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O Meu Clube É a Seleção!

Os pensamentos de uma simples adepta da Seleção Nacional, que não percebe assim tanto de futebol mas que é completamente maluca pela Equipa de Todos Nós.

Seleção 2016

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Não, não é gralha: isto é mesmo a revisão de 2016… a meio de janeiro de 2018. Conforme poderão ler aqui, há um ano tentei escrever o meu balanço de fim de ano habitual, recordando tudo o que tinha acontecido com a Seleção em 2016. Só que o texto atrasou-se, enrolou-se, e acabei por desistir. Continuo sem me arrepender da decisão. Mas isso não significava que 2016 não merecia um texto a ele dedicado.

 

Eis-me aqui, portanto, fazendo uma segunda tentativa na revisão de 2016, mais de um ano mais tarde. Eu queria, aliás, ter publicado este texto mais perto do início do ano, mas não consegui. Não foi por motivos fúteis – pelo contrário, foram quase de vida ou de morte. Mas mais vale tarde do que nunca.

 

Vamos fazer isto de uma maneira diferente, no entanto. Em vez de recordarmos tudo exaustivamente, por ordem cronológica, vamos apenas falar do melhor e do pior deste ano. No caso de 2016 e de 2017, não há assim tanto sobre que escrever n’“O pior”, logo, parece-me um bom sítio por onde começar.

 

Assim, sem mais delongas…

 

O pior

 

  • A fase de grupos do Europeu

 

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Ninguém adivinharia o final da nossa campanha no Euro 2016 com base, apenas, no nosso desempenho na fase de grupos. Com adversários bem menos prestigiados e experientes, ninguém estava à espera que Portugal sentisse tantas dificuldades. De uma maneira muito típica nossa, fomos nós mesmos a criar essas dificuldades, mais do que os nossos adversários.

 

Recordemos os jogos individualmente. Os portugueses entraram um pouco nervosos no jogo com a Islândia, mas acabaram por crescer e Nani marcou aos trinta e um minutos. No entanto, o segundo golo, que consolidaria a vantagem no marcador, nunca veio. A Islândia empatou ao início da segunda parte e Portugal não conseguiu regressar à vantagem. Foi um daqueles jogos típicos, em que a Seleção domina em todos os aspetos e mais alguns… exceto no número de golos marcados.

 

Ainda hoje muitos criticam o estilo de Fernando Santos, de empates ou vitórias pela margem mínima, com exibições pouco empolgantes. Eu no entanto, ainda que também não seja grande fã (e esteja aliviada por, hoje, termos um ataque mais acutilante), prefiro esse estilo a vitórias morais.

 

Em retrospetiva, as polémicas críticas de Cristiano Ronaldo ao jogo islandês são irónicas: porque são, essencialmente, as mesmas que fariam a Portugal mais à frente, no campeonato. E também porque seria um golo da Islândia a enviar-nos para um percurso mais “fácil” até à final de Paris. Cristiano Ronaldo faria muitas coisas boas neste campeonato – e nem todas seriam golos ou assistências – mas este foi um momento infeliz.

 

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Estou convencida, por outro lado, que foi neste jogo que nasceu a Islândia equipa-sensação do Euro 2016, que expulsaria a Inglaterra do campeonato. Ou pelo menos contribuído para essa Islândia – recordar que eles, antes, já tinham ultrapassado a Holanda na Qualificação para este Europeu.

 

jogo com a Áustria foi ainda pior, o ponto mais baixo de 2016. Portugal jogou melhor, mas voltou a não conseguir traduzir a sua superioridade em golos. Foram vinte e cinco os remates falhados, incluindo um penálti de Cristiano Ronaldo. As críticas choviam fora e dentro de Portugal, não sem razão: aquilo estava a ser patético. Eu sentia-me particularmente desanimada.

 

Foram nestas circunstâncias que Fernando Santos proferiu as, hoje lendárias, palavras: “Eu já disse à minha família que só vou dia 11 para Portugal. (...) E vou lá e vou ser recebido em festa.”

 

Hoje adoramos estas palavras – eu acho mesmo que ficarão gravadas na lápide dele – mas na altura, eu lembro-me, ninguém achou piada. Ninguém podia vê-lo à frente. Eu não ia a esse extremo, mas também não tinha argumentos para defendê-lo. Eram palavras muito bonitas e tal, éramos onze milhões em campo, mas nada daquilo estava a ser colocado em prática.

 

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Cristiano Ronaldo também responderia às críticas, de uma maneira… curiosa. Foi na manhã do jogo com a Hungria, durante o passeio da praxe, antes dos jogos. Depois de dias e dias de dedos apontados, a tampa saltou-lhe. Ou melhor, saltou o microfone do jornalista da CMTV que teve a infeliz ideia de tentar arrancar umas palavras ao Capitão.

 

Lembro-me perfeitamente de me ter fartado de rir depois de ver as imagens pela primeira vez. Ainda hoje, mais de ano e meio depois, acho hilariante. Quando contar aos meus filhos e netos acerca deste Europeu, este momento não vai ficar de fora. E vou garantir-lhes que o CM mereceu.

 

O jogo com a Hungria foi igualmente caricato. O próprio Fernando Santos admitiu que, se houve jogo em que a Seleção jogou mal, “à parva”, foi neste. Por três vezes a Hungria esteve à frente no marcador e Portugal com um pé de fora do Europeu. Duas dessas ocasiões deveram-se a livres marcados no mesmo sítio, por faltas do mesmo Marmanjo: Ricardo Carvalho. A nossa sorte – como em muitas outras ocasiões – foi termos Cristiano Ronaldo para repôr a igualdade.

 

Fernando Santos seria, mais tarde, muito criticado por ter colocado a equipa a defender, aparentemente satisfeito com o segundo lugar do grupo – que nos atiraria para o caminho mais difícil até à final.

 

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Teríamos conseguido chegar a Paris através dos “tubarões”? Eu gostaria de pensar que sim, mas não dá para ter a certeza. Seria mais difícil, sim, mas também Portugal mostrou sempre uma equipa difícil de vencer. Não seria de todo impossível.

 

De qualquer forma, a Islândia marcou à Áustria no último minuto, subindo ao segundo lugar. Nós ficámos em terceiro e não precisámos de nos preocupar com os tubarões – isto é, até encontrarmos um, na final.

 

O fraco desempenho no grupo acabou por não ter consequências de maior, a longo prazo. Mas não havia necessidade. A Equipa de Todos Nós já nos faz sofrer em demasia, já ajudava se pelo menos tentasse reduzir o sofrimento auto-infligido, como no grupo do Europeu.

 

Mas, depois destes anos todos, acho que é uma impossibilidade física a Seleção Portuguesa não se boicotar a si mesma. E já que falamos disso, passemos ao segundo item d’“O pior”.

 

 

  • A derrota perante a Suíça

 

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Esta foi a única derrota em jogos oficiais em todo 2016 e… bem, em todo o “mandato” de Fernando Santos, até agora. Tinham passado menos de dois meses desde a final de Paris. Ainda estávamos em celebração. Na semana anterior, a Seleção tinha sido homenageada no Salão Nobre da Câmara Municipal do Porto e realizado um particular com Gibraltar – que serviu para festejar o primeiro título com os adeptos, mais do que para outra coisa qualquer. Estávamos nas nuvens, eu incluída.

 

É claro que ia dar para o torto.

 

A Seleção Portuguesa nem sequer jogou assim tão mal, a entrada até foi boa. Bastaram menos de dez minutos de desconcentração (de “deslumbramento”, segundo Fernando Santos) para a coisa correr mal: os suíços marcaram dois golos quase de seguida, dos quais Portugal não conseguiu recuperar. Esses dez minutos infelizes ficaram colados a nós durante o resto da Qualficação, como uma âncora. Só nos livrámos deles mais de um ano mais tarde.

 

Na altura foi um valente balde de água fria mas agora, em retrospetiva, não acho que tenha sido uma coisa assim tão má. Os adversários deste grupo de Qualificação estavam longe de ser estimulantes. Ao ficarmos obrigados a ganhar todos os jogos depois do primeiro, demos uma dose saudável de adrenalina a este Apuramento (ainda que este se tenha tornado repetitivo, ao fim de algum tempo). Além de que, conhecendo o historial da Turma das Quinas, era possível que acabássemos por escorregar perante uma das seleções de menor prestígio – sobretudo se não tivéssemos, ainda descido à Terra, após o Euro 2016. A coisa podia ter ficado mais complicada do que chegou a ser.

