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O Meu Clube É a Seleção!

Os pensamentos de uma simples adepta da Seleção Nacional, que não percebe assim tanto de futebol mas que é completamente maluca pela Equipa de Todos Nós.

Refúgio

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No dia 17 de maio, Fernando Santos, o Selecionador Nacional Divulgou os Convocados que representarão Portugal no Mundial 2018.

 

Tal, no entanto, acabou por passar quase despercebido perante outros acontecimentos que abalaram o mundo desportivo. Não falei disso no texto Pré-Convocados pois tinha-o concluído e agendado para publicação uns dias antes. Eu, de início, não queria escrever sobre o assunto porque, em primeiro lugar, foge um pouco ao âmbito deste blogue. Em segundo, achava que não tinha nada a dizer que milhentas outras vozes não tivessem dito já.

 

No entanto, quando no domingo passado, vi o Rui Patrício em lágrimas no Jamor, no fim daquela que deve ter sido a pior semana da sua vida – o Rui Patrício, dono da baliza das Quinas há seis ou sete anos, um dos principais responsáveis pelo primeiro e até agora único título da Seleção, que eu já tive o privilégio de encontrar na rua – descobri que não conseguia ficar calada.

 

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Eu acho que já expliquei algures aqui no blogue que deixei de apoiar clubes de futebol – no meu caso, o Sporting – por causa do fanatismo que existe no futebol de clubes. Mas julgo que nunca dei pormenores.

 

Foi na época de 2003/2004, eu tinha catorze anos. Andavam a ocorrer vários episódios degradantes, como o alegado rasgão de José Mourinho à camisola do Rui Jorge, cenas de violência no jogo entre o Vitória de Guimarães e o Boavista – no estádio onde, uma semana antes, morrera Miklos Feher. Estava a ficar saturada.

 

A última gota foi o dérbi em Alvalade, no qual adeptos do Sporting invadiram o campo – com intenções parecidas às daqueles que invadiram Alcochete no outro dia, suponho.

 

Nesse dia decidi que não queria estar associada a este tipo de comportamento. Decidi que o meu clube seria apenas a Seleção. Cerca de um mês ou dois mais tarde deu-se o Euro 2004 e nunca mais olhei para trás.

 

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Bem, mais ou menos. Nunca quis reverter a minha decisão, mas existiram alturas em que me perguntei se tinha sido demasiado radical.  Os clubes não são corruptos por si só, o mal vem das pessoas. Existem pessoas boas e más em todos os clubes, como em tudo na vida.

 

A minha irmã, por exemplo, é uma boa pessoa no futebol de clubes. Adepta do Sporting, devota ao seu clube sem fanatismos exagerados, ainda mais resiliente do que eu – porque o clube dela dá menos retorno do que a Seleção que tem dado.

 

Assim, ao longo dos anos, permiti a mim mesma ir apreciando o futebol de clubes aqui e ali – apoiando todos e nenhum em particular. Acompanho a minha irmã a jogos do Sporting, mas se alguém me convidar a um jogo do Benfica, do F.C.Porto ou de outro clube qualquer não recusarei. Admito que, na maior parte dos casos, prefiro que o Sporting ganhe para ver a minha irmã feliz, mas se ganhar outro qualquer não me ralo. E se é um clube português numa competição europeia e/ou um clube onde alinhem jogadores portugueses, é óbvio que torço por eles.

 

Esta época, no entanto, foi mais degradante do que o costume, sendo-me mais difícil acompanhá-la. Bitaites de diretores de comunicação, polémicas em torno de arbitragens (quem é que foi a alminha iluminada que achou boa ideia testar o video-árbitro em Portugal?), envelopes, e-mails, toupeiras, claques cantando pela morte de jogadores… A minha mente foi simpática ao ponto de me fazer esquecer a maior parte dos pormenores.

 

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Fui a alguns jogos do Sporting com a minha irmã esta época mas, a partir de certa altura, comecei a recusar os convites dela (tirando para o jogo com o Atlético de Madrid). Já não aguentava a falta de educação de inúmeros adeptos, que insultavam o árbitro, os jogadores e adeptos adversários, até mesmo os jogadores que deviam apoiar. Isto na presença de crianças!

