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O Meu Clube É a Seleção!

Os pensamentos de uma simples adepta da Seleção Nacional, que não percebe assim tanto de futebol mas que é completamente maluca pela Equipa de Todos Nós.

República Checa 0 Portugal 1 - Sem impossíveis

Seis anos depois do Mundial na Alemanha - altura em que a Seleção Portuguesa de Futebol contava com jogadores como Luís Figo, Pedro Pauleta, Maniche, Deco, Ricardo Carvalho - a Turma das Quinas, desta feita, catalisada por jogadores como Cristiano Ronaldo, Nani, Hélder Postiga, Pepe, Fábio Coentrão, Raul Meireles, atingiu as meias-finais do Euro 2012.

Estas coisas começam a ser previsíveis, quase rotineiras. A Seleção entrou muito lenta na partida - parece que é mesmo impossível entrarem com toda a força desde o primeiro minuto. O que nos valeu foi o facto de, ao contrário da Holanda, a República Checa não foi capaz de tirar partido disso. Não me recordo, aliás, de uma única defesa por parte de Rui Patrício. Nunca tiveram hipótese. Assim, a Seleção acabou por ir crescendo e, após o intervalo, entrou em campo a matar. Nos primeiros dez, quinze minutos, a bola mal saiu da grande área checa. O que valeu aos checos foi o Petr Cech e... o poste. 


- O que é que o poste tem contra nós? - chegou mesmo a lamentar a minha irmã.

Até nisto, o Cristiano Ronaldo anda a quebrar recordes: até ao momento, é o jogador que mais bolas tem enviado ao ferro da baliza neste Europeu.

No entanto, de acordo com o que, na altura, me disseram no Twitter, se o cântaro vai demasiadas vezes à fonte, acaba por se partir. A quebra deu-se aos 79 minutos. Nani passa a bola a João Moutinho - que estava a fazer alto jogo, atacando, defendendo... é como se fosse o faz-tudo da Equipa das Quinas! - leva-a quase até à linha de fundo, cruza para a área e Ronaldo, com grande classe, remata de cabeça, obrigando Petr Cech a ir buscar a bola ao fundo da baliza.


Este golo também teve direito a dedicatória. Ronaldo voltou a dizer "É p'ra ti!" e, desta feita, até soprou um beijo em direção às câmaras. Só que não há certezas sobre a quem se dirigiu. Talvez fosse para o filho, para a mãe ou para a namorada. Há quem diga que foi a Messi - sem comentários... Provavelmente, nunca o saberemos. Prefiro assumir que se dirigiu a cada um de nós.


Depois do jogo, houve festa na rua. Desta feita, eu e a minha irmã juntámo-nos a eles. Pela primeira vez em seis anos, fui para a rua festejar uma vitória da Seleção - também foi a primeira vez em seis anos que a Seleção se qualificou para as meias-finais de uma grande competição, não íamos deixar passar isso em branco. Lá nos juntámos ao resto do pessoal, na mesma rotunda onde, há oito anos, estive a comemorar a presença na final do Euro 2004. Muitas bandeiras e cachecóis, pessoas penduradas nas janelas e tejadilhos dos carros, maluquices com motas, cânticos de "Portugal Allez" e mesmo do Hino Nacional, carros abanados, o autocarro urbano exibindo "Força Portugal" no letreiro eletrónico, buzinas, vuvuzelas... Quando regressámos a casa, vinha com uma dor de cabeça de todo o tamanho - mas não me importei nada com isso. Era dor de vitória. Só me doía a cabeça porque fizeram barulho. Só fizeram barulho porque Portugal está nas meias do Euro 2012.


Independentemente do que acontecer nas meias, esta campanha já pode ser considerada um sucesso. Afinal de contas, estamos entre as quatro melhores da Europa! Foi para momentos como os de quinta-feira à noite, para jogos como o de quinta-feira à noite, para conquistas como a de quinta-feira à noite que eu criei este blogue há quatro anos. Para, mais tarde, poder recordar estes momentos, para, mais tarde, falar deles aos meus netos. Contar-lhes como a Seleção conseguiu calar os pessimistas, como Cristiano Ronaldo esteve endiabrado como nunca nestes dois últimos jogos; de como Fábio Coentrão, às vezes, parece levar a Turma das Quinas às costas; de como o Moutinho parece, de facto, uma formiguinha: baixinho, mas correndo de um lado para o outro em prol da equipa; de como os veteranos Figo e Eusébio festejaram o golo do seu herdeiro, Cristiano Ronaldo; de como o Pepe é um defesa fantástico, uma grande figura na nossa Seleção, que, apesar de ser brasileiro por nascimento, faz questão de expressar, ostensivamente, o seu amor ao nosso País, sobretudo depois de marcar de como Nani, apesar de não ter marcado, ainda, neste Europeu, já contribuiu para, pelo menos, três golos da Equipa de Todos Nós; de como Varela saltou do banco e salvou o dia, frente à Dinamarca. De como tudo isto foi possível graças a um treinador jovem e relativamente inexperiente. 

No entanto, já que chegámos até aqui, quero mais. Quero que cheguemos à final de Kiev. No momento em que escrevo, ainda não se sabe quem será o nosso adversário nas meias. Prefiro a França, não tanto pela acessibilidade (que, de resto, é relativa. Uma equipa que conseguir eliminar a Espanha não pode ser subestimada), mais por vingança, para desforrar as meias-finais de 84, 2000 e 2006... ou repetir a história. Mas o mais provável é levarmos com nuestros hermanos de novo. Em todo o caso, Portugal já provou tem  capacidade de se bater como igual, ou mesmo superior, com qualquer equipa deste Europeu. Seja a Espanha, seja a França, a final de Kiev não é um objetivo inalcançável. 


A Seleção está a ter um bom trajeto, esta fase final já deu uma mão-cheia de coisas boas para recordar, sobre que escrever, mas quero ainda mais. Quero pelo menos mais uma vitória, pelo menos mais uns bons momentos sobre que escrever, para recordar. Acredito que este Europeu pode dar-nos ainda mais. Basta que a Turma das Quinas faça o que tem feito até agora (pensando melhor, convinha entrar a matar desde o primeiro minuto, não ter aquela primeira meia hora toda encolhida). Nesta fase do campeonato, não há impossíveis. Agora é a Seleção Nacional agarrar esta oportunidade e dar-nos, finalmente, um final feliz.