 

Mesmo assim, foi uma oportunidade perdida para fazermos uma Qualificação imaculada. Enfim. Fica para a próxima.

 

O melhor

 

  • Preciso mesmo de dizer?

 

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Tirando a fase de grupos (e mesmo assim), o Euro 2016 e as semanas que se seguiram foram dos períodos mais felizes da minha vida nos últimos anos. Guardo imensas boas recordações dessa altura. A minha família toda festejando o golo de Ricardo Quaresma, no último minuto do jogo com a Croácia; escrevendo a minha análise a esse jogo uns dias depois, num café cheio de gente vendo o Espanha x Itália; indo buscar a minha irmã a uma conferência, depois do jogo com a Polónia, com um cachecol preso à janela do carro; descobrindo que jogaríamos contra o País de Gales durante um passeio à beira do Tejo; no carro com a minha irmã, na noite de 3 de julho, comentando:

 

– Já pensaste que, daqui a uma semana, podemos estar na final de Paris?

 

Lembro-me também de, depois das meias-finais, irmos tomar um copo com os meus tios (o meu tio fazia anos) e de ver pessoas festejando a presença na final; de passar os primeiros dias seguintes num estado de perpétua incredulidade; de passar de carro, no dia 9 de julho, perto do local onde esperámos o autocarro da Seleção, antes da final do Euro 2004; de recordar, nesse mesmo dia, que dez anos antes tinha ido receber a Seleção ao Jamor, depois do Mundial 2006.

 

Mas a melhor de todas foi a de 10 de julho, a que fez toda a diferença. Eu guardo boas recordações de quase todos os campeonatos de seleções que testemunhei. De uns mais do que outros mas, antes de 2016, todos acabavam da mesma forma: com a expulsão de Portugal desses campeonatos e comigo em baixo durante algumas semanas.

 

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Desta vez foi diferente.

 

Não é só da noite de 10 de julho que guardo boas recordações. O dia todo foi muito bem, tirando os primeiros 109 minutos da final – mais sobre isso adiante. Lembro-me de ver a minha crónica pré-final destacada no Sapo Blogs (um texto de que me orgulho muito) logo de manhã, para começar bem. De ter passado o dia ouvindo música relacionada com a Seleção (não apenas as das minhas antigas montagens de vídeos, mas também o Bamos Lá Cambada, cortesia do meu pai…), vendo mensagens de apoio vindas de todo o lado, nas redes sociais, de eu mesma partilhar várias na minha página.

 

Também me lembro de, mais perto da hora do jogo, ver notificações no meu telemóvel de notícias acerca das traças no Stade de France – aqueles pormenores aparentemente insignificantes, mas que ninguém esquece na hora de contar a história – e de dançar ao som de This One’s For You para sacudir os nervos.

 

E, claro, lembro-me do rescaldo do jogo: de quase chorar, no sofá da minha sala, quando Ronaldo levantou a Taça; de irmos buscar a minha irmã ao Marquês (ela fora ver o jogo para a Praça do Comércio com amigos), vendo toda a gente à nossa volta a festejar e o edifício da NOS com as cores de Portugal. Mas, mais do que tudo, lembro-me do abraço que eu e a minha irmã demos quando nos encontrámos pela primeira vez, já Campeãs Europeias.

 

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Mas falemos sobre o jogo em si. Os jogos anteriores neste Europeu foram pouco memoráveis, tirando um pormenor ou outro: toda a jogada que levou ao golo frente à Croácia, por exemplo, e o famoso “Anda bater! Anda bater!” de Cristiano Ronaldo a João Moutinho.

 

A final de Paris, por seu lado, foi uma epopeia.

 

Acho mesmo que teve traços cinemáticos, hollywoodescos. Ora vejam: de um lado, uma equipa gigante, experiente, arrogante, jogando em casa, apoiada por todos. Do outro lado, uma equipa em clara desvantagem, relativamente humilde, em quem quase ninguém acreditava. Os seus adversários dão a vitória por garantida, olham-nos de cima para baixo, até já preparam a festa.

 

Um espectador desinteressado, olhando de fora para tudo isto, diria logo que os franceses não teriam um final feliz. Mas nós, na altura, estávamos demasiado envolvidos com o jogo para vermos, como dizem os anglo-saxónicos, “the big picture”.

 

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Regressando à metáfora do filme, o líder da equipa menor é afastado do jogo cedo – Cristiano Ronaldo, que tem todas as características do típico herói-alfa, protagonista de Hollywood: forte, carismático, confiante. A maior arma dos chamados underdogs, a única segundo alguns.

  

De uma maneira paradoxal, longe de se dar por vencido, o restante elenco cerra os dentes, une-se e torna-se ainda mais forte. Mesmo o herói-alfa, impedindo de participar diretamente na ação, não deixa de contribuir, de dar força e inspirar os seus colegas.

 

No fim, o dia é salvo por quem menos se esperava, o underdog dos underdogs, o patinho feio: Éder.

 

A final de Paris tornou-se inesquecível, para mim, não apenas por nos ter dado o nosso primeiro título e pelo seu carácter cinemático, mas também pelos pormenores. Os pequenos grandes momentos que tornaram a noite ainda mais especial, mais épica, e que não vou deixar de fora quando contar a história aos meus filhos e netos: desde as traças, incluindo aquela que pousou no rosto de Ronaldo às lágrimas deste, no apito final, passando pelos cânticos ensurdecedores do público português, Éder prometendo a Fernando Santos que ia marcar, o Ronaldo promovido a treinador adjunto.

 

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E, claro, o golo que mudou todas as nossas vidas.

 

O documentário “10 de julho” incluiu muitos desses momentos, mas não todos: como a joelhada de Cédric nas costas de Payet (ele garantiu que não foi vingança, mas eu gosto de pensar que foi um bocadinho), o Quaresma com a cabeça de um francês debaixo do braço, Ronaldo descarregando a frustração na perna do Adrien, no banco.

 

Vocês sabem que eu esperei por aquela noite durante doze anos, em Askaban (porque é que eu nunca me lembro de fazer estas piadas na altura…?), desde o Euro 2004. Uma parte de mim sempre achou, sobretudo quando era mais nova, que as nossas vidas mudariam para sempre assim que a Seleção ganhasse um título. Outra parte de mim, mais racional, argumentava que talvez não fizesse uma diferença assim tão grande.

 

Hoje, um ano e meio depois, contudo, posso dizer que várias coisas mudaram com o primeiro título da Equipa de Todos Nós. Mudou a maneira como olhamos para nós mesmos, com menos vergonha e mais orgulho. Foi, na verdade, um dos vários aspetos que contribui para a maior visibilidade de Portugal lá por fora, nos últimos dois, três anos.

 

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Pessoalmente, como referi antes, foi um grande orgulho ver jogadores com quem cresci, que tenho acompanhado, acarinhado ao longo dos anos, mesmo quando outros os desvalorizam, finalmente consagrados, gravados na História do futebol português. Faz com que as mesquinhezes, polémicas e guerrinhas que pululam nas notícias desportivas pareçam tão insignificantes – porque sabemos que o futebol português é capaz de muito mais do que isso.

  

Se hoje reescrevesse a minha lista com os dez melhores jogos da Seleção, a final de Paris estaria em segundo lugar. O Portugal x Espanha continuaria no topo porque, conforme escrevi na altura, foi o jogo que fez de mim uma verdadeira adepta da Seleção. Se não fosse esse jogo, a final de Paris não teria tido o mesmo impacto.

 

Confesso que, durante o verão de 2016, cheguei a desejar que Portugal não jogasse mais – para que o ato mais recente da Equipa de Todos Nós fosse, para o resto da eternidade, a conquista do Europeu. Acho que essa sensação nunca chegou a desaparecer: poderá ter sido uma das causas do desgaste que senti com o blogue, no final de 2016, que me fez desistir da revisão desse ano. Talvez o meu subconsciente se tenha convencido que este blogue já tinha cumprido seu propósito: imortalizar a conquista do primeiro título da Seleção.

 

Já ultrapassei essa fase de desgaste, é certo. Mas ainda hoje, um ano e meio depois, tenho o texto da conquista do Europeu destacado na página de Facebook deste blogue.

