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O Meu Clube É a Seleção!

Os pensamentos de uma simples adepta da Seleção Nacional, que não percebe assim tanto de futebol mas que é completamente maluca pela Equipa de Todos Nós.

O Meu Clube É a Seleção!

Suíça 2 Portugal 0 - Toblerone envenenado

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Na passada terça-feira, dia 6 de setembro, a Seleção Portuguesa de Futebol foi derrotada por duas bolas sem resposta, no Estádio St. Jakob-Park em Basileia, em jogo a contar para a Qualificação para o Campeonato do Mundo da modalidade, que terá lugar na Rússia em 2018.

 

Aquando deste jogo, estava de férias no estrangeiro. Felizmente, conseguimos ver o jogo através da Internet. A nossa ideia era ver através do site da RTP mas o canal não tinha direitos para transmitir o jogo online (como é que os emigrantes veem o jogo?). Tivemos de ser Inácios. A qualidade da imagem era baixa mas, felizmente, não houve interrupções na transmissão.

 

Não que tenhamos gostado particularmente de ver o jogo. Portugal até entrou bem, com vontade de comandar. Aos cinco minutos já contávamos dois remates à baliza helvética. Um deles foi de Éder e, por sinal, foi uma jogada parecida àquela que nos deu a Henri Delaunay (pena ter sido ao lado...). Um bom motivador terá sido o público português presente, que fizera o Hino Português ecoar por todo o St. Jakob-Park e, agora, faziam a banda sonora com "Campeões, Campeões" e "É Portugal"..

 

No entanto, as boas intenções não passaram disso pois, em menos de dez minutos, Portugal sofreu dois golos. O primeiro, aos 23 minutos, surgiu na sequência de um livre. Rui Patrício defendeu para a frente, a bola foi parar a Embolo que, na recarga, não falhou. Sete minutos mais tarde, num lance de contra-ataque suíço, os portugueses não acordaram a tempo e Patrício teve de ir buscar a bola ao fundo da baliza outra vez.

 

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Não chegaram a ser dez minutos de "deslumbramento", como apelidou Fernando Santos, menos de um décimo do tempo de jogo, mas foi o suficiente para nos enfiarmos num buraco do qual já não conseguimos sair. A Seleção até ficou melhor organizada na segunda parte, com as entradas de André Silva, João Mário e Ricardo Quaresma. Porém, nesta altura, a Suíça fez o mesmo que Portugal fizera durante o Europeu: pôs-se à defesa. Tivemos uma daquelas típicas e super irritantes ocasiões em que a bola não quer entrar (eu pensava que já tínhamos passado essa fase, com o Europeu). É quase caricata, a maneira como provámos do nosso próprio veneno, como o Pouco Importa se voltou contra nós. O jogo acabou sem que se conseguíssemos sequer reduzir a desvantagem.

 

Não existem ainda motivos para colocar tudo em causa, como dizia Paulo Bento. Todos nós sabemos perfeitamente que esta não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que tropeçamos nas primeiras jornadas de uma Qualificação e não será, de certeza, a última. Esta nem sequer é a situação mais dramática: foi a primeira derrota em jogos oficiais em dois anos, acabámos de nos sagrar campeões da Europa, logo, em princípio, não será preciso correr com o Selecionador. Além disso, a Suíça é um adversário com quem Portugal tem, historicamente, sentido dificuldades; é o mais difícil do grupo, tirando, talvez, a Hungria. Tirando estes dois, os restantes constituintes do grupo de Qualificação - Letónia, Andorra, Ilhas Faroé - em princípio, não nos colocarão dificuldades. Tudo isto é um progresso relativamente ao nosso último grande tropeção. Podemos perfeitamente resolver este imbróglio.

 

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Dito isto tudo, esta derrota não deixa de ser um enorme balde de água fria, depois de termos passado os últimos quase dois meses nas nuvens, com o nosso primeiro título. Nem sequer é a primeira vez que a Seleção tropeça quando anda de ego inchado. E tendo em conta que metade do mundo futebolístico continua a questionar a justiça da nossa vitória em Paris e um dos nossos adversários disse que tivemos sorte no Europeu, eu não queria, de todo, dar-lhes mais argumentos perdendo o nosso primeiro jogo oficial depois do Euro (o que vale é que a França também não começou bem esta Qualificação, logo, não deverão implicar connosco... por agora).