Portugal 2 Holanda 1 - Desafio ultrapassado!

Quando, no passado dia 2 de dezembro, fomos sorteados para o Grupo B do Euro 2012, com a vice-campeã europeia, a vice-campeã mundial e a seleção que tinha ficado à nossa frente nas nossas duas últimas fases de Qualificação, receei seriamente que Portugal regressasse a casa ontem. Agora, estou aqui escrevendo sobre a Seleção que sobreviveu ao Grupo da Morte, enviando a atual vice-campeã do Mundo de regresso a casa, enquanto bebo um belo copo de sumo de laranja natural.

Antes deste jogo, estava muito confiante num bom resultado para as cores portuguesas e, em parte derivado de um sonho que tivera na noite anterior, estava, à semelhança de muitos, com um pressentimento de que Cristiano Ronaldo vingar-se-ia dos críticos e marcava, pelo menos, um golo. Contudo, tal não me impediu, como sempre, de sofrer imenso enquanto via o jogo.


Os primeiros dez, quinze minutos do jogo são incompreensíveis para mim. Parecia que os Marmanjos estavam propositadamente a dar espaço à Holanda. O golo laranja não surpreendeu, portanto. Não foi, igualmente, surpresa que a Turma das Quinas tenha começado a jogar a sério após o tento holandês. Talvez eles tenham feito um acordo com um cardiologista, para ele tratar dos nossos corações torturados pelos jogos da Equipa de Todos Nós. Talvez a Seleção seja fisicamente incapaz de dar tudo por tudo quando não está na corda bamba. Só sei que não havia necessidade, como diz o outro, de termos entrado tão mal e sofrido aquele golo. 

O primeiro golo de Portugal, que devolveu a igualdade ao marcador, foi uma chapada de luva branca aos críticos. Não apenas de Cristiano Ronaldo, mas também aqueles que haviam criticado a inclusão de João Pereira - que fez a sublime assistência para golo - na Convocatória. Não apenas na Convocatória deste Europeu, mas também em anteriores. Parabéns aos dois! Depois do golo, deu-se aquele que considero um dos momentos do jogo: o Cristiano dirigindo-se à câmara e gritando:

- P'ra ti, filho!


Há ainda bem pouco tempo, o Cristiano Ronaldo era o puto cheio de promessas que lutava pelo seu lugar na Seleção. Agora ele é o Melhor do Mundo, capitão da Turma das Quinas, um pai babado que dedica golos e prémios ao filho... Estamos todos a ficar velhos!

O relógio pareceu voar neste jogo. Quando dei por mim, já estávamos no intervalo. Na segunda parte, Portugal continuava imparável no ataque. Iniciativas de Nani e Fábio Coentrão podiam ter-nos dilatado o marcador mas estava escrito que aquela seria a noite de Cristiano Ronaldo. A jogada começou, julgo eu, com Nani. Este assiste para Ronaldo, num lance em que a bola faz uma trajetória em curva quase perfeita. O madeirense tem mais do que tempo para ajeitar a bola antes de a enviar para as redes da baliza adversária.


Depois desta, mais uma vez, o tempo voou. Em breve, o árbitro apitaria, marcando o fim do encontro e selando o nosso apuramento para os quartos-de-final do Euro 2012.

- Passámos a fase de grupos? - dissemos eu e a minha irmã, em coro, olhando uma para a outra - PASSÁMOS A FASE DE GRUPOS!! - exclamámos, celebrando com um duplo high-five.



Em Kharkiv e um pouco por todo o Portugal, multiplicavam-se as manifestações de euforia e triunfo. Através das janelas abertas, ouviam-se gritos, buzinas, vuvuzelas e sou capaz de jurar que, na nossa zona, alguém atirou fogo-de-artifício. No Estádio do Metalist, jogadores e selecionador celebravam uns com os outros, o Ronaldo exibia a camisola interior (da Nike, como não podia deixar de ser...) ostentando uma mensagem de amor ao filho, escrita num português  mal amanhado, mas com certeza sentida. Miguel Veloso exibia lágrimas nos olhos na flash-interview.


Contudo, as críticas à Seleção continuavam na mente dos jogadores. Foi por isso que fizeram greve às declarações aos jornalistas. Já veio muita gente reclamar, mas eu compreendo a atitude deles. O direito ao silêncio está incluído na liberdade de expressão, duvido que dissessem algo que o Cristiano Ronaldo ou o Miguel Veloso não tivessem dito já, prefiro que a Seleção comunique com os adeptos através de resultados.  E que cale os críticos da mesma forma. 

Paulo Bento foi, aliás, especialmente duro na Conferência de Imprensa. Hoje, cheguei mesmo a ler que esta é a Seleção "com a pior imprensa de sempre". Eu até compreendo algumas das críticas - já falei disso anteriormente. Sejamos sinceros, o desempenho da Turma das Quinas não tem sido perfeito mas também, tanto quanto sei, nenhuma seleção neste Europeu tem tido um desempenho isento de falhas. 

Depois, temos as críticas de certas personagens, que me irritam profundamente. Como as de Rui Santos. Eu odeio aquelas pessoas de carácter desprezível, que insultam os outros só por terem opiniões diferentes das suas. Quero evitar ao máximo ser assim, mas pessoas como este senhor tornam-no difícil. Pelo menos, hoje tenho argumentos para o contradizer a ele e a outros com críticas semelhantes.


Diz-se que nesta Seleção há mais vulgaridade que qualidade? Ora, se existe algo que a campanha da Holanda neste Europeu provou é que uma equipa cheia de talentos individuais não chega para ganhar jogos. Se existe algo que a nossa campanha até agora provou é que o espírito coletivo pode nem sempre dar-nos vitórias mas, sem ele, não estaríamos onde estamos agora. 

Diz-se que bem podiam estar lá jogadores que ainda estão no ativo, como Deco, Simão, Paulo Ferreira, Miguel, Bosingwa, Ricardo Carvalho? Ora, foram eles próprios que se excluíram da Seleção, direta ou indiretamente: Deco já o havia anunciado antes do Mundial 2010; Simão, Paulo Ferreira e Miguel debandaram cobardemente aquando do caso Queiroz; Bosingwa e Ricardo Carvalho são a história que se conhece. Aqueles que estão no lugar deles, cuja escolha nem sempre foi consensual - João Pereira, Hélder Postiga, Varela, etc - ajudaram a Seleção a chegar aos quartos.


