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O Meu Clube É a Seleção!

Mulher de muitas paixões, a Seleção Nacional é uma delas.

Não é tradição, é sina!

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No passado dia 15 de junho, a Seleção Portuguesa de Futebol estreou-se no Euro 2020 com uma vitória por três bolas sem resposta perante a sua congénere húngara. No dia 19 de junho, no entanto, a Seleção Nacional perdeu perante a sua congénere alemã por quatro bolas contra duas. Com estes resultados, Portugal encontra-se em terceiro lugar na classificação do grupo F, com três pontos, ainda sem saber se segue ou não para os oitavos-de-final da prova.

 

Como rezava a música, “continhas até ao fim não é tradição, é sina.” Num grupo destes sabíamos que era uma possibilidade, mas isso não significa que seja agradável. 

 

Já aí vamos. Comecemos por falar dos jogos em si.

 

A tarde do dia da partida com a Hungria foi complicada no meu emprego. Estive ocupada até ao último minuto, de tal maneira que não tive tempo sequer de ver o onze inicial – muito menos de partilhá-lo na página.

 

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Felizmente, depois de terminar tudo, não demorei muito a chegar ao meu carro e a ligar o rádio. Só devo ter perdido os primeiros cinco ou dez minutos. Nesta altura, já tinha visto nas redes sociais que o Diogo Jota desperdiçara uma de caras. Como disseram algures, há alturas em que a melhor opção é mesmo passar ao Ronaldo.

 

Jota ao menos aprendeu a lição, como veríamos no jogo seguinte. 

 

Por outro lado, o próprio Cristiano Ronaldo falharia uma oportunidade flagrante mais tarde no jogo. Ninguém está imune a estas coisas – parecendo que não, são humanos como nós. 

 

Na primeira parte, o jogo teve essencialmente um único sentido. A minha irmã bem o dizia: os húngaros não eram capazes de partir para o ataque. Infelizmente, isso obrigou-os a ficarem mais retidos à defesa. Muitos usaram o termo “acantonados” ou “acampados”. Tornou-se ainda mais difícil para os portugueses chegarem ao golo. Não cumpri o meu desejo de festejar um golo com buzinadelas.

 

Se na primeira parte Portugal esteve claramente por cima, na segunda sempre foi assim. Houveram alturas em que a Hungria cresceu e Portugal esteve perto de perder o controlo da situação. Veja-se o golo anulado por fora-de-jogo – em que, ainda por cima, Rui Patrício não ficou muito bem na fotografia. 

 

À medida que o tempo ia passando e o golo não surgia, os nervos aumentavam. Eu sabia que seria assim, referi-o na crónica anterior, mas isso não me impediu de sofrer. Como é que uma pessoa se prepara para jogos destes?

 

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Concordo com a opinião popular que defende que Fernando Santos devia ter mexido mais cedo. Podíamos ter ganho por mais com Rafa e Renato Sanches mais tempo em campo – até porque Rafa precisou de alguns minutos até entrar nos eixos. Mas mais vale tarde do que nunca, suponho eu. 

 

Finalmente o marcador mexeu, aos oitenta e quatro minutos. Rafa assistiu para Raphael Guerreiro, que arranjou um corredor no meio de uma data de húngaros. O Raphael não tem jogado grande coisa nestes últimos dois jogos – com grande pena minha, pois gosto dele – mas ao menos conseguiu ser o primeiro português a marcar neste Europeu.

 

O resultado não se manteve inalterado durante muito tempo depois desta. A jogada começou com o Renato abrindo caminho por entre a muralha húngara. Passou a bola ao Rafa, que conseguiu um penálti. Ronaldo, claro, não desperdiçou.

 

Por fim, já em tempo de compensação, deu-se a jogada que ficou nas bocas do mundo: trinta e três passes seguidos, terminando com a assistência de Rafa para o segundo golo de Ronaldo na partida. De início pensei que ele estava em fora-de-jogo, mas em câmara lenta dá para ver que Ronaldo está em linha no momento do passe.

 

Este foi um jogo que deixou a desejar em vários aspetos – e alguns deles voltariam para nos tramar no jogo seguinte – mas, mal por mal, foi a nossa melhor estreia em campeonatos de seleções desde 2008. E tendo em conta o que aconteceu mais tarde, estes três pontinhos iniciais são preciosos.

 

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Antes do jogo com a Alemanha, até estava otimista q.b., sobretudo depois de saber do empate entre a França e a Hungria. Agora em retrospetiva, não sei se esse resultado nos trouxe alguma vantagem para além de um sorriso presunçoso. Mas na altura, de uma maneira estranha, deu-me alguma esperança.

 

Esperança que, apesar de tudo, ainda durou um bocadinho. Talvez demasiado. Ficámos numa situação parecida à da Hungria na primeira parte do nosso primeiro jogo: completamente dominados pelos alemães, só que defendendo pior. Como disse antes, Raphael Guerreiro já viu melhores dias mas, como veremos adiante, as maiores falhas estavam à direita. 

 

Antes, uma das coisas que prolongou a minha relativa ilusão foi o golo português, contra a corrente do jogo. Todos concordam que foi uma jogada lindíssima: a arrancada de Bernardo Silva, o sprint de Cristiano Ronaldo, Diogo Jota desta vez tomando a decisão correta e passando ao Capitão.

 

Este golo foi uma das poucas coisas boas da tarde. Independentemente de tudo o que aconteceu antes ou depois, era a primeira vez desde 2008 que marcamos à Alemanha. Era mais um golo marcado por Ronaldo – que fica agora a dois da marca de Ali Daei –  mais uma data de recordes quebrados e um argumento contra aqueles que dizem que Ronaldo “só marca a seleções pequenas”.

 

Ora, a Alemanha não acusou o golo. Continuou na sua e finalmente, pouco após a meia hora de jogo, conseguiu marcar dois golos em poucos minutos. Mais tarde, ainda no início da segunda parte, os alemães marcaram o terceiro. Dez minutos depois, mais coisa menos coisa, marcaram o quarto.

 

Falo dos quatro golos alemães de uma assentada porque estes têm todos o mesmo ADN. Durante o jogo, aquando do terceiro golo, eu barafustava para quem me quisesse ouvir:

 

– Mas quem é que deixou aquele gajo sozinho? Quem é que deixou aquele gajo sozinho?

 

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“Aquele gajo” era Robin Gosens. E a verdade é que, vendo agora imagens dos golos alemães, todos eles metem Gosens completamente à vontade à direita. Chega a ser caricato. Pouco importa que os dois primeiros golos tenham vindo de portugueses na baliza errada. Isto foi praticamente o mesmo golo em repetição.

 

Portugal até melhorou mais tarde, quando Fernando Santos meteu João Moutinho – mas também quando a Alemanha tirou o pé do acelerador. Conseguimos até marcar mais um golo na sequência de um livre – com Ronaldo fazendo uma assistência acrobática para a finalização de Diogo Jota.

 

Não evitou a derrota, mas poderá ser importante nas contas dos melhores terceiros.

 

Ainda houve tempo para Renato Sanches – que está em ótima forma – dar um tiro à barra. Infelizmente, o resultado desfavorável manteve-se. 

 

Não foi uma tragédia como o que aconteceu em 2014 e, por princípio, não é vergonha nenhuma perder contra a Alemanha. Mas todos concordam que podíamos ter feito mais. Não sou a melhor pessoa para avaliar o que falhou, mas até eu reparei que, em ambos os jogos, as coisas corriam melhor depois de Fernando Santos mexer no meio-campo. 

 

Além disso… cinco faltas contra quinze da Alemanha? Não é normal!

 

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Pouco depois do fim do jogo, os Marmanjos vieram para as redes sociais pedindo-nos para acreditarmos “tanto quanto eles”. Mesmo os comentadores da TVI durante o jogo iam mantendo um tom irritantemente otimista, sem noção (piores do que eu...). Chegaram a dizer coisas como:

 

– Aquilo que nos aconteceu hoje pode acontecer à França na quarta-feira.