  

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É uma coisa muito portuguesa, eu sei. Vivermos presos às glórias do passado, sejam elas os Descobrimentos ou o Euro 2016. Já Luiz de Camões rezava: “Do mal ficam as mágoas na lembrança/E do bem (se algum houve) as saudades”.

 

Não quero viver assim. Não quero acreditar que a conquista do Europeu foi o único final feliz a que tivemos direito. Quero muitos mais “10 de julho”s na minha vida. Não terão o mesmo impacto do primeiro, ninguém o nega. Mas agora que provámos o fruto, e vimos o quão saboroso ele é, porque não tentar saboreá-lo outra vez? Quem sabe… no Mundial 2018?

 

Não que queira ir já por aí. O Mundial será assunto para outra ocasião. Para já, fica o desejo de repetir o 10 de julho. E com isto termina a revisão de 2016.

 

Fiquem por aí para a revisão de 2017. Vou tentar não me demorar… muito.

A Batalha Final

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No próximo sábado, dia 7 de outubro, a Seleção Portuguesa de Futebol defrontará a sua congénere andorrana, no Estádio Nacional de Andorra-a-Velha. Três dias mais tarde, receberá a sua congénere suíça no Estádio da Luz... e eu estarei lá! Estes dois jogos serão os últimos da Seleção Portuguesa na Qualificação para o Mundial 2018.

 

Fernando Santos apresentou uma Convocatória com várias novidades para esta dupla jornada. A que primeiro me chamou a atenção foi o regresso de Éder, após ter falhado a Taça das Confederações. Eu sabia que ele estava a dar-se bem no Lokomotiv de Moscovo – marcou um golo no fim de semana passado e ainda outro no fim de semana anterior – mas não estava à espera que ele regressasse já à Seleção.

 

É claro que não vou criticar a Chamada dele – ninguém com um bocadinho de coração vai fazê-lo. Não deverá roubar a titularidade a André Silva, obviamente, mas poderá ajudar a desbloquear uma situação complicada. Já resultou antes…

 

O facto de Éder estar a jogar na Rússia, no ano em que esta organiza o Mundial, de resto, tem alguma piada – depois de o mesmo ter acontecido há quase dois anos, quando ele se mudou para França antes do Euro 2016.

 

Terá contribuído para o que aconteceu na final? Não sei.

 

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Superstições à parte, por agora estou feliz por o Éder estar a jogar regularmente e a marcar golos, sem levar com vaias de franceses aziados. Se conseguir manter este ritmo, não deverá falhar o Mundial.

 

Menos consensual é o regresso de Renato Sanches. Como é do conhecimento geral, o Renato está a jogar no Swansea. A sua estreia não correu bem e os adeptos do clube não foram meigos. Desde essa altura, tanto quanto tem sido noticiado, Renato não tem feito nada de especial. Fernando Santos garante, no entanto, que ele e os restantes membros da equipa técnica viram “sinais positivos”.

 

Eu vou acreditar – até porque ainda alimento a esperança de voltar a ver o Renato do Euro 2016.

 

Nada a apontar à Chamada de Gonçalo Guedes, que está a sair-se muito bem no Valência.

 

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Por sua vez, Antunes foi Convocado no lugar de Fábio Coentrão, presumivelmente. A exclusão do lateral-esquerdo do Sporting também não foi consensual. Eu, no entanto, não posso dizer que tenha ficado surpreendida – não depois de Coentrão não ter conseguido aguentar meia hora em campo, frente à Hungria. Sendo esta uma jornada dupla muito desgastante, sobretudo na Andorra (conforme veremos a seguir),  também acho que não valia a pena arriscar.

 

E por sinal, como que a justificar esta exclusão, o Fábio lesionou-se durante o fim de semana, acabando por falhar o Clássico. Ou seja, mesmo que Coentrão tivesse sido Convocado, teria de ser substituído. Tudo isto é, por um lado, caricato. Por outro, é triste ver um jogador como ele, cheio de garra e talento, preso neste ciclo vicioso.

 

Na verdade, estou à espera que Raphael Guerreiro regresse à competição – ainda não recuperou da lesão contraída durante a Taça das Confederações. Até porque o Eliseu anda a jogar menos no Benfica. Espero que Antunes consiga dar conta do recado.

 

Por fim, dizer apenas que não compreendo porque é que o Manuel Fernandes não tem sido Convocado.

 

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Estamos, então, na reta final deste Apuramento, ainda no segundo lugar, a três pontos do primeiro. Há cerca de um ano, havia quem dissesse que a Suíça, por esta altura, teria perdido pontos. Era natural pensar assim – com o devido respeito para com os suíços, eles não são nenhuns tubarões, tipo Alemanha ou França (e nós também não).

 

Bem, enganaram-se. Em parte, porque equipas como as Ilhas Faroé ou a Letónia dificilmente roubam pontos a equipas de maior prestígio.  Mas sobretudo por mérito dos próprios suíços. Não consigo deixar de respeitá-los por estarem a fazer uma Qualificação imaculada – feito só igualado pela Alemanha.

 

Existe a possibilidade de os suíços perderem pontos perante a Hungria – sobretudo se os húngaros levarem para Basileia o… chamemos-lhe “espírito lutador” que demonstraram no nosso último jogo contra eles. Mas mesmo na melhor das hipóteses – isto é, Suíça perder contra a Hungria e Portugal ganhar à Andorra – vencermos a Suíça continua a ser a opção mais segura.

 

Não adianta, no entanto, pensar demasiado no jogo contra os suíços antes de vencermos Andorra.  Não foi por acaso que Fernando Santos comparou este jogo a uma meia-final – ninguém no seu juízo perfeito faz planos para a final antes de passar as meias.

 

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Já se sabe que não vai ser fácil. O relvado será artificial. Os andorranos conseguiram empatar em casa com os húngaros e perder por apenas 2-1 perante os suíços. A viagem para lá é complicada: a Federação consegui arranjar um avião da Força Aérea que voe diretamente para a Andorra mas, se o tempo estiver mau, terão de aterrar em Lérida e fazer o resto da viagem de autocarro.

 

Três horas de autocarro, uma parte delas através dos Pirinéus? Só de pensar nas curvas fico com náuseas. Façamos figas para que os Marmanjos não tenham de passar por isso.

 

Por outro lado, existe uma grande comunidade portuguesa em Andorra – conforme testemunhado há algumas semanas pelo Presidente Marcelo. Na altura disseram mesmo que ia haver um problema, pois o Estádio não tem espaço para os portugueses todos em Andorra.

 

É este género de problemas que a Seleção agradece.

 

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Mesmo tendo em conta tudo o que enumerei antes, a Turma das Quinas não tem desculpas. Para além de ir jogar quase em casa… é a Andorra! Pode criar-nos dificuldades, sim, mas não queiram comparar. Eles nem sequer têm hipóteses de se Qualificar, nesta altura. É certo que devemos sempre ter cuidado com um adversário que não tenha nada a perder, mas a nossa motivação terá de chegar para contornar esse problema. Tropeçar perante a Andorra não é aceitável. Somos Campeões Europeus ou não?

 

Pode ser, até, que estejamos a preocuparmo-nos demasiado e que, depois, as coisas corram melhor do que estávamos à espera. Tem sido um pouco a regra em vários jogos deste Apuramento. De qualquer forma, é mil vezes melhor que o oposto: subestimarmos o adversário e apanharmos surpresas desagradáveis. Não me importo de sofrer desnecessariamente, desde que ganhemos os três pontos.

 

Por outro lado, se algum dia vier a sofrer do coração por causa disso, posso arrepender-me...

 

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Existe outro aspeto a levar em conta neste jogo: os “amarelados”. Durante estas últimas semanas, tenho-me preocupado mais com Cristiano Ronaldo, por motivos óbvios – e também porque o seu amarelo foi mais recente. Mas estive a pesquisar e descobri que, para além dele, também Gelson Martins, Ricardo Quaresma, Cédric, André Gomes, Pepe e José Fonte viram o amarelo nesta Qualificação.

 

Não nos podemos dar ao luxo de perder nenhum destes Marmanjos – não antes de uma final, em que todas as armas fazem falta. Se fossem apenas dois ou três “amarelados”, Fernando Santos ainda poderia poupá-los (duvido que o fizesse, mesmo assim). Com sete, não dá.

 

É difícil de prever quais destes conseguirão escapar ao amarelo. O Cristiano Ronaldo, por exemplo, já tem idade para ter juízo mas, de vez em quando, tem atitudes de criancinha. A nossa sorte é que ele saiu há pouco tempo de um castigo de cinco jogos – por agora, estará vacinado.

