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O Meu Clube É a Seleção!

Mulher de muitas paixões, a Seleção Nacional é uma delas.

Alegria e tristeza, saúde e doença

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No passado domingo, dia 11 de outubro, a Seleção Portuguesa de Futebol empatou sem golos contra a sua congénere francesa, em jogo que decorreu no Stade de France, em Paris. Três dias depois, a Seleção venceu a sua congénere sueca por três bolas sem resposta. 

 

Antes de falarmos sobre os jogos, receio que tenhamos de falar sobre o Coronavírus, que pelo menos para mim arruinou esta jornada tripla. Bem, na verdade tem arruinado a vida de toda a gente este ano, de múltiplas maneiras. Este foi apenas mais um exemplo. Isto numa fase em que eu pensava que estávamos preparados, que sabíamos com que contar, que já estaríamos capazes de evitar baldes de água fria. Mas não.

 

Na véspera do jogo com a Suécia, Cristiano Ronaldo acusou positivo no rotineiro teste à Covid. Reagi um bocado mal à notícia – o Ricardo Araújo Pereira deixou-me com as orelhas a arder um bocadinho, no seu monólogo de abertura no domingo passado (Ah, doença cruel! Oh, maleita inclemente!).

 

Não que tenha ficado muito preocupada com a saúde de Ronaldo – ele é jovem, é saudável, aparentemente tem estado assintomático. Na pior das hipóteses, batam na madeira, ele tem dinheiro para pagar tratamentos de luxo, semelhantes aos que o execrável presidente dos Estados Unidos recebeu. Eu até alinhei nas piadas que se fizeram na altura – embora mais na onda de rir para não chorar. 

 

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Vou desde já admitir a minha hipocrisia: isto só se tornou um problema a sério para mim quando foi Cristiano Ronaldo a acusar positivo – não me preocupei tanto quando José Fonte e Anthony Lopes acusaram, dias antes. É inútil negá-lo, Ronaldo tem um mediatismo que nenhum dos outros tem – e provavelmente nunca terão. 

 

Por outro lado, isto aconteceu uma semana depois do início da concentração. Aquilo que mais me afligiu foi o facto de, de repente, quase tudo o que Ronaldo no seio da Seleção, teve de ser questionado, assinalado como possível risco de contágio. A foto que ele tirou com Pepe e Sergio Ramos, depois do jogo com a Espanha, aludindo aos anos em que foram colegas no Real Madrid; o momento com Kylian Mbappé, seu admirador, a troca de camisolas com o jovem Eduardo Camavinga; a fotografia da Seleção à mesa do jantar. Bolas, só o facto de ter treinado e jogado futebol sem máscara.

 

Fernando Santos garante que não foi durante a concentração que Ronaldo contraiu o vírus – mas o Selecionador, com o devido respeito, não é uma autoridade de saúde. De qualquer forma, independentemente do momento em que se contaminou, se Ronaldo deu positivo, é possível que já carregasse o vírus há uns dias, correndo o risco de o ter passado aos colegas. Colegas esses que, depois desta jornada tripla, regressaram aos seus clubes, às suas famílias. Toda uma cadeia de transmissão que pode ter começado na Equipa de Todos Nós.



Como é que acham que eu me senti ao saber que um compromisso da Seleção, uma das coisas que mais alegria traz à minha vida, pode ter servido de foco de infeção? Quase que mais valia a Turma das Quinas ter continuado em hiato. Se os Marmanjos não podiam festejar um golo sem que eu receasse que se estavam a contaminar uns aos outros, para quê?

 

Não culpo os jogadores. Acredito quando dizem que tem cumprido os protocolos todos o melhor que podem. E, que diabo, segundo Fernando Santos fizeram sete testes ao Covid em uma semana (um momento de silêncio pelas suas fossas nasais). Não sei se os protocolos definidos em junho, quando o futebol recomeçou, ainda estão em vigor mas, se estiverem, os jogadores praticamente só saem de casa para os treinos e jogos. Que mais podem fazer?

 

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À hora desta publicação, tanto quanto sei, mais nenhum Marmanjo acusou positivo à Covid 19. Nem nenhum jogador francês, sueco ou espanhol, nem mesmo Mbappé ou Sergio Ramos ou Camavinga. Pode ser que Ronaldo não tenha contaminado ninguém. Não há nada que possamos fazer agora. Mais vale falarmos sobre os jogos.

 

No dia do jogo com a França, cheguei a casa um bocadinho tarde. Quando liguei a televisão, já tinham decorrido os primeiros minutos da partida. Rúben Dias já contava um cartão amarelo, aparentemente após uma cotovelada a Olivier Giroud. O jogador francês ficou a sangrar e tiveram de lhe ligar a cabeça.

 

Havia necessidade disto tão cedo no jogo? Acho que não. Um árbitro mais duro teria mostrado logo o vermelho, o que ia estragar-nos o jogo por completo. Mas tenho de confessar, depois de Dimitri Payet nem sequer ter levado falta quando lesionou o Ronaldo na final de Paris, c’est le karma. O Giroud individualmente não teve culpa, coitado, mas é bem feita para a seleção francesa em geral. 

 

Parece que, em relação aos franceses, vou ser sempre algo mesquinha. O facto de lhes termos roubado o título de Campeões Europeus não foi suficiente. Em minha defesa, os franceses continuam igualmente mesquinhos: vejam-se as notas que a France Football deu aos Marmanjos.

 

Mas estou a desviar-me. 

 

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À parte esse pormenor, foi um jogo muito equilibrado. Caricatamente equilibrado, como se pode ver no meme acima. Na primeira parte, Portugal esteve por cima – muito graças ao excelente trabalho dos nossos médios, sobretudo de William Carvalho e Danilo. William, então, foi uma das estrelas desta jornada tripla.

 

Ainda assim, não dispusemos de muitas oportunidades. Tivemos um lance caricato em que, após um belo passe, Bernardo Silva tentou esticar-se mas acabou por cair com espalhafato. Houve também uma oportunidade de Bruno Fernandes, de Cristiano Ronaldo (boa intervenção de Lucas Hernandez) e pouco mais.

 

Na segunda parte, os franceses entraram mais afoitos. Desta feita, os nossos médios tiveram mais dificuldade em contê-los – em parte por causa do cansaço. O jogo tornou-se mais partido, menos seguro. Ainda assim, mesmo tomando mais as rédeas da partida, os franceses nunca obrigaram Rui Patrício a esmerar-se, tirando um momento ou outro.

 

Por seu lado, Fernando Santos lançou Diogo Jota e Francisco Trincão, a ver se não ficávamos pelo empate. Não resultou, infelizmente. Pepe até conseguiu enfiar a bola na baliza, na sequência de um livre. Ainda festejei, mas o golo foi anulado por fora-de-jogo.

 

O marcador permaneceu por abrir até ao apito final. Tínhamos vindo a dizer, nos dias anteriores, que um empate não seria um mau resultado – e de facto não o foi. Afinal de contas, era uma das melhores seleções do Mundo e um adversário tradicionalmente difícil para nós.

 

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Ao mesmo tempo, empatámos perante uma das melhores seleções do Mundo e um adversário tradicionalmente difícil para nós… e mesmo assim Fernando Santos queria mais. Queixou-se que os jogadores de ambas as equipas foram “demasiado cautelosos”... mas quem pode censurá-los? Éramos nós contra os Campeões do Mundo e nossas maiores bestas negras. Eram eles contra os Campeões da Europa e Liga das Nações e que já lhes tinham causado dissabores.

 

Além disso, é possível que, tivéssemos sido menos cuidadosos, corrríamos o risco de sofrermos golos, o que não era desejável.

