo dos noventa minutos. Foi o jogo em que assustei a minha irmã com a minha reação ao golo de Hélder Postiga. Foi o jogo em que nos deixámos empatar, ficando em risco de… bem, aquilo que acabaria por acontecer no Mundial 2014. Foi o jogo em que Silvestre Varela saltou do banco, qual representante do Instituto de Socorro a Náufragos (ainda hoje me faz rir…), e nos salvou a todos a poucos minutos do fim. Foi esse o golo que eu e a minha irmãzinha celebrámos à gritaria durante pelo menos cinco minutos e que a Seleção celebrou atirando-se em peso (jogadores e técnicos incluídos) para cima do Varela. Foi uma montanha-russa de emoções que eu nunca esquecerei.

 

3) Portugal x Holanda (2004)

 

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O pódio deste top é composto exclusivamente por jogos do Euro 2004. Este campeonato foi, até agora, o melhor campeonato futebolístico de que me recordo. Para começar, realizou-se cá em Portugal, o que só de si foi excitante (pena é os envelopes debaixo da mesa e a má gestão dos estádios todos…). Em segundo, o povo uniu-se em torno da Seleção de uma maneira nunca antes vista: as bandeiras nas janelas, os cortejos de adeptos seguindo a Seleção para onde quer que fosse, os festejos nas ruas após as grandes vitórias, a eterna Força da Nelly Furtado, entre muitas outras coisas. No dia da final, eu e a minha família fomos até Alcochete para ver o autocarro passar, no caminho para a Luz. O único protagonista que me lembro ao certo de vislumbrar, quando o autocarro finalmente passou, é o Simão. Talvez tenha visto também o guarda-redes Quim (que é feito dele?). O meu irmão na altura disse que viu Luiz Felipe Scolari.

 

Há uns anos ouvi Manuel José (penso que era ele) dizendo, num qualquer programa de comentário/debate desportivo, que não gostara de todo esse “circo”, que este terá sido a causa da derrota na final. Sinceramente, eu duvido. Aquele “circo” todo não era mais do que uma versão alargada do que acontece nos estádios: milhares de adeptos marcando presença, vestidos a rigor, aplaudindo a sua equipa. Desde quando é que isso é prejudicial? Além do mais, conforme já escrevi antes, o futebol é acima de tudo um entretenimento, um espetáculo, é para ser vivido com paixão.

 

Por isso não, não me arrependo de ter ido a Alcochete ver a Equipa de Todos Nós, tal como nunca me arrependi de nenhuma manifestação de apoio que seja. Foi, aliás, no Euro 2004 que aprendi o que é verdadeiramente ser adepta da Seleção, todos os aspetos do cargo: a euforia e a felicidade das grandes vitórias, o desgosto e a frustração das derrotas. Lições que permanecem até hoje.

 

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Regressando ao top, em terceiro lugar temos o jogo que nos colocou na nossa primeira – e até agora única – final. Lembro-me de ver o golo do Cristiano Ronaldo (o seu segundo pela Turma das Quinas) a partir da televisão da minha cozinha. Não me lembro tão bem de ver o golo do Maniche em direto, mas há dois anos, no programa Heróis do Mundial da RTPN (tristíssima por não termos um programa equivalente para o Europeu), recordei a forma possante, majestosa, como ele corria pelo campo.

 

No livro “Os alegres dias do país triste”, de Afonso de Melo – o mesmo autor d‘“A Pátria Fomos Nós” – vêm algumas palavras de Maniche sobre este golo:

 

 - “Que aconteceu? Estavas possesso?

 

- Olha, o que digo é que foi completamente intencional. E isso nota-se pela forma como inclino o corpo para a frente. A minha vontade era marcar golo, mas também admito que foi mais bonito do que aquilo que eu esperava.

 

- Recebes um passe do Ronaldo.

 

- Ele toca num canto de forma muito rápida e eu chutei com muita força e colocado. Também beneficiei do facto de o Davids ter deixado aquele poste junto ao qual se posicionava nos cantos. Foi aí que a bola entrou.”