 

Consta que o Cédric é um bocadinho arruaceiro, também. E o Pepe... bem, é o Pepe.

 

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Só nos resta fazer figas para que os Marmanjos se portem que nem meninos de coro e para que o árbitro não se ponha a implicar com eles.

 

Se tudo correr bem na Andorra, o jogo com a Suíça será, então, a Batalha Final deste Apuramento – a épica resolução de um conflito, de um braço-de-ferro, que dura há mais de um ano. Conforme disse acima, tenho imenso respeito pelos nossos amigos suíços, pelo que têm feito nesta Qualificação. Mas só há espaço para um de nós no primeiro lugar. Portugal vai dar luta.

 

O jogo terá lugar no Estádio da Luz, tal como vimos antes. Noutras circunstâncias, acho que teriam escolhido outro estádio – talvez o de Alvalade. No entanto, o saldo desse estádio, em termos de jogos da Seleção, não tem sido favorável – eu que o diga, que fui assistir a três dos quatro últimos jogos em Alvalade e estes incluíram uma derrota (era um particular, mas mesmo assim) e dois empates comprometedores.

 

O Estádio da Luz, por sua vez, tem um histórico recente bem mais favorável – incluindo jogos decisivos, como os playoffs de 2009, 2011 e 2013, todos eles com resultados positivos. Faz sentido que tenha sido escolhido como palco desta Batalha Final.

 

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À hora desta publicação, já foram vendidos pelo menos 55 mil bilhetes – o meu e o da minha irmã incluídos. Tal como tinha prometido antes, comprámos os bilhetes assim que nos foi possível. E – milagre! – vamos ficar abaixo do terceiro anel! Nós e outros 55 mil, pelo menos (pode ser que cheguemos aos 60 mil até lá), estaremos lá, armados até aos dentes com as cores portuguesas e faremos a nossa parte na Batalha Final.

 

Fernando Santos prometeu há mais de um mês que Portugal ganharia estes últimos jogos e que, no dia 10, lhe daria uma prenda de aniversário. Sendo este o homem que nos prometeu, ainda em 2015, que seríamos Campeões Europeus, eu tendo a acreditar nele – até porque, entretanto, já ganhámos dois desses jogos. Eu ajudarei no que puder, sobretudo no dia 10 (espero que possamos cantar os Parabéns ao Selecionador). Mas, como sempre, a maior parte está nas mãos (e nos pés) dos nossos Marmanjos. Não nos desiludam!

Hipocrisia

youonlyfailwhenyoustop.jpgNo próximo dia 3 de junho, a Seleção Portuguesa de Futebol receberá a sua congénere cipriota, no Estádio António Coimbra da Mota, no Estoril, em jogo de carácter particular. Seis dias depois, a Seleção desloca-se à Letónia, para um jogo da Qualificação para o Mundial 2018.

 

Fernando Santos divulgou os Convocados para estes jogos – bem como para a Taça das Confederações – na passada quinta-feira, dia 25. A lista não trouxe grandes surpresas, mas não deixou de causar alguma controvérsia. O principal motivo prende-se com a ausência de Éder, o herói da final do Europeu.

 

Ninguém pode negar que a polémica é cem por cento emocional – Éder marcou pouquíssimos golos esta época, no Lille. O próprio Fernando Santos, igual a si próprio (e ainda bem!), não deixou de assinalar a hipocrisia: “Quando ninguém acreditava no Éder, quem é que o levou? No último ano [em que o ponta-de-lança contava cinco ou seis golos marcados pelo Lille desde janeiro], nesta mesma sala, perguntavam-me porque é que eu o tinha Convocado...”

 

Dito isto, o Selecionador deixou bem claro que não deixou de confiar no Éder só porque o deixou de fora desta Convocatória.

 

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Ninguém fica feliz por o Éder ficar de fora da Taça das Confederações. Uma grande parte de mim pensa que isto é profundamente errado, quase uma blasfémia. É provável que Fernando Santos se sinta da mesma forma – sou capaz de apostar, até, que Éder só foi incluído em Convocatórias anteriores por este motivo, só porque o Selecionador não queria excluir o herói de Paris.

 

No entanto, isto é a Taça das Confederações. Não há espaço para sentimentalismos. Fernando Santos não ia deixar André Silva (que tem marcado regularmente pela Seleção nesta última época) para dar lugar a um jogador, cujo único argumento a favor é “marcou um golo importantíssimo no ano passado”. Custa-nos a todos – o próprio Fernando Santos admitiu-o – mas não há volta a dar.

 

Também tem sido comentada a ausência de Renato Sanches, mas essa é ainda menos inquestionável – com tanta boa opção para o meio-campo, não vamos ocupar um lugar com um jogador que, coitado, pouco mais tem feito do que aquecer o banco do Bayern de Munique. Isso tem, aliás, sido usado como argumento para os muitos detratores (vulgo, haters) do Renato (este artigo responde bem a essas críticas).

 

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Tenho uma certa pena por o jovem não vir à Taça das Confederações, depois do papel que teve na conquista do Europeu. Fico, no entanto, satisfeita por ele ter sido chamado por Rui Jorge para o Europeu de Su-21. Não lhe faltarão oportunidades para brilhar nesse campeonato.

 

Por fim, queria falar sobre os guarda-redes suplentes – terão sido a melhor escolha? Beto tem sido o suplente de Rui Patrício no Sporting e José Sá tem sido o suplente de Iker Casillas no F.C.Porto – ou seja, nenhum deles conta muitos jogos nas pernas. Nesse aspeto, Bruno Varela seria melhor escolha, na minha opinião.

 

Por outro lado, Beto já não é um novato no que toca à Turma das Quinas, bem pelo contrário. José Sá, por sua vez, foi um dos destaques da Seleção de Sub-21, no Europeu de 2015 – já podia ter vindo antes à equipa principal.

 

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Além disso, sejamos sinceros, nestes campeonatos é raro os guarda-redes jogarem – o Mundial 2014 foi a exceção. Eu mesmo podia ter sido Convocada como guarda-redes suplente de Rui Patrício e pouca diferença faria.

 

Exceto para mim, claro. Fazer parte da comitiva da Seleção num campeonato destes? É o sonho!

 

Desde que não me obrigassem a participar nos treinos. Eu mal conseguia sobreviver às aulas de Educação Física no ensino básico e secundário, imaginem-me num treino de futebol profissional…

 

Enfim, voltemos à realidade.

 

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Aquando da Divulgação dos Convocados, Fernando Santos disse que, para já, não quer falar sobre a Taça das Confederações. Neste momento, a prioridade é o jogo com a Letónia. Nós, aqui, já falámos sobre as Taça das Confederações no texto anterior, de qualquer forma. Hoje falamos sobre os outros jogos.

 

No sábado temos, então, o particular com o Chipre. Os nossos jogos mais recentes com os cipriotas ocorreram durante a Qualificação para o Euro 2012 – embora não tenha podido ver nenhum dos dois jogos. O nosso historial com o Chipre é francamente positivo. O pior resultado foi um empate a quatro golos, em setembro de 2010, em pleno caso Queiroz – outra altura excecional.

 

Já que falamos em alturas excecionais, gostava de referir que, ao longo deste último ano, tenho feito questão de reler textos antigos deste blogue, escritos aquando dos piores períodos da Seleção nestes últimos tempos – como o caso Queiroz e o Mundial 2010. Por vários motivos. Um deles é para apreciar o quão longe chegámos desde essas alturas. O Mundial 2014, por exemplo, foi há apenas três anos.

 

No entanto, o principal motivo pelo qual procuro recordar esses períodos é para não tomar a atual maré alta como garantida. Para me recordar do quão difícil foi chegar cá, as dificuldades que foi necessário.

 

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Eu, de resto, recomendava esse exercício a mais pessoas – os portugueses têm memória curta.

 

Regressemos ao presente. Queria chamar a atenção para um pormenor curioso: o particular com o Chipre realiza-se no mesmo dia que a final da Liga dos Campeões. Yep. Já não bastou ter tido um jogo de clubes e um de seleções no mesmo fim de semana, como no ano passado – agora vão ser no mesmo dia.

 

A sério. Quem é o responsável por estes calendários? Qual é a ideia deles?