 

Depois do jogo, toda a gente fez a piada de que faltou o Éder para repetir o feito do 10 de julho. A brincar a brincar, eu até concordo, faltou o Éder. Não o jogador em si, antes aquilo que ele representou na final de Paris: a estrelinha, aquele rasgo inesperado de inspiração, de talento, para marcar o golo da vitória (não confundir com sorte). Ronaldo fá-lo inúmeras vezes, mas podia ter vindo de qualquer um. 

 

Desta vez não deu.

 

Cheguei a ter medo de que esta jornada tripla terminasse sem que a Seleção marcasse um golo. Felizmente, o jogo com a Suécia deu-nos ocasiões para matar essa sede. 

 

Portugal entrou em jogo com a “pica” toda – fazendo lembrar um pouco a Espanha, uma semana antes. Tivemos oportunidades logo aos primeiros minutos, uma de Diogo Jota (que substituiu Ronaldo), outra de William Carvalho (já disse aqui que o William foi espetacular nestes jogos?). Finalmente, aos vinte minutos, Bruno Fernandes isolou Jota, este driblou um pouco e assistiu para o golo de Bernardo Silva.

 

 

Estava aberto o marcador – e a Seleção pôde festejar este golo com público!

 

Apesar da entrada em grande de Portugal, a Suécia não se deixou dominar. Pelo contrário, este foi um jogo muito partido, atípico para o estilo de Fernando Santos. Conforme mencionaram aqui na vizinhança, os suecos esticaram o campo em vez de encolhê-lo. Portugal nunca conseguiu ter o jogo controlado por completo.

 

Felizmente, a Seleção conseguiu não sofrer golos – uma vez mais, graças ao trabalho de Rui Patrício (um dos melhores guarda-redes do Mundo), Danilo e Pepe. Este último está numa fase excelente apesar a idade. É o mestre da defesa portuguesa – e Rúben Dias, que combina muito bem com ele, é o seu aprendiz, talvez o seu sucessor.

 

Eram Pepe, Patrício e Danilo brilhando atrás, era Diogo Jota brilhando à frente. Poucos minutos antes do intervalo, João Cancelo fez um passe espetacular, como que guiado por GPS. A bola encontrou Jota cara a cara com a baliza e o miúdo não desperdiçou. 

 

As coisas não mudaram muito na segunda parte. Aos sessenta e sete minutos, Bruno Fernandes recuperou a bola, arrancou em direção ao meio-campo da Suécia, isolou João Félix à entrada da área, só o guarda-redes à sua frente. Infelizmente, o miúdo deve ter-se enervado e rematou por cima. 

 

Pobre Félix. Ainda não está lá.

 

 

Finalmente, dez minutos depois, Jota fez quase tudo sozinho no último golo. O passe foi de William, Jota conduziu a bola para dentro da grande área, indiferente aos quatro suecos lá, e rematou para as redes.

 

Muito entusiasmada com este miúdo. Se se mantiver no caminho certo e tiver sorte, será um grande jogador.

 

Ficou feito o resultado. Talvez demasiado dilatado para um jogo em que Portugal nunca teve mão no jogo por completo. Não é grave. O que interessa são os três pontos e os golos numerosos, que poderão vir a da jeito em caso de empate pontual com a França, mais à frente.

 

Se não fossem todos os problemas causados pelo Coronavírus, hoje estaria muito feliz com o momento atual da Seleção. A Equipa de Todos Nós não fez um único jogo mau nesta edição da Liga das Nações, mesmo com adversários deste calibre. O longo hiato pode ter feito bem à Seleção – nos últimos jogos antes da pausa, tinhamos concluído uma Qualificação para o Euro 2020 com dificuldade, deixando muito a desejar. Depois disso, eu não esperava um desempenho tão consistente nesta prova.

 

Ou então, é a nossa mania de jogarmos melhor perante equipas difíceis. Nesse sentido, a Liga das Nações é uma competição à nossa medida (mesmo que muito boa gente como Arsène Wegner não lhe ache piada). Não admira que tenhamos sido os primeiros vencedores.

 

Neste momento, sobramos nós e a França na luta pela passagem às meias-finais. A maneira menos stressante de carimbarmos o passaporte é vencendo os franceses no próximo mês, em casa. Uma tarefa difícil em qualquer circunstância. No entanto, acredito que a Seleção atual, da maneira como tem jogado, é a melhor preparada para este desafio.

 

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Falaremos melhor sobre isso na altura.

 

Esperemos que Ronaldo elimine o vírus depressa e que mais ninguém na Seleção se contamine. Obrigada por lerem. Tenham cuidado convosco, para não se virem na mesma situação. Continuem a acompanhar a Equipa de Todos Nós comigo, quer aqui no blogue, quer na sua página de Facebook.

Portugal 0 Espanha 0 – Rui Patrício de um lado, trave do outro

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Na passada quarta-feira, 7 de outubro, a Seleção Portuguesa de Futebol empatou sem golos com a sua congénere espanhola, no Estádio de Alvalade, em jogo de carácter particular.

 

Este jogo ficou marcado pelo regresso do público a um estádio de futebol, em Portugal Continental – pela primeira vez após o início da pandemia. Não foram colocados bilhetes à venda, apenas convites. Na quinta-feira descobri que eu fora uma das felizes contempladas, por estar inscrita no Portugal +. O convite duplo fora-me enviado na manhã do dia do jogo – mas eu só vi o e-mail mais de vinte e quatro horas depois. 

 

Em minha defesa, eles podiam ter enviado o convite mais cedo – uns dias antes ou, no mínimo, de véspera. Eu por acaso estava livre nesse fim de tarde, podia ter ido ao jogo – mas não teria companhia. 

 

Bem, pode ser que volte a receber convites para o jogo com a Suécia. Agora sei que tenho de estar atenta ao e-mail.

 

De qualquer forma, foi bom ver um jogo de futebol com público, ainda que reduzido. Eram apenas duas mil e quinhentas pessoas, cinco por cento da capacidade do Estádio de Alvalade, mas eram audíveis. Ouviam-se os aplausos, as exclamações, os assobios. Viam-se mãos nas cabeças nas repetições dos remates falhados. Os Marmanjos não estavam sozinhos.

 

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O futebol não é o mesmo sem isto.

 

Portugal não entrou nada bem no jogo. Não prestei muita atenção à primeira meia hora, pois estava a fazer o jantar, mas até eu reparei que nuestros hermanos encostaram-nos às cordas. Como dá para ver neste vídeo, os espanhóis fizeram sete remates antes dos vinte minutos de jogo, quatro deles nos primeiros dez minutos da partida. Nós mal conseguíamos sair do nosso meio-campo – o guarda-redes espanhol, Kepa, devia ter aproveitado para fazer uma siesta.

 

Este domínio só não se traduziu em golos graças a uma boa intervenção de Raphael Guerreiro, intercetando uma possível assistência de Sergio Canales para Gerard Moreno. Mas sobretudo graças a Rui Patrício. 

 

Já tinha saudades de vê-lo a este nível: imperial perante equipas grandes, um dos melhores guarda-redes da Europa, se não for do Mundo. Não me lembro da última vez que ele teve uma exibição assim. Mas sabem como é que é, quando o guarda-redes se destaca demasiado…

 

Fernando Santos sabia. Os seus gritos eram bem audíveis. E a transmissão televisiva chegou a mostrá-lo no banco, com a mão na testa.

 

Quem nunca?

 

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Felizmente, a partir dos vinte e cinco minutos, Portugal começou a entrar mais nos eixos, a criar oportunidades de perigo. Trincão, por exemplo, assistiu para Raphael Guerreiro aos quarenta e três minutos. Este, no entanto, desperdiçou, chutando para as nuvens. 

 

Em defesa dele, Raphael chutou com o seu pior pé, o direito. Era o que estava mais à mão. Se tivesse podido usar o pé esquerdo, o resultado podia ter sido outro.