 

Não digo que estivesse a ser diferente de outras épocas. É possível que eu estivesse menos tolerante para estas coisas, com tudo o que se estava a passar fora das quatro linhas.

 

Um dos responsáveis (não o único, bem entendido) por este ambiente tóxico no futebol português é o presidente do Sporting – um sujeito com tiques de ditador que, todos concordam, contribui para o que aconteceu em Alcochete.

 

Eu já vi muita coisa no futebol português, mas nunca nada como isto. Não digo que tenha sido o mais baixo de sempre porque, mal por mal, não morreu ninguém, ao contrário de outras ocasiões. Mas fiquei deveras perturbada. Todos vimos as imagens do balneário, os ferimentos de Bas Dost (a quem a minha irmã se afeiçoou, como se afeiçoa a quase todos os que vestem as cores do Sporting). Mal consigo ler relatos do que aconteceu, como um que referia que o treinador, Jorge Jesus, foi agredido com um cinto e que, mais tarde, Bas Dost chorara ao ombro do treinador, perguntando o que fizera para merecer aquilo.

 

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Permitam-me a pergunta: como é que há pessoas capazes de fazer isto? Por futebol? Isto são coisas que se ensinam a criancinhas mas, pelos vistos, é preciso dizê-lo: isto é só futebol! Ninguém morre se se perde um jogo ou se se termina um campeonato em terceiro lugar em vez de segundo (eu, aliás, já vi o Sporting a fazer épocas bem piores do que esta). Não vou dizer que não interessa para nada – todos nós sabemos que existe muito dinheiro e muitas carreiras em jogo. Mas não justifica, nem de longe nem de perto, atitudes violentas como estas. E, como se não fossem suficientemente más por si mesmas, foram contra jogadores do próprio clube.

 

Não sou assim tão ingénua, sei perfeitamente que a extrema-direta neonazi está ligada às claques, não apenas a do Sporting. Ainda assim, falando estritamente da perspetiva de um adepto fanático… que esperavam eles alcançar? Tudo o que conseguiram fazer foi com que jogadores e equipa técnica ganhasse motivo para debandar a custo zero (com todas as consequências financeiras para o clube), não treinasse ao longo do resto da semana e perdesse a Taça de Portugal – porque quem está em condições para um jogo daquela envergadura depois de uma situação como a de Alcochete?

 

E ainda houveram muitos que se puseram a criticar o desempenho dos jogadores na final da Taça – a sério, pá, nunca ninguém ouviu falar em empatia?!?

 

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Com metade da massa adepta a maltratá-los, alguns deles fisicamente, e um Presidente que não os defende e ainda os culpabiliza pelo que aconteceu, se eu estivesse no lugar dos jogadores punha-me a andar. Eles merecem muito melhor do que isto. A minha irmã merece muito melhor do que isto (mesmo antes desta situação, o clube anda há muito em dívida para com ela), bem como todos os adeptos civilizados, do Sporting e não só. O futebol português, Campeão Europeu ainda para mais, merece melhor do que isto.

 

Por outro lado, se de facto a equipa debandar, ficarei triste pela minha irmã e pelos jogadores da Seleção que eventualmente saírem. Rui Patrício, por exemplo, tem capacidade para jogar nos grandes da Europa, mas no Sporting é rei e senhor da baliza – quem nos garante que terá espaço no Nápoles ou noutro clube que o contrate?

 

O que eu sei é que precisamos todos de parar e refletir sobre o rumo que as coisas estão a tomar no futebol português. Como já outros comentaram aqui no Sapo Blogs, não queremos que a violência tomem conta do futebol. Mas confesso que não estou com grandes esperanças.

 

Com tudo isto, que ninguém se venha queixar do eventual circo publicitário e mediático em torno da Seleção, durante o Mundial!