 

Pois. Eu também posso ganhar o Prémio Nobel da Literatura este ano.

 

Não é que não acredite, porque acredito. Não seria a primeira vez – e em princípio não será a última – que a Seleção dava a volta a circunstâncias tão desfavoráveis como esta. Diz que é possível seguirmos em frente mesmo perdendo contra os franceses – e a vantagem de este ser o grupo F é o facto de sermos os últimos a jogar. Entraremos em campo conhecendo os mínimos olímpicos para seguirmos para os oitavos-de-final. À hora desta publicação, “basta-nos” perder por dois golos de diferença. 

 

Ao que chegámos… Peço desculpa, mas isto chega a ser patético. Nunca gostei de pegar na calculadora, apesar de, como disse antes, ser a nossa sina. Mas ao menos antes só tínhamos de incluir equipas do nosso grupo na equação. Na minha opinião, o critério dos “melhores terceiros” estraga um pouco a fase de grupos.

 

Enfim, é o que temos. Mal por mal, ao menos sempre é mais digno ficarmos em terceiro num grupo com a Alemanha e a França do que num grupo com a Islândia e a Áustria. 

 

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Mas dizia eu que o problema não é não acreditar. Eu acredito e acho que a maior parte de nós acredita. O problema é que acreditar não basta. É preciso aprender com os erros, fazer melhor em campo, jogar melhor – seja individualmente, seja coletivamente, seja o que quer que seja. Não sei o suficiente para apontar dedos, mas sei que temos capacidade para mais do que isto. Somos Campeões Europeus e temos grandes jogadores do nosso lado. Somos melhores do que isto!

 

Quando estivemos numa situação parecida com esta há cinco anos, escrevi que, se tudo corresse bem e nos tornássemos Campeões Europeus, ninguém se ralaria com o facto de nos termos apurado em terceiro no grupo. Não foi bem assim – pelo contrário, foi aqui que nasceu o “de empate em empate” (a parte mais engraçada desta história é que, antes do Euro 2016, Portugal não tinha empatado uma única vez sob a alçada de Fernando Santos). Mas o final dessa história continua a ser aquilo que mais interessa.

 

Da mesma forma, hoje sinto-me desiludida, mas isso passará se seguirmos em frente no Europeu. Mais: quanto mais aprendermos com o que aconteceu no jogo de sábado, mais longe iremos na prova. Aí acreditarei em Fernando Santos quando diz que, se apanharmos a Alemanha na final, ganhamos nós. 

 

Mas não conto com esse ponto até ele nascer. Ainda temos os franceses no nosso caminho, com quem nunca é fácil lidar, nem mesmo nas melhores circunstâncias. Agora vieram de um escandaloso empate perante a Hungria e vão encontrar a seleção que lhes tirou o Europeu que eles mesmos organizaram. 

 

São meninos para nos darem uma goleada só mesmo para garantir que vamos para casa mais cedo. Nem quero imaginar a humilhação…

 

Eu acredito no empate pelo menos – e já será suficientemente difícil. Se há algo de que tenho a certeza hoje é que ninguém na Seleção quer ficar pela fase de grupos. Nunca aconteceu connosco num Euro, era no mínimo indigno acontecer agora. Falta é passar dos desejos à ação. 

 

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Venham de lá os franceses. Uma vez mais, vemo-nos do outro lado.

Tédio, roubo e falta de intensidade

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No passado dia 24 de março, a Seleção Portuguesa de Futebol venceu a sua congénere azeri por uma bola a zero. Três dias mais tarde, em Belgrado, empatou a duas bolas com a sua congénere sérvia. Finalmente, no dia 30, venceu a sua congénere luxemburguesa por três bolas a uma. Todos estes jogos contaram para a Qualificação para o Mundial 2022 e, com estes resultados, Portugal conta sete pontos e segue em primeiro da classificação do grupo.

 

Esta foi uma jornada tripla bastante atribulada. Começando pelo primeiro jogo – uma maneira triste e entediante de começar o ano da Seleção. Cheguei a perguntar-me se fora mesmo daquilo que tivera saudades durante semanas – até porque nesse tempo andei a ver os jogos do Sporting com a minha irmã. 

 

Não diria que a Seleção jogou mal. Portugal não comprometeu, não cometeu erros. No entanto, não houve intensidade, não houve inspiração no ataque, nada que entusiasmasse. Ao mesmo tempo, o “Azérbaijão” (o novo “Félich” que me irritou tanto que, na segunda parte, mudei para a SportTV) mal saiu do seu meio campo durante a primeira parte. Mesmo quando conseguiu sair, mais tarde, não chegava a ameaçar a baliza de Anthony Lopes.

 

O resultado disto tudo foi um dos jogos mais enfadonhos de que há memória. É verdade que ganhámos – e não ganhávamos num primeiro jogo de Apuramento há oito anos e meio – mas este é o pior tipo de vitória. Nem sequer tivemos o prazer de festejar um golo. Foi Medvedev a marcar na própria baliza. A única coisa em que este jogo foi melhor que outras estreias em Apuramentos foi mesmo os três pontos.

 

Na altura as reações nas redes sociais a este jogo foram duras. Eu, embora concordasse com o essencial das críticas, achava um exagero. Sim, fora um jogo mau, mas estava longe de ser o pior de sempre da Equipa de Todos Nós – acreditem, eu sei do que falo. Não fazia sentido estar a pôr tudo em causa por um jogo em que ganhámos. Eu sabia que da próxima vez, com um adversário mais estimulante, a coisa correria melhor. Certo?

 

Acho que não se justifica dizer “Errado!”, mas…

 

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O resultado abaixo das expectativas no jogo com a Sérvia desiludiu-me um pouco mais do que o costume porque eu estava a ter um dia bom. Dias bons em tempos de pandemia são raros. Tinha ido dar sangue de manhã – por mera coincidência era Dia Nacional do Dador. Já agora, deem sangue! – estava bom tempo, dera um agradável passeio higiénico, tivera pizza para o jantar. 

 

A boa disposição manteve-se durante a primeira parte. Portugal não foi brilhante, mas dominou o jogo – um alívio após a fraca exibição em Turim. O primeiro golo foi marcado logo aos dez minutos – Bernardo Silva assistiu para a cabeça de Diogo Jota. O segundo golo, aos trinta e cinco minutos, foi idêntico ao primeiro – desta vez com Cédric Soares a assistir. 

 

Ao intervalo sentia-me satisfeita e otimista em relação ao resto do jogo. Os Marmanjos manteriam o nível, mais ou menos, marcariam mais um golo ou, pelo menos, conservariam a vantagem. Reconheço agora que este otimismo era um tudo nada exagerado. O género de engano de alma ledo e cego que já deveríamos saber que a Fortuna não deixaria durar muito.

 

Não cheguei a ver o primeiro golo da Sérvia pois atrasei-me a mudar de canal no fim do intervalo – foi logo aos primeiros minutos. Na altura não me preocupei muito pois continuávamos em vantagem. No entanto, a intensidade da primeira parte desaparecera sem deixar rasto. Pior de tudo, aos sessenta minutos, na sequência de (tenho de reconhecer) uma bela jogada de contra-ataque, os sérvios empataram a partida.

 

Não se pode dizer que Portugal tenha procurado febrilmente regressar à vantagem. António Tadeia é da opinião que, a certa altura, Fernando Santos resignara-se ao empate. No entanto, Portugal chegou a conseguir enfiar a bola na baliza, mesmo no último minuto, a minha irmã até desatou aos guinchos… mas não valeu. 