 

Ainda houve tempo para Cristiano Ronaldo cabecear ao lado. Portugal terminou a primeira parte em crescendo – crescendo esse que se manteve na segunda parte, depois de Fernando Santos ter trocado João Moutinho, Pepe e André Silva (nem me lembro de ver este último em campo) por William Carvalho, Ruben Dias e Bernardo Silva. 

 

Tivemos um par de lances caricatos, em que a bola bateu na trave e caiu exatamente da mesma forma: em cima da linha de baliza, sem a cruzar. O primeiro foi aos cinquenta e dois minutos: William assistiu, de uma distância considerável, para Ronaldo disparar. Quinze minutos depois, foi Ronaldo quem assistiu, em grande estilo, um belo passe curvo (fez-me lembrar a assistência de Nani para o segundo golo de Ronaldo frente à Holanda, no Euro 2012). Renato Sanches enviou o míssil que atingiu a barra. Como diziam no Facebook das Seleções de Portugal, a trave ainda deve estar a tremer. 

 

 

Eu neste momento só me ria e comentava “Só podem estar a gozar…”. Isto era a maldição dos postes a outro nível. E nem sequer era a primeira vez que a trave ficava do lado de nuestros hermanos, impedindo mais golos que o guarda-redes espanhol. A minha mãe dizia que a baliza tinha um escudo invisível – não vi provas em contrário!

 

Os espanhóis tiveram mais uma oportunidade ou outra, na segunda parte – uma delas obrigou Rui Patrício a mais um momento imperial, defendendo com o joelho. Se a memória não me falha, imediatamente a seguir o recém-lançado João Félix, que substituiu Ronaldo, foi colocar a braçadeira de Capitão no braço de Patrício. Achei apropriado – teria sido melhor se fosse uma coroa. 

 

Ainda assim, se não me engano, foi Portugal quem teve mais oportunidades em toda a segunda parte – pena nenhuma delas se ter concretizado. Perto do fim do jogo, Félix assistiu para Trincão, mas Kepa meteu-se à frente. Mesmo no sopro final da partida, na sequência de um canto, a bola chegou a Félix, mesmo junto à linha da baliza. O jovem podia ter encostado para golo e conseguido a vitória, mas a bola passou-lhe entre as pernas. 

 

O jogo terminou assim, com o marcador teimosamente fechado. O que é chato para o público. Eu teria ficado desiludida por não ter podido gritar “GOLO!” – já aconteceu antes. Mas o que se podia fazer? Na nossa baliza estava Rui Patrício, na baliza dos espanhóis estava um escudo invisível. Estava a trave.

 

Tirando isso, não tendo sido um jogo especialmente memorável, não foi mau para um particular. Teve os seus momentos. O empate foi um resultado justo tendo em conta o que ambas as equipas fizeram. Portugal podia ter feito mais: podia não ter entrado com vinte e cinco minutos de atraso, podia não ter tido pontaria a mais. Mas se é para entrar mal num jogo, se é para ter azar, que o faça quando é a feijões, em vez que fazê-lo quando é a doer. 

 

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Como hoje, frente à França. 

 

França essa que, no mesmo dia do nosso jogo com a Espanha, venceu a Ucrânia, também num jogo particular, por nada menos que sete bolas contra uma. Contra a Ucrânia! Não é propriamente um tubarão, mas sempre está na primeira divisão da Liga das Nações – e venceu-nos no ano passado.

 

Creio que, neste momento, a França é a seleção mais perigosa, mais letal, do momento. Mesmo a Alemanha não parece estar ao nível de há uns anos – empataram com a Turquia num jogo particular (o que também vale o que vale). Não vai ser nada fácil. É bom que Rui Patrício esteja preparado para ser imperial outra vez – palpita-me que vamos precisar.

 

É engraçada a forma como as circunstâncias são tão parecidas com o 10 de julho. O estádio é o mesmo, a hora é a mesma, é também um domingo. Vamos voltar a um sítio onde já fomos felizes. Fernando Santos podia ter Convocado o Éder só para ele estar lá no banco, só para gozar com os franceses. 

 

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Dito isto… isto não é uma final. É apenas um jogo da fase de grupos. Nem sequer é particularmente decisivo – quem ganhar passa para o topo da tabela, mas tem de manter-se lá durante mais três jogos. Um empate não seria um mau resultado mas, como referi antes, todos queremos ganhar. 

 

Vou preparar-me para um jogo de sofrimento – aconselho-vos a fazerem o mesmo. Estou contente por ter conseguido publicar este texto antes do jogo com a França. O próximo cobrirá, então, a partida de hoje e da de quarta-feira, com a Suécia. 

 

Como o costume, obrigada por estarem desse lado. Acompanhem o resto desta jornada tripla comigo, quer aqui no blogue quer na sua página no Facebook

Em boas mãos (e pés)

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No passado sábado, dia 5 de setembro, a Seleção Portuguesa de Futebol derrotou a sua congénere croata por quatro bolas contra uma. Três dias mais tarde, derrotou a sua congénere sueca por duas bolas sem resposta. Ambos os jogos contaram para a fase de grupos da segunda edição da Liga das Nações. 

 

Era difícil Portugal ter tido uma melhor estreia do que esta, na competição. Foi sinceramente melhor do que eu me atrevia a esperar. 

 

Antes do início do jogo com a Croácia sentia-me nervosa. Pelos motivos que referi no final da última crónica e também porque não conseguia prever como correria o jogo. Achava que poderia dar para qualquer lado. Afinal de contas, sempre era o Campeão da Europa e da Liga das Nações contra o vice-campeão do Mundo. Pelo menos em teoria, era um duelo de titãs.

 

Agora sei que não precisava de me preocupar, mas foi melhor assim. É sempre preferível sobrestimar o adversário do que o contrário. 

 

Ambos os jogos desta jornada decorreram à porta fechada. Tal como se calculava, é deprimente. Os gritos dos jogadores e treinadores faziam eco nas bancadas vazias. Dizem que se ouviam os veículos na VCI dentro do estádio, durante o jogo com a Croácia – quando devia ser o contrário. Quem passava na VCI àquela hora devia ser capaz de ouvir os gritos no público dentro do estádio – tal como quem passa na Segunda Circular junto ao Estádio de Alvalade ou ao Estádio da Luz, durante jogos lá (como vivo em Lisboa, tenho mais experiência com isso). 

 

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Cristiano Ronaldo não jogou devido a uma infeção no dedo do pé, que estava a tratar com antibiótico (como farmacêutica, gostava de saber que terapêutica ele fez). Ele e os outros suplentes assistiram ao jogo na bancada. Ronaldo pareceu-me frustrado por não poder estar em campo – ao ponto de, a certa altura, se ter esquecido de pôr a máscara (eu dava-lhe um sermão daqueles, como tenho dado a vários utentes meus). 

 

Curiosamente, durante o jogo com a Suécia, quando Ronaldo estava em campo, as câmaras não pareceram tão interessadas no que se estava a passar nas bancadas, entre os suplentes. Porque será?

 

A Croácia teve uma oportunidade aos dois minutos, defendida por Anthony Lopes (titular em vez de Rui Patrício, que estava de férias antes destes jogos). Tirando essa ocasião, os croatas permaneceram acampados no seu meio campo, mesmo na sua grande área, muito encolhidos, durante quase toda a primeira parte. 

 

Portugal ia criando oportunidades atrás de oportunidades, sem conseguir concretizá-las – parecia-me que tínhamos sempre croatas no caminho da bola. Tivemos sintomas da nossa velhinha maldição dos postes – três bolas aos ferros, já não nos acontecia há algum tempo… 

 

Os comentadores iam dizendo que, mais cedo ou mais tarde, Portugal marcaria. Eu estava com medo que nos acontecesse o oposto – que os remates falhados começassem a subir à cabeça dos Marmanjos, que os nervos piorassem ainda mais a pontaria, um ciclo vicioso que acabasse com o jogo empatado ou pior.