Houve até quem questionasse a escolha de Paulo Bento para selecionador, uma vez que este só teve meia dúzia de anos como técnico antes da Equipa de Todos Nós, durante os quais apenas conseguiu duas ou três Taças de Portugal. Pois bem, deixem-me recordar que antes deve esteve um senhor, já praticamente um veterano nestas andanças, que apenas conseguiu uma Qualificação resvés Campo de Ourique, após uma série de empates; no Mundial, apenas conseguiu vencer uma equipa claramente mais fraca - a Seleção deste Europeu teria conseguido melhor do que um empate frente à Costa do Marfim e talvez mesmo frente ao Brasil - e, no fim, deixou uma equipa em cacos. 

Teve de vir o treinador inexperiente limpar a porcaria deixada por alheios. E fê-lo com uma mestria invejável: com apenas dois ou três treinos, conseguiu que a Seleção goleasse nos dois primeiros jogos ao seu leme. Qualificou-a para o Europeu - pelo caminho, fez uns três ou quatro jogos de grande qualidade - e agora conseguiu garantir-lhe um lugar nos quartos-de-final, após o chamado Grupo da Morte.

É nestas alturas que compreendo Luiz Felipe Scolari. Quem é o burro aqui, afinal?


Ao longo do ano passado, comecei a ter bons pressentimentos. A sentir que aquele sonho antigo, de ver Portugal ganhar um título, podia realizar-se em breve. A cada vitória da Turma das Quinas, a cada boa exibição, eu sentia que o sonho se ia tornando um pouco menos impossível.

Só que, entretanto, começaram a surgir contradições a essa sensação: a derrota frente à Dinamarca, em outubro do ano passado, o grupo difícil para o qual fomos sorteados, os últimos particulares antes do Europeu. 

Mas agora Paulo Bento e os Marmanjos devolveram-me esse pressentimento. Muitos diziam que quem sobrevivesse a este Grupo tornar-se-ia sério candidato ao título. Nós sobrevivemos. Batemo-nos como iguais com algumas das melhores seleções do Mundo. Graças a meia dúzia de jogadores de qualidade e a um coletivo ainda melhor. 

No entanto, como somos a única Seleção que sempre sobreviveu à fase de grupos dos Europeus, este triunfo oscila entre o grande feito e a obrigação. Não convém, por isso, alinhar em grandes euforias.


Julgo que a República Checa está ao nosso alcance. Já os vencemos em 2008. Além disso, o meu pai e o meu irmão comentaram, no dia em que os checos venceram a Polónia e carimbaram o seu apuramento, que, tirando o Peter Cech, eles não têm grande defesa. E nós temos um bom ataque, por isso...

No entanto, há que recordar que os nossos amigos checos conseguiram chegar aos quartos após uma derrota humilhante aos pés da Rússia, no jogo de estria - demonstrando que têm grande carácter. E ninguém quer repetir a história do Euro 96. Além disso, preocupa-me a mania que os Marmanjos parecem ter, de só darem o seu melhor quando estão em desvantagem - uma atitude perigosa, na minha opinião.

Mesmo assim, acredito neles. Acredito naqueles homens. Que têm dado provas de sobra de que merecem a nossa confiança, a nossa fé, o nosso amor. Acredito que pode ser desta. Só espero que, agora, os Marmanjos não desperdicem esta oportunidade que criaram de se aproximarem de um sonho que nos anda a escapar há demasiado tempo. Cá em Portugal, envergarmos as cores nacionais, torceremos por eles. O resto está nas mãos, ou melhor nos pés, daquela que é a Equipa de Todos Nós.

Dinamarca 2 Portugal 3 - Com o espírito do Dragão

Ontem, a Seleção Portuguesa de Futebol defrontou a sua congénere dinamarquesa num jogo da segunda jornada da fase de grupos do Euro 2012, saindo de lá com uma vitória por três bolas contra duas. Foi um jogo daqueles, típicos da Turma das Quinas em fases finais de campeonatos de seleções, inadequado para corações fracos. Eu, pelo menos, há anos que não gritava tanto durante um jogo, que não estava tão histérica. Ainda bem que os meus pais não estavam em casa... 

Vi o jogo com a minha irmã, a melhor amiga dela, que estava em videoconferência a partir de sua casa, e com muitas mais pessoas através do Twitter. No início do encontro, estava mais nervosa do que o habitual. Talvez por causa do café que tinha tomado pouco antes, talvez porque, inconscientemente, antecipava o sofrimento que seria a partida. A maneira como a Seleção entrou em campo em nada me ajudou a manter a calma. 

Houve um lance em que Bendtner - que acabou por ser um dos grandes protagonistas do jogo, por vários motivos - pisou Pepe. No Twitter, começaram muitos a goza, invocando os inúmeros, digamos, acessos de mau génio do luso-brasileiro para com outros jogadores, ao serviço do Real Madrid. "Foge Bendtner!", dizia um. "Bendtner não vai acabar o jogo sem sair lesionado", dizia outro.

Contudo, Pepe arranjou melhor forma de se vingar. Marcou um golo.


Este foi a segunda vez que o luso-brasileiro marcou o primeiro golo da Seleção num Europeu - recorde-se o golo frente à Turquia, na nossa estreia no Euro 2008. Depois dessa, Pepe ainda marcou uma vez em setembro de 2009, frente à Hungria. De todas as vezes que o luso-brasileiro fatura envergando as cores de Portugal, ele bate com força do peito, do símbolo das Quinas estampado na camisola, mesmo sobre o coração, agarra-o com força - já havia reparado nisso ao fazer as minhas montagens de vídeos da Equipa de Todos Nós. Ontem, chegou mesmo a beijá-lo. Como que a mostrar ao Mundo que tem o nosso País no coração, apesar de as suas raízes serem outras. São gestos bonitos.

E, como já tinha dito acima, foi uma forma bem melhor de se vingar da pisadela de Bendtner do que responder à letra, arriscando-se a cartão ou pior...

Embora, por outro lado, talvez tivesse sido melhor para a nossa pressão arterial se ele tivesse feito com que o dinamarquês saísse mais cedo, numa maca.