 

Não que tenhamos alguma coisa a provar. Tivemos sorte no Europeu, sim, com aquele golo islandês que nos facilitou o caminho para a final de Paris, mas foi uma compensação por inúmeras participações em Europeus e num Mundial nos últimos dezasseis anos (em que até jogávamos mais bonito) em que "faltou sempre a estrelinha para ficarmos em primeiro". Nós éramos a seleção com melhores participações em Europeus sem nunca termos ganho o título, por amor da Santa! Éramos, literalmente, os campeões das vitórias morais (que, como gosto de dizer, "não têm arte nem engenho"). Podemos ter tido sorte no caminho para a final, mas na final em si não a tivemos. Perdemos cedo o nosso melhor jogador, que por sinal é um dos melhores de todos os tempos (já tinha referido que temos o Melhor do Mundo a jogar por nós há mais de doze anos?) e tivemos de fazer das tripas coração para aguentar os franceses, que pressionavam e jogavam sujo. Uma equipa com menos alma teria sucumbido. Nós não. E não foi por sorte.

 

Mesmo não tendo em consideração o que escrevi acima, a Taça continua em Portugal e por cá ficará até 2020. E isso é que ficará registado na História do futebol. Além do mais, mesmo que Portugal tivesse "jogado bonito" no Europeu, logo, merecido a vitória segundo esses critérios, continuaríamos a ser criticados. Sobretudo pelos franceses, que sempre nos trataram com desdém.

 

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Enfim, perdoem-me este aparte. Vocês sabem como eu às vezes levo criticas à nossa Seleção demasiado a peito. Dizia eu que é uma pena não termos conseguido prolongar o estado de graça. Mas não vou criticar demasiado duramente uma equipa que fez quase tudo bem durante quase dois anos. Fernando Santos garante que a Seleção ganhará os jogos que faltam. Tendo em conta que o Selecionador já garantiu coisas mais absurdas, como que Portugal ganharia o Europeu, mesmo após um par de jogos mal conseguidos na fase de grupos, não tenho motivos para duvidar dele. Continuarei a saborear o estatuto de Campeões Europeus, a cantar o This One's For You, o We Are the Champions e o Pouco Importa, a emocionar-me como vídeos como este

 

Mas é bom que a Seleção não torne a escorregar.

Portugal 5 Gibraltar 0 - Treino com adrenalina

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Na passada quinta-feira, dia 1 de setembro, a Seleção Portuguesa de Futebol venceu a sua congénere gibraltina por cinco bolas sem resposta, em jogo de carácter amigável, realizado no Estádio do Bessa.

 

Adianto, desde já, que não prestei muita atenção ao jogo, sobretudo na primeira parte. Tinha dormido mal na noite anterior e passei o dia inteiro com dores de cabeça. Não muito fortes, mas o suficiente para não me deixarem concentrar devidamente no jogo.

 

Não que este tenha sido muito interessante, pelo menos no início. Como seria de esperar, o jogo teve sentido único. O Eduardo só foi chamado à ação perto do fim da segunda parte e mesmo assim não eram situações de perigo. Podia ter ficado a jogar Candy Crush na baliza, que não faria diferença. No entanto, de uma maneira muito típica, a Seleção Portuguesa teve dificuldades em acertar na baliza, desperdiçando diversas oportunidades. Campeões Europeus e tal, mas há coisas que nunca mudam, pelos vistos. Éder falhou um par de golos, incluindo um de baliza aberta, e eu não quero de todo estar a dizer algo como “O Éder sendo o Éder outra vez”, por motivos óbvios, mas… Ao menos o público do Bessa, benevolente com o herói da final do Europeu, aplaudiu-o aquando dessa falha. Há bem pouco tempo a reação seria diferente… mas esta ajuda mais.

 

O primeiro golo português surgiu aos vinte e sete minutos, dos pés de Nani após passe de Bruno Alves. Um golo que teve direito a celebração com um mortal. É uma pena que Nani não tenha comemorado nenhum dos seus golos no Europeu da mesma forma… mas compreende-se a cautela, depois da traumática exclusão do Mundial 2010.

 

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Nani voltaria a marcar na segunda parte, quando Adrien, André Silva é Bernardo Silva já estavam em campo. Foi, aliás, o último quem centrou para Nani, que cabeceou para o seu segundo golo da noite. O Marmanjo já está perfeitamente à vontade no papel de Capitão, de líder da Equipa das Quinas, no lugar de Cristiano Ronaldo. Já conta dez anos vestindo a Camisolas das Quinas, tem marcado bastante pela Seleção este ano e eu não podia estar mais orgulhosa. Sobretudo tendo em conta que se tornou Campeão Europeu.