 

 

Felizmente não foi isso que aconteceu. Aos quarenta minutos João Cancelo recebeu a bola perto da grande área. Lá permaneceu um momento, como que pensando o que fazer a seguir. Alguém, talvez Fernando Santos, gritou “Chuta!” – eu não ouvi da primeira vez, mas o meu pai ouviu. É uma das poucas vantagens da ausência de público. De qualquer forma, Cancelo obedeceu, um belo tiro, certeiro para as redes. O golo foi dedicado à sua falecida mãe – um gesto bonito, sobretudo depois da entrevista que dera ao Canal 11, poucos dias antes.

 

Estava quebrado o gelo. Na segunda parte, a Croácia abriu-se mais, aproximou-se mais da nossa baliza, sem fazer grandes ameaças. Portugal continuou por cima, se bem que sem o fulgor da primeira parte. Aos cinquenta e oito minutos, um dos defesas da Croácia distraiu-se com João Félix, dando espaço a Raphael Guerreiro para assistir para Diogo Jota e este rematar para as redes.

 

Este também teve direito a dedicatória – desta feita à namorada e ao filho que tem por nascer (eles são pais muito novinhos…). Depois de Ronaldo lhe ter roubado o golo no jogo com o Luxemburgo, Jota estreava-se a marcar com a Camisola das Quinas.

 

Mais tarde, foi a vez de João Félix se estrear, com um remate da meia-lua – após múltiplas tentativas, não apenas naquele jogo, praticamente desde que se estreou pela Seleção. O pobre miúdo nem sequer festejou o golo de imediato, parecia que nem acreditava que tinha mesmo marcado.

 

Os croatas tiveram direito ao golo de honra ao minuto noventa, fruto de uma fífia de João Cancelo. O Marmanjo segurou mal a bola, os adversários conseguiram ganhar posse e a jogada terminou com um remate certeiro de Bruno Petkovic, sem hipótese para Anthony Lopes. 

 

Depois do desempenho de Cancelo neste jogo, acho que toda a gente lhe perdoa este deslize. Até porque não demorou muito até a vantagem de três golos ser reposta. 

 

 

O golo de André Silva surgiu mesmo no sopro final da partida, na sequência de um canto. Foi uma jogada algo confusa, estavam muitos croatas na grande área. Pepe fez uma tentativa de remate de cabeça, a bola foi parar a André Silva, que a enfiou na baliza entre o guarda-redes croata e um colega dele. 

 

O árbitro apitou para o final logo após o golo, algo que não me lembro de alguma vez ter visto em futebol – as celebrações do golo misturando-se com as celebrações da vitória. Um pormenor engraçado. 

 

Toda a gente inundou a Seleção de elogios após este jogo. Eu incluída, claro, depois do meu nervosismo e expectativas algo baixas. Há quem aponte demérito da Croácia – e de facto acho que se esperava mais dos vice-campeões do Mundo, mesmo sem Modric e Rakitic – mas ninguém pode tirar o mérito a cada um dos que envergaram a (não muito bonita, tenho de concordar) Camisola das Quinas naquela noite. 

 

Não é a primeira vez que escrevo aqui sobre a alegria que é ver tanto jovem talentoso, alguns deles ainda com caras de adolescentes, jogando pela Seleção. Eu sentia-me inchar naquela noite com cada elogio aos Marmanjos que lia e ouvia – como se estivessem a elogiar-me a mim. Ah, as saudades que eu tinha disso!

 

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Foi aqui que as pessoas se começaram a questionar, não pela primeira vez, se Portugal jogaria melhor sem Ronaldo. Havemos de falar sobre isso neste texto… mas para já o jogo com a Suécia. 

 

Ronaldo estava já recuperado na infeção no dedo do pé. Alinhou, assim, desde início, tomando o lugar de Diogo Jota. Foi a única alteração em relação ao onze inicial anterior. Antes deste jogo ouvi comentadores debatendo qual das opções era a melhor: mudar a constituição da equipa, poupando jogadores desgastados pelo jogo anterior (afinal de contas, estamos em pré-época); ou usar essencialmente o mesmo onze, tomando partido das rotinas. 

 

Eu arrisco-me a dizer que talvez tivesse sido melhor ter usado um onze diferente, com jogadores mais frescos. O cansaço pode explicar, pelo menos em parte, a exibição menos entusiasmante da Seleção. Mas não percebo assim tanto de futebol para questionar uma decisão como esta. 

 

À hora do jogo estava, como a minha mãe diz, com a neura. Desejava uma vitória da Seleção um pouco mais do que o costume, para me levantar o ânimo. Em parte por causa disso, não prestei tanta atenção à primeira parte do jogo como prestara no sábado anterior. 

 

A Suécia começou o jogo por cima, defendendo bem. Portugal teve dificuldades em criar oportunidades, mas eventualmente foi crescendo no jogo. Cristiano Ronaldo fez duas tentativas de golo, ambas defendidas pelo guarda-redes Robin Olsen. 

 

 

Finalmente, em cima do intervalo, Gustav Svensson foi expulso por acumulação de amarelos, após falta sobre João Moutinho. Ronaldo foi chamado a cobrar e fê-lo com a mesma mestria que um jogador comum bate um penálti. Bruno Fernandes diria mais tarde que, na véspera, Ronaldo marcara “seis ou sete livres assim no treino e saiu igual”

 

Parece puro talento, magia, mas não é. É prática. O que para mim é ainda mais inacreditável. 

 

A expulsão e o golo em cima do intervalo mudaram o curso do jogo. Eu finalmente sorri, ultrapassando a minha neura. Tem sido sempre assim, há mais de metade da minha vida.

 

Deste modo, a segunda parte foi mais fácil, mesmo não sendo brilhante. Portugal teve mais oportunidades – de João Félix, dos dois meninos dos anos, João Moutinho e Bruno Fernandes. Este último chegaria a mandar uma bola aos ferros – outra vez a maldição.

 

No entanto, como em muitas outras noites de Seleção, estava escrito nas estrelas que aquela pertencia a Ronaldo. Não consigo perceber ao certo quem fez aquele passe transversal ao campo, espetacular. Não sou a única: há sítios que dizem que foi João Cancelo, outros dizem que foi Bruno Fernandes. De qualquer forma, João Félix recebeu a bola, passou-a para Ronaldo. Este disparou, em cima do limite da grande área, diretamente para as redes. 

 

 

Estava feito o marcador. Dois golos de Ronaldo, o centésimo-primeiro da sua conta pessoal pela Seleção. Sete deles foram precisamente frente à Suécia, a sua maior vítima empatada com a Lituânia. Fica a oito golos do recorde de Ali Daei. Todos esperam que Ronaldo atinja a marca em breve – se não fosse o Covid, se calhar já teria atingido. 

 

Foi ele quem mais brilhou neste jogo. Os companheiros estiveram mais apagados, em comparação com o jogo da Croácia. Existem várias explicações possíveis, algumas delas já referimos aqui. Menor frescura. Suécia mais competente que a Croácia. Ou então, talvez a Equipa de Todos Nós enquanto coletivo jogue melhor sem Ronaldo do que com ele. 

 

Esta teoria já não é nova e suspeito que depressa irá ganhar barbas. Fernando Santos tem garantido várias vezes que nenhuma equipa é melhor sem o Melhor do Mundo. No entanto, como muitos têm apontado, com Ronaldo em campo, os jogadores podem ter a pressão e/ou a tentação de passar a bola ao madeirense, esperarem que ele resolva a coisa. 

 

Uma vez mais, não sou a melhor pessoa para avaliar a questão. No entanto, no que toca a dilemas deste género relacionados com a Equipa de Todos Nós, estamos bem servidos neste momento. 