 

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Fernando Santos disse o que tinha a dizer sobre o assunto aquando da Divulgação dos Convocados e diz que não tornará a falar sobre isso durante o Mundial e a sua preparação. De igual modo, espero não ter de voltar a escrever sobre isto de novo. Calha bem os jogadores irem agora de férias ou para as seleções – mudam de ares, para ambientes mais saudáveis. No nosso caso pelo menos. Como em muitas outras alturas, em diferentes circunstâncias, a Seleção serve de oásis, de refúgio, à parte das facetas mais tóxicas do futebol.

 

Com isto tudo, vamos em bem mais de mil palavras e ainda nem sequer falámos dos Convocados. Desta feita, não houve grande contestação em torno dos Escolhidos para o Mundial. Não sei se é porque as Escolhas foram, no geral, acertadas ou consensuais ou se estava tudo distraído com o que aconteceu no Sporting.

 

A segunda hipótese será, quase de certeza, verdade, mas acho que a primeira também é. E, da minha experiência, quando não existe grande contestação aos Convocados, as coisas correm bem.

 

A maior novidade na lista é o central Rúben dias. Já tínhamos falado sobre ele há pouco tempo, mas a lesão que tinha na altura não o deixou vir à Turma das Quinas para aquela jornada de particulares. Cheguei a temer que Fernando Santos o deixasse de fora do Mundial – ele dera a entender que dificilmente Convocaria jogadores que nunca tivessem vindo antes à Equipa de Todos Nós. Felizmente, abriu uma exceção para o Rúben.

 

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Eu teria levado o Rolando ao Mundial, mas compreendo que Fernando Santos tenha preferido José Fonte. Como ele foi para a China, tinha algumas dúvidas, mas consta que ele tem jogado com regularidade por lá.

 

Eu vou confiar.

 

Fábio Coentrão ficou de fora do Mundial por vontade própria – ele mesmo o afirmou um dias antes da Divulgação dos Convocados, nas redes sociais. E fico triste, pois ele finalmente teve uma época feliz, mas é melhor assim. A sua forma física continua a deixar muito a desejar. Ia ser uma chatice se ele se lesionasse a meio do campeonato, sem poder ser substituído, tal como aconteceu no último Mundial. Com ele e… dois terços da equipa.

 

Em vez dele, foi Convocado Raphael Guerreiro. Eu fico satisfeita, porque gosto bastante dele como jogador… mas também tenho algumas dúvidas em relação ao seu momento de forma, já que passou a época debatendo-se com lesões. Pode ser que esteja a cem por cento agora. Para além do Raphael, também veio Mário Rui que, segundo consta, fez uma boa época ao serviço do Nápoles.

 

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Confesso que estou aliviada por André Gomes ter ficado de fora. Receei, a certa altura, que Fernando Santos estivesse demasiado enviesado em relação a ele, quando existem melhores opções neste momento. Felizmente isso não aconteceu. Gostei, aliás, que Fernando Santos tivesse admitido que lhe custava não Convocar Campeões Europeus ainda no ativo.

 

O que nos leva a um par de ausências significativas nesta lista: Éder e Nani. A situação do primeiro é semelhante à do ano passado, para a Taça das Confederações (e, aviso à navegação, as gracinhas do género como-é-que-vamos-ser-campeões-sem-o-Éder-para-marcar-na-final deixaram de ter piada há muito tempo).

 

A situação do segundo, por sua vez, entristece-me, ainda mais do que a do Éder. Como já devem saber, o Nani é um dos meus preferidos há quase doze anos. Tem estado presente em todas as Convocatórias desde a inauguração deste blogue – embora não tenha chegado a ir ao Mundial 2010, por lesão.

 

Esta época, no entanto, não lhe correu bem e existem inúmeras boas opções para a posição dele. Custa um bocadinho não vê-lo no grupo, durante os jogos, os treinos, as publicações nas redes sociais.

 

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É a lei da vida, suponho eu. Nada nem ninguém dura para sempre. Ao menos pude vê-lo tornar-se Campeão Europeu.