 

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Também me recordo do auto-golo do Jorge Andrade – um belo chapéu na baliza errada – e de o Ricardo o consolar com uma palmada leve no rabo (?). Lembro-me de dizer à minha irmãzinha – que na altura tinha seis anos – que aquilo era o Jorge Andrade a levar tau-tau por se ter enganado na baliza.

 

No entanto, a imagem mais marcante daquele jogo foi o abraço entre Rui Costa e Luís Figo, no fim do jogo (não sei se o segundo não estaria a chorar). Afinal, naquele dia, treze anos antes, os dois tinham conquistado o Mundial de sub-20 e, agora, levavam a Seleção A à sua primeira final… e em casa! 

 

2) Portugal x Inglaterra (2004)

 

  

Tal como aconteceria no Mundial 2006, o jogo dos quartos-de-final do Euro 2004 foi o mais emocionante de toda a prova. Para além de eu ter um gosto especial por reviravoltas, por marcadores que oscilam rapidamente entre favoráveis e desfavoráveis, este jogo esteve cheio de momentos inesquecíveis, conforme explicarei a seguir.

 

Lembro-me de ter visto a primeira parte no instituto de línguas que frequentava na altura com um dos meus professores, curiosamente de nacionalidade inglesa. A segunda parte e o prolongamento vi em casa, no quarto do meu irmão. O jogo não começou bem para nós, os ingleses marcaram cedo e o resultado manteve-se assim até mais ou menos aos oitenta minutos. Quando se fala deste jogo, fala-se muito de Ricardo, claro, e mesmo de Rui Costa. Não se fala muito de Hélder Postiga – claro – apesar de ele ter sido fulcral para levar o jogo a prolongamento. Lembro-me da carranca de Luís Figo quando foi obrigado a dar o lugar a Postiga e de, alegadamente, ele ter ido logo para o balneário. Tal atitude daria polémica nos dias que se seguiram. Lembro-me de ouvir Figo dizer “Penso que não cometi nenhum crime” numa Conferência de Imprensa. Lembro-me também de o Selecionador Luiz Felipe Scolari ter dito que Figo estivera no balneário a rezar à Nossa Senhora de Fátima.

 

Por outro lado, quando pesquisei sobre este incidente, na preparação desta entrada, descobri mais esta declaração de Scolari: “[Figo] estava muito participativo e, segundo me contaram, numa jogada do Cristiano Ronaldo, no prolongamento, dizia 'vai miúdo'" Esta imagem derrete-me o coração.

 

  

Regressando a Postiga, tal como disse antes, foi ele quem repôs a igualdade, cabeceando após um centro perfeito de Simão, esticando o tempo de jogo para os cento e vinte minutos. Mais tarde, Postiga destacar-se-ia no jogo por, no desempate por penálties, ter batido o seu à Panenka – se a brincadeira tivesse corrido mal, o jogo poderia ter terminado de maneira diferente e o pobre Hélder seria ainda mais vilanizado do que é hoje. Mais uma vez, no livro “Os alegres dias do país triste”, ele falou da gracinha: “Saiu… Agora, vendo as coisas à distância, não repetia. Foi um ato de loucura, de inconsciência. Ficará para sempre na minha memória. Algo próprio da idade. Era um miúdo! Mas, atenção. Fazia aquilo muitas vezes nos treinos. Não devia era ter feito num momento daquela importância.”

 

Pois não. Segundo o que ouvi no programa Heróis do Mundial, quando foi do jogo com a Inglaterra em 2006, alguém foi dizer ao Hélder, aquando dos penálties:

 

- Postiga, tem juízo, à Panenka não!

 

Mas regressemos a outros heróis deste jogo. Como Rui Costa, que saltara do banco e deu um tiro espetacular, no prolongamento, colocando-nos pela primeira vez à frente no marcador (nunca me vou esquecer da cara de aziado de Sven-Göran Erikson, no banco inglês…). Não durou muito, contudo: cinco minutos mais tarde, Frank Lampard repunha a igualdade.