Estou a brincar!

A televisão da amiga da minha irmã estava ligeiramente mais adiantada do que a nossa. Portanto, aquando deste primeiro golo, ela festejou-o uns segundos antes de nós. Não que isso tenha estragado muito o sabor mas, de qualquer forma, depois desta, decidimos que, sempre que a Seleção atacasse, colocaríamos o computador em silêncio. Se soubéssemos sempre de antemão como é que cada jogada ia acabar, estando esta ainda a decorrer no nosso televisor, o jogo perdia a piada quase toda.

Acho que seria cómico visto de fora. A Seleção partindo para o ataque, eu cruzando os dedos, agarrando o meu velho cachecol, inclinando-me para a frente, em direção ao televisor, enquanto dizia:

- Tira o som.


Pouco depois, foi marcado o segundo golo, desta feita sem o aviso prévio de uma televisão mais adiantada do que a nossa. Quando vi que tinha sido o Hélder Postiga a marcar, berrei:

- ESTE É P'RA MIM! ESTE É P'RA MIM! ESTE É P'RA MIM! EU DEFENDI-O NA TELEVISÃO! EU SABIA! ESTE É P'RA MIM! - a minha irmã até se assustou...

Claro que, depois deste golo, toda a gente comentou que ele até era um dos melhores marcadores do Saragoça, que este era o seu vigésimo golo com a camisola das Quinas. Como seria de esperar. Eu cá nunca deixei de acreditar no Hélder. Tinha-o defendido cá no blogue, tinha-o defendido quando fui ao "A Tarde É Sua". E embora tivesse admitido que não seria má ideia o Nélson Oliveira alinhar de início, fiquei secreta e irracionalmente satisfeita quando Paulo Bento anunciou que o Hélder seria titular frente à Dinamarca. Tinha até um pressentimento de que ele marcaria à Dinamarca. E não me enganei.

Por isso, peço desculpa mas este golo foi para mim. Eu mereci-o. Obrigada Hélder! Obrigada por não me teres deixado ficar mal na televisão.



Uma referência ainda a Nani, que esteve bastante bem no jogo. Esta assistência no golo de Hélder Postiga foi apenas um exemplo. Não é de admirar. Antes do jogo, na página do Facebook, dei vários exemplos de grandes momentos do Marmanjo frente à Dinamarca, começando no pontapé de canto direto para a baliza, no seu jogo de estreia com a camisola das Quinas, acabando nos dois golos seguidos no Estádio do Dragão. E agora a assistência neste golo, ontem. Tinha de ser. O Nani tem, como diz o outro, uma certa queda para dinamarqueses.

O golo de Bendtner estragou-nos um pouco a festa, sobretudo aos mais verdes nestas coisas, como a minha irmã, que julgavam que o jogo já estava arrumado. Mas não estava. A Dinamarca ainda tinha uma palavra a dizer. Assim, chegou-se ao intervalo com a sensação de que o jogo havia acabado de começar.

A segunda parte do jogo trouxe muito sofrimento. Cristiano Ronaldo diria, mais tarde, que os dinamarqueses não fizeram quase nada na segunda parte, mas não foi essa a sensação com que fiquei - vi demasiadas vezes os nossos adversários atacando-nos. O facto de o Ronaldo não estar nos seus dias não ajudou em nada.



Nesta altura, já devem ter ouvido falar da reação nas redes sociais às oportunidades desperdiçadas pelo madeirense. Não estavam a brincar. Pelo menos no Twitter, quase exigiam a cabeça do Marmanjo numa travessa. Nesta altura, já tinha esgotado o meu limite de tweets, portanto, não contribui nem contrariei esta tendência, mas ia acompanhando-a.

A coisa piorou aquando do segundo golo de Bendtner, que repôs o empate. O golo não surpreendeu, depois de tanto ataque dinamarquês - mas não deixou de ser um valente balde de água fria. No Twitter, fartaram-se de culpar Ronaldo por este resultado, nos minutos que se seguiram, chegando mesmo a insinuar que ele devia era sair da Seleção - algo que eu considero inconcebível. Mas já lá vamos.

Eu continuava a acreditar que era possível reverter o resultado, mas não com muita convicção. Ou melhor, com mais desespero do que convicção. Só pensava que não queria ter de fazer contas, que não queria ter de fazer figas por equipa alheia. Vi Paulo Bento meter Varela e o filme começava a parecer-me familiar.


Só que, desta feita, o filme teve um desfecho diferente. Um desfecho feliz. Varela, também conhecido como o Drogba da Costa da Caparica, saltou do banco e salvou o dia. Achei imensa graça quando hoje, no Record, na página de humor, disseram que o Marmanjo ia passar a ser patrocinado pelo Instituto de Socorro a Náufragos, pois a sensação é mesmo essa: o Varela salvou a honra do convento! O seu golo foi, sem sombra de dúvida, o ponto alto de todo o jogo. Eu e a minha irmã gritámos como nunca, ao longo de minutos. Em Lviv, a euforia não foi menor. A Seleção em peso, suplentes e um ou outro técnico incluídos, saltou em peso para cima do herói. Foi lindo! Não me canso de ver estes festejos. Só tenho pena de não terem mostrado Paulo Bento nesta altura...

Mesmo assim, o sofrimento continou. A Dinamarca não deixou de atacar, poderia repôr o empate a qualquer momento. O árbitro deu quatro minutos de compensação - foram os quatro minutos mais longos da História do Futebol! Mas finalmente lá soou o apito final e o resultado ficou selado - algo que eu celebrei com mais um par de berros de triunfo, ao mesmo tempo que começava a ouvir buzinas e vuvuzelas vindas do exterior.

E pronto. Foi assim que a Seleção teve a sua primeira vitória do Europeu, a primeira vitória do ano. Vitória essa que lhe garantiu três pontos, três pontos que nos colocam de novo na corrida por um lugar nos quartos-de-final.



O Ronaldo é que, coitado, o jogo não lhe correu bem. Mas não me parece que isso justifique a onda de fúria contra ele, quando ele já fez muito pela Seleção - parecendo que não, ele já ajudou muito a Equipa das Quinas, seja assistindo e marcando golos, seja levando a equipa ao colo, seja em conversas de balneário. O povo tem memória curta mas eu, embora também às vezes tenha dúvidas, não me esqueço destas coisas.