 

Vamos então falar deste infame momento e da reação de Ronaldo. Um episódio que tem feito correr muita tinta digital e, à boa maneira das redes sociais, as discussões chegaram a extremos ridículos. 

 

 

Deixo aqui o meu contributo para o debate. Para começar, sim, o golo era legal – dá para ver no vídeo acima – custou-nos dois pontos. Não culpo os árbitros, são humanos. É para compensar as suas limitações que existe o vídeo-árbitro e a tecnologia da linha de golo… que, no entanto, continuam a não ser usadas nas fases de Apuramento porque… razões.

 

Já não é a primeira vez que a falta de VAR, passe a expressão, nos lixa. A outra vez foi há dois anos, mais dia menos dia, por sinal também frente à Sérvia, também num segundo jogo de Apuramento. Estive a ouvir a Conferência de Imprensa depois do jogo e tive um dejá-vu quando Fernando Santos disse que o árbitro lhe pedira desculpa. 

 

Nos dias seguintes a FIFA chutou as responsabilidades para a UEFA, a UEFA chutou as responsabilidades para as federações dos países que organizam os jogos – qualquer coisa sobre a federação do país-anfitrião ter de pedir licença à federação do país visitante para implementar a tecnologia da linha de golo. 

 

O que a mim cheira a treta. Haverá alguma federação que recuse as tecnologias? 

 

Para juntar achas a esta fogueira, ao pesquisar para este texto, encontrei notícias de finais de 2019 que indicam que a UEFA aprovou o VAR para os jogos de Qualificação, estava só à espera da luz verde da FIFA. Porque é que não passou da decisão à prática? A FIFA não autorizou e, agora, está a mentir? A FIFA autorizou mas a UEFA “esqueceu-se” de implementar a tecnologia?

 

Não faz sentido. 

 

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Regressando ao momento do golo, não gostei nada da reação de Ronaldo. Sim, foi uma reação humana, no calor do momento, não serei eu a atirar a primeira pedra – se bem que, da última vez que tive uma reação semelhante (também a propósito do jogo com a Sérvia na Luz) estava mais cafeínada que o costume. Sei também que Ronaldo é daquelas pessoas que tem mau génio, tem sempre as emoções à flor da pele, sente tudo – sobretudo no que toca àquilo que adora, o futebol – não é capaz de esconder nada.

 

Ainda assim… Ronaldo tem trinta e seis anos. Está no futebol profissional há quase duas décadas. Este não foi o primeiro nem o segundo caso de má arbitragem que ele testemunhou e é possível que não seja o último. Ele não devia ter mais controlo sobre si mesmo nesta altura do campeonato?

 

Quanto ao facto de ter atirado com a braçadeira de Capitão… não foi bonito, não foi correto, percebo que algumas pessoas tenham ficado incomodadas com o gesto. No entanto, não acho que tenha sido intencional. Era o que estava à mão. Se ele tivesse um apito ao pescoço ou o telemóvel no bolso, teriam sido esses objetos a voar. 

 

Na verdade, o que me irritou neste episódio é que Ronaldo foi reclamar com o árbitro quando o jogo ainda estava a decorrer. Não houve pausa, tirando alguns segundos depois. Bernardo Silva tentara a recarga. Ronaldo podia ter adiado a birra por um minuto ao dois e ter ficado em campo com ele e os colegas tentando não desperdiçar a jogada. Talvez ele (ou outro qualquer) tivessem conseguido marcar, teríamos agora nove pontos e a conversa hoje seria outra. 

 

Um dos argumentos que tem circulado por aí é que Ronaldo adora a Seleção, adora marcar golos (e tem andado algo ansioso com isso), leva-o a peito, daí essa reação. Eu respeito isso, admiro-o, mas este caso pedia um pouco menos amor e um pouco mais juízo. 

 

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Além disso, sejamos sinceros, se fosse uma mulher a fazer uma birra daquelas, as críticas seriam muito mais duras. Veja-se o que aconteceu com Serena Williams

 

Adiante. Apesar de nos terem roubado a vitória, não se pode dizer que tenhamos feito o suficiente para merecê-la. É claro que “merecer” é relativo: no futebol ganha-se marcando golos e não seria a primeira vez que Ronaldo faria de Deus Ex Machina. Ainda assim, estivemos a ganhar por 2-0 e perdemos essa vantagem. Não foi só culpa do árbitro. 

 

Havemos de falar sobre as falhas da Seleção mais à frente. Antes, o jogo com o Luxemburgo. 

 

Depois da turbulência dos jogos anteriores, só queria uma vitória tranquila. Não precisava de ser uma grande exibição: apenas um jogo sem stress, três pontos ganhos sem grandes complicações, sem dar motivos para polémicas. 

 

Era bom, não era? Aqueles Marmanjos… 

 

Péssima primeira parte, péssima. Uma vez mais, faltou agressividade, faltou concentração. Como diria o próprio Fernando Santos, Portugal estava a jogar a passo, uma espécie de peladinha. Enquanto isso, o Luxemburgo vinha catalisado pela vitória perante a República da Irlanda (!). Com os luxemburgueses entusiasmados e os portugueses apáticos, quem é que acham que marcou primeiro? 

 

 

Só quando deram por si em desvantagem é que os portugas acordaram para a vida. Bernardo Silva passou para o meio, Pedro Neto rendeu o lesionado João Félix. Portugal começou a jogar melhor. Finalmente, em cima do intervalo, Pedro Neto assistiu para Diogo Jota marcar de cabeça. 

 

Dias mais tarde, Jota marcaria da mesma forma pelo Liverpool. Quatro golos de cabeça no espaço de uma semana. O miúdo deixa-me sem palavras. Ninguém diria que esteve três meses lesionado – parece, aliás, que Jota passou esse tempo a treinar cabeceamentos!

 

Depois do intervalo, aos cinquenta minutos, Cristiano Ronaldo colocou Portugal em vantagem, após assistência de João Cancelo. Antes do jogo, eu tinha previsto que ele ia marcar – já são muitos anos, sei como ele funciona. 

 

Acertei… mas acho que todos concordamos que o enguiço ainda não passou por completo. Veja-se a oportunidade dupla que ele desperdiçou aos setenta e oito minutos (após outro período mais apagado da Seleção). Ronaldo não costuma falhar estas. 

 

Algo que é em simultâneo uma vantagem e uma desvantagem da Equipa de Todos Nós é não acompanharmos diretamente o seguimento de momentos específicos das carreiras dos jogadores. Depois das jornadas os Marmanjos regressam aos clubes e, quando voltam à Seleção, as suas histórias já estão num capítulo completamente diferente. Pode ser que Ronaldo já tenha recuperado o faro para o golo quando começarmos a preparar o Europeu.

 

 

Regressando ao jogo contra o Luxemburgo, Portugal conseguiu ampliar a vantagem a dez minutos do fim – com um golo de João Palhinha, na sequência de um canto cobrado por Pedro Neto. Espero que o tenham visto mais tarde, nas entrevistas rápidas: os olhos de Palhinha até brilhavam, estava tão feliz!

 

Ele e o outro estreante, o Nuno Mendes, estiveram muito bem nesta tripla jornada. O segundo em particular, como li algures, tem dezoito anos, mas joga como se tivesse sido internacional a vida toda. Veja-se a assistência dele para o golo não validado de Ronaldo. 

 

Este jogo com o Luxemburgo fez-me lembrar o de 2012, com o mesmo adversário. Nesse também começámos mal, com o Luxemburgo a marcar primeiro. Também conseguimos empatar antes do intervalo, também chegámos à vantagem no início da segunda parte. 

 

Na minha opinião, o jogo de 2012 foi pior – nessa altura, a seleção do Luxemburgo estava menos profissionalizada do que hoje. Ainda assim, a Turma das Quinas está melhor fornecida agora, tem capacidade para melhor.