 

O que vale é que os jogos são a horas diferentes (mas não me admirava se isso mudasse no próximo ano). O jogo com o Chipre começará às quatro da tarde – o que, aliás, não me dá muito jeito, pois não estarei em casa. Vou poder, no entanto, acompanhar o jogo pela rádio. Como não espero um jogo muito interessante, não me queixo.

 

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Outra consequência de o jogo coincidir com a final da Liga dos Campeões é a ausência de Pepe e Cristiano Ronaldo deste jogo, bem como dos primeiros dias de estágio da Seleção – já que o Real Madrid se apurou para esta final. Por esta altura, estas ausências dos madrilenos já fazem parte da rotina. Este ano temos, aliás, uma vantagem relativamente a 2014 e 2016 – segundo consta, Zidane terá conseguido convencer o Cristiano a poupar-se, de modo a não chegar demasiado desgastado ao fim de época.

 

Durante muitos anos guardei um certo ressentimento para com Zidane, por nos ter expulsado do Mundial 2006 com um penálti duvidoso e provar, com a cabeçada a Materazzi, que não merecia estar na final. Depois desta, no entanto, sou capaz de lhe perdoar tudo. O joelho esquerdo do Ronaldo já nos tirou anos de vida suficientes!

 

Como já vai sendo hábito, já que Pepe e Cristiano estão na final da Champions, todos desejamos que a vençam… outra vez. Para poderem juntar mais um título ao currículo, para que eles venham animados para o estágio da Seleção, motivados para os próximos desafios da Equipa de Todos Nós.

 

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O primeiro desses desafios é o jogo com a Letónia, no dia 9 de junho. A história tem sido sempre a mesma em todas as jornadas desta Qualificação: para continuarmos na luta pelo primeiro lugar, a vitória é a única opção. E, como os nossos rivais suíços vão jogar contra… as Ilhas Faroé, não me parece que seja desta que eles tropecem.

 

Portugal ganhou todos os jogos que disputou com a Letónia. No entanto, se bem se recordam, a Letónia fez-nos suar no jogo de novembro passado. Os letões estão ao nosso alcance, ninguém o questiona – desde que os portugueses estejam com a cabeça no lugar.

 

A Seleção tem estado a preparar estes jogos desde o início da semana. Tal como já aconteceu há um ano, antes do Euro 2016, esta primeira semana é mais leve, com os jogadores chegando à Cidade do Futebol em alturas diferentes e a regressarem a casa após os treinos. Tudo indica, no entanto, que a Seleção estará na máxima força quando for jogar contra a Letónia.

 

Estes dias são, de resto, apenas o início de várias semanas de Seleção. Se tudo correr bem, será um mês inteiro a partir de agora – até à final da Taça das Confederações, dia 2 de julho. Ainda não estou cem por cento em modo Seleção, mas hei de lá chegar muito em breve. De qualquer forma, todos desejamos o mesmo: que estas semanas terminem com mais um final feliz para a Equipa de Todos Nós.

 

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Valores

 

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Na próximo domingo, dia 13 de novembro, a Seleção Portuguesa de Futebol receberá a sua congénere letã, no Estádio do Algarve, em jogo a contar para a Qualificação para o Campeonato do Mundo da modalidade.

 

Fernando Santos apresentou os Convocados para este jogo na semana passada. Não há novidades, tirando a Inclusão de Luís Neto para substituir o lesionado e castigado Pepe. João Moutinho também falhou a Convocatória por motivos físicos.

 

Não há assim muito a dizer sobre esta fase do campeonato. A Letónia ocupa o quinto lugar da tabela classificativa do grupo B, com a penas uma vitória (frente à Andorra). O nosso historial frente a esta seleção é exemplar: quatro jogos, quatro vitórias. Só me recordo dos dois mais recentes, durante a Qualificação para o Mundial 2006. O primeiro, em setembro de 2004, teve um momento engraçado, quando uma mulher em cuecas invadiu o jogo, durante a segunda parte. Até Luiz Felipe Scolari, o Selecionador Nacional na altura, se riu. Coincidência ou não, poucos minutos mais tarde, Portugal marcou os dois golos da vitória, quase de seguida: o primeiro de Cristiano Ronaldo, o segundo de Pedro Pauleta. Nada como uma mulher nua para dar inspiração...

 

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O segundo jogo, em outubro de 2005, o último desse Apuramento, serviu apenas para cumprir calendário - a Qualificação havia sido selada no jogo anterior, frente ao Liechtenstein. Portugal ganhou por três bolas sem resposta - duas de Pauleta, uma de Hugo Viana. Foi, aliás, neste jogo que Pauleta ultrapassou o recorde de Eusébio. O açoriano foi o melhor marcador de sempre pela Seleção durante oito anos e meio até Cristiano Ronaldo arrebatar-lhe esse recorde.

 

Com tudo isto em conta, é pouco provável que a Letónia nos coloque muitos problemas, para além do habitual "autocarro" à frente da baliza. Portugal continua obrigado a ganhar para se manter na luta pela primeira posição na tabela, ocupada pela Suíça. É pouco provável que os suíços escorreguem nesta jornada, pois vão jogar com as Ilhas Faroé, em casa, onde bastante fortes - nós mesmos pudemos comprová-lo. Não há volta a dar, acho que vamos andar colados aos calcanhares suíços até os reencontrarmos no último jogo de Qualificação. Quem nos mandou adormecer à sombra da Henry Delaunay?

 

Tirando esse deslize, estamos prestes a encerrar o nosso melhor ano em termos de Seleção. Sagrámo-nos Campeões Europeus em julho e continuamos a colher os frutos. Cristiano Ronaldo está entre os finalistas tanto da Bola de Ouro como do Melhor Jogador do Ano da FIFA (prémios que, a partir de este ano, deixaram de ser um só). Não que outra coisa fosse de esperar - Ronaldo é convidado recorrente na cerimónia anual da FIFA desde 2009. No entanto, esta nomeação tem um sabor que mais nenhuma outra tem: por ter sido à custa, pelo menos em parte, do primeiro título da Seleção Portuguesa.

 

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Título esse que também possibilitou a Pepe e... a Rui Patrício serem nomeados para a Bola de Ouro. Destaco a nomeação do guarda-redes português, pois eu não estava à espera. Não que ache que não seja merecida - bem pelo contrário. É a confirmação do estatuto de Rui Patrício como guarda-redes de classe mundial - algo que eu há muito que sei que ele é, sobretudo depois da final de Paris.

 

Por sua vez, a nomeação de Fernando Santos para Treinador do Ano da FIFA era algo em que eu pensava já poucas semanas após o Europeu. No entanto, achava pouco provável, demasiado bom para ser verdade. Mas não é. Fernando Santos está entre os nomeados e consta que tem boas hipóteses. O Selecionador diz que esta nomeação é produto do trabalho, não só dele, mas também de inúmeras outras pessoas na Federação Portuguesa de Futebol, começando pelo seu presidente, e também que é um prémio "dos portugueses" , que é mais um reflexo de Portugal se ter sagrado Campeão Europeu.

 

Até a campanha de marketing da Federação, com o slogan "Não somos 11, somos 11 milhões", lançada em vésperas do Euro 2016, está nomeada para um prémio da UEFA. Se o mereceu é questionável, na minha opinião - conforme escrevi na altura, eu gostei, mas faltou-lhe um bocadinho de subtileza em certos momentos, sobretudo no que diz respeito ao Tudo o Que Eu te Dou, Somos Portugal. No entanto, cumpriu o seu objetivo, Portugal ganhou o Euro 2016. Tudo acaba por desaguar no nosso primeiro título.

 

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Gosto, aliás, de pensar que este título acabou por contagiar os restantes escalões das seleções portuguesa e vice-versa - 2016 está a ser um ano excelente para a Federação. Destaco a Seleção Feminina, que se Apurou pela primeira vez para o Europeu. Tentarei acompanhar esse campeonato, no próximo ano - já devia ter alargado os meus horizontes e dado atenção ao futebol feminino há mais tempo.

 

Estas nomeações todas confirmam o bom período de que falei antes. Neste momento, o meu desejo é encerrar 2016 com chave de ouro: ou seja, uma vitória que nos mantenha presos aos calcanhares suíços e à luta pelo primeiro lugar. Tal como nos jogos anteriores, mesmo que os Marmanjos falem em possíveis dificuldades, a vitória está perfeitamente ao nosso alcance, não há desculpas. 