Julgo que o problema é o mesmo da finalização: psicológico. As pessoas - incluindo, se calhar, ele próprio - andam a pressioná-lo demasiado, na minha opinião. Não se justifica porque, como ontem ficou provado, a Seleção é mais do que Cristiano Ronaldo, existem outros jogadores de valor para além dele, que podem fazer a diferença. Além disso, como disseram ontem no Twitter, ninguém estará mais desiludido do que ele. Ele bem pode dizer que o importante é a equipa, que não se importa que nos tornemos campeões sem que ele marque um golo que seja. Eu acredito que ele esteja a ser sincero mas também acredito que ele se sinta desiludido com o seu desempenho individual. A solução há de ser a mesma; quando ele marcar, o enguiço desaparecerá.

Independentemente da etiologia do problema, a crucificação por parto dos próprios adeptos nunca foi terapêutica eficaz. Neste momento, ele devia era ouvir mensagens de apoio.

De qualquer forma, tenho a certeza que ele vai ultrapassar esta fase má e que vai calar toda a gente que o critica. Como o fez há uns tempos no Real Madrid, segundo o que li num blogue. Parece que, depois de uma derrota no Barnabéu aos pés do Barcelona, os adeptos culparam-no pelo desaire, criando uma onda de ódio semelhante à que grassa cá em Portugal. Mas depois, o Ronaldo calou-os ao marcar um golo no jogo da segunda volta do campeonato, em Camp Nou, num jogo que lhes garantiu o título. Pode ser que o mesmo aconteça agora, pode ser que ele, frente à Holanda, se vingue de tudo isto.


Paulo Bento havia dito que se teria de recuperar o espírito do jogo no Estádio do Dragão para este encontro. E eu acho que este jogo teve, de facto, muitas semelhanças com o jogo de 8 de outubro de 2010. Nesse dia, tal como ontem, só a vitória interessava. Nesse dia, tal como ontem, sofreu-se - embora ontem tenha sido pior. Nesse dia, tal como ontem, a vitória deu-nos novo fôlego. Nesse dia, tal como ontem, a vitória não nos serviria de muito se não vencêssemos também o jogo seguinte.

Já deu para ver que jogos com a Dinamarca são sinónimo de sofrimento. Quer o desfecho seja feliz ou não para o nosso lado, nós sofremos sempre, por um motivo ou outro. Aquela malfadada reviravolta em Alvalade, no início da Qualificação para o Mundial 2010. O empate no ano seguinte, depois de termos estado a perder, que nos fez pegar na calculadora. A estreia de Paulo Bento depois do caso Queiroz. A agonizante derrota no ano passado que nos atirou para os play-offs. E o jogo de ontem - que me deixou atordoada horas após o seu término.


O pior é que ainda não estamos despachados com a Dinamarca. Ainda temos de disputar com ela um lugar nos quartos-de-final, ainda que não diretamente. Pelos artigos que tenho lido, nem tudo depende de nós. São umas contas bem manhosas estas, que dizem que nós podemos ser apurados com uma derrota e ficar pelo caminho com uma vitória. No entanto, é como eu disse hoje de manhã, no café: nós temos é de ganhar à Holanda, de preferência com vários golos. Se isso nos der o Apuramento, ótimo. Se não (três vezes na madeira!), não será por culpa nossa, pelo menos não completamente. Ao menos voltaremos a casa, com a consciência tranquila, sabendo que demos tudo por tudo.

Mas seria uma injustiça do catano!

E não será fácil ganhar à Holanda. Eu sei que ela perdeu com a Alemanha e com a Dinamarca, mas ainda me parece inverosímil que a atual vice-campeã do Mundo não passe da fase de grupos. Eles ainda podem qualificar-se e lutarão por isso. E, ao contrário do certas pessoas acham, não me parece que o nosso historial nos ajude a derrotá-los. Tanto eles como nós mudámos muito desde o Euro 2004 e o Mundial 2006. Não podemos esperar facilidades.

Eu acredito que é possível chegarmos aos quartos, que estes estão ao nosso alcance. A Seleção provou ontem que, apesar de nem sempre ter jogado muito bem, tem espírito coletivo, tem paixão, tem uma palavra a dizer neste Europeu. Mais uma vez, aqueles homens provaram que merecem o nosso apoio, a nossa fé - demoraram algum tempo, mas finalmente voltaram a prová-lo. Agora espero que o provem, mais uma vez, no próximo domingo, desmontando a Laranja Mecânica e garantindo um lugar no mata-mata.

Portugal 0 Alemanha 1 - "22 homens atrás de uma bola", a sequela

No Sábado passado, dia 9 de junho, a Seleção Portuguesa de Futebol estreou-se no Euro 2012 frente à sua congénere alemã com uma derrota por um golo sem resposta.

Peço desculpa por só agora estar a publicar a minha análise ao jogo, mas não consegui fazê-lo antes.

Encarei este jogo com relativa tranquilidade e - admito-o - baixas expectativas. Mesmo assim, tal não me impediu de sentir a habitual mistura de nervosismo e entusiasmo típica de jogos deste género, quando este começou. Acompanhei o jogo com o portátil à frente, usando-o para registar as minhas impressões no Twitter, bem como para ler as reações das outras pessoas através da mesma rede social. É esta a magia da Internet. Na teoria, estava a assistir ao jogo apenas com o meu pai e com a minha irmã. Na prática, estava a vê-lo com muitas mais pessoas. E foi divertido.

A primeira parte foi muito equilibrada, com algum domínio por parte da Alemanha, que tinha mais posse de bola. Os nossos pareciam muito lentos na hora do contra-ataque - talvez por cautela, por demasiado respeito para com o adversário. Houve uma altura em que os nossos adversários atacaram bastante. Lembro-me em particular de um livre direto falhado.

- Já passou - disse um dos comentadores depois do lance, como se consolasse uma criança pequena depois de uma queda. Tal fez-me rir e, com os nervos, não consegui parar durante largos minutos.