 

O que me leva ao denominador comum aos três jogos deste compromisso: a falta de intensidade, de concentração. As redes sociais têm colocado as culpas em Fernando Santos, porque é isso que o povo faz. No entanto, tirando algumas decisões, não acho que a culpa seja dele. 

 

A falta de tempo de qualidade com os jogadores é um argumento tão velho como, se calhar, o próprio conceito de seleção nacional mas, para sermos justos, esta é apenas a terceira jornada tripla – e a primeira em que os três encontros são a doer. Foram três jogos em menos de uma semana! Segundo Fernando Santos, entre viagens e jogos, os treinos servem apenas para recuperação, não propriamente para treinar. E suponho que, nesta fase da época, isso pese mais aos jogadores que em outubro ou novembro. 

 

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Há um par de anos talvez torcesse o nariz a essa desculpa. No entanto, se formos a ver, houveram outras seleções com resultados menos bons. A França empatou com a Ucrânia – os ucranianos não são nenhuns bananas, nós mesmos o descobrimos, mas a França sempre os goleou em outubro último – a Holanda perdeu contra a Turquia, a Espanha empatou com a Grécia e, mais chocante de todas, a Alemanha perdeu com a Macedónia do Norte!

 

Tendo isto em conta, os nossos resultados nesta tripla jornada não foram assim tão maus. E não são, mesmo em circunstâncias melhores, como veremos já a seguir. Não será apenas coincidência termos várias seleções de topo com resultados abaixo das expectativas. Alguma coisa se passa e deve ter mesmo que ver com o calendário atual das seleções.

 

Não sou a melhor pessoa para falar disso, mas penso ter lido alguém sugerindo dedicarem um mês, um mês e meio, às fases de Qualificação. Mais ou menos como fazem com os Europeus e Mundiais. Teria a grande desvantagem de aumentar os hiatos entre concentrações da Seleção, mas as vantagens seriam maiores. Os selecionadores teriam mais tempo de seguida para trabalhar com os jogadores e criarem rotinas, logo, a qualidade do futebol aumentaria. Em relação aos clubes, talvez fosse menos prejudicial abdicarem dos jogadores apenas uma ou duas vezes por época, mesmo que durante várias semanas, do que abdicarem-no várias vezes ao ano, por vezes em alturas críticas dos campeonatos. 

 

A hipótese devia ser discutida, no mínimo. 

 

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Nessa linha, concordo com António Tadeia quando diz para guardarmos as pedras para Fernando Santos para depois do Europeu. Será mais adequado avaliarmos as competências do Selecionador quando este tiver oportunidade para trabalhar como deve ser com os Marmanjos.

 

Por agora, apesar das controvérsias todas, do drama, no fim do dia o que conta são os resultados, são os pontos. E a verdade é que estes não são assim tão maus. Como disse antes, foi a primeira vez em oito anos e meio que ganhámos o primeiro jogo da Qualificação. Ainda mais tempo passou, nem sei bem quanto, desde a última vez que conseguimos tantos pontos nos três primeiros jogos de Qualificação – tanto quanto me lembro, tem havido quase sempre um jogo que perdemos ou dois empates. 

 

É claro que nove pontos seriam melhores que sete – ainda não é desta que fazemos uma Qualificação imaculada. Além disso, só conseguimos o Apuramento direto se ficarmos em primeiro lugar. Estamos em primeiro agora, mas a margem de erro não é larga.

 

Eu no entanto estou confiante. Como dei a entender, já nos Qualificámos em circunstâncias mais difíceis. Não há nenhum motivo para falharmos agora. 

 

Mas para já a Qualificação ficará em pausa até setembro. Quando a Seleção se reunir de novo será para preparar o Europeu.

 

Devo avisar que ainda não sei como irei cobrir o Euro 2020 neste blogue. Mudei recentemente para um emprego que me vai roubar tempo de escrita. Ainda não sei ao certo quando, mas será muito difícil eu conseguir escrever uma crónica para cada jogo, ou pares de jogos. Se o blogue não ficar completamente parado durante o Europeu – algo que quero evitar a todo o custo – os textos terão quase de certeza um formato diferente. 

 

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Fico um bocadinho triste, mas sempre soube que isto iria acontecer. Mais cedo ou mais tarde, deixaria de ter a mesma disponibilidade para este blogue. Por outro lado, para ser sincera, às vezes fico um pouco farta da fórmula atual destas crónicas. Talvez uma mudança não seja assim tão má. 

 

Em todo o caso, na pior das hipóteses, se não conseguir voltar cá, fico satisfeita por ter aguentado durante tanto tempo (quase treze anos!) e por ter apanhado tantos momentos felizes. Destaque óbvio para os nossos primeiros dois títulos. 

 

Além disso, vou continuar na página do Facebook – as minhas postas de pescada em torno da Seleção não vão desaparecer por completo das internetes. Não é o meu formato preferido, mas é melhor do que nada. Também servirá para vos manter atualizados em relação a futuros planos para este blogue.

 

Aconteça o acontecer, como sempre, muito obrigada pelas vossas visitas. Até uma próxima!

Pausa na programação

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Amanhã, dia 11 de novembro, a Seleção Portuguesa de Futebol recebe a sua congénere andorrana, no Estádio da Luz, em jogo de carácter particular. Três dias mais tarde, no mesmo estádio, receberá a sua congénere francesa. Três dias depois, a Seleção desloca-se à Croácia para defrontar a seleção local. Estes últimos dois jogos contarão para a fase de grupos da segunda edição da Liga das Nações.

 

Fernando Santos anunciou os Convocados para a reta final desta fase de grupos na passada quinta-feira. As novidades na Convocatória são as chamadas de Paulinho e Pedro Neto. Não sei muito sobre eles, confesso. Consta que Paulinho tem feito uma boa época no Sporting de Braga – aparentemente é o avançado dos sonhos de Carlos Carvalhal.

 

Uma nota curiosa: ele fez anos ontem, logo no dia em que se juntou à Seleção pela primeira vez. Não é algo que aconteça todos os dias. 

 

Por seu lado, Pedro Neto é o primeiro na Seleção A a nascer na década de 2000. Ainda devia usar fraldas quando Cristiano Ronaldo subiu aos séniores do Sporting, mas agora vai partilhar o balneário com ele. Pedro é outro lobo do Wolverhampton que se tem saído bem no clube. Consta que ganhou espaço com a transferência e Diogo Jota para o Liverpool. 

 

É impressão minha ou o Wolverhampton está uma autêntica fábrica de talentos para a Turma das Quinas? Criaram o Jota e agora estão a criar o Pedro Neto…

 

Adiante. A minha irmã fez-me ver que esta é a primeira Convocatória sem jogadores do Benfica ou do Sporting em… cinquenta anos!

 

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Não acho que Fernando Santos tenha uma boa desculpa, desta feita – não se pode dizer que os clubes não estão a investir no jogador português. O Benfica tem Pizzi e Rafa. O Sporting está em primeiro lugar na Liga (coisa rara), pelo menos em parte graças a jogadores como Pedro Gonçalves, também conhecido por Pote, Nuno Mendes, Nuno Santos, João Palhinha e até o Campeão Europeu João Mário! 

 

Vão ter de me perdoar se sei um pouco mais sobre o Sporting do que sobre outros clubes portugueses. É o que dá ter uma sportinguista em casa – que ainda por cima anda mais envolvida com a atividade do clube, agora que as coisas estão a correr bem. 

 

A única explicação que me ocorre para não haverem representantes do clube leonino nesta Convocatória – e, como sabem, estou longe de ser uma especialista na matéria – é haver demasiada concorrência para aquelas posições. João Palhinha, por exemplo, concorre com Danilo Pereira para médio defensivo e Nuno Mendes concorre com Raphael Guerreiro para lateral esquerdo. Uma das piores partes de ter uma grande base de recrutamento: há jogadores bons que têm de ficar de fora. 