 

O mundo extra-futebol está a mudar e não para melhor. Nos últimos dias, tenho-me agarrado à Seleção para não sucumbir ao desespero e ao cinismo. Quem segue este blogue há uns anos já saberá que vejo a Equipa de Todos Nós como uma fonte de consolo e de esperança. Na verdade, tenho vindo a vê-la como mais do que isso.

 

Numa altura em que o racismo e a xenofobia se estão a tornar mais comuns, a Seleção Portuguesa representa um país, é certo, mas é constituída por jogadores de várias origens: de Portugal Continental, das Regiões Autónomas, das PALOPs, filhos de emigrantes em França e na Alemanha, o filho de um brasileiro, um brasileiro naturalizado português (mas que ama Portugal e a Camisola das Quinas mais do que, se calhar, muitos portugueses nascidos cá), um cigano. E, dentro da Seleção, ninguém tem problemas com isso, a cor da pele não é um fator. (Isto, para mim, é uma noção básica de civismo, algo que devia ser a norma. Mas, infelizmente, muitos não pensam assim.)

 

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Numa altura em que um medíocre, filho de milionários, sem experiência nenhuma como político, é eleito presidente dos Estados Unidos, os jogadores da Seleção Portuguesa chegaram a onde estão sem favores, por mérito próprio, por diversas vezes construíram a sua carreira do zero. O nosso melhor jogador podia nem sequer ter nascido, passou fome e frio em miúdo, saiu de casa sozinho aos onze anos e, desde essa altura até hoje, sempre trabalhou mais do que qualquer um para chegar a onde está. Ainda continua a fazê-lo, mesmo sabendo que muitos o consideram o Melhor do Mundo.

 

O autor do golo que nos deu o primeiro título cresceu como um órfão, num lar de acolhimento, e teve dificuldades em estabelecer uma carreira como futebolista (quando estava no 12º ano, treinava sozinho todas as noites, mesmo que fizesse frio ou chovesse). Até há bem pouco tempo, era desprezado pela massa adepta. Ele mesmo calou-os a todos com um golo para a eternidade. Outro jogador de destaque na Seleção afirmou mesmo, numa entrevista, que o futebol o salvou do crime, da droga, mesmo da more. Tudo o que eles têm hoje devem-no a eles mesmos.

 

Adicionalmente, já ficou mais do que provado que, como grupo, são exemplares, sobretudo como se viu no Europeu. Momentos como o Ronaldo chamando o João Moutinho para os penálties frente à Polónia; Bruno Alves indo ter com o Ronaldo, enquanto este era levado de maca para os balneários; este último andando entre os colegas entre os colegas antes do prolongamento e no intervalo deste para lhes dar força; dizendo ao Éder que ele marcaria o golo da vitória; mais tarde, já depois do golo, enviando Raphael Guerreiro de volta para o campo, depois de ele se ter magoado; oferecendo a Bota de Prata a Nani, já no fim do jogo. Juntem a isto os momentos de cumplicidade e brincadeira que vemos em quase todos os estágios, a recente troca de partidas entre Ronaldo e Quaresma

 

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Eu sei que parece estranho estar a falar disto agora, mas eu nunca precisei mais de fazê-lo. Numa altura em que, no outro lado do oceano, o medo, o ódio, o elitismo, a ignorância venceram, é mais urgente do que nunca agarrarmo-nos aos valores que os jogadores da Seleção seguem: respeito, cooperação, solidariedade, trabalho, fé, humildade, perseverança. Eu sei que isto é um bocadinho ingénuo mas, numa altura em que o futuro parece tão sombrio, preciso de algo, por pequeno e fútil que seja, que me faça acreditar nas melhores facetas da Humanidade. 

 

Felizmente, o futebol já começou a reagir ao que aconteceu e não desiludiu.

 

O tempo dirá quais serão as consequências dos eventos da semana que termina agora. Não me vou alongar mais sobre isso, que este é um blogue sobre futebol. Procuro sempre não perder a noção de que o futebol é apenas um desporto, um entretenimento. No entanto, acredito que se mais instituições funcionassem como a Seleção, se mais pessoas seguissem o exemplo dos nossos jogadores, o Mundo seria um lugar muito melhor.

Portugal 1 França 0 - Quebrando todas as maldições

 

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Há dez anos, no dia 9 de julho de 2006 - uma manhã de domingo de verão, um calor insuportável - eu estava no Estádio Nacional, no Jamor, juntamente com a Seleção em peso e milhares de adeptos equipados a rigor. Sentia-me feliz por estar ali, mas também me sentia prestes a desmaiar, com aquele calor desértico (costumo dizer que, nesse dia, dava para fritar ovos nas bancadas). Acabei mesmo por ter uma quebra de tensão. Não sem antes ouvir o Selecionador da altura, Luiz Felipe Scolari, dizendo:

 

- Vocês são os campeões do carinho e do sentimento. Não deixem de acreditar! Alegrem-se com este quarto lugar no Campeonato do Mundo e acreditem que, um dia, pode ser que breve, estaremos aqui para comemorar uma grande vitória.

 

Scolari deixaria, dois anos mais tarde, o lugar de Selecionador (mas continua, até hoje, a sofrer à distância), mas eu fiz o que ele disse. Não tenho feito outra coisa, no que toca à Seleção. Cerca de um ano depois daquela manhã de domingo, tive a ideia de criar um blogue, onde pudesse escrever sobre a Equipa de Todos Nós. Menos de um ano mais tarde, criei-o. E hoje, doze anos após o Euro 2004, dez anos após o Mundial 2006, oito anos após inaugurar O Meu Clube é a Seleção, é com um orgulho indescritível que escrevo: Portugal conquistou o seu primeiro título como Seleção A. A Seleção Portuguesa de Futebol é campeã da Europa.

 

Alerta: neste texto, não vou ser muito simpática para o povo francês, o que não significa, de todo, que não esteja solidária para com eles, à luz do recente atentado terrorista em Nice. Antes de ser adepta de futebol e mesmo portuguesa, sou ser humano, cidadã do Mundo e repudio todo o tipo de violência. Todas as críticas que tecer aqui limitam-se ao espectro futebolístico. 

 

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Sonhei com uma noite como a de domingo, dia 10 de julho, durante muitos anos. Cheguei a passar para o papel essas fantasias, embora não as tenha partilhado com ninguém. A realidade, no entanto, foi melhor que a imaginação. Duvido que alguém tenha imaginado que Portugal conquistaria o seu primeiro título desta forma: na casa do seu adversário, adversário esse que não vencia há mais de quarenta anos; com o seu Capitão e melhor jogador saído do jogo, de maca; com um golo do ponta-de-lança em quem quase ninguém acreditava.

 

Têm sido uns dias loucos, sobretudo o dia da final e o que se seguiu. Foi em parte por isso que demorei tanto tempo a escrever este texto. Passei o domingo inteiro na página de Facebook do blogue partilhando pequenos textos de motivação, música, vídeos, tudo o que me ocorreu, as minhas armas todas. Aproveito, aliás, para agradecer ao Sapo Blogs por ter destacado o meu texto anterior durante o domingo todo, até à hora da final. À medida que a hora do jogo se aproximava, os nervos iam apertando, em jeito de antecipação do sofrimento que seria. Na última meia hora antes, já respondia torto a toda a gente.

 

Mesmo a condizer com o meu humor, o jogo começou mal. Os portugueses entraram nervosos, cometendo erros, fazendo lembrar um pouco os nosso primeiros jogos neste Europeu. O pior nem sequer foi isso. Foi quando, aos sete minutos, Dimitri Payet faz uma entrada dura sobre Cristiano Ronaldo e o seu joelho cedeu. O nosso Capitão ainda se obrigou a continuar em campo durante mais algum tempo, mas acabou por se dar por vencido e pedir a substituição, lavado em lágrimas. Gostei de ver Nani abraçando-lhe o rosto enquanto recebia a braçadeira de Capitão e, depois, começado de imediato a puxar pelo resto da equipa. Tenho alguma curiosidade em saber as palavras exatas de Nani ao choroso Cristiano (estou, aliás, surpreendida por ninguém o ter perguntado até agora), mas não terá sido algo muito diferente de:

 

- Não chores. Nós vamos ganhar isto por ti.