Como o costume, eu e a minha irmã fartámo-nos de mandar bocas de treinadoras-de-sofá-de-sala, a minha irmã com um pouco mais de histeria. Ela conhecia quase todos os jogadores alemães pelo nome, graças à caderneta de cromos do Euro 2012 que tem andado a tentar completar. Chegava mesmo a informar-nos do peso e da altura de cada um deles. Graças à coleção de cromos, a miúda está melhor informada acerca do Euro 2012, acerca dos grupos, dos jogos, do que eu. Agora é a ela que perguntamos quais serão os embates do dia e respetivos resultados.

Só prova que está tudo nos genes.

O meu pai, por sua vez, estava bem mais calmo do que nós, como o costume, limitando-se a resmungar acerca do jogo dos portugueses. Contudo, aquando do quase-golo do Pepe, em cima do intervalo, saltou da cadeira e gritou "GOLO!" com o mesmo ímpeto que nós as duas, antes de percebermos que a bola não chegara a cruzar a linha. Como que a provar que gosta tanto disto como nós, ainda que o disfarce muito bem. Quando se soube que a bola, afinal, não tinha entrado, a minha mãe reclamou:

- Vocês não podem gritar assim quando não é golo!

Mas não tínhamos sido os únicos. Quando voltei a atenção para o Twitter, depois desta jogada, vi logo que, um pouco por todo o País, muitos haviam gritado "GOLO!" em falso, à semelhança de nós. Mais tarde, a minha irmã perguntaria ao meu irmão, que não tinha visto o jogo connosco:

- Gritaste "GOLO" com aquela do Pepe?

- Com a do Pepe, com a do Varela, com a do Nani... - respondeu ele.

Mas adiante.

Tive esperança de que este quase-golo do Pepe injetasse confiança nos Marmanjos para a segunda parte. Se de facto injetou, não sei. Mas Portugual até conseguiu manter a Alemanha sob controlo quando o jogo recomeçou. Comecei a ter esperança de que a Seleção marcasse em breve.


No entanto, tal como já havia acontecido no jogo com a Turquia, os meus pressentimentos revelaram-se redondamente enganados. Poucos minutos depois, Mario Gomez marcou. Lembro-me perfeitamente de levar as mãos à cabeça, cravando as unhas no couro cabeludo enquanto via os nossos adversários festejando.

Os portugueses até reagiram bem ao golo, sobretudo depois da entrada de Varela e Nélson Oliveira. No entanto, acordaram tarde demais, não foram a tempo de reverter o resultado.

Não posso dizer que o resultado me surpreendeu. Eu sabia que ia ser assim. Sabia-o desde 2 de dezembro, desde que o nome da Alemanha saiu daquela bolinha. Sabia que ia ser muito, mas muito difícil sairmos do nosso jogo de estreia. Sabia que este era o desfecho mais provável para este encontro. E já tinha avisado. Já tinha avisado que, perante equipas do calibre da Alemanha, não podemos estar sempre a falhar emates, não podemos dar-nos ao luxo de não marcar golos.

O problema acabou por ser o mesmo do jogo de 2008. Em suma,


Apesar da derrota, eu até gostei do jogo, diverti-me a vê-lo. Foi de emoções fortes, conforme tinha previsto. Só é pena Portugal não ter ganho ou, pelo menos, empatado. E fica aquela sensação de frustração - saber que aquilo estava ao nosso alcance e não fomos capazes de aproveitá-lo. 

Muita gente ficou satisfeita com a prestação da Turma das Quinas, eu também fiquei, mas uma boa prestação não nos serve de nada se não ganhamos. Nesse aspeto concordo com Luís Figo. E, como diz o Hino, "vitórias morais não têm arte nem engenho". Acaba por ser a conversa do costume, que estou farta de repetir há não sei quantas entradas. Quantas vezes e de quantas maneiras preciso de dizê-lo? Chega de desculpas, deem-nos uma vitória, por amor da Santa!

Contudo, desta feita, não posso censurar os Marmanjos por não terem entrado no jogo a matar, quando eu própria tinha um absoluto respeito pela Alemanha e consideraria um empate a zero como um resultado satisfatório. 


Depois, há a questão da finalização, que tem preocupado muita gente, eu incluída. Há quem fale de falta de talento, quem defenda a troca de Hélder Postiga (uma pessoa defende-o na televisão mas ele...) por Nélson Oliveira. Apesar de o Hélder ser um dos meus favoritos há anos, eu admito que o Nélson seria uma boa opção. Para além de ter jogado bem contra a Alemanha, seria também uma solução a longo prazo para a caprichosa posição de ponta-de-lança.

No entanto, não me parece que o problema seja "falta de talento". Aliás, não compreendo o que é que se passa com a Equipa de Todos Nós este ano, de onde é que vieram estes problemas na finalização. Nós marcámos imenso durante o Apuramento! Três golos à Dinamarca e três golos à Islândia em outubro de 2010. Quatro golos à Espanha em novembro do mesmo ano. Cinco golos à Islândia em outubro de 2011. E, no mês seguinte, seis golos à Bósnia. O que é que está a acontecer este ano?

Cá para mim, é apenas um problema psicológico. Que isto será como o ketchup, como diz o Cristiano Ronaldo. Quando os Marmanjos conseguirem marcar, o enguiço quebrar-se-à, certamente.



Qualquer que seja a etiologia do problema, espero que os Marmanjos o resolvam rapidamente, a tempo do jogo com a Dinamarca, daqui a pouco mais de vinte e quatro horas. Equipa que, ainda por cima, conseguiu contrariar o rótulo que lhe foi colocado de outsider neste grupo B e vencer a Holanda. À grande e à dinamarquesa - ou seja, complicando a vida de equipas teoricamente mais fortes, como a holandesa e... a portuguesa. Razão tinha eu para lamentar o facto de partilharmos com grupo com esta seleção nórdica. Nada nos garante que não voltem a ser um espinho na nossa carne.

No entanto, estou confiante. Porque a Seleção provou ter um coletivo de respeito no jogo contra a Alemanha. Houve jogadores que se destacaram, como o Pepe e o Fábio Coentrão (cuja garra recordou-me o Mundial 2010), mas o ponto forte da Turma das Quinas foi a dinâmica de equipa, que nos coloca ao nível das melhores do Mundo. Tal atitude nem sempre é suficiente para ganharmos os jogos - como ficou provado no nosso jogo de estreia - mas sem ela não vamos a lado nenhum. 