 

Além disso, temos uma série de nomes promissores estreando-se no Mundial. Já falámos de Rúben Dias e Mário Rui. Temos também Ricardo Pereira, André Silva, Bruno Fernandes, Gelson Martins e, claro, Gonçalo Guedes e Bernardo Silva (só faltou mesmo Rúben Neves).

 

Sim. É um bom grupo.

 

Já vamos em seis dias de Operação Mundial e, amanhã, temos um particular na segunda-feira, frente à Tunísia. Esta seleção também está apurada para o Mundial – está no grupo G, com a Bélgica, a Inglaterra e o Panamá – e em 41º no ranking da FIFA (que vale o que vale).

 

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Mais uma vez, o nosso historial frente a ela é reduzido: um particular em outubro de 2002. Não dá para tirar muitas ilações pois foi só um jogo e decorreu numa altura estranha para a Equipa das Quinas – nos meses entre a saída de António Oliveira, despedido após o Mundial 2002, e a chegada de Luiz Felipe Scolari, em 2003.

 

A Tunísia foi escolhida para fazer de Marrocos neste ensaio do Mundial. Curiosamente, depois do jogo de amanhã, os tunisinos vão jogar contra a Espanha no dia 9. Tivemos a mesma ideia que nuestros hermanos para nos preparamos para Marrocos.

 

Por outro lado, será que os tunisinos vão jogar connosco por eventuais semelhanças que tenhamos com os adversários deles? Vamos fazer de quem no ensaio de amanhã? De Inglaterra? De Bélgica? (De Panamá não deve ser…) Ou não fizeram questão de escolher com base no grupo deles, limitando-se a aceitar a proposta de Portugal?

 

Agora fiquei curiosa…

 

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Enfim, estamos apenas no início desta história. Só para concluir a questão anterior, espero que recordemos estas semanas, menos pela crise sem precedentes no Sporting, e mais por um bom desempenho no Mundial da Rússia. Acredito que Fernando Santos e o resto da Equipa de Todos Nós pensam da mesma forma e estão a trabalhar para isso. Pode ser que vejamos alguns frutos desse trabalho no jogo de amanhã.

 

Obrigada pela vossa visita, como sempre. Acompanhem o resto da Operação Mundial aqui no blogue ou na página do Facebook.

Vamos lá a ter calma...

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Cá vamos nós pela sexta vez (sétima, se quiserem contar com a Taça das Confederações). Fernando Santos Divulga hoje à noite, pelas oito e um quarto, a lista de Convocados para representar Portugal no Mundial 2018. Como já é hábito deste o primeiro dia deste blogue, eis-me aqui com alguns devaneios antes de, pelo menos na minha cabeça, entrarmos em modo Mundial.

 

Antes de falarmos especificamente sobre a nossa Seleção, algumas palavras sobre o campeonato em geral. Não sei se alguém se lembra disso, mas Portugal chegou a candidatar-se para albergar este Mundial, em conjunto com a Espanha. Na altura em que perdermos para a Rússia, reagi com imensa ingenuidade. No entanto, agora toda a gente sabe que houve dinheiro debaixo da mesa aquando da escolha da Rússia.

 

E do Qatar (ai, a história do Qatar…). E da Alemanha, em 2006. E da África do Sul, em 2010. E de Portugal, no Euro 2004.

 

Não seria melhor transformarmos as candidaturas ao Mundial num leilão? Sempre era mais transparente.

 

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Podem ter existido inúmeras pessoas aliviadas por Portugal e Espanha não terem vencido o concurso. Mesmo assim, agora que já estamos em 2018, sinceramente, se havia boa altura para organizarmos um Mundial (ou, vá lá, parte dele), era este ano. Para além de sermos Campeões Europeus, Portugal está na moda. Temos a Madonna a viver cá, ainda na semana passada recebemos o Festival da Canção, recebemos o Web Summit no ano passado e existem vários portugueses destacando-se em diversas áreas, não apenas no futebol. Podíamos perfeitamente receber uma mão-cheia de jogos do Campeonato do Mundo.

 

Sempre era melhor do que fazê-lo na Rússia, um país que tem sido o epicentro de inúmeros conflitos diplomáticos nos últimos meses e onde a homofobia é bem tolerada. Just sayin’...