 

Há meia dúzia de anos o drama era se a Seleção era Ronaldo-mais-dez. Hoje conseguimos ganhar com ou sem Ronaldo. O drama é saber qual destas duas versões da Seleção é a melhor. Se esta dupla jornada serve de exemplo, de qualquer das maneiras, as Quinas estão em boas mãos (e pés). Temos o Melhor do Mundo e temos vários jogadores cheios de talento, representando os melhores clubes da Europa, que ainda nem sequer atingiram todo o seu potencial. Que podemos desejar mais?

 

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Como disse no início, era de facto difícil fazer melhor nesta dupla jornada – sobretudo tendo em conta as circunstâncias. Idealmente teríamos tido uma exibição melhorzita na vitória sobre a Suécia, mas esta continuava a valer três pontos. Era importante começarmos bem esta fase de grupos, até porque o pior (leia-se: a França) ainda está para vir. Mas preocupamo-nos com isso quando chegar a altura.

 

Para já, soube-me muito bem ter a Seleção de volta – e saber que voltaremos a tê-la dentro de poucas semanas. Como dei a entender antes, a vitória sobre a Suécia serviu-me de consolo, numa noite em que estava de mau humor. Não fez os meus problemas desaparecerem por magia, claro que não, mas tirou-me da minha própria cabeça. Deu-me coisas boas em que pensar, impediu-me de ir demasiado abaixo.

 

É precisamente por isso que a Seleção fez tanta falta durante os primeiros meses da pandemia. É por isso que estou feliz por tê-la de volta.


Obrigada a todos aqueles que acompanharam esta jornada dupla de Seleção comigo, quer neste blogue quer na sua página de Facebook. No próximo mês haverá mais.

 

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Stress até ao fim

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Na passada quinta-feira, dia 14 de novembro, a Seleção Portuguesa de Futebol venceu a sua congénere lituana por seis bolas sem resposta. Três dias mais tarde, deslocou-se ao Luxemburgo onde venceu a sua congénere local por duas bolas também sem resposta. Com estes resultados, a Seleção ficou em segundo lugar no grupo B do Apuramento para o Europeu de 2020, conseguindo a Qualificação direta.

 

No que toca ao jogo com a Lituânia, aconteceu uma coisa engraçada. Quem acompanhe a página de Facebook de apoio a este blogue saberá que costumo deixar uma pequena mensagem de antecipação cerca de meia hora antes do início de cada jogo. Mais tarde ao intervalo – nem sempre – costumo deixar uma mensagem ainda mais curta, fazendo o ponto da situação. 

 

Neste jogo, os Marmanjos fizeram tudo o que lhes “pedi” em ambas as mensagens. Na primeira, referi que esperava que chegassem depressa ao 2-0. Costuma-se pedir para chegar depressa ao 1-0, mas, se formos a ver, no outro jogo com a Lituânia, em casa deles, marcámos cedo mas consentimos o empate. 

 

A Seleção cumpriu. Não vi a primeira parte porque, mais uma vez, saí do trabalho às oito. Soube do primeiro golo por conversão de penálti através do Twitter no meu telemóvel. Quando cheguei ao meu carro e liguei o relato soube que estava a ser um início de jogo avassalador para Portugal, com oportunidades atrás de oportunidades. De Cristiano Ronaldo, Gonçalo Paciência (consta que ele falhou uma de caras), Bernardo Silva, Mário Rui… 

 

Ronaldo acabaria por marcar de novo, assistido por Paciência que recebera a bola de um simpático jogador lituano. Quando mais tarde cheguei a casa e vi a repetição fiquei de queixo caído com aquela bomba. 

 

 

Chegámos, assim, ao 2-0 pouco após os vinte minutos de jogo, tal como eu “pedira”. Podíamos estar já a ganhar por mais nessa altura. O ritmo abrandou durante o resto da segunda parte, mas mantivemos o jogo controlado. 

 

Na mensagem que deixei ao intervalo, quando já estava em casa, desejei que houvessem mais golos na segunda parte – para eu poder ver na televisão e, já agora, para termos uma goleada como já não tínhamos há algum tempo. 

 

A Seleção cumpriu, mais uma vez. Poucos minutos após o início da segunda parte, Bruno Fernandes assiste para Pizzi. Este remata de um ângulo apertado, a bola bate na trave e no poste mas cruza a linha de baliza. Para além de ser bonito ver dois rivais clubísticos colaborando num golo pela Seleção, Pizzi provou que a sua titularidade não foi um erro. Foi uma bela jogada. 

 

Poucos minutos depois, Bernardo Silva rematou de fora da área. O guarda-redes Setkus defendeu para a frente, Gonçalo Paciência aproveitou a ocasião para se estrear a marcar pelas Quinas. 

 

Depois da assistência, foi a vez de o próprio Bernardo assinar um golo: depois de algumas trocas de bola com Ricardo Pereira, rematou sem dificuldade para as redes. Setkus não pôde fazer nada.

 

O marcador foi encerrado pela mesma pessoa que o abriu: Ronaldo. Foi mais uma vez Bernardo a assistir, depois de ter roubado a bola à defesa lituana. Ronaldo até pareceu surpreendido pela bola durante um segundo, mas logo marcou o golo como se nada fosse. 

 

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Bernardo Silva seria substituído pouco depois. Se precisássemos de uma prova da sua importância para a Seleção, os golos pararam e o ritmo abrandou depois da sua saída – ainda que Portugal tenha continuado por cima. Bernardo esteve em todo o lado neste jogo, como Deus, contribuiu para pelo menos metade dos golos. Já não é a primeira vez que o digo e duvido que seja a última: o miúdo é já o número dois da Seleção, o Príncipe das Quinas, como disseram no Record, tão insubstituível como Ronaldo ou Rui Patrício. Todos os elogios são insuficientes.

 

Por sua vez, Cristiano Ronaldo aguentou-se em campo até aos oitenta e três minutos. Segundo os comentadores, de tanto em tanto tempo durante a segunda parte, Fernando Santos perguntava-lhe se ele estava bem, se queria continuar a jogar. Comunicação: um ingrediente essencial a uma relação saudável. Ronaldo ia fazendo questão de jogar, mas lá aceitou sair uns minutos antes do fim, para a ovação. 

 

Dias mais tarde, já concluída a dupla jornada, Ronaldo admitiria que se sacrificara, que alinhara nestes jogos da Seleção, bem como nos anteriores pela Juventus, fisicamente condicionado. Não posso deixar de comentar que, jogando condicionado, marca quatro golos em dois jogos, algo que muitos jogadores não conseguem nem nos seus picos de forma. Em todo o caso, como era mais ou meos de esperar, estas simples declarações incendiaram a imprensa nos dias que se seguiram, sobretudo em Itália.

 

Eu não percebo nada de medicina desportiva, não sou a melhor pessoa para avaliar esta situação (nem esta nem de praticamente nada sobre o que escrevo aqui mas, se me ralasse com isso, não haveria blogue). Mas confesso que estas situações me irritam. O mundo futebolístico gira à volta de Cristiano Ronaldo: a Seleção e Federação Portuguesa de Futebol por arrasto, a Juventus, imprensa desportiva… Eu sei que ele é o Melhor do Mundo e que lhe saiu praticamente tudo do seu próprio suor mas, por favor… Menos!

 

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É por estas e por outras que, às vezes, quase desejo que Ronaldo saia da Seleção. Só mesmo para não termos de lidar com estes joguinhos todos, que roubam tempo de antena a conferências de imprensa em que são outros jogadores a responder às perguntas. Ronaldo faz muito por nós, dá-nos muito jeito, sou a primeira a admiti-lo, mas esse contributo sai caro. 