 

Mas se o Sporting continuar em alta até aos próximos jogos da Seleção, em março, Fernando Santos vai ter de dar oportunidades a estes jogadores. 

 

Uma ausência que me desagrada é a de Pepe por lesão. Depois do seu excelente desempenho nos últimos jogos, isto era uma das últimas coisas que desejava para um jogo difícil, como o de sábado. Enfim, o José Fonte também é experiente, também é Campeão Europeu, há de ser capaz de dar conta do recado. 

 

Nestas últimas semanas, tenho andado inchada de orgulho com tanto jogador português a brilhar nos respetivos clubes. Diogo Jota, um dos destaques da Seleção desde o fim do hiato, também tem espalhado magia no Liverpool. Só no jogo com o Atalanta para a Champions, na semana passada, marcou um hat-trick. Jürgen Klopp está rendido ao miúdo – o sonho de qualquer jogador, deixar um treinador de renome de joelhos. 

 

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Por seu lado, João Félix parece finalmente ter-se encaixado no Atlético de Madrid. No último jogo, em que o Atlético venceu o Cadiz por quatro-zero, Félix contou dois golos e uma assistência. O jornal A Marca já fala dele como o dono da equipa, um dos principais fatores para a ascensão dos colchoneros. 

 

Como alguém que receou que a transferência para o Atlético de Madrid tivesse sido um erro, estou muito feliz por não ter razão. 

 

Quanto a Renato Sanches, também ele tem arrancado elogios, desta feita à Imprensa francesa – o que é notável, tendo em conta a tendência dos franceses para nos desprezarem. Parece que Renato foi uma das estrelas na vitória por três-zero do Lille sobre o AC Milan. 

 

Por fim, o Manchester United tem andado com altos e baixos, mas Bruno Fernandes continua a destacar-se pela positiva. Os jornais descrevem-no como o coração do clube de Old Trafford. 

 

São muitos clubes na mão de jogadores portugueses. O que dá muito jeito para a Equipa de Todos Nós na reta final da fase de grupos da Liga das Nações. 

 

Antes disso temos um particular de dificuldade menor – uma exceção àquela que tem sido a regra para a Seleção, após o longo hiato. O nosso último jogo com a Andorra foi mais difícil do que seria de esperar para a qualidade do adversário – o maior obstáculo foi o terreno. Ora, tendo em conta que este jogo decorrerá no Estádio da Luz, esse problema não se coloca. 

 

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Estou convencida, aliás, de que este adversário foi escolhido a dedo para Ronaldo avançar na perseguição ao recorde de golos por seleções. 

 

Eu e a minha família queríamos ir a esse jogo. A minha mãe faz anos amanhã e eu tinha a esperança de que o Portugal + me enviasse convites (esqueci-me de referi-lo na crónica anterior, mas cheguei a receber quatro convites para o jogo com a Suécia. E até foi com uns dias de antecedência. Mas mesmo assim não fui a tempo de resgatá-los.). No entanto, a pandemia agravou-se e a DGS cancelou os testes-piloto. 

 

É uma pena, sobretudo no que toca ao jogo com a França. Num jogo tão difícil, o público seria uma arma importante. Mas o que é que se pode fazer? 

 

Falemos então sobre o jogo com a França – um dos mais difíceis desta fase de grupos, se não for o mais difícil. A França dispensa apresentações e está em igualdade pontual connosco. O fator casa será praticamente irrelevante e, ao contrário do que aconteceu no Stade de France, o empate poderá não ser suficiente. Tal como disse Fernando Santos na Conferência de Imprensa, um empate com golos não nos dá muito jeito – os franceses ficam com a vantagem de terem marcado em nossa casa. Mesmo um empate sem golos não seria um resultado ideal, na minha opinião – adiaria a decisão para o último jogo, que também não será fácil. 

 

O melhor seria mesmo vencermos a França. Assim, se a matemática não me falha, bastar-nos-ia empatar com a Croácia para passarmos à final four da Liga das Nações. É claro que é mais fácil escrevê-lo do que fazê-lo – não preciso de explicar porquê. Eu não faria essa aposta no Placard. Mas, se existe uma Equipa das Quinas capaz desse feito, será a atual – a passar por uma bela fase, tanto em termos de individualidades como de coletivo. 

 

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A abordagem ao jogo com a Croácia vai, assim, depender do jogo com a França. É um voo um bocadinho longo até Zagreb. Ao menos é o último encontro da jornada e não o do meio – o desgaste seria significativo. Os croatas já estão fora da corrida pelo acesso à final four da Liga das Nações – mas é possível que compitam com a Suécia para não descerem à divisão B. É melhor não esperar facilidades. 

 

Pensar nestas coisas, nestas contas, escrever sobre elas, é um bom descanso da realidade do agravamento da pandemia. Bem, regra geral – o motivo pelo qual fiquei tão em baixo no mês passado foi por o Coronavírus ter invadido o meu escapismo. 

 

Em retrospetiva, exagerei um bocadinho – não chegou a haver nenhum surto de Covid na Seleção. Cristiano Ronaldo recuperou bem, teve ginásio e piscina no isolamento (isto não é para quem quer, é para quem pode), regressou com a veia goleadora intacta. O pior que lhe aconteceu durante esse período foi ter rapado o cabelo (Ronaldo tem andado desinspirado em termos de penteados este ano). Mas com uma doença ainda mal-conhecida como o Covid…

 

À hora desta publicação, ninguém terá acusado positivo na Turma das Quinas. A ver se se mantém assim… 

 

Com alguma sorte, o Covid não estragará esta jornada. Poderemos, nem que seja por poucas horas, fazer uma pausa na programação habitual. Enquanto estivermos a pensar em quem tomará o lugar de Pepe ou se Ronaldo deve ser poupado no jogo contra Andorra, não estaremos a pensar nos números crescentes da pandemia ou no regresso, ainda que parcial, do confinamento. E pode ser que os Marmanjos nos consolem com vitórias perante os atuais Campeões e Vice-Campeões do Mundo. 

 

Isto não é assunto novo neste blogue, já é quase um cliché. Mas costuma-se dizer que os clichés existem por um motivo. Para mim, a Seleção é um escapismo, um consolo, uma esperança – coisas que nunca fizeram mais falta. 

 

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Nesse aspeto, vou tentar aproveitar este triplo compromisso. Sugiro-vos que façam o mesmo: quer através deste blogue, quer através da sua página no Facebook.

Alegria e tristeza, saúde e doença

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No passado domingo, dia 11 de outubro, a Seleção Portuguesa de Futebol empatou sem golos contra a sua congénere francesa, em jogo que decorreu no Stade de France, em Paris. Três dias depois, a Seleção venceu a sua congénere sueca por três bolas sem resposta. 

 

Antes de falarmos sobre os jogos, receio que tenhamos de falar sobre o Coronavírus, que pelo menos para mim arruinou esta jornada tripla. Bem, na verdade tem arruinado a vida de toda a gente este ano, de múltiplas maneiras. Este foi apenas mais um exemplo. Isto numa fase em que eu pensava que estávamos preparados, que sabíamos com que contar, que já estaríamos capazes de evitar baldes de água fria. Mas não.

 

Na véspera do jogo com a Suécia, Cristiano Ronaldo acusou positivo no rotineiro teste à Covid. Reagi um bocado mal à notícia – o Ricardo Araújo Pereira deixou-me com as orelhas a arder um bocadinho, no seu monólogo de abertura no domingo passado (Ah, doença cruel! Oh, maleita inclemente!).

 

Não que tenha ficado muito preocupada com a saúde de Ronaldo – ele é jovem, é saudável, aparentemente tem estado assintomático. Na pior das hipóteses, batam na madeira, ele tem dinheiro para pagar tratamentos de luxo, semelhantes aos que o execrável presidente dos Estados Unidos recebeu. Eu até alinhei nas piadas que se fizeram na altura – embora mais na onda de rir para não chorar. 

