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O Meu Clube É a Seleção!

Os pensamentos de uma simples adepta da Seleção Nacional, que não percebe assim tanto de futebol mas que é completamente maluca pela Equipa de Todos Nós.

Dinamarca 2 Portugal 3 - Com o espírito do Dragão

Ontem, a Seleção Portuguesa de Futebol defrontou a sua congénere dinamarquesa num jogo da segunda jornada da fase de grupos do Euro 2012, saindo de lá com uma vitória por três bolas contra duas. Foi um jogo daqueles, típicos da Turma das Quinas em fases finais de campeonatos de seleções, inadequado para corações fracos. Eu, pelo menos, há anos que não gritava tanto durante um jogo, que não estava tão histérica. Ainda bem que os meus pais não estavam em casa... 

Vi o jogo com a minha irmã, a melhor amiga dela, que estava em videoconferência a partir de sua casa, e com muitas mais pessoas através do Twitter. No início do encontro, estava mais nervosa do que o habitual. Talvez por causa do café que tinha tomado pouco antes, talvez porque, inconscientemente, antecipava o sofrimento que seria a partida. A maneira como a Seleção entrou em campo em nada me ajudou a manter a calma. 

Houve um lance em que Bendtner - que acabou por ser um dos grandes protagonistas do jogo, por vários motivos - pisou Pepe. No Twitter, começaram muitos a goza, invocando os inúmeros, digamos, acessos de mau génio do luso-brasileiro para com outros jogadores, ao serviço do Real Madrid. "Foge Bendtner!", dizia um. "Bendtner não vai acabar o jogo sem sair lesionado", dizia outro.

Contudo, Pepe arranjou melhor forma de se vingar. Marcou um golo.


Este foi a segunda vez que o luso-brasileiro marcou o primeiro golo da Seleção num Europeu - recorde-se o golo frente à Turquia, na nossa estreia no Euro 2008. Depois dessa, Pepe ainda marcou uma vez em setembro de 2009, frente à Hungria. De todas as vezes que o luso-brasileiro fatura envergando as cores de Portugal, ele bate com força do peito, do símbolo das Quinas estampado na camisola, mesmo sobre o coração, agarra-o com força - já havia reparado nisso ao fazer as minhas montagens de vídeos da Equipa de Todos Nós. Ontem, chegou mesmo a beijá-lo. Como que a mostrar ao Mundo que tem o nosso País no coração, apesar de as suas raízes serem outras. São gestos bonitos.

E, como já tinha dito acima, foi uma forma bem melhor de se vingar da pisadela de Bendtner do que responder à letra, arriscando-se a cartão ou pior...

Embora, por outro lado, talvez tivesse sido melhor para a nossa pressão arterial se ele tivesse feito com que o dinamarquês saísse mais cedo, numa maca.

Estou a brincar!

A televisão da amiga da minha irmã estava ligeiramente mais adiantada do que a nossa. Portanto, aquando deste primeiro golo, ela festejou-o uns segundos antes de nós. Não que isso tenha estragado muito o sabor mas, de qualquer forma, depois desta, decidimos que, sempre que a Seleção atacasse, colocaríamos o computador em silêncio. Se soubéssemos sempre de antemão como é que cada jogada ia acabar, estando esta ainda a decorrer no nosso televisor, o jogo perdia a piada quase toda.

Acho que seria cómico visto de fora. A Seleção partindo para o ataque, eu cruzando os dedos, agarrando o meu velho cachecol, inclinando-me para a frente, em direção ao televisor, enquanto dizia:

- Tira o som.


Pouco depois, foi marcado o segundo golo, desta feita sem o aviso prévio de uma televisão mais adiantada do que a nossa. Quando vi que tinha sido o Hélder Postiga a marcar, berrei:

- ESTE É P'RA MIM! ESTE É P'RA MIM! ESTE É P'RA MIM! EU DEFENDI-O NA TELEVISÃO! EU SABIA! ESTE É P'RA MIM! - a minha irmã até se assustou...

Claro que, depois deste golo, toda a gente comentou que ele até era um dos melhores marcadores do Saragoça, que este era o seu vigésimo golo com a camisola das Quinas. Como seria de esperar. Eu cá nunca deixei de acreditar no Hélder. Tinha-o defendido cá no blogue, tinha-o defendido quando fui ao "A Tarde É Sua". E embora tivesse admitido que não seria má ideia o Nélson Oliveira alinhar de início, fiquei secreta e irracionalmente satisfeita quando Paulo Bento anunciou que o Hélder seria titular frente à Dinamarca. Tinha até um pressentimento de que ele marcaria à Dinamarca. E não me enganei.