 

Mas regressemos ao jogo com a Lituânia. Muitos defendem que este terá sido o melhor jogo de Portugal neste Apuramento, se não tiver sido o melhor dos últimos anos. Melhor dos últimos anos será exagero – a meu ver, o nosso melhor jogo dos últimos anos foi a final da Liga das Nações, frente à Holanda. Mesmo dizer que foi o melhor do Apuramento é questionável: quanto mérito se pode atribuir à equipa vencedora quando a equipa derrotada praticamente não existiu no jogo?

 

Não quero com isto dizer que Portugal não teve mérito, pelo contrário. Há muito que não se via a Seleção a atacar “sem medo”, como diziam no jornal Record. Fez-se tudo como deve ser. Os Marmanjos fizeram aquilo que eu lhes “pedi”, como referi acima, e, mais importante, segundo Pizzi depois do jogo, fizeram aquilo que Fernando Santos lhes indicou. “Não passámos por calafrios. Trabalhámos na segunda bola, para não deixar o contra-ataque. Foi assim que o mister pediu.”

 

Falando individualmente, já referimos Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva, mas também destaco Pizzi, Bruno Fernandes, Gonçalo Paciência, Mário Rui. Ricardo Pereira em particular surpreendeu-me pela positiva – porque é que Fernando Santos não o pôs a jogar mais vezes antes?

 

Fico com esperança de que seja possível fazer exibições como esta no futuro. De preferência no Europeu. 

 

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Foi um bom jogo, mas não foi o suficiente para garantir a Qualificação. Isso só aconteceu no domingo, frente ao Luxemburgo. 

 

Nesse dia fui almoçar fora com familiares – fizemos reserva para a mesma hora do jogo. Chegámos um bocadinho depois da hora: acompanhámos os hinos e os primeiros minutos do jogo através da rádio. Ouvimos A Portuguesa cantada por uma senhora luxemburguesa que, para ser justa, tinha boa voz, mas não conseguiu disfarçar o sotaque e, nalguns momentos, enganou-se no ritmo. Eu tive de me esforçar para não rir – não sei se existe alguma regra oficial, mas não me parece que seja boa educação rir durante o hino nacional… 

 

Havia televisão no restaurante, mas os empregados não a ligaram. Disseram que estava avariada – embora se tenha consertado por magia no início da segunda parte. Não se pode levar a mal – quando lá chegámos, estavam com muito movimento. Não queriam o jogo da Seleção tentando os clientes a prolongarem o almoço, quando estavam pessoas à espera de mesa. Felizmente, tínhamos o RTP Play.

 

Ainda assim, não prestei muita muita atenção ao jogo, com o almoço e o convívio. Não perdi muito – com o péssimo estado do terreno (fazendo lembrar a primeira mão dos play-offs frente à Bósnia-Herzegovina em 2011) e a garra dos luxemburgueses, superior à sua posição no ranking da FIFA. Portugal estava a fazer uma exibição sofrível, desinspirada. Mesmo não prestando atenção, não deixei de me sentir nervosa – sobretudo quando a minha irmã dizia que a Sérvia estava a ganhar à Ucrânia. 

 

Quando temos estas jornadas finais, com jogos à mesma hora para evitar combinações de resultados, gosto de imaginar as quatro equipas no mesmo campo, jogando umas contra as outras. Na prática é mais ou menos isso que acontece. 

 

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Ao mesmo tempo, por princípio, não gosto de estar a ver o nosso jogo com ouvidos noutro – pelo menos não quando dependemos de nós mesmos. Independentemente das circunstâncias, uma equipa deve sempre lutar pela vitória. Sim, se a Sérvia estivesse empatada naquele momento, ou a perder, eu estaria menos nervosa. Mas, mesmo conseguindo a Qualificação por combinação de resultados, seria sempre indigno não ganharmos frente ao Luxemburgo, não desfazendo.

 

Não que tenha acabado por ser muito melhor, diga-se. 

 

Foi um alívio quando Portugal chegou finalmente à vantagem. Esta foi uma das ocasiões em que não estava a preparar atenção ao jogo – só me apercebi quando a minha irmã exclamou, discretamente, "Golo!". 

 

Quando olhei para o telemóvel, já só vi os festejos em direto, com Bruno Fernandes no centro, que se estreava a marcar pela Seleção. De seguida passaram as repetições do golo. Na primeira, passaram a assistência para Bruno desde o meio campo – perfeita, soberba, teleguiada como se diz hoje em dia – mas não consegui identificar o autor. Disse mesmo:

 

– Quem é que fez aquele passe? Espetacular! Foi o… Ah! Foi o Bernardo Silva! Tinha de ser ele. 

 

 

Estão a ver o que eu digo sobre todos os elogios serem insuficientes? 

 

Como disse acima, no restaurante ligaram a televisão para a segunda parte. A partir daqui, a Seleção procurou segurar o resultado. Ia funcionando, mais ou menos. Eu, mesmo assim, continuava uma pilha de nervos – sobretudo porque a exibição estava longe de convencer. 

 

Tem de ser sempre assim, não tem? Por mais voltas que se dê, todas as Qualificações começam da mesma maneira – com um ou mais tropeções – e terminam da mesma maneira – com incerteza e muito stress até ao fim. Cada Apuramento tira-me uns três a cinco anos de vida. Já vou em seis só com este blogue, façam as contas. 

 

Para ser justa, sim, é sempre difícil, é sempre atribulado, mas termina sempre da mesma maneira: Apurados. Tem sido assim há duas décadas. A minha irmã fez vinte e dois anos no outro dia e nunca viu a Turma das Quinas falhar uma Qualificação. 

 

É possível que eu já tenha escrito isto aqui no blogue. Não importa – só reforça aquilo que digo. Daqui a dois anos quero poder dizer que a minha irmã tem vinte e quatro anos e continua sem ver a Seleção falhar um Apuramento.

 

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Mas estou a adiantar-me. Felizmente tivemos direito a uns minutos de alívio antes do apito final. Bernardo Silva, claro, centrou para Diogo Jota, que estava muito perto da baliza. O miúdo fez um remate acrobático atrapalhado, o guarda-redes ainda tocou na bola mas não conseguiu travá-la. Em cima da linha de baliza, Cristiano Ronaldo foi lá certificar-se de que a bola entraria mesmo – e para garantir que seria ele o autor do golo.

 

Não podias ter deixado esta para o puto, Cristiano? Se fosse ao contrário, não terias achado piada nenhuma. Ao menos Ronaldo foi logo abraçar Jota e talvez este não tenha levado a mal. Não lhe faltarão oportunidades para marcar pelas Quinas. Ronaldo, por sua vez, não terá muitos mais anos de carreira, mas tem um recorde para bater antes de pendurar as chuteiras.

 

Então lá nos Qualificámos em segundo lugar, evitando os play-offs. Tal como desejava, vamos começar 2020 sabendo que estamos no Europeu. Esteve longe de ser um Apuramento brilhante – na verdade, foi o pior de Fernando Santos, não só como treinador de Portugal, mas também como treinador da Grécia.

 

Não sei se deva estar preocupada, se será um indício trágico para o Euro 2020 – foi-o para o Mundial 2014 e mesmo o de 2010, de certa forma. Será que os problemas que surgiram durante este Apuramento tornarão a manifestar-se no Europeu? Um Europeu em que, recordemos, seremos os detentores do título.

 

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Como já tinha referido no mês passado, as consequências desta Qualificação refletir-se-ão no sorteio para a fase de grupos do Euro 2020. Corrijam-me se estiver enganada, mas penso que é a primeira vez que a constituição dos potes é determinada pelo desempenho no Apuramento e não pelo ranking da FIFA. Eu concordo, acho mais justo – como me queixo praticamente todos os meses na página de Facebook deste blogue, não dou muita credibilidade a essa classificação. 