 

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Chegamos ao Ricardo, claro. Não se fala deste jogo sem falar do Ricardo, do penálti que ele quis defender sem luvas. Sobre este gesto inusitado ele disse, no mesmo livro referido acima: “Já disse várias vezes que foi instintivo. Vi que era Vassel a marcar e ele era o único cuja forma de chutar não tinha estudado em DVD. Pensei que era preciso fazer algo. Olhei para as minhas mãos e pensei: vai ser sem luvas! Mais tarde fui colega dele no Leicester, em Inglaterra (clube que, por sinal, está agora em alta por se terem sagrados campeões ingleses) e ele confessou-me que ficou intrigado. Que até perguntou ao árbitro se eu podia fazer aquilo.”

 

Também me recordo de ver Eusébio, de toalhinha branca no pulso, gritando para o guarda-redes. Durante algum tempo não soube ao certo o que gritara o Pantera Negra. Ouvi várias versões. Assumindo que o livro que temos referido fala verdade, ele gritava:

 

- Não te mexas! Não te mexas!

 

O que quer que tenha sido resultou, pois Ricardo defendeu. Depois desse penálti, quando foi a vez de marcar à Inglaterra, Ricardo quis executar e fê-lo sem hipótese de defesa. Muitas imagens me ficaram na retina desses momentos. O preciso instante em que a bola entra e o resto da Seleção desata a correm em direção ao Ricardo, atirando-se para cima dele. O Eusébio beijando o relvado da sua amada Luz. Ricardo nos braços do Selecionador. Finalmente, Scolari com a bandeira brasileira numa mão, a portuguesa na outra e encostando ambas ao coração, antes de recolher aos balneários.

 

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Eu tinha apenas catorze anos na altura do Euro 2004, na altura destes ou de outros jogos. Era demasiado jovem, demasiado inocente para compreender na totalidade o quão raro, o quão grandioso era o que estava a acontecer, o que a nossa Seleção estava a fazer, a maneira como o povo reagia a estes feitos. Só agora, passados estes anos todos, é que começo a compreender que isto que descrevi acima é a matéria da qual são feitas as lendas.

 

1) Portugal x Espanha (2004)

 

  

Tive alguma dificuldade em escolher os meus dez jogos favoritos e talvez ainda mais em definir a ordem de preferência. No entanto, não tive dúvidas nenhumas relativamente ao primeiro lugar. O Portugal x Espanha do Euro 2004 pode não ser o jogo mais emocionante ou tecnicamente melhor conseguido desta lista, mas é especial por vários motivos. Primeiro, este foi o jogo em que Cristiano Ronaldo se estreou a titular pela Seleção. Segundo, foi o primeiro jogo a que assisti ao vivo, no Estádio de Alvalade, com os meus pais e o meu irmão, algo que me marcou profundamente. Lembro-me da sensação de irrealidade, ao ver com os meus próprios olhos coisas que só via através de um ecrã de televisão – só o facto de não ouvir os comentadores era suficientemente estranho. Lembro-me de, a certa altura, ver pardais pousando no relvado durante o jogo e de ter achado graça na altura: uma coisa tão prosaica como pardais num palco onde lendas estavam sendo escritas!

 

Devo de resto dizer que os nossos amigos espanhóis criaram um ambiente amigavelmente provocador. Ainda antes de entrarmos no estádio, uns espanhóis meteram-se connosco, a propósito da camisola de Figo que o meu irmão vestia. Figo na altura ainda jogava no Real Madrid e os adeptos espanhóis tentaram provocar-nos, dizendo que Figo era espanhol. A minha mãe deu-lhes uma resposta à altura, em espanhol macarrónico.

 

- Figo no es español. Sus pesetas é que son españolas.

 

No estádio, apesar de termos chegado cerca de duas horas antes, conforme aconselhado pelas autoridades, já lá estavam imensos espanhóis, fazendo barulho. Nós, portugas, não íamos deixá-los sem resposta. Acho que chegámos a gritar “E quem não salta é espanhol, olé! Olé!”. Resultado: ainda o jogo não tinha começado e o meu irmão já estava sem voz.