 

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Cristiano saiu de maca, ao som de aplausos do estádio inteiro, mas tais aplausos não me comoveram. Pelo contrário, nunca tinha tido tanta raiva aos franceses, em termos futebolísticos. Eles roubaram-nos os nossos sonhos em 1984, 2000 e 2006 (se foi com justiça ou não, não me era relevante naquele momento); quando as coisas não lhes corriam bem nos últimos anos, os mais altos dirigentes do futebol manipulavam as regras a seu favor; a Imprensa francesa tratou-nos abaixo de cão; os franceses tomaram a vitória na final como garantida, até tiveram a arrogância de colocar o autocarro de campeões que tinham preparado a circular pelas ruas de Paris antes do jogo (olhando agora, os franceses estavam mesmo a pedi-las...). E agora tinham-nos tirado o Ronaldo, num lance em que nem sequer foi marcada falta. Esta nem sequer seria a última jogada violenta por parte dos franceses: Ricardo Quaresma apanharia umas duas. E nós é que jogávamos de forma nojenta...

 

Basta!, pensei eu, naquele momento. Os franceses não mereciam ganhar o Europeu jogando assim. Eles tiraram-nos o Ronaldo? Nós tirar-lhes-íamos o campeonato! Que ninguém se atrevesse a atirar a toalha ao chão!

 

Felizmente, o resto dos Marmanjos também pensou assim. Mesmo sem o seu elemento mais importante, a Equipa de Todos Nós não vacilou. A França dominava, tinha o árbitro do seu lado (a sério, os franceses fizeram jogo sujo mas, na primeira parte, só os portugueses é que viram amarelos), mas era incapaz de traduzir essa vantagem em golos graças a Pepe, José Fonte e, sobretudo, Rui Patrício. Mais do que qualquer um dos outros Marmanjos, via-se que o guarda-rede estava a fazer o jogo da vida dele, pela maneira como se atirava, sem hesitações, para a bola, como se esta fosse o filho que tem por nascer, arriscando-se a levar com outros jogadores em cima. Dizer que ele "estava inspirado", como ia comentando a minha mãe, é quase insultuoso. Aquilo não é "sorte", ou "inspiração", são anos de experiência, perícia e muita entrega. Teve uma única falha que poderia ter deitado tudo a perder, arruinar-lhe um jogo até ao momento perfeito, em cima dos noventa minutos (a meia-final de 1984, em que o três vezes maldito Michel Platini marcou à beira do fim, passou-me pela cabeça) mas, por uma vez, o poste esteve do nosso lado.

 

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Com o tempo, incapazes de quebrar Portugal, os franceses foram perdendo o ânimo. Não lhes terá ajudado a cantoria constante dos adeptos portugueses. A sério, eles não deviam passar de um quinto da ocupação das bancadas e foram os que mais se ouviram. Só uma vez ou outra é que os franceses se puseram a fazer o haka islandês, que nem sequer é originalmente deles (e, na minha opinião, não tinham o direito de usá-lo). Por usa vez, não me lembro de alguma vez ter ouvido cânticos assim da parte dos portugueses num jogo da Seleção. Parecia a curva sul dos jogos do Sporting, e isso é um elogio. Não será por acaso, que ouvi dizer que elementos dos Super Dragões e da Juve Leo estiveram em França, liderando os adeptos portugueses durante o Europeu. Para além de ser sempre bonito por princípio ver adeptos deixando as rivalidades clubísticas de lado e unindo-se pela Seleção (algo que devia acontecer sempre), tornou o décimo-segundo jogador mais ativo e determinante nesta vitória. Foi uma ótima ideia, que devia ser aplicada em todos os jogos da Seleção.

 

A equipa soltou-se mais no ataque depois de João Moutinho e Éder substituírem Adrien e Renato Sanches, respetivamente (e o pobre Adrien teve de aturar Ronaldo no banco... Não estava fácil para ninguém!). Mais ou menos nessa altura comecei a acreditar que, se marcássemos um golo, ganharíamos o jogo. Mas, naturalmente, não me atrevia a verbalizar esse pressentimento.

 

Não sei como foi com vocês, no sítio onde vivem, mas na minha rua, depois do noventa, desatou tudo a gritar por Portugal, à janela. Eu aproveitei a ocasião, aliás, para estrear a transmissão em direto da página de Facebook, filmando a cena (obviamente, a qualidade deixou muito a desejar...). Como podem ver, houve ali uma mistura de gritos de apoio e celebrações do empate. Ao mesmo tempo, no Stade de France, Ronaldo andava à volta dos companheiros de equipa, dando-lhes força para o prolongamento.

  

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Muitos contavam com um desempate por grandes penalidades mas eu, sinceramente, preferia resolver a situação antes dos cento e vinte ou era desta que me ia dar uma coisinha má. Estivemos perto com aquele livre do Raphael Guerreiro que bateu na trave. Para ser sincera, fiquei um bocadinho aliviada por a bola ter batido na trave nesse lance, visto que aquele livre fora mal marcado a nosso favor (a mão na bola não era de Koscielny, era de Éder. Uma pessoa pergunta-se como que é o árbitro se confundiu, quando os dois jogadores tinham cores de pele bem distintas... Confesso que me fartei de rir com esse momento). Não que fosse propriamente injusto, tendo em conta a maneira como Ronaldo saiu do jogo, e que não fosse de uma ironia deliciosa depois da mãozinha do Abel Xavier no Euro 2000. No entanto, se já como foi os franceses se têm queixado de injustiça (ao ponto de pedir repetição da final, o que acho pura e simplesmente patético), o que não diria se o golo viesse de um livre irregular.

 

No fim, as coisas desenrolaram-se de maneira perfeita. Ou quase perfeita. Estamos muito avançados tecnologicamente e tal, mas ainda ninguém arranjou maneira de resolver os lapsos na transmissão entre rádio e televisão, quer por fibra ótica quer por box, para evitar spoilers em jogos como este. A nossa rua explodiu de alegria antes de o golo passar na nossa televisão. Não que isso tenha estragado muito a coisa. Quando vi a bola ir às redes, não gritei "GOLO!", gritei antes como uma menina de doze anos num concerto do Justin Bieber. No Stade de France também não faltaram emoções, com toda a gente abraçada ao Éder, o Renato Sanches por cima do novelo humano, o Cristiano Ronaldo a chorar outra vez, desta feita de alegria.

 

Adaptando as célebres declarações de Ricardo Araújo Pereira ao meu caso, eu leito e escrevo livros, oiço música, vou a concertos, vejo séries e filmes, já viajei imenso para uma pessoa da minha idade, mas muito poucas coisas que emocionaram mais do que este golo de Éder, de fora da área, que as lágrimas de Cristiano nas celebrações - vou dizer isto durante toda a minha vida.

 

 

Mas, na altura, não me atrevi a dar nada por garantido antes do apito final. A Equipa das Quinas também pensou assim. Foi, aliás, depois deste golo que Cristiano Ronaldo se fez treinador-adjunto, para delícia do Mundo inteiro. Noutras circunstâncias e se isto ocorresse com frequência, treinador nenhum acharia assim tanta graça - sobretudo tendo em conta em que o Cristiano é um bocadinho bruto com Fernando Santos, que já está longe de ter trinta anos - mas eram os últimos minutos de uma final, estava muita coisa em jogo. Qualquer um deixaria passar. E, sejamos sinceros, teve imensa piada. Felizmente, Portugal conseguiu aguentar a vantagem até aos cento e vinte minutos.

 

Sabem durante quantos anos sonhei com o momento em que a Seleção recebeu a Taça Henri Delaunay? Quantas entregas de taças em futebol vi ao longo dos anos, imaginando a nossa Seleção no lugar dos vencedores? Quantas vezes vi, com os olhos da mente, o Cristiano Ronaldo erguendo a Taça bem no ar, os colegas à volta dele explodindo de alegria, os coffetis verdes e vermelhos, o fogo de artifício? Não cheguei a chorar, mas estive perto disso quando, finalmente, vi com os meus próprios olhos aquilo que, durante anos, só via nos meus sonhos.

 

 

No dia seguinte, tal como tinha prometido, fui receber a Seleção ao aeroporto. Só mais tarde é que descobri que a Seleção ia festejar para a Alameda. Não sei, no entanto, se teria disponibilidade para passar a tarde toda à espera da Equipa de Todos Nós. Além de que aquelas horas todas no calor e no meio da multidão ainda me davam outra coisinha má. Eu queria fazer parte da festa, de uma maneira ou de outra, que eu passei demasiado tempo à espera disto e fiquei satisfeita. Ainda estive um par de horas à espera no aeroporto, eu e uma multidão generosa que se prolongava até ao Palácio de Belém, provavelmente. Não nos aborrecemos pois houve cantoria do princípio ao fim: quer o hino nacional, quer cânticos de louvor ao herói de Paris, invocações a um episódio icónico deste Europeu e aquele que está em vias de se tornar o tema oficial da nossa participação no Euro 2016. Finalmente, o autocarro saiu e fez-se a festa, que se prolongou pela tarde fora.