 

A mesma lógica aplica-se às candidaturas a cidades-anfitriãs do Euro 2020. Chegou a colocar-se a hipótese de candidatar Lisboa e Porto, mas acabaram por nem sequer fazê-lo. Compreendo as razões: em 2014 a situação do país era um bocadinho pior do que agora, ninguém podia adivinhar que Portugal se tornaria um popular destino turístico e ainda menos que se tornaria Campeão Europeu.

 

Enfim, passemos à frente.

 

 

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Sendo este o nosso primeiro campeonato de seleções após a sagração no Euro 2016 (mais uma vez, sem contar com a Taça das Confederações), muitos adeptos têm vindo há muito tempo (alguns ainda nem dois dias após a final de Paris) a apontar ao título mundial.

 

O que é que eu acho sobre isso? Que é preciso ter calma.

 

Existe a tentação de colocar Europeus e Mundiais dentro do mesmo saco. Eu mesma fi-lo durante muitos anos, quando, na verdade, são campeonatos muito diferentes. Num Europeu participam seleções de um único continente, que se conhecem bem. É quase garantido que já nos cruzámos algumas vezes com os adversários antes, não só noutros Europeus e Mundiais mas também em fases de Qualificação ou em jogos particulares.

 

Mesmo saindo do âmbito das seleções, os jogadores quase todos atuarão em clubes europeus. É possível que já se tenham cruzado com membros das seleções adversárias ou nos campeonatos internos ou na Liga dos Campeões ou Liga Europa. Não há grandes mistérios.

 

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Num Mundial não é bem assim. Até podemos apanhar uma ou outra seleção europeia, mas muitos dos nossos adversários são equipas de outros continentes. Em muitos casos, o nosso historial com equipas dessas reduz-se a meia-dúzia de jogos ou menos – porque não disputamos Qualificações contra eles e porque não é viável marcar particulares contra eles (quem quer sujeitar a sua equipa a um voo longo e cansativo para disputar um jogo a feijões?). Pode existir uma mão-cheia de jogadores nessas equipas que até atuem em campeonatos europeus, sobretudo na América do Sul, mas não sei até que ponto isso influencia o estilo de jogo das seleções.

 

E depois temos a distância e as condições meteorológicas – conforme vimos em 2002 e, mais recentemente, em 2014. Não acho que seja uma coincidência o facto de os dois únicos Mundiais que nos correram bem tenham tido lugar em países europeus (1966, Inglaterra, terceiro lugar: 2006, Alemanha, quarto lugar).

 

De facto, basta comparar o nosso historial em Europeus e Mundiais para se notar a diferença. Só participámos em (*conta pelos dedos*) seis Mundiais. Em dois chegámos às meias-finais, em um chegámos aos oitavos-de-final, nos outros todos não passámos da fase de grupos.

 

Em contraste, sempre que participámos em Europeus (e não falhamos nenhum desde 1996, inclusive), chegámos sempre aos quartos-de-final, no mínimo. Nos últimos vinte anos, só em 2008 é que não chegámos às meias, pelo menos. Conforme tenho vindo a dizer (sobretudo àqueles que dizem que a nossa vitória em Paris veio do nada, foi apenas sorte), éramos a seleção com melhor historial em Europeus sem nunca termos ganho. Levarmos a Taça para casa era apenas uma questão de tempo.

 

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O que, mesmo assim, não impediu as minhas neuroses quando Fernando Santos se pôs a dizer que queria ganhar o Euro 2016. Mas isso sou eu.

 

Muita água terá de correr ainda antes de conseguirmos um currículo assim em Mundiais. Não que isso signifique que será impossível ganharmos, claro que não, mas isso é que, sim, viria quase do nada.