 

O terceiro golo das cores lusitanas teve a participação dos dois estreantes da dupla jornada. André Silva recebeu a bola na grande área gibraltina, passou-a a João Cancelo, que rematou num ângulo difícil, mas a bola entrou.

 

O golo de Bernardo Silva foi marcado quase por acaso. O Marmanjo recebeu uma bola perdida pelos gibraltinos na sua grande área. Fez um remate fraco, mas o modesto guarda-redes de Gibraltar chegou tarde. A bola passou por baixo dele, cruzando a linha de baliza. Bernardo nem sequer festejou muito pois o golo foi mais demérito do pobre guarda-redes que mérito dele.

 

Bernardo, de qualquer forma, ainda teve tempo para assistir para o último golo da noite: um centro perfeito para a careca de Pepe, que cabeceou para as redes gibraltinas, fazendo o resultado.

 

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Não há muito mais a dizer sobre este jogo. Portugal cumpriu a sua obrigação. O melhor resultado obtido por Gibraltar, até ao momento, foi uma desvantagem de quatro golos - ganhar por menos do que isso teria sido inglório. Podíamos até ter saído do Bessa com um resultado ainda mais generoso não fosse a aselhice típica dos portugas. Todos os Marmanjos estiveram bem mas de resto, com o devido respeito pelos gibraltinos, perante Gibraltar até as nossas avozinhas fariam boas exibições.

 

Fernando Santos tem perfeita noção disso e não o escondeu. Conforme declarou no rescaldo do jogo, este particular não foi mais do que um treino com mais adrenalina que o habitual. Não prova nada para o jogo com a Suíça. Serviu, no entanto, para dar algum ritmo a Marmanjos com pouco tempo de jogo nos respectivos clubes, o que é importante nesta fase do campeonato.

 

Terça-feira, em Basileia, será completamente diferente. Será a contar para a Qualificação para o Mundial 2018 e todos concordam que será, provavelmente, o jogo mais difícil. A Suíça é o adversário mais cotado do grupo, fora nós, e têm fama de serem fortes em casa. Por esse prisma, um empate talvez não fosse um resultado muito mau. No entanto, estando nós ainda a saborear o delicioso estatuto de Campeões Europeus, ninguém quer outra coisa que não seja a vitória. E é, conforme escrevi na entrada anterior, gostei de ver a Seleção Apurando-se em primeiro lugar para o Euro 2016 e quero repetir a dose.

 

Continuem a acompanhar esta degustação aqui no blogue e na página do Facebook.

Em Celebração

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Na próxima quinta-feira, dia 1 de setembro, a Seleção Portuguesa de Futebol recebe a sua congénere... (*pesquisa no Google*) gibraltina, no Estádio do Bessa, em jogo de carácter amigável. Cinco dias mais tarde, a Seleção Campeã Europeia (sabe tão bem escrever isto) desloca-se a Basileia, na Suíça, onde se estreará na Qualificação para o Campeonato Mundial da modalidade.

 

Estes serão os primeiros jogo que Portugal disputará na condição de Campeão Europeu. A Federação Portuguesa de Futebol não tenciona deixá-lo passar em claro. Para começar, fartou-se de publicitar o jogo (com a típica falta de subtileza dos últimos tempos), colocando pessoas como Rui Reininho e Delfim a chamar os adeptos ao Bessa. Depois, deu aos detentores de ingressos o privilégio de tirar uma fotografia ao lado da Henri Delaunay (espero que isso se torne norma nos próximos jogos em casa da Seleção, que eu também quero!!). Pelo meio, o Presidente da República vai receber os Campeões Europeus... outra vez... no Salão Nobre da Câmara do Porto, para receberem as insígnias da Ordem de Mérito.

 

Isto tudo pode parecer excessivo, mas, nas palavras de Cristiano Ronaldo, que se f***! Esperámos anos e anos (décadas e décadas, no caso de adeptos mais velhos) por esta Taça. Agora que, finalmente, a ganhámos, temos o direito de celebrá-lo tanto quanto quisermos. Eu, pelo menos, tenho feito isso à minha maneira (começando pelo meu outro blogue). Tenciono continuar a fazê-lo no mínimo até ao próximo Europeu... mas fá-lo-ei provavelmente para o resto da minha vida.

 

É bastante óbvio que a seleção gibraltina foi escolhida a dedo precisamente para permitir uma vitória fácil (tipo Estónia), para que o jogo particular possa ser uma celebração da vitória na final do Euro 2016. E ainda que seja esse o plano, na prática, a Seleção tem um historial de se atrapalhar em jogos desse género, sobretudo quando tem o ego inchado. Espero bem que isso não se verifique nesta dupla jornada, que seria um enorme balde de água fria. Em todo o caso, servirá sempre para dar minutos a jogadores menos utilizados, como já é da praxe.