 

Como estávamos mais para o lado da baliza sul, não conseguimos ver o golo de Nuno Gomes (eu pelo menos não me lembro de vê-lo), mas os festejos na bancada foram explosivos. Recordo-me de vislumbrar, por entre os braços erguidos, a Seleção toda abraçando Nuno Gomes (que depois seria rebatizado de Nuno Álvares Pereira Gomes). Os adeptos sentados à nossa frente fizeram questão de se virar para trás para trocar high-fives connosco – algo que tornariam a fazer no fim do jogo, quando a vitória já estava garantida.

 

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Nunca tínhamos ganho à Espanha em jogos oficiais antes daquele encontro e não voltaríamos a ganhar depois deste. No entanto, na minha opinião, mais do que qualquer outro jogo contra nuestros hermanos, aquele era o jogo em que tínhamos de vencer. Aquele era o meu primeiro jogo, era o nosso Europeu! A história não podia terminar na fase de grupos! (já foi suficientemente mau termos deitado tudo a perder na final…)

 

Digo-o com toda a franqueza: se não tivéssemos vencido este jogo, eu não estaria aqui, a escrever neste blogue, não seria a pessoa que sou hoje. Foi com aquela vitória que começou uma devoção que se mantém até hoje. Por ter sido o início da série brilhante neste Europeu, por ter sido o meu primeiro jogo de futebol ao vivo, algo que se tornaria uma das minhas experiências favoritas – mesmo os jogos do Sporting a que a minha irmã me leva. O Portugal x Espanha do Euro 2004 pode não ter sido o jogo mais brilhante ou emocionante, mas foi o início da minha paixão pela Equipa de Todos Nós. Por esse motivo, para mim será sempre o melhor jogo de todos os tempos.

 

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Dá para acreditar que já vamos em oito anos de “O Meu Clube é a Seleção”? A mim custa-me um bocadinho. Na verdade, este blogue acaba por receber menos atenção do que o meu outro blogue, o Álbum de Testamentos. Só inaugurei este último depois do Euro 2012, mas sendo um blogue mais genérico, sem um tema definido, posso escrever nele com mais frequência. Por sua vez, a Seleção joga em intervalos cada vez mais espaçados, pelo que este blogue fica muitas vezes inativo durante meses. Resultado, o Álbum já quase ultrapassa “o Meu Clube é a Seleção” em número de visualizações.

 

Por outro lado, tenho a página do Facebook, que atualizo quase todos os dias, o que sempre compensa a inatividade do blogue. De qualquer forma, agora que vem aí o Euro 2016 e vou deixar o Álbum um bocadinho mais de lado, talvez a tendência se inverta.

 

Conforme refiro de vez em quando aqui no blogue, o tempo passa mas o gozo de escrever sobre a Seleção não diminui. Tal como já referi antes, o futebol é uma história que nunca acaba, tem sempre novas personagens, novos enredos, novas reviravoltas. Eu sou cada vez mais apaixonada pela modalidade em si, já não desdenho assim tanto do futebol de clubes (não são os clubes em si que são corruptos, são as pessoas), mas continuo a não amar equipa nenhuma, só a Seleção. Foi para jogos como os que apresentei nesta lista que criei este blogue: para poder escrever sobre eles, para contribuir para a sua imortalização, para poder falar sobre eles aos meus filhos e netos. Sempre assumi que chegaria a uma altura em que deixaria de ter tempo para este blogue e para a respetiva página de Facebook, mas até agora essa altura ainda não chegou e, em princípio, tão depressa não chegará. Vamos continuar a ter “O Meu Clube é a Seleção!” por muitos anos ainda, com sorte.

 

E agora que já tirámos estas duas entradas para falar do passado, nas próximas falaremos do presente e do futuro mais próximo. Estamos a cinco dias do Anúncio dos Convocados para o Euro 2016!