 

Não é de surpreender que, desta feita, Fernando Santos tenha um discurso mais sóbrio e cauteloso – embora não deixe de dizer que o título é um objetivo. Em entrevista ao jornal “O Jogo”, no início do mês, disse que “não podemos pensar que somos favoritos no Mundial porque ganhámos o Europeu.” “Não vou deixar que se embandeire em arco, achando-se que a equipa vai chegar à Rússia, vai ganhar e que o contrário será uma grande complicação.” “Mas também temos a confiança absoluta de que somos capazes de lutar [com os principais candidatos] e será muito difícil ganhar a Portugal.” “Tudo passa por um grande respeito por todos os adversários, com a confiança de que podemos ganhar os jogos.”

 

Devo confessar que os meus prognósticos andam muito voláteis, não sei muito bem o que esperar. Por um lado, tenho medo de um descalabro semelhante ao dos últimos dois Mundiais (não que o desempenho em 2010 em si tenha sido assim tão mau. Pior foi o que aconteceu depois).

 

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Por outro… já tivemos menos hipóteses de ganhar o Mundial, na minha opinião. Somos Campeões Europeus – não nos dá automaticamente o estatuto de favoritos, mas não é de desprezar. Em três anos e meio só contamos uma derrota em jogos oficiais. O Mundial decorrerá num país europeu, onde a meteorologia não será um problema – nós, aliás, estivemos lá no ano passado, logo, sabemos mais ou menos o que nos espera. Por fim, temos Cristiano Ronaldo.

 

Se é para tentar o título, é melhor ser agora.

 

Dito isto tudo, se não conseguirmos ganhar o Mundial, temos de encará-lo com naturalidade. Espero que, de qualquer forma, seja uma participação digna de um Campeão Europeu. Ou pelo menos que não seja uma tragédia completa, como da última vez.

 

O resto é a mesma conversa dos últimos dez anos: vamos tentar disfrutar do momento, do estágio de preparação, dos particulares, de eventuais campanhas de marketing que a Federação esteja a preparar e, claro, dos jogos em si. Ainda não sei ao certo como vou dar conta do recado aqui com o blogue – é possível que, por exemplo, tenha de escrever sobre dois jogos na mesma crónica – mas vou fazer um esforço. De qualquer forma, não deixarei de manter a página do Facebook atualizada.

 

E era isto o que queria dizer. Venham daí os Convocados! (Hoje à noite, às 20h15)

10 anos como blogger

 

 

Hoje completam-se dez anos desde que criei este blogue. Podem ver aqui: “Primeira entrada", a 12 de maio de 2008. Sou blogger há uma década!

 

É certo que este blogue esteve quase um ano parado e, mesmo depois disso, só escrevo nele de longe a longe – quando a Seleção joga!

 

Mesmo assim, não deixa de ser um feito considerável, acho eu. Por um lado, custa-me a acreditar que já se passou tanto tempo: ainda me recordo bem da altura em que criei o blogue. Por outro lado, se for a ver tudo o que aconteceu desde o início do blogue, todas as coisas sobre as quais escrevi, o quanto cresci como blogger (incluindo o meu segundo blogue, que criei alguns anos mais tarde)... não, não se passou assim tão pouco tempo.

 

Quando me apercebi que ia celebrar uma década como blogger, pus-me a pensar no que diria a mim mesma, se pudesse voltar atrás no tempo e falar com o meu eu dessa altura. E assim descobri a maneira perfeita de assinalar a data: escrever uma carta à Sofia de dezoito anos que estava a pensar criar um blogue sobre a Seleção Nacional.

 

Assim, sem mais delongas…

 

Querida Sofia-com-dezoito-anos,

 

Olá. Sou o teu eu de 28 anos, dez anos depois do momento em que lerias esta carta. Se esta coisa de enviar cartas para o passado funcionasse, estarias a ler isto na manhã de 12 de maio de 2008 – a poucas horas de criares o teu primeiro blogue (sim, vais criar outro blogue… mas falamos dele noutra altura).

 

Temos uma década a separar-nos uma da outra, mas ainda me lembro bem de quem és e do que farás nas próximas semanas com o teu blogue. Sei, por exemplo, que farás uma grande parte do trabalho na sala de computadores da tua faculdade ou na biblioteca, com o portátil da mãe. Que percorrerás a pente fino todos os jornais a que conseguires deitar as mãos à procura de notícias sobre a Seleção Nacional e o Europeu em si.