Isto ainda não acabou. Ainda podemos dar a volta ao texto. Portugal provou ter capacidade de ir bastante longe no Europeu. Se vai conseguir converter tal capacidade em vitórias, é outra questão. Eu, como é habitual, acreditarei até ao apito final e apoiarei até muito depois disso. Só falta a Seleção Nacional, de uma vez por todas, cumprir a sua parte.

Antes da nossa estreia no Euro 2012

Estamos, finalmente, a horas da nossa estreia na fase final do Europeu da Polónia e da Ucrânia. Tal estreia será frente à poderosa Alemanha, grande candidata ao título e com quem o historial não nos é favorável. O optimismo já não era grande há algumas semanas - o resultado dos dois últimos jogos particulares  pioraram ainda mais a situação.

Como o costume, agora que a Seleção está num momento menos bom, há quem aproveite para causar polémica e aumentar a audiência da Comunicação Social, com o efeito secundário de fragilizar ainda mais a Equipa das Quinas. É o caso de Manuel José, que afirma que a Seleção tem passado mais tempo em festas do que a preparar o Europeu. Carlos Queiroz já veio corroborar tais declarações, como não podia deixar de ser - já se sabe, este se tem uma oportunidade para cuspir no prato de onde comeu, aproveita-a. E um pouco por todo lado têm surgido opiniões semelhantes. Comenta-se o enorme poder que as patrocinadoras têm sobre a Seleção, as várias folgas que foram concedidas aos jogadores, os inúmeros popós topo de gama exibidos pelos jogadores aquando do regresso destas folgas, o facto de as três televisões em sinal aberto terem transmitido em direto a visita da Seleção ao Presidente da República, a posterior viagem até ao aeroporto, etc, etc.

Tais críticas não me surpreendem por aí além, são habituais em alturas como estas, conforme já foi referido acima. Não será a primeira nem a última vez que tais coisas acontecerão, já estou habituada a isso. A única coisa que difere neste caso é que... eu concordo com uma boa parte das críticas.´

Mas vamos por partes, que isto é uma questão muito complexa, com várias facetas. Começando pelas folgas. Julgo que já falei disso anteriormente, se não aqui no blogue, pelo menos na página do Facebook. Não vejo grandes vantagens em manter os jogadores aprisionados no estágio durante semanas a fio. No entanto, nesses dias viram-se demasiadas vezes os Marmanjos em eventos publicitários das respetivas patrocinadoras quando, segundo Paulo Bento, esses dias deviam ter sido aproveitados para estarem com a família e os amigos.

Por outro lado, embora tais comportamentos possam ser moralmente discutíveis, parecem-me relativamente  inofensivos quando comparados com o dos nossos adversários: parece que os jogadores alemães têm tido permissão para fumarem, beberem cerveja e vinho, saírem do hotel nos tempos livres, entre outras coisas. Acho que isso é mais prejudicial do que folgas a mais, mas também acho que a nicotina e o etanol no organismo dos nossos adversários em nada nos vai facilitar a vida quando entrarmos em campo com eles...



Também não acho que se possa dizer que o desempenho de Portugal será afetado pelo desfile dos carros de luxo dos jogadores nas chegadas a Óbidos após as folgas. Muitos deles são apaixonados por automóveis. Cresceram em meios desfavoráveis, sem quaisquer tipo de luxos, provavelmente prometendo a si mesmos que, quando fossem grandes, seriam jogadores de futebol, teriam muito dinheiro, suficiente para terem Porsches e Ferraris. E agora que já são grandes e ricos, estão a realizar os seus sonhos infantis (porque são infantis, independentemente do carácter positivo ou negativo do termo). As outras pessoas, que se calhar, tinham os mesmos sonhos quando eram miúdos, mas não conseguiram realizá-los, invejam-nos, criticam-nos por exibirem gritantes sinais exteriores de riqueza estando o País mergulhado na crise - não digo que estas críticas sejam motivadas apenas pela inveja, mas acredito que esta represente uma larga percentagem da motivação.

Pessoalmente, não compreendo esta obsessão dos homens por popós. É que chega a roçar o ridículo, como quando o Ronaldo, no outro dia, aparentemente, trouxe uma réplica do carro do Batman ou algo parecido. Um amigo meu já me veio explicar que os carros estão para os homens como os sapatos estão para as mulheres. Talvez. De qualquer forma, acho que existem coisas melhores em que gastar o dinheiro. Eu, pelo menos, se ganhasse o que eles ganham, não investiria em carros desportivos. Investiria, se calhar, uma parte em roupas e acessórios, mas não é essa a questão...


Mas um ramo em que, certamente, investiria, se, mais do que o dinheiro, tivesse o estatuto e o mediatismo que alguns deles têm, seria a filantropia. Vocês viram a campanha que fizeram quando o Gustavo, o filho do Carlos Martins, precisou de medula óssea. Se eles criassem uma fundação, se se dedicassem a uma causa humanitária, fosse ela combater uma doença ou ajudar crianças carenciadas, sem ser apenas quando toca a um filho deles, movimentariam imensa gente. Mas adiante.



A questão do "circo", do "big brother", do "folclore", das patrocinadoras, não é tão linear quanto isso. Eu própria tenho opiniões contraditórias sobre o assunto. Por um lado, concordo com Manuel José quando fala sobre o "big brother", sobre programas como o Vamos Lá Portugal. Já tinha falado sobre isso ou aqui ou no Facebook: o programa quase só tem transmitido coisas irrelevantes, tem sido sobretudo um espaço de publicidade à Nike.

Em relação à transmissão em direto das atividades da Seleção na tarde de 4 de junho (a visita ao Presidente da República, a viagem até ao aeroporto, etc) por parte das três televisões de canal aberto... é complicado. Complicado porque eu participei num deles programas. Mas não acho que seja assim tão interessante estar a transmitir coisas como os treinos abertos, as viagens no autocarro, no avião... Essas coisas são emocionantes quando estamos presentes lá fisicamente, quando podemos gritar, acenar bandeiras, fazer figuras parvas, como fiz eu, e haver a possibilidade de sermos vistos e ouvidos pelos nossos heróis, de nos tornarmos reais para eles. Tirando essa componente, tudo aquilo não passa de uma aula de Educação Física, de um autocarro, de um avião da TAP - e, na minha opinião, existem coisas mais interessantes para se ver na TV. Ou pelo menos, não me parece que sejam assim tão interessantes que justifiquem três televisões façam o direto ao mesmo tempo.


