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O Meu Clube É a Seleção!

Os pensamentos de uma simples adepta da Seleção Nacional, que não percebe assim tanto de futebol mas que é completamente maluca pela Equipa de Todos Nós.

Seleção 2016

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Não, não é gralha: isto é mesmo a revisão de 2016… a meio de janeiro de 2018. Conforme poderão ler aqui, há um ano tentei escrever o meu balanço de fim de ano habitual, recordando tudo o que tinha acontecido com a Seleção em 2016. Só que o texto atrasou-se, enrolou-se, e acabei por desistir. Continuo sem me arrepender da decisão. Mas isso não significava que 2016 não merecia um texto a ele dedicado.

 

Eis-me aqui, portanto, fazendo uma segunda tentativa na revisão de 2016, mais de um ano mais tarde. Eu queria, aliás, ter publicado este texto mais perto do início do ano, mas não consegui. Não foi por motivos fúteis – pelo contrário, foram quase de vida ou de morte. Mas mais vale tarde do que nunca.

 

Vamos fazer isto de uma maneira diferente, no entanto. Em vez de recordarmos tudo exaustivamente, por ordem cronológica, vamos apenas falar do melhor e do pior deste ano. No caso de 2016 e de 2017, não há assim tanto sobre que escrever n’“O pior”, logo, parece-me um bom sítio por onde começar.

 

Assim, sem mais delongas…

 

O pior

 

  • A fase de grupos do Europeu

 

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Ninguém adivinharia o final da nossa campanha no Euro 2016 com base, apenas, no nosso desempenho na fase de grupos. Com adversários bem menos prestigiados e experientes, ninguém estava à espera que Portugal sentisse tantas dificuldades. De uma maneira muito típica nossa, fomos nós mesmos a criar essas dificuldades, mais do que os nossos adversários.

 

Recordemos os jogos individualmente. Os portugueses entraram um pouco nervosos no jogo com a Islândia, mas acabaram por crescer e Nani marcou aos trinta e um minutos. No entanto, o segundo golo, que consolidaria a vantagem no marcador, nunca veio. A Islândia empatou ao início da segunda parte e Portugal não conseguiu regressar à vantagem. Foi um daqueles jogos típicos, em que a Seleção domina em todos os aspetos e mais alguns… exceto no número de golos marcados.

 

Ainda hoje muitos criticam o estilo de Fernando Santos, de empates ou vitórias pela margem mínima, com exibições pouco empolgantes. Eu no entanto, ainda que também não seja grande fã (e esteja aliviada por, hoje, termos um ataque mais acutilante), prefiro esse estilo a vitórias morais.

 

Em retrospetiva, as polémicas críticas de Cristiano Ronaldo ao jogo islandês são irónicas: porque são, essencialmente, as mesmas que fariam a Portugal mais à frente, no campeonato. E também porque seria um golo da Islândia a enviar-nos para um percurso mais “fácil” até à final de Paris. Cristiano Ronaldo faria muitas coisas boas neste campeonato – e nem todas seriam golos ou assistências – mas este foi um momento infeliz.

 

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Estou convencida, por outro lado, que foi neste jogo que nasceu a Islândia equipa-sensação do Euro 2016, que expulsaria a Inglaterra do campeonato. Ou pelo menos contribuído para essa Islândia – recordar que eles, antes, já tinham ultrapassado a Holanda na Qualificação para este Europeu.

 

jogo com a Áustria foi ainda pior, o ponto mais baixo de 2016. Portugal jogou melhor, mas voltou a não conseguir traduzir a sua superioridade em golos. Foram vinte e cinco os remates falhados, incluindo um penálti de Cristiano Ronaldo. As críticas choviam fora e dentro de Portugal, não sem razão: aquilo estava a ser patético. Eu sentia-me particularmente desanimada.

 

Foram nestas circunstâncias que Fernando Santos proferiu as, hoje lendárias, palavras: “Eu já disse à minha família que só vou dia 11 para Portugal. (...) E vou lá e vou ser recebido em festa.”

 

Hoje adoramos estas palavras – eu acho mesmo que ficarão gravadas na lápide dele – mas na altura, eu lembro-me, ninguém achou piada. Ninguém podia vê-lo à frente. Eu não ia a esse extremo, mas também não tinha argumentos para defendê-lo. Eram palavras muito bonitas e tal, éramos onze milhões em campo, mas nada daquilo estava a ser colocado em prática.