 

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Vou desde já admitir a minha hipocrisia: isto só se tornou um problema a sério para mim quando foi Cristiano Ronaldo a acusar positivo – não me preocupei tanto quando José Fonte e Anthony Lopes acusaram, dias antes. É inútil negá-lo, Ronaldo tem um mediatismo que nenhum dos outros tem – e provavelmente nunca terão. 

 

Por outro lado, isto aconteceu uma semana depois do início da concentração. Aquilo que mais me afligiu foi o facto de, de repente, quase tudo o que Ronaldo no seio da Seleção, teve de ser questionado, assinalado como possível risco de contágio. A foto que ele tirou com Pepe e Sergio Ramos, depois do jogo com a Espanha, aludindo aos anos em que foram colegas no Real Madrid; o momento com Kylian Mbappé, seu admirador, a troca de camisolas com o jovem Eduardo Camavinga; a fotografia da Seleção à mesa do jantar. Bolas, só o facto de ter treinado e jogado futebol sem máscara.

 

Fernando Santos garante que não foi durante a concentração que Ronaldo contraiu o vírus – mas o Selecionador, com o devido respeito, não é uma autoridade de saúde. De qualquer forma, independentemente do momento em que se contaminou, se Ronaldo deu positivo, é possível que já carregasse o vírus há uns dias, correndo o risco de o ter passado aos colegas. Colegas esses que, depois desta jornada tripla, regressaram aos seus clubes, às suas famílias. Toda uma cadeia de transmissão que pode ter começado na Equipa de Todos Nós.



Como é que acham que eu me senti ao saber que um compromisso da Seleção, uma das coisas que mais alegria traz à minha vida, pode ter servido de foco de infeção? Quase que mais valia a Turma das Quinas ter continuado em hiato. Se os Marmanjos não podiam festejar um golo sem que eu receasse que se estavam a contaminar uns aos outros, para quê?

 

Não culpo os jogadores. Acredito quando dizem que tem cumprido os protocolos todos o melhor que podem. E, que diabo, segundo Fernando Santos fizeram sete testes ao Covid em uma semana (um momento de silêncio pelas suas fossas nasais). Não sei se os protocolos definidos em junho, quando o futebol recomeçou, ainda estão em vigor mas, se estiverem, os jogadores praticamente só saem de casa para os treinos e jogos. Que mais podem fazer?

 

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À hora desta publicação, tanto quanto sei, mais nenhum Marmanjo acusou positivo à Covid 19. Nem nenhum jogador francês, sueco ou espanhol, nem mesmo Mbappé ou Sergio Ramos ou Camavinga. Pode ser que Ronaldo não tenha contaminado ninguém. Não há nada que possamos fazer agora. Mais vale falarmos sobre os jogos.

 

No dia do jogo com a França, cheguei a casa um bocadinho tarde. Quando liguei a televisão, já tinham decorrido os primeiros minutos da partida. Rúben Dias já contava um cartão amarelo, aparentemente após uma cotovelada a Olivier Giroud. O jogador francês ficou a sangrar e tiveram de lhe ligar a cabeça.

 

Havia necessidade disto tão cedo no jogo? Acho que não. Um árbitro mais duro teria mostrado logo o vermelho, o que ia estragar-nos o jogo por completo. Mas tenho de confessar, depois de Dimitri Payet nem sequer ter levado falta quando lesionou o Ronaldo na final de Paris, c’est le karma. O Giroud individualmente não teve culpa, coitado, mas é bem feita para a seleção francesa em geral. 

 

Parece que, em relação aos franceses, vou ser sempre algo mesquinha. O facto de lhes termos roubado o título de Campeões Europeus não foi suficiente. Em minha defesa, os franceses continuam igualmente mesquinhos: vejam-se as notas que a France Football deu aos Marmanjos.

 

Mas estou a desviar-me. 

 

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À parte esse pormenor, foi um jogo muito equilibrado. Caricatamente equilibrado, como se pode ver no meme acima. Na primeira parte, Portugal esteve por cima – muito graças ao excelente trabalho dos nossos médios, sobretudo de William Carvalho e Danilo. William, então, foi uma das estrelas desta jornada tripla.

 

Ainda assim, não dispusemos de muitas oportunidades. Tivemos um lance caricato em que, após um belo passe, Bernardo Silva tentou esticar-se mas acabou por cair com espalhafato. Houve também uma oportunidade de Bruno Fernandes, de Cristiano Ronaldo (boa intervenção de Lucas Hernandez) e pouco mais.

 

Na segunda parte, os franceses entraram mais afoitos. Desta feita, os nossos médios tiveram mais dificuldade em contê-los – em parte por causa do cansaço. O jogo tornou-se mais partido, menos seguro. Ainda assim, mesmo tomando mais as rédeas da partida, os franceses nunca obrigaram Rui Patrício a esmerar-se, tirando um momento ou outro.

 

Por seu lado, Fernando Santos lançou Diogo Jota e Francisco Trincão, a ver se não ficávamos pelo empate. Não resultou, infelizmente. Pepe até conseguiu enfiar a bola na baliza, na sequência de um livre. Ainda festejei, mas o golo foi anulado por fora-de-jogo.

 

O marcador permaneceu por abrir até ao apito final. Tínhamos vindo a dizer, nos dias anteriores, que um empate não seria um mau resultado – e de facto não o foi. Afinal de contas, era uma das melhores seleções do Mundo e um adversário tradicionalmente difícil para nós.

 

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Ao mesmo tempo, empatámos perante uma das melhores seleções do Mundo e um adversário tradicionalmente difícil para nós… e mesmo assim Fernando Santos queria mais. Queixou-se que os jogadores de ambas as equipas foram “demasiado cautelosos”... mas quem pode censurá-los? Éramos nós contra os Campeões do Mundo e nossas maiores bestas negras. Eram eles contra os Campeões da Europa e Liga das Nações e que já lhes tinham causado dissabores.

 

Além disso, é possível que, tivéssemos sido menos cuidadosos, corrríamos o risco de sofrermos golos, o que não era desejável.

 

Depois do jogo, toda a gente fez a piada de que faltou o Éder para repetir o feito do 10 de julho. A brincar a brincar, eu até concordo, faltou o Éder. Não o jogador em si, antes aquilo que ele representou na final de Paris: a estrelinha, aquele rasgo inesperado de inspiração, de talento, para marcar o golo da vitória (não confundir com sorte). Ronaldo fá-lo inúmeras vezes, mas podia ter vindo de qualquer um. 

 

Desta vez não deu.

 

Cheguei a ter medo de que esta jornada tripla terminasse sem que a Seleção marcasse um golo. Felizmente, o jogo com a Suécia deu-nos ocasiões para matar essa sede. 

 

Portugal entrou em jogo com a “pica” toda – fazendo lembrar um pouco a Espanha, uma semana antes. Tivemos oportunidades logo aos primeiros minutos, uma de Diogo Jota (que substituiu Ronaldo), outra de William Carvalho (já disse aqui que o William foi espetacular nestes jogos?). Finalmente, aos vinte minutos, Bruno Fernandes isolou Jota, este driblou um pouco e assistiu para o golo de Bernardo Silva.

 

 

Estava aberto o marcador – e a Seleção pôde festejar este golo com público!

 

Apesar da entrada em grande de Portugal, a Suécia não se deixou dominar. Pelo contrário, este foi um jogo muito partido, atípico para o estilo de Fernando Santos. Conforme mencionaram aqui na vizinhança, os suecos esticaram o campo em vez de encolhê-lo. Portugal nunca conseguiu ter o jogo controlado por completo.