 

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A verdade é que Gibraltar está mais ou menos ao nível de vários dos nossos adversários na fase de Qualificação que começa agora. Isso, na verdade, desilude-me um bocadinho: este grupo é uma seca! Quem é que quer esperar semanas ou meses, como costumo fazer, por jogos contra a Andorra ou as Ilhas Faroé? Além de que, por norma, Portugal não se dá bem perante teóricas facilidades. Basta olharmos para o grupo do Euro 2016 que, teoricamente, era muito fácil, mas em que tivemos o pior desempenho de que me recordo numa fase de grupos (ironicamente, depois tornámo-nos campeões...).

 

Por outro lado, desta feita, voltamos às regras antigas, ou seja, só o primeiro lugar se Apura diretamente o segundo tem de ir a playoffs (isto se não for o pior de todos os grupos), o que significa que, desta vez, não vai dar para ir lá só com empates ou quase. Fernando Santos já disse que o objetivo é o primeiro lugar e espero bem que isso seja cumprido. Gostei muito de ter tido um Apuramento quase só com vitórias, agora quero repetir a dose. Temos tudo para isso, na minha opinião.

 

Por sinal, começamos com um dos adversários mais difíceis, a Suíça. O nosso historial com esta seleção não é favorável. A última vez que nos cruzámos foi no grupo do Euro 2008 e perdemos - não que isso tenha tido grande importância, uma vez que já estávamos apurados para os quartos-de-final. Não me lembro de quase nada desse jogo, tirando o que escrevi na altura, no blogue. 

 

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Tenho vindo a aperceber-me, de resto, que o Euro 2008 é capaz de ter sido o campeonato mais esquecível do milénio. Ganhámos os dois primeiros jogos, Luiz Felipe Scolari disse que se ia embora, perdemos os outros dois jogos, fim de história. De qualquer forma, para mim terá aquele travo especial por ter sido o campeonato em que me estreei com esse blogue. Ando a descobrir, aliás, que estas coisas vão acontecendo no tempo certo.

 

Mas estou a desviar-me do assunto. O importante é que, apesar do historial, considero que a Suíça está ao nosso alcance. Nem que seja pela lógica de "somos os Campeões da Europa. A Suíça pertence à Europa. Logo, vamos ganhar à Suíça!" (claro que, na prática, as coisas não são bem assim). Não que ache que vão ser só facilidades. Até porque, apesar da Convocatória não se desviar muito da do Europeu, numa interpretação flexível da máxima "Em equipa que ganha, não se mexe.", temos algumas baixas importantes, como Renato Sanches e Cristiano Ronaldo. No entanto, também temos o regresso de Bernardo Silva e as estreias de João Cancelo e de André Silva, o mais recente menino-bonito do campeonato português, que muitos diziam que merecia ter ido ao Euro (a ver se ele é essa Coca-Cola toda...). Não há desculpa para não trazermos os três pontos de Basileia.

 

Para ser sincera, ainda não mudei o chip para a Qualificação para o Mundial 2018. Ainda me sinto no rescaldo da nossa épica vitória no Euro 2016. Parte de mim tem pena de publicar uma nova entrada aqui no blogue, que o texto sobre a final não seja o mais recente aqui do estaminé. Que o feito mais recente da Seleção vá deixar de ser a conquista do Europeu. Mas só em parte. Há já quem fale do título Mundial, mas eu acho que ainda é cedo para se pensar nisso - até porque ainda temos a Taça das Confederações antes (porque ninguém fala dela, cá em Portugal?). Uma coisa já sei, no entanto: não quero que a Seleção seja uma One-Hit Wonder. Vou querer mais títulos, mais cedo ou mais tarde. 

 

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De qualquer forma, grandes equipas, grandes conquistas, constroem-se passo a passo. E os primeiros incidentes do capítulo novo da história da Equipa de Todos Nós, que abrimos agora, serão os jogos com Gibraltar e a Suíça. Que comecemos com o pé direito.