 

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Cristiano Ronaldo também responderia às críticas, de uma maneira… curiosa. Foi na manhã do jogo com a Hungria, durante o passeio da praxe, antes dos jogos. Depois de dias e dias de dedos apontados, a tampa saltou-lhe. Ou melhor, saltou o microfone do jornalista da CMTV que teve a infeliz ideia de tentar arrancar umas palavras ao Capitão.

 

Lembro-me perfeitamente de me ter fartado de rir depois de ver as imagens pela primeira vez. Ainda hoje, mais de ano e meio depois, acho hilariante. Quando contar aos meus filhos e netos acerca deste Europeu, este momento não vai ficar de fora. E vou garantir-lhes que o CM mereceu.

 

O jogo com a Hungria foi igualmente caricato. O próprio Fernando Santos admitiu que, se houve jogo em que a Seleção jogou mal, “à parva”, foi neste. Por três vezes a Hungria esteve à frente no marcador e Portugal com um pé de fora do Europeu. Duas dessas ocasiões deveram-se a livres marcados no mesmo sítio, por faltas do mesmo Marmanjo: Ricardo Carvalho. A nossa sorte – como em muitas outras ocasiões – foi termos Cristiano Ronaldo para repôr a igualdade.

 

Fernando Santos seria, mais tarde, muito criticado por ter colocado a equipa a defender, aparentemente satisfeito com o segundo lugar do grupo – que nos atiraria para o caminho mais difícil até à final.

 

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Teríamos conseguido chegar a Paris através dos “tubarões”? Eu gostaria de pensar que sim, mas não dá para ter a certeza. Seria mais difícil, sim, mas também Portugal mostrou sempre uma equipa difícil de vencer. Não seria de todo impossível.

 

De qualquer forma, a Islândia marcou à Áustria no último minuto, subindo ao segundo lugar. Nós ficámos em terceiro e não precisámos de nos preocupar com os tubarões – isto é, até encontrarmos um, na final.

 

O fraco desempenho no grupo acabou por não ter consequências de maior, a longo prazo. Mas não havia necessidade. A Equipa de Todos Nós já nos faz sofrer em demasia, já ajudava se pelo menos tentasse reduzir o sofrimento auto-infligido, como no grupo do Europeu.

 

Mas, depois destes anos todos, acho que é uma impossibilidade física a Seleção Portuguesa não se boicotar a si mesma. E já que falamos disso, passemos ao segundo item d’“O pior”.

 

 

  • A derrota perante a Suíça

 

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Esta foi a única derrota em jogos oficiais em todo 2016 e… bem, em todo o “mandato” de Fernando Santos, até agora. Tinham passado menos de dois meses desde a final de Paris. Ainda estávamos em celebração. Na semana anterior, a Seleção tinha sido homenageada no Salão Nobre da Câmara Municipal do Porto e realizado um particular com Gibraltar – que serviu para festejar o primeiro título com os adeptos, mais do que para outra coisa qualquer. Estávamos nas nuvens, eu incluída.

 

É claro que ia dar para o torto.

 

A Seleção Portuguesa nem sequer jogou assim tão mal, a entrada até foi boa. Bastaram menos de dez minutos de desconcentração (de “deslumbramento”, segundo Fernando Santos) para a coisa correr mal: os suíços marcaram dois golos quase de seguida, dos quais Portugal não conseguiu recuperar. Esses dez minutos infelizes ficaram colados a nós durante o resto da Qualficação, como uma âncora. Só nos livrámos deles mais de um ano mais tarde.

 

Na altura foi um valente balde de água fria mas agora, em retrospetiva, não acho que tenha sido uma coisa assim tão má. Os adversários deste grupo de Qualificação estavam longe de ser estimulantes. Ao ficarmos obrigados a ganhar todos os jogos depois do primeiro, demos uma dose saudável de adrenalina a este Apuramento (ainda que este se tenha tornado repetitivo, ao fim de algum tempo). Além de que, conhecendo o historial da Turma das Quinas, era possível que acabássemos por escorregar perante uma das seleções de menor prestígio – sobretudo se não tivéssemos, ainda descido à Terra, após o Euro 2016. A coisa podia ter ficado mais complicada do que chegou a ser.