 

Eu sei que isso significa pior sorte para nós, Seleção Portuguesa, mas sejamos sinceros: só nos podemos culpar a nós. Como sempre. A menos que Deus Nosso Senhor seja extremamente generoso connosco (não seria a primeira vez, por acaso), devemos apanhar pelo menos um tubarão no nosso grupo. É certo que, como estamos todos fartos de saber, por tradição damo-nos melhor em grupos difíceis… Mas existem sempre exceções. 

 

Não quero especular muito sobre este sorteio. Como costumo dizer, está nas mãos da Sorte, do destino, de Deus ou de qualquer entidade sobrenatural à vossa escolha. Não podemos fazer nada senão esperar – é já este sábado!

 

Estou um bocadinho triste por não voltarmos a ter jogos da Seleção até março, mas com isto tudo o blogue não ficará inativo durante muito tempo. Como habitual, farei uma pequena análise ao resultado do nosso sorteio. Depois dessa, teremos o balanço de 2019, a publicar no fim do ano – ou, mais provável, um pouco depois. Para além destas, vou querer escrever ainda um terceiro texto, uma coisa diferente do habitual. Não vou dizer muito para não estragar a surpresa, mas espero publicá-lo antes dos particulares de março. 

 

Em jeito de despedida, de “até breve!”, não resisto a deixar aqui o anúncio da hilariante campanha de Natal da loja online da FPF (adoro o que o marketing da Federação tem feito nestes últimos anos).

 


Tenho de aprender a fazer tricot.

Preocupações

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Na passada sexta-feira, dia 11 de outubro, a Seleção Portuguesa de Futebol venceu a sua congénere luxemburguesa por três bolas sem resposta. Três dias depois, foi a Kiev... onde perdeu por duas bolas contra uma. Ambos os jogos contaram para a Qualificação para o Euro 2020.

 

Esta dupla jornada foi mais um exemplo do meu mau timing com a Seleção porque estes jogos apanharam-me numa altura difícil do meu trabalho – como tinha avisado que aconteceria no texto anterior. Não só não tive tempo para escrever a crónica pré-jornada, como saí às oito da noite do trabalho em ambos os dias de jogo. Mesmo fora isso, nas atualizações à página fiquei aquém do habitual.

 

Acontece. Na próxima jornada hei de ter mais tempo. E, sinceramente, em certos momentos foi uma bênção.

 

Também fiquei com pena de não ter podido ir ao jogo com o Luxemburgo, em Alvalade. Foi o primeiro jogo da Seleção naquele Estádio em mais de quatro anos – e o primeiro oficial em exatamente seis anos. A minha irmãzinha sportinguista em particular ansiava por ver jogadores como Rui Patrício, João Mário, mesmo Cristiano Ronaldo de novo em Alvalade.

 

Ainda assim, estou a escrever isto, a deixar os links para crónicas antigas e não consigo deixar de reparar que estou a queixar-me de barriga cheia. Afinal, estive lá nos dois jogos anteriores ao de sexta-feira em Alvalade. Além disso, nos últimos anos praticamente não tenho perdido um único jogo da Seleção na minha vizinhança (tenho a sorte de viver mais ou menos a meio caminho entre a Luz e Alvalade) e ainda fui à final da Liga das Nações.

 

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Por isso, sim, chega de queixas.

 

Foi bonito, por outro lado, terem feito uma homenagem a Aurélio Pereira, por todos os talentos que descobriu e que se tornaram figuras marcantes da Equipa de Todos Nós. Cristiano Ronaldo fez mesmo questão de lhe dar um abraço – ele pode ter muitos defeitos, mas ingratidão ou esquecer-se das pessoas que o ajudaram antes da fama não estão na lista. Gostava de ter visto esse momento (terá passado na televisão?). 

 

Eu ainda estava no trabalho quando o jogo começou, logo, não deu para acompanhar muito de perto. Consta que a Seleção entrou bem no jogo, com várias oportunidades. Duas de Ronaldo, duas de João Félix – este foi mais um jogo em que o miúdo fez de tudo para marcar e não conseguiu. Mais sobre isso adiante.

 

O golo veio aos dezasseis minutos. Eu estava a sair do trabalho e a ir para o meu carro quando ouvi pessoas celebrando num café nas proximidades – o que não é muito habitual num simples jogo de Qualificação. Gostei.

 

A jogada do golo começou com um passe de Bruno Fernandes para Nélson Semedo, que depois arrancou quase até à linha de fundo. Aí, o guarda-redes luxemburguês saiu da baliza para defender, a bola foi parar aos pés de Bernardo Silva, que rematou para as redes.

 

 

Uma das coisas que mais me irrita no hype em torno de João Félix é o facto de fazer com que Bernardo Silva seja ignorado pela imprensa. Fala-se na Seleção de Ronaldo e Félix, quando Bernardo tem feito muito mais – na minha opinião, já conquistou há muito o estatuto de número dois da Turma das Quinas. É certo que não é por falta de esforço da parte de Félix. E há que ter em conta que Bernardo é mais velho, mais experiente e está há mais tempo na Seleção. Mas mesmo no que toca a desempenhos nos clubes, muitas vezes os feitos de Bernardo Silva são menos noticiados que os de João Félix.

 

Na verdade, Bernardo Silva teve bastante cobertura noticiosa ultimamente por motivos menos desejáveis.

 

Em todo o caso, estou cá eu para notar. E para dar graças por termos um talento como o Bernardo vestindo as nossas cores. Sempre será qualquer coisa.

 

Dizem que, depois deste primeiro golo, a Seleção abrandou. Felizmente, esse período coincidiu com a minha viagem de regresso a casa. É claro que eu ia acompanhando via rádio, mas não era a mesma coisa.

 

Não que não seja divertido, atenção. Estava a ouvir a Antena1 e a certa altura falaram dos irmãos Thill – Vincent Thill e Olivier Thill – do Luxemburgo, pronunciando o apelido como “til”. David Carvalho disse, então, que eles tinham um primo, também no futebol, o… Circunflexo.

 

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Eu sei, uma piada um bocadinho seca, mas a maneira como ele a disse caiu-me no golo. A mim e aos colegas comentadores – Alexandre Afonso e José Nunes, se não me engano.

 

As coisas só aqueceram a sério na segunda parte – eu já estava em casa. Os remates multiplicavam-se: dois de Bruno Fernandes, uma tentativa de pontapé de bicicleta de Ronaldo. 

 

Este teria a oportunidade de brilhar a sério cerca de dez, quinze minutos mais tarde. O Capitão fez tudo sozinho: aproveitou-se de um erro de um defesa do Luxemburgo, roubou-lhe a bola, viu-se cara a cara com o guarda-redes. Por fim, com a maior das calmas, fez um chapéu perfeito por cima do pobre guardião. A bola só parou nas redes.

 

Que classe!

 

Depois desta, o jogo tornou a abrandar. A minha irmã queria por força que Ronaldo marcasse o seu 700º golo (ou golo número setecentos) no Estádio de Alvalade. Agora, em retrospetiva, concordo com ela. Mas não nos adiantemos.

 

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A certa altura, Gonçalo Guedes começou a aquecer. Cá em casa, eu disse algo tipo:

 

– O Féli vai sair, o Guedes vai entrar para o lugar dele e vai marcar.

 

Não chegou a ser uma substituição direta, Guedes e Félix chegaram a estar juntos em campo durante alguns minutos. De resto, acertei na minha previsão: perto do final do jogo, na sequência de um canto, a bola sobrou para Guedes e este não perdoou.

 

Onde andam estes meus dotes de futurologia quando jogo no Euromilhões?

 

Já falei amplamente sobre João Félix e Gonçalo Guedes na Seleção no texto anterior, não me vou repetir. Dizer apenas que ainda não foi desta que Félix correspondeu ao hype na Equipa de Todos Nós. A ver o que acontece na próxima dupla jornada…

 

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O marcador ficou, assim, em 3-0 para Portugal. Podia ter sido mais, mas chegou para os três pontos. Cumpriu-se a obrigação.