 

Sei também que estás com grandes expectativas, tanto para o blogue como para o Euro 2008. Não me leves a mal, miúda, mas tu ainda estás muito verdinha nestas coisas. Achas, como muitos bloggers estreantes ainda hoje, que vais obter logo inúmeras visitas e comentários. Isso não funciona assim, querida! Hás de ter visitas e comentários, sim, hás de ser reconhecida e elogiada, mas isso demorará – até porque, na minha opinião, o blogue só vai atingir um nível de qualidade aceitável daí a dois anos e meio, mais coisa menos coisa (aquele texto em que comparas a Seleção com meias rotas? A sério, Sofia, as vergonhas que me fazes passar…).

 

Existirão muitas alturas em que o teu blogue passará despercebido – ainda hoje, dez anos depois, isso acontece. Mesmo assim, em tua defesa, nunca te ralarás muito com isso – pelo menos não ao ponto de desistires.

 

Quanto ao futebol, também preciso de te dar uma dose de realidade. Estás muito mal habituada, depois do Euro 2004 e do Mundial 2006, andas a ver as coisas através de lentes cor-de-rosa. As coisas mudaram desde o Mundial 2006, o Euro 2008 não vai correr tão bem.

 

(Desculpa lá estar a dar-te este spoiler, mas tinha de ser. Por outro lado, se existe maneira de enviar cartas para o passado, também existirão maneiras de alterá-lo. Por isso, olha, pode ser que as coisas corram de maneira diferente na cronologia alternativa que estou a criar… Mas não entremos por aí.)

 

Sei que és teimosa e que nem sempre aceitas conselhos. Eu mesma ainda sou assim e não tenho a desculpa de ser ainda adolescente. Mas deixa-me dar-tos, de qualquer forma – até porque, sendo eu o teu futuro, sei que palavras precisas de ouvir, que mais ninguém te dirá. Ou que, pelo menos, podiam ter-te dito mais cedo.

 

Um dos conselhos mais importantes é que não páres o blogue depois do Euro 2008. O blogue não vai desaparecer só por não o atualizares durante algum tempo, parva! Eu sei que tu querias manter o blogue apenas durante o Europeu, para eventualmente voltares durante o Mundial 2010. Mas confesso que, hoje, não percebo porque quiseste parar. Tal como referi acima, demorarás alguns anos a ganhar qualidade. Se não parares durante um ano, chegas lá mais depressa… Até porque vais escrever muito pouco em geral, ao longo desse ano, o que será um erro… mas isso é conversa para outra ocasião.

 

Não que vás perder muita coisas, por outro lado – a época 2008/2009 será bastante medíocre para a Equipa de Todos Nós. Seria bastante deprimente ter de escrever sobre ela.

 

No momento em que crias este blogue, mais mês menos mês, as redes sociais começam a ganhar popularidade. Não sei se isso é uma coisa boa – só agora, mais ou menos dez anos mais tarde, é que estamos a aperceber-nos das consequências negativas a longo prazo.

 

Dito isto, um dos melhores usos que lhes podes dar será como ferramenta de divulgação do teu blogue e para encontrar outras pessoas também apaixonadas pela Seleção. Hás de fazê-lo, mas não precisas de demorar tanto. As redes sociais terão muitos defeitos. No entanto, uma das suas vantagens será ligar-nos a pessoas com os mesmos interesses e paixões que nós. Ninguém precisará de se sentir sozinho.

 

O que me leva ao conselho seguinte, talvez o mais importante de todos: não te envergonhes do teu blogue nem da tua paixão. Nem deste, nem do teu segundo blogue, nem de todas as outras paixões que alimentas. Eu sei que tens motivos para manteres o anonimato, para esconderes o blogue das pessoas mais próximas. A nossa família é exemplar em muitas coisas, mas não nisto. À exceção da nossa irmã, nunca souberam lidar com as nossas paixão e nós acabámos por ter medo de mostrar esse lado às pessoas. Ainda hoje estou a tentar livrar-me dos limites que nos impuseram.