 

Mesmo assim, foi uma oportunidade perdida para fazermos uma Qualificação imaculada. Enfim. Fica para a próxima.

 

O melhor

 

  • Preciso mesmo de dizer?

 

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Tirando a fase de grupos (e mesmo assim), o Euro 2016 e as semanas que se seguiram foram dos períodos mais felizes da minha vida nos últimos anos. Guardo imensas boas recordações dessa altura. A minha família toda festejando o golo de Ricardo Quaresma, no último minuto do jogo com a Croácia; escrevendo a minha análise a esse jogo uns dias depois, num café cheio de gente vendo o Espanha x Itália; indo buscar a minha irmã a uma conferência, depois do jogo com a Polónia, com um cachecol preso à janela do carro; descobrindo que jogaríamos contra o País de Gales durante um passeio à beira do Tejo; no carro com a minha irmã, na noite de 3 de julho, comentando:

 

– Já pensaste que, daqui a uma semana, podemos estar na final de Paris?

 

Lembro-me também de, depois das meias-finais, irmos tomar um copo com os meus tios (o meu tio fazia anos) e de ver pessoas festejando a presença na final; de passar os primeiros dias seguintes num estado de perpétua incredulidade; de passar de carro, no dia 9 de julho, perto do local onde esperámos o autocarro da Seleção, antes da final do Euro 2004; de recordar, nesse mesmo dia, que dez anos antes tinha ido receber a Seleção ao Jamor, depois do Mundial 2006.

 

Mas a melhor de todas foi a de 10 de julho, a que fez toda a diferença. Eu guardo boas recordações de quase todos os campeonatos de seleções que testemunhei. De uns mais do que outros mas, antes de 2016, todos acabavam da mesma forma: com a expulsão de Portugal desses campeonatos e comigo em baixo durante algumas semanas.

 

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Desta vez foi diferente.

 

Não é só da noite de 10 de julho que guardo boas recordações. O dia todo foi muito bem, tirando os primeiros 109 minutos da final – mais sobre isso adiante. Lembro-me de ver a minha crónica pré-final destacada no Sapo Blogs (um texto de que me orgulho muito) logo de manhã, para começar bem. De ter passado o dia ouvindo música relacionada com a Seleção (não apenas as das minhas antigas montagens de vídeos, mas também o Bamos Lá Cambada, cortesia do meu pai…), vendo mensagens de apoio vindas de todo o lado, nas redes sociais, de eu mesma partilhar várias na minha página.

 

Também me lembro de, mais perto da hora do jogo, ver notificações no meu telemóvel de notícias acerca das traças no Stade de France – aqueles pormenores aparentemente insignificantes, mas que ninguém esquece na hora de contar a história – e de dançar ao som de This One’s For You para sacudir os nervos.

 

Mas falemos sobre o jogo em si. Os jogos anteriores neste Europeu foram pouco memoráveis, tirando um pormenor ou outro: toda a jogada que levou ao golo frente à Croácia, por exemplo, e o famoso “Anda bater! Anda bater!” de Cristiano Ronaldo a João Moutinho.

 

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A final de Paris, por seu lado, foi uma epopeia.

 

Acho mesmo que teve traços cinemáticos, hollywoodescos. Ora vejam: de um lado, uma equipa gigante, experiente, arrogante, jogando em casa, apoiada por todos. Do outro lado, uma equipa em clara desvantagem, relativamente humilde, em quem quase ninguém acreditava. Os seus adversários dão a vitória por garantida, olham-nos de cima para baixo, até já preparam a festa.

 

Um espectador desinteressado, olhando de fora para tudo isto, diria logo que os franceses não teriam um final feliz. Mas nós, na altura, estávamos demasiado envolvidos com o jogo para vermos, como dizem os anglo-saxónicos, “the big picture”.

 

Regressando à metáfora do filme, o líder da equipa menor é afastado do jogo cedo – Cristiano Ronaldo, que tem todas as características do típico herói-alfa, protagonista de Hollywood: forte, carismático, confiante. A maior arma dos chamados underdogs, a única segundo alguns.

 

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De uma maneira paradoxal, longe de se dar por vencido, o restante elenco cerra os dentes, une-se e torna-se ainda mais forte. Mesmo o herói-alfa, impedindo de participar diretamente na ação, não deixa de contribuir, de dar força e inspirar os seus colegas.