 

O que não aconteceria no jogo seguinte.

 

Mais uma vez, só saí do trabalho depois das oito da noite. Desta feita até foi uma bênção, pois fui poupada aos piores momentos do jogo – à semelhança do que aconteceu no particular com a Holanda. Quando ainda estava na farmácia, dei uma espreitadela rápida ao Twitter e soube que a Ucrânia tinha marcado. Mais tarde, quando cheguei ao meu carro e liguei o relato da Antena1, tinham acabado de marcar o segundo.

 

Isto não estava a acontecer…

 

O primeiro golo foi sofrido logo aos seis minutos, na sequência de um canto. Consta que nem sequer foi o primeiro lance com desconcentração da parte dos portugas, foi apenas o primeiro em que a bola entrou. E de facto praticamente ninguém na defesa de Portugal se mexe durante o lance, tirando Rui Patrício. Este ainda defende a primeira tentativa, mas nada pôde fazer quando Yaremchuk foi à recarga – perante a passividade de Pepe e Danilo. 

 

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No segundo golo, a defesa portuguesa voltou a dormir na forma. Desta feita, foi Raphael Guerreiro a deixar Yarmolenko completamente desmarcado, sozinho na cara de Patrício, que voltou a não ter maneira de impedir o golo.

 

Fernando Santos lá emendou a estratégia pouco depois, trocou peças ao intervalo. Portugal no entanto jogou sempre mais com o coração – ou melhor, com as tripas fazendo de coração – enquanto os ucranianos mantiveram sempre a cabeça fria. 

 

E como é o costume quando jogos da Seleção correm mal, a coisa ganhou contornos caricatos: um festival de oportunidades perdidas, o guarda-redes adversário, Pyatov, fazendo o jogo da vida dele. A certa altura, Bernardo Silva tentou o remate e este foi embater na perna de João Félix (se isto não é uma metáfora perfeita para o tratamento mediático dos dois cá em Portugal…). Por fim, já em cima do final do jogo, Danilo atirou ao poste. 

 

A certa altura, a sorte até nos deu uma mãozinha, com a falta de Stepanenko, que levou à sua expulsão e a um penálti a nosso favor. Ronaldo converteu e não falhou. 

 

Este é que foi o seu 700º golo, algo que as redes sociais da Federação, da Liga Portuguesa fizeram questão de assinalar entusiasmadamente – para irritação de muitos de nós. Eu tenho de concordar que aquelas celebrações caíram mal, dadas as circunstâncias: foi um mísero golo de penálti, não serviu para nada num jogo que acabámos por perder, o próprio Ronaldo teve uma reação bem mais contida. 

 

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Não digo que não se podia assinalar o recorde. Mas podiam tê-lo feito de forma bem mais sóbria. Fica claro que estas entidades se aproveitam dos feitos de Ronaldo para se auto-promoverem. Não é novidade: a Federação fá-lo há anos.

 

Tal como disse acima, teria sido melhor em todos os aspetos se Ronaldo tivesse marcado este golo no jogo com o Luxemburgo.

 

Mas estamos a adiantar-nos um pouco. Depois do penálti convertido e em superioridade numérica, a Seleção pareceu finalmente acordar para a vida, tentando chegar ao empate. Aqui entre nós, quase fico aliviada por não termos conseguido. Teria sido patético conseguirmos pontuar perante uma equipa que fora superior a nós em quase todos os aspetos – apenas por causa de uma expulsão e um golo de penálti.

 

De qualquer forma, a injeção de cafeína depois do golo não fez efeito durante muito tempo. O jogo terminou sem que conseguíssemos chegar ao empate. Com este resultado, a Ucrânia garantiu a Qualificação – e celebrou-o efusivamente, como bem mereciam. Consta que era Dia da Defesa da Ucrânia nessa segunda-feira – como se dirá “É feriado hoje, cara***!” em ucraniano?

 

Esta foi a primeira derrota em jogos oficiais desde o Mundial 2018 – e apenas a terceira em jogos oficiais na era de Fernando Santos. Se as circunstâncias fossem diferentes, não faria grande drama da situação, nem sempre é possível ganhar todos os jogos… se não tivéssemos perdido quatro pontos em casa, na primeira dupla jornada desta Qualificação. Depois de os dois Apuramentos anteriores terem corrido de forma mais ou menos tranquila, tirando os primeiros jogos, devemos estar preocupados?

 

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No que toca a este jogo, Fernando Santos assumiu a responsabilidade, admitiu que a sua estratégia inicial não foi a correta. Pelo que tenho lido e ouvido, todos concordam. Voltam questões que já levantei em textos anteriores: se o Selecionador é demasiado conservador, se dependemos demasiado de Ronaldo, se Fernando Santos é o melhor homem para o lugar.

 

É uma questão complicada, para ser sincera. É possível que outros treinadores fizessem melhor com esta base de recrutamento… mas, antes de Fernando Santos, ninguém fez melhor, nem mesmo com bases de recrutamento de qualidade semelhante. 

 

E quando as coisas correm bem, correm mesmo bem. Vejam-se os dois títulos que Fernando Santos ajudou a conquistar. Veja-se a final da Liga das Nações, há pouco mais de quatro meses, um dos nossos melhores jogos em anos! 

 

Mas porque estamos a falhar agora? O que se está a passar nesta Qualificação? 

 

É por estas e por outras que hesito em considerar Portugal uma das melhores Seleções do Mundo. Só da Europa e, mesmo assim, mais ou menos, é mais por causa dos nossos títulos. Somos demasiado instáveis, demasiado imaturos de certa forma. Falta-nos a consistência, o instinto implacável dos grandes tubarões. 

 

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No que toca a este Apuramento, a situação está longe de ser dramática. Continuamos a depender de nós mesmos. Temos de ganhar os dois últimos jogos, no próximo mês, para nos Qualificarmos em segundo lugar. Como os adversários serão o Luxemburgo e a Lituânia, em princípio, não teremos problemas. Já saímos de situações bem piores. 

 

Na verdade, as consequências desta derrota serão mais graves a médio prazo. Por falharmos a Qualificação em primeiro, perdemos o lugar no pote 1 do sorteio da fase de grupos do Euro 2020 – correndo o risco de apanharmos um tubarão. 

 

Se isso é uma coisa má ou boa é discutível – com a nossa mania de complicar o que é simples, de nos superarmos perante dificuldades (às vezes). É também uma questão de orgulho, pelo menos no que toca a mim. Onde é que já se viu o detentor do título, bem como da Liga das Nações, fora dos cabeças-de-série? 

 

Em todo o caso, o facto de termos de viver com as consequências desta derrota durante algum tempo poderá ter uma vantagem: aprendermos com os erros. Isto é, espero eu…

 

A meu ver, a melhor atitude neste momento será encarar um desafio de cada vez. Para já, a prioridade será ganharmos os jogos de novembro e garantirmos a Qualificação direta. Se não conseguirmos (três vezes na madeira), ainda teremos os play-offs, mas, tal como referi antes, prefiro que a questão do Apuramento fique resolvida este ano. Quando estivermos Qualificados (não duvido que vamos conseguir; conseguimos de todas as vezes nos últimos vinte anos, algumas das vezes em circunstâncias bem piores, porque falharíamos agora?), logo nos preocuparemos com o sorteio. 

 

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Na melhor das hipóteses, esta derrota será apenas um acidente de percurso. Fernando Santos e restante equipa técnica tomarão medidas para que, dentro do possível, não se repita. Na prática, não há garantias de nada. Só o tempo dirá como lidaremos com as consequências do que aconteceu. 

 

Para já, é aproveitar estas semanas para ultrapassar esta desilusão e ganhar forças para a reta final. Isto tudo faz parte. Resta-nos esperar que, depois desta, não voltemos a escorregar de novo tão cedo.