 

Felizmente, a Seleção conseguiu não sofrer golos – uma vez mais, graças ao trabalho de Rui Patrício (um dos melhores guarda-redes do Mundo), Danilo e Pepe. Este último está numa fase excelente apesar a idade. É o mestre da defesa portuguesa – e Rúben Dias, que combina muito bem com ele, é o seu aprendiz, talvez o seu sucessor.

 

Eram Pepe, Patrício e Danilo brilhando atrás, era Diogo Jota brilhando à frente. Poucos minutos antes do intervalo, João Cancelo fez um passe espetacular, como que guiado por GPS. A bola encontrou Jota cara a cara com a baliza e o miúdo não desperdiçou. 

 

As coisas não mudaram muito na segunda parte. Aos sessenta e sete minutos, Bruno Fernandes recuperou a bola, arrancou em direção ao meio-campo da Suécia, isolou João Félix à entrada da área, só o guarda-redes à sua frente. Infelizmente, o miúdo deve ter-se enervado e rematou por cima. 

 

Pobre Félix. Ainda não está lá.

 

 

Finalmente, dez minutos depois, Jota fez quase tudo sozinho no último golo. O passe foi de William, Jota conduziu a bola para dentro da grande área, indiferente aos quatro suecos lá, e rematou para as redes.

 

Muito entusiasmada com este miúdo. Se se mantiver no caminho certo e tiver sorte, será um grande jogador.

 

Ficou feito o resultado. Talvez demasiado dilatado para um jogo em que Portugal nunca teve mão no jogo por completo. Não é grave. O que interessa são os três pontos e os golos numerosos, que poderão vir a da jeito em caso de empate pontual com a França, mais à frente.

 

Se não fossem todos os problemas causados pelo Coronavírus, hoje estaria muito feliz com o momento atual da Seleção. A Equipa de Todos Nós não fez um único jogo mau nesta edição da Liga das Nações, mesmo com adversários deste calibre. O longo hiato pode ter feito bem à Seleção – nos últimos jogos antes da pausa, tinhamos concluído uma Qualificação para o Euro 2020 com dificuldade, deixando muito a desejar. Depois disso, eu não esperava um desempenho tão consistente nesta prova.

 

Ou então, é a nossa mania de jogarmos melhor perante equipas difíceis. Nesse sentido, a Liga das Nações é uma competição à nossa medida (mesmo que muito boa gente como Arsène Wegner não lhe ache piada). Não admira que tenhamos sido os primeiros vencedores.

 

Neste momento, sobramos nós e a França na luta pela passagem às meias-finais. A maneira menos stressante de carimbarmos o passaporte é vencendo os franceses no próximo mês, em casa. Uma tarefa difícil em qualquer circunstância. No entanto, acredito que a Seleção atual, da maneira como tem jogado, é a melhor preparada para este desafio.

 

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Falaremos melhor sobre isso na altura.

 

Esperemos que Ronaldo elimine o vírus depressa e que mais ninguém na Seleção se contamine. Obrigada por lerem. Tenham cuidado convosco, para não se virem na mesma situação. Continuem a acompanhar a Equipa de Todos Nós comigo, quer aqui no blogue, quer na sua página de Facebook.

Em boas mãos (e pés)

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No passado sábado, dia 5 de setembro, a Seleção Portuguesa de Futebol derrotou a sua congénere croata por quatro bolas contra uma. Três dias mais tarde, derrotou a sua congénere sueca por duas bolas sem resposta. Ambos os jogos contaram para a fase de grupos da segunda edição da Liga das Nações. 

 

Era difícil Portugal ter tido uma melhor estreia do que esta, na competição. Foi sinceramente melhor do que eu me atrevia a esperar. 

 

Antes do início do jogo com a Croácia sentia-me nervosa. Pelos motivos que referi no final da última crónica e também porque não conseguia prever como correria o jogo. Achava que poderia dar para qualquer lado. Afinal de contas, sempre era o Campeão da Europa e da Liga das Nações contra o vice-campeão do Mundo. Pelo menos em teoria, era um duelo de titãs.

 

Agora sei que não precisava de me preocupar, mas foi melhor assim. É sempre preferível sobrestimar o adversário do que o contrário. 

 

Ambos os jogos desta jornada decorreram à porta fechada. Tal como se calculava, é deprimente. Os gritos dos jogadores e treinadores faziam eco nas bancadas vazias. Dizem que se ouviam os veículos na VCI dentro do estádio, durante o jogo com a Croácia – quando devia ser o contrário. Quem passava na VCI àquela hora devia ser capaz de ouvir os gritos no público dentro do estádio – tal como quem passa na Segunda Circular junto ao Estádio de Alvalade ou ao Estádio da Luz, durante jogos lá (como vivo em Lisboa, tenho mais experiência com isso). 

 

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Cristiano Ronaldo não jogou devido a uma infeção no dedo do pé, que estava a tratar com antibiótico (como farmacêutica, gostava de saber que terapêutica ele fez). Ele e os outros suplentes assistiram ao jogo na bancada. Ronaldo pareceu-me frustrado por não poder estar em campo – ao ponto de, a certa altura, se ter esquecido de pôr a máscara (eu dava-lhe um sermão daqueles, como tenho dado a vários utentes meus). 

 

Curiosamente, durante o jogo com a Suécia, quando Ronaldo estava em campo, as câmaras não pareceram tão interessadas no que se estava a passar nas bancadas, entre os suplentes. Porque será?

 

A Croácia teve uma oportunidade aos dois minutos, defendida por Anthony Lopes (titular em vez de Rui Patrício, que estava de férias antes destes jogos). Tirando essa ocasião, os croatas permaneceram acampados no seu meio campo, mesmo na sua grande área, muito encolhidos, durante quase toda a primeira parte. 

 

Portugal ia criando oportunidades atrás de oportunidades, sem conseguir concretizá-las – parecia-me que tínhamos sempre croatas no caminho da bola. Tivemos sintomas da nossa velhinha maldição dos postes – três bolas aos ferros, já não nos acontecia há algum tempo… 

 

Os comentadores iam dizendo que, mais cedo ou mais tarde, Portugal marcaria. Eu estava com medo que nos acontecesse o oposto – que os remates falhados começassem a subir à cabeça dos Marmanjos, que os nervos piorassem ainda mais a pontaria, um ciclo vicioso que acabasse com o jogo empatado ou pior.

 

 

Felizmente não foi isso que aconteceu. Aos quarenta minutos João Cancelo recebeu a bola perto da grande área. Lá permaneceu um momento, como que pensando o que fazer a seguir. Alguém, talvez Fernando Santos, gritou “Chuta!” – eu não ouvi da primeira vez, mas o meu pai ouviu. É uma das poucas vantagens da ausência de público. De qualquer forma, Cancelo obedeceu, um belo tiro, certeiro para as redes. O golo foi dedicado à sua falecida mãe – um gesto bonito, sobretudo depois da entrevista que dera ao Canal 11, poucos dias antes.

 

Estava quebrado o gelo. Na segunda parte, a Croácia abriu-se mais, aproximou-se mais da nossa baliza, sem fazer grandes ameaças. Portugal continuou por cima, se bem que sem o fulgor da primeira parte. Aos cinquenta e oito minutos, um dos defesas da Croácia distraiu-se com João Félix, dando espaço a Raphael Guerreiro para assistir para Diogo Jota e este rematar para as redes.

 

Este também teve direito a dedicatória – desta feita à namorada e ao filho que tem por nascer (eles são pais muito novinhos…). Depois de Ronaldo lhe ter roubado o golo no jogo com o Luxemburgo, Jota estreava-se a marcar com a Camisola das Quinas.

 

Mais tarde, foi a vez de João Félix se estrear, com um remate da meia-lua – após múltiplas tentativas, não apenas naquele jogo, praticamente desde que se estreou pela Seleção. O pobre miúdo nem sequer festejou o golo de imediato, parecia que nem acreditava que tinha mesmo marcado.