 

No fim, o dia é salvo por quem menos se esperava, o underdog dos underdogs, o patinho feio: Éder.

 

A final de Paris tornou-se inesquecível, para mim, não apenas por nos ter dado o nosso primeiro título e pelo seu carácter cinemático, mas também pelos pormenores. Os pequenos grandes momentos que tornaram a noite ainda mais especial, mais épica, e que não vou deixar de fora quando contar a história aos meus filhos e netos: desde as traças, incluindo aquela que pousou no rosto de Ronaldo às lágrimas deste, no apito final, passando pelos cânticos ensurdecedores do público português, Éder prometendo a Fernando Santos que ia marcar, o Ronaldo promovido a treinador adjunto.

 

E, claro, o golo que mudou todas as nossas vidas.

 

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O documentário “10 de julho” incluiu muitos desses momentos, mas não todos: como a joelhada de Cédric nas costas de Payet (ele garantiu que não foi vingança, mas eu gosto de pensar que foi um bocadinho), o Quaresma com a cabeça de um francês debaixo do braço, Ronaldo descarregando a frustração na perna do Adrien, no banco.

 

Vocês sabem que eu esperei por aquela noite durante doze anos, em Askaban (porque é que eu nunca me lembro de fazer estas piadas na altura…?), desde o Euro 2004. Uma parte de mim sempre achou, sobretudo quando era mais nova, que as nossas vidas mudariam para sempre assim que a Seleção ganhasse um título. Outra parte de mim, mais racional, argumentava que talvez não fizesse uma diferença assim tão grande.

 

Hoje, um ano e meio depois, contudo, posso dizer que várias coisas mudaram com o primeiro título da Equipa de Todos Nós. Mudou a maneira como olhamos para nós mesmos, com menos vergonha e mais orgulho. Foi, na verdade, um dos vários aspetos que contribui para a maior visibilidade de Portugal lá por fora, nos últimos dois, três anos.

 

Pessoalmente, como referi antes, foi um grande orgulho ver jogadores com quem cresci, que tenho acompanhado, acarinhado ao longo dos anos, mesmo quando outros os desvalorizam, finalmente consagrados, gravados na História do futebol português. Faz com que as mesquinhezes, polémicas e guerrinhas que pululam nas notícias desportivas pareçam tão insignificantes – porque sabemos que o futebol português é capaz de muito mais do que isso.

 

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Se hoje reescrevesse a minha lista com os dez melhores jogos da Seleção, a final de Paris estaria em segundo lugar. O Portugal x Espanha continuaria no topo porque, conforme escrevi na altura, foi o jogo que fez de mim uma verdadeira adepta da Seleção. Se não fosse esse jogo, a final de Paris não teria tido o mesmo impacto.

 

Confesso que, durante o verão de 2016, cheguei a desejar que Portugal não jogasse mais – para que o ato mais recente da Equipa de Todos Nós fosse, para o resto da eternidade, a conquista do Europeu. Acho que essa sensação nunca chegou a desaparecer: poderá ter sido uma das causas do desgaste que senti com o blogue, no final de 2016, que me fez desistir da revisão desse ano. Talvez o meu subconsciente se tenha convencido que este blogue já tinha cumprido seu propósito: imortalizar a conquista do primeiro título da Seleção.

 

Já ultrapassei essa fase de desgaste, é certo. Mas ainda hoje, um ano e meio depois, tenho o texto da conquista do Europeu destacado na página de Facebook deste blogue.

 

É uma coisa muito portuguesa, eu sei. Vivermos presos às glórias do passado, sejam elas os Descobrimentos ou o Euro 2016. Já Luiz de Camões rezava: “Do mal ficam as mágoas na lembrança/E do bem (se algum houve) as saudades”.

 

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Não quero viver assim. Não quero acreditar que a conquista do Europeu foi o único final feliz a que tivemos direito. Quero muitos mais “10 de julho”s na minha vida. Não terão o mesmo impacto do primeiro, ninguém o nega. Mas agora que provámos o fruto, e vimos o quão saboroso ele é, porque não tentar saboreá-lo outra vez? Quem sabe… no Mundial 2018?

 

Não que queira ir já por aí. O Mundial será assunto para outra ocasião. Para já, fica o desejo de repetir o 10 de julho. E com isto termina a revisão de 2016.

 

Fiquem por aí para a revisão de 2017. Vou tentar não me demorar… muito.