 

 

Uma parte de mim ainda tem dificuldades em acreditar, mesmo passada uma semana, que isto aconteceu mesmo, que Portugal ganhou mesmo um título. Que estes 23 conseguiram aquilo que as Seleções Portuguesas de 1966, 1984, 2000, 2004, 2006 ou 2012 não conseguiram. Estão a ver a frase-feita que os Marmanjos iam repetindo, no rescaldo do jogo com a Islândia, à laia de desculpa? Que não era como se começava, era como se acabava? Bem, a frase-feita confirmou-se. O início de Portugal neste Europeu não foi famoso. Houve muita ansiedade, muitos erros, umas quantas más escolhas, alguns momentos medíocres e, há que admiti-lo, mérito dos nossos adversários, sobretudo da Islândia. Portugal soube melhorar, corrigir os erros, transformar as fraquezas em forças e isso foi fundamental para o nosso sucesso. Não foi um Europeu brilhante nem particularmente empolgante no que toca a Portugal e não deixei de assinalá-lo. Há quem diga que tivemos imensa sorte, por a Islândia ter marcado aquele golo à Áustria no tempo de compensação, que nos atirou para o caminho mais fácil até Paris. Não estão errados mas, como assinalei antes, é tudo uma questão de perspectiva, pois equipas como a Croácia, Polónia e País de Gales chegaram a onde chegaram por mérito próprio, não apenas por sorte.

 

Numa coisa concordo: dificilmente se repetirão circunstâncias tão favoráveis a Portugal. Mas isso acontece em todos os campeonatos, de seleções e não só: o mérito de uns coincide sempre com o demérito de outros. Acham, por exemplo, que o Leicester teria conseguido ganhar a Premier League se o Manchester United, o Chelsea e os outros clubes ditos grandes do futebol inglês estivessem a fazer tudo bem? O futebol é mesmo assim. 

 

 

Neste final feliz, o nosso primeiro, no meu coração ficam os vinte e três Marmanjos, o nosso Selecionador (cuja fé estava corretíssima) e o restante staff. Se tivesse de escolher entre pegar na Taça Henri Delaunay e um abraço a pelo menos um dos jogadores, escolhia a segunda opção. A Taça em si nada me diz sem os meus Marmanjos, que tanto lutaram para a levar "para o nosso Portugal". Um dia hei de fazê-lo. Hei de abraçá-los e agradecer-lhes esta vitória. Depois de anos e anos acompanhando-os (uns mais do que outros, evidentemente), ouvindo outros dizendo que eles são apenas os protegidos de Jorge Mendes, os mais-dez do Ronaldo, não tinham tanta qualidade como os seus antecessores ou elementos de outras seleções, foi um orgulho enorme vê-los dando cartas neste Europeu, fazendo frente a jogadores com mais prestígio, impressionando um pouco por todo o mundo, sendo eleitos para a equipa ideal do Europeu. Adrien, William, João Mário, Raphael Guerreiro, Cédric, Quaresma, Nani... e, claro, Éder.

 

Quero, aliás, comentar a atenção toda que tem sido dedicada ao "herói improvável" da final do Europeu. Atenção essa que tem o seu quê de hipocrisia. Escrutina-se a vida toda de Éder, comenta-se que ele cresceu quase como um órfão, mas quem queria saber disso quando, mesmo antes do Europeu, lhe chamavam "cone" ou diziam que era "menos um"? Há sites onde as pessoas se inscrevem para pedir desculpa a Éder, mas eu não assino por baixo. Todas as críticas que lhe teci relacionavam-se apenas com o seu desempenho em campo (e, vejamos os factos, ele só começou a marcar pela Seleção há um ano), penso que nunca resvalaram para o insulto. Como poderão ler aqui, não me passou despercebido o seu bom desempenho no Lille e, quando ele foi Convocado, dei-lhe o benefício da dúvida. Por sinal, o Éder até marcou em dois dos três particulares antes do Europeu. Desse modo, ao contrário do que aconteceu com muitos, o golo na final não me pareceu surgido do nada. Acho possível, até, que o Éder marcasse mais neste Europeu se tivesse tido mais tempo em campo.

 

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Este nosso triunfo serviu, aliás, para desmontar uma série de mitos sobre a Seleção, para, mais uma vez, matar demónios, quebrar maldições, as maiores que nos assolavam. Depois deste Europeu, mais ninguém vai dizer que o Éder não é opção para o ataque. Mais ninguém vai dizer que a Seleção não tem estaleca para equipas grandes e falha sempre nos momentos cruciais. Mais ninguém vai dizer que a Seleção é só Ronaldo-mais-dez - nós ganhámos literalmente uma final contra a França com Ronaldo no banco, lesionado. Mais ninguém vai, aliás, dizer que Portugal não tem nenhum título em seleções A. O nosso trajeto até à final de Paris pode não ter sido o mais empolgante, mas tudo o que ocorreu no Stade de France, tudo o que enumerei acima, é a matéria da qual são feitas as lendas.

 

Dito isto tudo, esta vitória não desvaloriza o trabalho de outras grandes figuras da Seleção Portuguesa, só porque estas não conqusitaram nenhum título com a Camisola das Quinas. Pelo contrário, este título também é um pouco deles, pois foram eles que criaram as tradições, que deram o exemplo e a inspiração aos vinte e três que foram a França. Enquanto viveu, Eusébio esteve sempre ao lado da Equipa de Todos Nós, a sofrer - e os campeões da Europa não se esqueceram dele nesta vitória. Cristiano Ronaldo via Luís Figo, Rui Costa e restante Geração de Ouro enquanto crescia, ainda apanhou alguns deles na Seleção e estou certa que os veteranos lhe serviram de mentores - tal como hoje Ronaldo apadrinha os mais novos das Convocatórias. Se não fosse Eusébio, Chalana, Luís Figo, entre tantos outros, não estaríamos aqui, a celebrar esta vitória

 

E não é só a eles que devemos estar gratos. Também a todos os outros que vestiram a Camisola das Quinas, com maior ou menor sucesso. Tudo o que aconteceu na Seleção até agora, todas as derrotas dolorosas, todas as pequenas e grandes crises, todas as trocas de treinadores, todos os momentos em que estivemos à beira de perder a fé valeram a pena pois prepararam-nos para isto, tornaram-nos mais fortes, permitiram-nos conquistar aquilo que nos escapou drante demasiado tempo.

 

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Esta parte, agora, é nova. Não se sabe ainda ao certo qual será o impacto prático da conquista do primeiro título. A curto prazo já deu para ver: não se falou de outra coisa durante dias, havia sempre um novo vídeo de Ronaldo no banco de Portugal, uma nova reação ao golo de Éder, uma nova entrevista, uma nova crónica sobre o jogo. Ficamos, agora, à espera do efeito a médio e longo prazo nas aventuras e desventuras da Seleção.

 

Uma das consequências já conhecidas deste triunfo é a presença na Taça das Confederações. Esta é, na minha opinião, uma das melhores: um campeonato de seleções num ano ímpar! É certo que não tem o mesmo prestígio que um Europeu ou um Mundial, mas sempre serão jogos interessantes, sempre é uma desculpa para a Equipa de Todos Nós se concentrar durante algumas semanas e para aqui a "je" escrever neste blogue!

 

Não quero pensar muito nisso, ainda, nem no Mundial 2018 e respetiva Qualificação. Para já, quero saborear este nosso primeiro título, pelo qual esperámos tanto tempo.

 

 

Quero terminar com um sentido agradecimento a todos os que acompanharam este feito inesquecível comigo, quer através deste blogue, quer através da página do Facebook. Tanto àqueles que só me descobriram há pouco mais de uma semana, como àqueles que já me seguem há anos. Esta vitória pertence a todos os portugueses mas nós, que já vimos a Seleção no seu pior e recusámo-nos a virar costas, merecemos esta vitória mais do que o adepto comum. Reservámo-nos a esse direito. Sabe tão bem conquistar finalmente um título...