 

Os croatas tiveram direito ao golo de honra ao minuto noventa, fruto de uma fífia de João Cancelo. O Marmanjo segurou mal a bola, os adversários conseguiram ganhar posse e a jogada terminou com um remate certeiro de Bruno Petkovic, sem hipótese para Anthony Lopes. 

 

Depois do desempenho de Cancelo neste jogo, acho que toda a gente lhe perdoa este deslize. Até porque não demorou muito até a vantagem de três golos ser reposta. 

 

 

O golo de André Silva surgiu mesmo no sopro final da partida, na sequência de um canto. Foi uma jogada algo confusa, estavam muitos croatas na grande área. Pepe fez uma tentativa de remate de cabeça, a bola foi parar a André Silva, que a enfiou na baliza entre o guarda-redes croata e um colega dele. 

 

O árbitro apitou para o final logo após o golo, algo que não me lembro de alguma vez ter visto em futebol – as celebrações do golo misturando-se com as celebrações da vitória. Um pormenor engraçado. 

 

Toda a gente inundou a Seleção de elogios após este jogo. Eu incluída, claro, depois do meu nervosismo e expectativas algo baixas. Há quem aponte demérito da Croácia – e de facto acho que se esperava mais dos vice-campeões do Mundo, mesmo sem Modric e Rakitic – mas ninguém pode tirar o mérito a cada um dos que envergaram a (não muito bonita, tenho de concordar) Camisola das Quinas naquela noite. 

 

Não é a primeira vez que escrevo aqui sobre a alegria que é ver tanto jovem talentoso, alguns deles ainda com caras de adolescentes, jogando pela Seleção. Eu sentia-me inchar naquela noite com cada elogio aos Marmanjos que lia e ouvia – como se estivessem a elogiar-me a mim. Ah, as saudades que eu tinha disso!

 

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Foi aqui que as pessoas se começaram a questionar, não pela primeira vez, se Portugal jogaria melhor sem Ronaldo. Havemos de falar sobre isso neste texto… mas para já o jogo com a Suécia. 

 

Ronaldo estava já recuperado na infeção no dedo do pé. Alinhou, assim, desde início, tomando o lugar de Diogo Jota. Foi a única alteração em relação ao onze inicial anterior. Antes deste jogo ouvi comentadores debatendo qual das opções era a melhor: mudar a constituição da equipa, poupando jogadores desgastados pelo jogo anterior (afinal de contas, estamos em pré-época); ou usar essencialmente o mesmo onze, tomando partido das rotinas. 

 

Eu arrisco-me a dizer que talvez tivesse sido melhor ter usado um onze diferente, com jogadores mais frescos. O cansaço pode explicar, pelo menos em parte, a exibição menos entusiasmante da Seleção. Mas não percebo assim tanto de futebol para questionar uma decisão como esta. 

 

À hora do jogo estava, como a minha mãe diz, com a neura. Desejava uma vitória da Seleção um pouco mais do que o costume, para me levantar o ânimo. Em parte por causa disso, não prestei tanta atenção à primeira parte do jogo como prestara no sábado anterior. 

 

A Suécia começou o jogo por cima, defendendo bem. Portugal teve dificuldades em criar oportunidades, mas eventualmente foi crescendo no jogo. Cristiano Ronaldo fez duas tentativas de golo, ambas defendidas pelo guarda-redes Robin Olsen. 

 

 

Finalmente, em cima do intervalo, Gustav Svensson foi expulso por acumulação de amarelos, após falta sobre João Moutinho. Ronaldo foi chamado a cobrar e fê-lo com a mesma mestria que um jogador comum bate um penálti. Bruno Fernandes diria mais tarde que, na véspera, Ronaldo marcara “seis ou sete livres assim no treino e saiu igual”

 

Parece puro talento, magia, mas não é. É prática. O que para mim é ainda mais inacreditável. 

 

A expulsão e o golo em cima do intervalo mudaram o curso do jogo. Eu finalmente sorri, ultrapassando a minha neura. Tem sido sempre assim, há mais de metade da minha vida.

 

Deste modo, a segunda parte foi mais fácil, mesmo não sendo brilhante. Portugal teve mais oportunidades – de João Félix, dos dois meninos dos anos, João Moutinho e Bruno Fernandes. Este último chegaria a mandar uma bola aos ferros – outra vez a maldição.

 

No entanto, como em muitas outras noites de Seleção, estava escrito nas estrelas que aquela pertencia a Ronaldo. Não consigo perceber ao certo quem fez aquele passe transversal ao campo, espetacular. Não sou a única: há sítios que dizem que foi João Cancelo, outros dizem que foi Bruno Fernandes. De qualquer forma, João Félix recebeu a bola, passou-a para Ronaldo. Este disparou, em cima do limite da grande área, diretamente para as redes. 

 

 

Estava feito o marcador. Dois golos de Ronaldo, o centésimo-primeiro da sua conta pessoal pela Seleção. Sete deles foram precisamente frente à Suécia, a sua maior vítima empatada com a Lituânia. Fica a oito golos do recorde de Ali Daei. Todos esperam que Ronaldo atinja a marca em breve – se não fosse o Covid, se calhar já teria atingido. 

 

Foi ele quem mais brilhou neste jogo. Os companheiros estiveram mais apagados, em comparação com o jogo da Croácia. Existem várias explicações possíveis, algumas delas já referimos aqui. Menor frescura. Suécia mais competente que a Croácia. Ou então, talvez a Equipa de Todos Nós enquanto coletivo jogue melhor sem Ronaldo do que com ele. 

 

Esta teoria já não é nova e suspeito que depressa irá ganhar barbas. Fernando Santos tem garantido várias vezes que nenhuma equipa é melhor sem o Melhor do Mundo. No entanto, como muitos têm apontado, com Ronaldo em campo, os jogadores podem ter a pressão e/ou a tentação de passar a bola ao madeirense, esperarem que ele resolva a coisa. 

 

Uma vez mais, não sou a melhor pessoa para avaliar a questão. No entanto, no que toca a dilemas deste género relacionados com a Equipa de Todos Nós, estamos bem servidos neste momento. 

 

Há meia dúzia de anos o drama era se a Seleção era Ronaldo-mais-dez. Hoje conseguimos ganhar com ou sem Ronaldo. O drama é saber qual destas duas versões da Seleção é a melhor. Se esta dupla jornada serve de exemplo, de qualquer das maneiras, as Quinas estão em boas mãos (e pés). Temos o Melhor do Mundo e temos vários jogadores cheios de talento, representando os melhores clubes da Europa, que ainda nem sequer atingiram todo o seu potencial. Que podemos desejar mais?

 

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Como disse no início, era de facto difícil fazer melhor nesta dupla jornada – sobretudo tendo em conta as circunstâncias. Idealmente teríamos tido uma exibição melhorzita na vitória sobre a Suécia, mas esta continuava a valer três pontos. Era importante começarmos bem esta fase de grupos, até porque o pior (leia-se: a França) ainda está para vir. Mas preocupamo-nos com isso quando chegar a altura.

 

Para já, soube-me muito bem ter a Seleção de volta – e saber que voltaremos a tê-la dentro de poucas semanas. Como dei a entender antes, a vitória sobre a Suécia serviu-me de consolo, numa noite em que estava de mau humor. Não fez os meus problemas desaparecerem por magia, claro que não, mas tirou-me da minha própria cabeça. Deu-me coisas boas em que pensar, impediu-me de ir demasiado abaixo.

 

É precisamente por isso que a Seleção fez tanta falta durante os primeiros meses da pandemia. É por isso que estou feliz por tê-la de volta.


Obrigada a todos aqueles que acompanharam esta jornada dupla de Seleção comigo, quer neste blogue quer na sua página de Facebook. No próximo mês haverá mais.

 

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