Por isso, peço desculpa mas este golo foi para mim. Eu mereci-o. Obrigada Hélder! Obrigada por não me teres deixado ficar mal na televisão.



Uma referência ainda a Nani, que esteve bastante bem no jogo. Esta assistência no golo de Hélder Postiga foi apenas um exemplo. Não é de admirar. Antes do jogo, na página do Facebook, dei vários exemplos de grandes momentos do Marmanjo frente à Dinamarca, começando no pontapé de canto direto para a baliza, no seu jogo de estreia com a camisola das Quinas, acabando nos dois golos seguidos no Estádio do Dragão. E agora a assistência neste golo, ontem. Tinha de ser. O Nani tem, como diz o outro, uma certa queda para dinamarqueses.

O golo de Bendtner estragou-nos um pouco a festa, sobretudo aos mais verdes nestas coisas, como a minha irmã, que julgavam que o jogo já estava arrumado. Mas não estava. A Dinamarca ainda tinha uma palavra a dizer. Assim, chegou-se ao intervalo com a sensação de que o jogo havia acabado de começar.

A segunda parte do jogo trouxe muito sofrimento. Cristiano Ronaldo diria, mais tarde, que os dinamarqueses não fizeram quase nada na segunda parte, mas não foi essa a sensação com que fiquei - vi demasiadas vezes os nossos adversários atacando-nos. O facto de o Ronaldo não estar nos seus dias não ajudou em nada.



Nesta altura, já devem ter ouvido falar da reação nas redes sociais às oportunidades desperdiçadas pelo madeirense. Não estavam a brincar. Pelo menos no Twitter, quase exigiam a cabeça do Marmanjo numa travessa. Nesta altura, já tinha esgotado o meu limite de tweets, portanto, não contribui nem contrariei esta tendência, mas ia acompanhando-a.

A coisa piorou aquando do segundo golo de Bendtner, que repôs o empate. O golo não surpreendeu, depois de tanto ataque dinamarquês - mas não deixou de ser um valente balde de água fria. No Twitter, fartaram-se de culpar Ronaldo por este resultado, nos minutos que se seguiram, chegando mesmo a insinuar que ele devia era sair da Seleção - algo que eu considero inconcebível. Mas já lá vamos.

Eu continuava a acreditar que era possível reverter o resultado, mas não com muita convicção. Ou melhor, com mais desespero do que convicção. Só pensava que não queria ter de fazer contas, que não queria ter de fazer figas por equipa alheia. Vi Paulo Bento meter Varela e o filme começava a parecer-me familiar.


Só que, desta feita, o filme teve um desfecho diferente. Um desfecho feliz. Varela, também conhecido como o Drogba da Costa da Caparica, saltou do banco e salvou o dia. Achei imensa graça quando hoje, no Record, na página de humor, disseram que o Marmanjo ia passar a ser patrocinado pelo Instituto de Socorro a Náufragos, pois a sensação é mesmo essa: o Varela salvou a honra do convento! O seu golo foi, sem sombra de dúvida, o ponto alto de todo o jogo. Eu e a minha irmã gritámos como nunca, ao longo de minutos. Em Lviv, a euforia não foi menor. A Seleção em peso, suplentes e um ou outro técnico incluídos, saltou em peso para cima do herói. Foi lindo! Não me canso de ver estes festejos. Só tenho pena de não terem mostrado Paulo Bento nesta altura...

Mesmo assim, o sofrimento continou. A Dinamarca não deixou de atacar, poderia repôr o empate a qualquer momento. O árbitro deu quatro minutos de compensação - foram os quatro minutos mais longos da História do Futebol! Mas finalmente lá soou o apito final e o resultado ficou selado - algo que eu celebrei com mais um par de berros de triunfo, ao mesmo tempo que começava a ouvir buzinas e vuvuzelas vindas do exterior.

E pronto. Foi assim que a Seleção teve a sua primeira vitória do Europeu, a primeira vitória do ano. Vitória essa que lhe garantiu três pontos, três pontos que nos colocam de novo na corrida por um lugar nos quartos-de-final.



O Ronaldo é que, coitado, o jogo não lhe correu bem. Mas não me parece que isso justifique a onda de fúria contra ele, quando ele já fez muito pela Seleção - parecendo que não, ele já ajudou muito a Equipa das Quinas, seja assistindo e marcando golos, seja levando a equipa ao colo, seja em conversas de balneário. O povo tem memória curta mas eu, embora também às vezes tenha dúvidas, não me esqueço destas coisas.