 

Eles estão errados – hás de descobri-lo e eles descobri-lo-hão também. Como disse acima, hás de conhecer pessoas que partilham a mesma paixão que tu, que gostarão de ler o teu blogue – nem sabes a que ponto! E não falo apenas deste blogue. Não deixes que te deitem abaixo.

 

Outro conselho que te dou é que penses na hipótese de criares o teu blogue no Sapo. Ou pelo menos de te mudares mais cedo para lá. Não que tenha razão de queixa em relação ao Blogspot. Mas a verdade é que a equipa e a comunidade do Sapo Blogs poderia ajudar-te a aprenderes a ser blogger. Eu sei que te orgulharás, mais tarde, por fazeres tudo sem a ajuda de ninguém, mas vai estar um bocadinho sozinha durante muito tempo. Um pouco de apoio ou companhia não te faria mal.

 

Mais um conselho: vai a mais jogos da Seleção e a treinos abertos, nem que vás sozinha ou só com a nossa irmã. Não sejas apenas adepta de sofá. Tens dezoito anos, mas ainda és muito atada e devias começar a “desatar-te” mais cedo.

 

Não preciso de te dar motivos para ir aos jogos, mas os treinos abertos também são divertidos. Fui a uns quantos, fiz algumas figuras tristes, mas não me arrependo. Mais: hoje em dia, com a Cidade do Futebol, já não fazem treinos abertos no Jamor, o que é uma pena. Eu, pelo menos, tenho saudades e tenho pena de não ter ido a mais quando podia.

 

Não cometas esse erro. Aproveita enquanto podes. Pesquisa o trajeto, transportes públicos até lá, táxis em último caso! Desenrasca-te!

 

Na verdade, tirando estas coisas pontuais de que falei, vais fazer tudo bem. Os próximos dez anos nem sempre vão ser fáceis para ti, nem como blogger, nem como adepta da Seleção. Como te disse acima, o teu blogue não vai ter assim tanta saída quanto isso, mas isso não te deitará abaixo – porque vais gostar tanto de escrever neste blogue que vais continuar a fazê-lo, mesmo que escrevas para o boneco.

 

Vais ver a Seleção em situações péssimas, mas não vais virar costas. Mesmo nas raríssimas situações em que queiras, mesmo nas raríssimas situações em que já não acredites. E, ao contrário da maior parte das pessoas, não vais ter memória curta. Vais lembrar-te sempre dos momentos maus, o que te fará sentir ainda mais grata pelos momentos bons.

 

Sim, vais fazer tudo bem, e vais ser recompensada por isso. Vais conseguir cumprir o propósito do teu blogue. Não tão cedo quanto julgas, mas não tão tarde quanto chegarás a temer. E, acredita, quando acontecer, vai ser melhor do que alguma vez imaginaste.

 

Era isto o que te queria dizer em relação a este blogue. Eu, na verdade, devia falar contigo sobre outros aspetos da tua vida que não correrão tão bem, mas fica para outra altura. Este é para ser um dia feliz. Vai lá criar o blogue e… diverte-te.

 

Um beijo do futuro,

Sofia de vinte e oito anos

 

PS: Vê lá se tomas nota do lugar onde enfiaste “A Pátria Fomos Nós, no final do Euro 2008, para não passares quatro anos sem lhe pôr a vista em cima.

 

Tenho dito várias vezes ao longo destes dez anos que não sei por quanto tempo mais vou conseguir manter este blogue. Consegui atingir a marca da primeira década, mas o problema mantém-se. Agora sou uma mulher adulta, com cada vez mais responsabilidades. Não posso garantir que tenha sempre tempo para escrever aqui.

 

Não quero entrar por aí hoje. O mais importante é que não vou deixar de tentar. E quem sabe? Pode ser que, em 2028 (com Cristiano Ronaldo a Selecionador Nacional), ainda cá estejamos.

 

Obrigada a todas as pessoas que visitaram os meus dois blogues, quer o façam regularmente ou só o tenham feito uma vez.