O que nos leva à influência das patrocinadoras - porque são claramente elas que beneficiam com a atenção exagerada à Equipa de Todos Nós. Sempre o soube mas só agora, depois da conversa de Manuel José e Carlos Queiroz é que me ocorreu que isso poderia ser prejudicial à Seleção. A ser verdade o que o ex-selecionador diz, seria uma completa estupidez toda aquela história de uma votação para escolher o 23º jogador da Convocatória para o Mundial 2010.

Carlos Queiroz até poderia ter recuperado parte do meu respeito por se ter recusado a fazer isto, não fosse o timing destas declarações. Ele sabe perfeitamente que a pressão é imensa nestas alturas, declarações como esta em nada ajudam. Mas não, teve dar mais uma prova do seu carácter desprezível.

Acaba por ser engraçado. Nos primeiros tempos de Paulo Bento como Selecinador, sentia-me dividida pela euforia que me causou a boa fase da Seleção e culpada devido à minha antiga lealdade para com Queiroz. O antigo selecionador acabou por resolver o meu dilema ao deixar vir ao de cima o seu verdadeiro carácter. Assim, deixei de me sentir culpada por a minha lealdade ir toda para Paulo Bento. Obrigada Queiroz!

Por outro lado, se não me engano, não é a primeira vez que Manuel José critica o folclore em volta da Seleção. Julgo que já o ouvi, há uns meses, culpar a festa antes da final do Euro 2004, no caminho desde Alcochete até à Luz, pelo fracasso da mesma. Não me admirou, portanto, que ele repetisse tais críticas agora, a propósito da preparação do Euro 2012.



Mas com isso não concordo. O futebol é um espetáculo, é um entretenimento, é feito para os adeptos, é para ser vivido, para ser aproveitdo. Eu gosto dessa componente, gosto do circo, do folclore - sem exageros, é claro. Eu sei que o BES, a Galp, o Continente e afins ganham muito com tal festa, mas isso faz parte. Sem o BES, não teria havido a Mais Bela Bandeira aquando do Mundial 2006. Sem o Continente, não teriam havido aqueles anúncios provocatórios dirigidos aos nossos adversários. Sem a Galp, não havia Menos Ais, não havia o Onze Por Todos - que eu considero uma campanha muito original, muito inspiradora. Estas campanhas muito têm contribuído para a mobilização do povo em torno da Equipa de Todos Nós. E, na minha opinião, de uma maneira geral, têm-no feito promovendo mais a Turma das Quinas do que as próprias marcas.

Como em praticamente tudo na vida, o que se pede é moderação, equilíbrio. Que se trabalhe e que se concentre no que é importante mas que haja tempo para alguma festa, alguma ligação aos adeptos.

Também já li as costumeiras opiniões de pseudo-intelectuais, considerando-se superiores ao resto do povo que vibra com a Seleção em fases finais como esta, que os julgam alienados da realidade numa altura em que todos os esforços deviam ser concentrados na resolução da crise, a conversa do costume. Nesta questão, recorrerei a um artigo de opinião, já antigo, da altura do Euro 2008, publicado no dia que se seguiu ao jogo com a República Checa, no jornal Meia Hora, que entretanto já saiu de circulação. Tem quatro anos de idade, mas continua atualíssimo e transmite exatamente aquilo que eu penso sobre este assunto.

Não digo que a alienação seja uma coisa boa, porque não o é. No entanto, a não-alienação não nos tem servido de muito. Como diz Luciano Amaral, autor do artigo: "o argumento implícito dos queixosos parece ser o de que, no espaço de tempo entre os Europeus e os Mundiais de futebol, andamos por aí a resolver os problemas do País. (...) Afinal, houve dois anos desde o último Mundial (e quatro desde o Europeu) para resolver o atraso económico português (ou a crise das finanças públicas), sem qualquer sucesso".


Isto em 2008, numa altura em que a crise ainda não tinha explodido com toda a sua força.


Não alinho na campanha da Galp, não me parece que a Taça resolva alguma coisa, que impeça os jovens da minha geração - que, como eu, cresceram ouvindo que só seriam alguém se tirassem um curso universitário e agora não conseguem arranjar emprego - de emigrar, que diminua o desemprego, a pobreza. No entanto, como assinalou muito bem João Gobern sexta-feira de manhã, no "Pano Para Mangas", no futebol não temos de nos submeter às directrizes, ao desprezo, de franceses e alemães, não temos de ser os "bons alunos" - podemos aspirar a ser maiores do que somos, a nos suplantarmos, a tentarmos o impossível e inspirar os restos dos portugueses a seguirem esse exemplo no que toca às suas carreiras, às suas ambições pessoais. Ou, pelo menos, como já repeti várias vezes ao longo do último ano e meio cá no blogue, podemos esperar por algo de bom no futuro, algo que torne tudo menos insuportável, por pequeno e fútil que seja.

E agora estamos a menos de vinte e quatro horas da nossa estreia no Europeu. Carlos Daniel resumiu bem a forma como encaro este jogo: "Nós somos um povo do oito ao oitenta, mas agora estamos para aí no quarenta e oito". Acho que vai ser muito, muito difícil ganharmos, que uma derrota não será muito grave, mas não seria a primeira vez que a Seleção me surpreenderia.

De uma coisa tenho a certeza, contudo. Independentemente do resultado, será um jogo que ficará na História. Este e não só. No outro dia, durante uma Conferência de Imprensa, julgo que com o Eduardo, um jornalista d'A Bola disse que considera que o nosso grupo deveria ser chamado de Grupo da Vida, em vez de da Morte, pois será certamente este que mais vida trará ao Europeu. É um conceito interessante. Emoções fortes não faltarão no nosso grupo.

A mensagem que, se pudesse, deixaria à Seleção, seria a seguinte: deem o vosso melhor, façam por merecer o apoio que vos tem sido dado, deixem-nos orgulhosos. Se aqueles Marmanjos derem tudo o que têm, tudo pode acontecer. É encarar a Alemanha, a Dinamarca, a Holanda, encarar os quartos-de-final como o primeiro grande objetivo, olhos nos olhos, sem medo, e dizer...


...ou, para não ofender os mais puritanos, em bom português: Desafio Aceite!

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