Julgo que o problema é o mesmo da finalização: psicológico. As pessoas - incluindo, se calhar, ele próprio - andam a pressioná-lo demasiado, na minha opinião. Não se justifica porque, como ontem ficou provado, a Seleção é mais do que Cristiano Ronaldo, existem outros jogadores de valor para além dele, que podem fazer a diferença. Além disso, como disseram ontem no Twitter, ninguém estará mais desiludido do que ele. Ele bem pode dizer que o importante é a equipa, que não se importa que nos tornemos campeões sem que ele marque um golo que seja. Eu acredito que ele esteja a ser sincero mas também acredito que ele se sinta desiludido com o seu desempenho individual. A solução há de ser a mesma; quando ele marcar, o enguiço desaparecerá.

Independentemente da etiologia do problema, a crucificação por parto dos próprios adeptos nunca foi terapêutica eficaz. Neste momento, ele devia era ouvir mensagens de apoio.

De qualquer forma, tenho a certeza que ele vai ultrapassar esta fase má e que vai calar toda a gente que o critica. Como o fez há uns tempos no Real Madrid, segundo o que li num blogue. Parece que, depois de uma derrota no Barnabéu aos pés do Barcelona, os adeptos culparam-no pelo desaire, criando uma onda de ódio semelhante à que grassa cá em Portugal. Mas depois, o Ronaldo calou-os ao marcar um golo no jogo da segunda volta do campeonato, em Camp Nou, num jogo que lhes garantiu o título. Pode ser que o mesmo aconteça agora, pode ser que ele, frente à Holanda, se vingue de tudo isto.


Paulo Bento havia dito que se teria de recuperar o espírito do jogo no Estádio do Dragão para este encontro. E eu acho que este jogo teve, de facto, muitas semelhanças com o jogo de 8 de outubro de 2010. Nesse dia, tal como ontem, só a vitória interessava. Nesse dia, tal como ontem, sofreu-se - embora ontem tenha sido pior. Nesse dia, tal como ontem, a vitória deu-nos novo fôlego. Nesse dia, tal como ontem, a vitória não nos serviria de muito se não vencêssemos também o jogo seguinte.

Já deu para ver que jogos com a Dinamarca são sinónimo de sofrimento. Quer o desfecho seja feliz ou não para o nosso lado, nós sofremos sempre, por um motivo ou outro. Aquela malfadada reviravolta em Alvalade, no início da Qualificação para o Mundial 2010. O empate no ano seguinte, depois de termos estado a perder, que nos fez pegar na calculadora. A estreia de Paulo Bento depois do caso Queiroz. A agonizante derrota no ano passado que nos atirou para os play-offs. E o jogo de ontem - que me deixou atordoada horas após o seu término.


O pior é que ainda não estamos despachados com a Dinamarca. Ainda temos de disputar com ela um lugar nos quartos-de-final, ainda que não diretamente. Pelos artigos que tenho lido, nem tudo depende de nós. São umas contas bem manhosas estas, que dizem que nós podemos ser apurados com uma derrota e ficar pelo caminho com uma vitória. No entanto, é como eu disse hoje de manhã, no café: nós temos é de ganhar à Holanda, de preferência com vários golos. Se isso nos der o Apuramento, ótimo. Se não (três vezes na madeira!), não será por culpa nossa, pelo menos não completamente. Ao menos voltaremos a casa, com a consciência tranquila, sabendo que demos tudo por tudo.

Mas seria uma injustiça do catano!

E não será fácil ganhar à Holanda. Eu sei que ela perdeu com a Alemanha e com a Dinamarca, mas ainda me parece inverosímil que a atual vice-campeã do Mundo não passe da fase de grupos. Eles ainda podem qualificar-se e lutarão por isso. E, ao contrário do certas pessoas acham, não me parece que o nosso historial nos ajude a derrotá-los. Tanto eles como nós mudámos muito desde o Euro 2004 e o Mundial 2006. Não podemos esperar facilidades.

Eu acredito que é possível chegarmos aos quartos, que estes estão ao nosso alcance. A Seleção provou ontem que, apesar de nem sempre ter jogado muito bem, tem espírito coletivo, tem paixão, tem uma palavra a dizer neste Europeu. Mais uma vez, aqueles homens provaram que merecem o nosso apoio, a nossa fé - demoraram algum tempo, mas finalmente voltaram a prová-lo. Agora espero que o provem, mais uma vez, no próximo domingo, desmontando a Laranja Mecânica e garantindo um lugar no mata-mata.