 

Portugal 1 França 0 - Quebrando todas as maldições

 

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Há dez anos, no dia 9 de julho de 2006 - uma manhã de domingo de verão, um calor insuportável - eu estava no Estádio Nacional, no Jamor, juntamente com a Seleção em peso e milhares de adeptos equipados a rigor. Sentia-me feliz por estar ali, mas também me sentia prestes a desmaiar, com aquele calor desértico (costumo dizer que, nesse dia, dava para fritar ovos nas bancadas). Acabei mesmo por ter uma quebra de tensão. Não sem antes ouvir o Selecionador da altura, Luiz Felipe Scolari, dizendo:

 

- Vocês são os campeões do carinho e do sentimento. Não deixem de acreditar! Alegrem-se com este quarto lugar no Campeonato do Mundo e acreditem que, um dia, pode ser que breve, estaremos aqui para comemorar uma grande vitória.

 

Scolari deixaria, dois anos mais tarde, o lugar de Selecionador (mas continua, até hoje, a sofrer à distância), mas eu fiz o que ele disse. Não tenho feito outra coisa, no que toca à Seleção. Cerca de um ano depois daquela manhã de domingo, tive a ideia de criar um blogue, onde pudesse escrever sobre a Equipa de Todos Nós. Menos de um ano mais tarde, criei-o. E hoje, doze anos após o Euro 2004, dez anos após o Mundial 2006, oito anos após inaugurar O Meu Clube é a Seleção, é com um orgulho indescritível que escrevo: Portugal conquistou o seu primeiro título como Seleção A. A Seleção Portuguesa de Futebol é campeã da Europa.

 

Alerta: neste texto, não vou ser muito simpática para o povo francês, o que não significa, de todo, que não esteja solidária para com eles, à luz do recente atentado terrorista em Nice. Antes de ser adepta de futebol e mesmo portuguesa, sou ser humano, cidadã do Mundo e repudio todo o tipo de violência. Todas as críticas que tecer aqui limitam-se ao espectro futebolístico. 

 

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Sonhei com uma noite como a de domingo, dia 10 de julho, durante muitos anos. Cheguei a passar para o papel essas fantasias, embora não as tenha partilhado com ninguém. A realidade, no entanto, foi melhor que a imaginação. Duvido que alguém tenha imaginado que Portugal conquistaria o seu primeiro título desta forma: na casa do seu adversário, adversário esse que não vencia há mais de quarenta anos; com o seu Capitão e melhor jogador saído do jogo, de maca; com um golo do ponta-de-lança em quem quase ninguém acreditava.

 

Têm sido uns dias loucos, sobretudo o dia da final e o que se seguiu. Foi em parte por isso que demorei tanto tempo a escrever este texto. Passei o domingo inteiro na página de Facebook do blogue partilhando pequenos textos de motivação, música, vídeos, tudo o que me ocorreu, as minhas armas todas. Aproveito, aliás, para agradecer ao Sapo Blogs por ter destacado o meu texto anterior durante o domingo todo, até à hora da final. À medida que a hora do jogo se aproximava, os nervos iam apertando, em jeito de antecipação do sofrimento que seria. Na última meia hora antes, já respondia torto a toda a gente.

 

Mesmo a condizer com o meu humor, o jogo começou mal. Os portugueses entraram nervosos, cometendo erros, fazendo lembrar um pouco os nosso primeiros jogos neste Europeu. O pior nem sequer foi isso. Foi quando, aos sete minutos, Dimitri Payet faz uma entrada dura sobre Cristiano Ronaldo e o seu joelho cedeu. O nosso Capitão ainda se obrigou a continuar em campo durante mais algum tempo, mas acabou por se dar por vencido e pedir a substituição, lavado em lágrimas. Gostei de ver Nani abraçando-lhe o rosto enquanto recebia a braçadeira de Capitão e, depois, começado de imediato a puxar pelo resto da equipa. Tenho alguma curiosidade em saber as palavras exatas de Nani ao choroso Cristiano (estou, aliás, surpreendida por ninguém o ter perguntado até agora), mas não terá sido algo muito diferente de:

 

- Não chores. Nós vamos ganhar isto por ti.

 

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Cristiano saiu de maca, ao som de aplausos do estádio inteiro, mas tais aplausos não me comoveram. Pelo contrário, nunca tinha tido tanta raiva aos franceses, em termos futebolísticos. Eles roubaram-nos os nossos sonhos em 1984, 2000 e 2006 (se foi com justiça ou não, não me era relevante naquele momento); quando as coisas não lhes corriam bem nos últimos anos, os mais altos dirigentes do futebol manipulavam as regras a seu favor; a Imprensa francesa tratou-nos abaixo de cão; os franceses tomaram a vitória na final como garantida, até tiveram a arrogância de colocar o autocarro de campeões que tinham preparado a circular pelas ruas de Paris antes do jogo (olhando agora, os franceses estavam mesmo a pedi-las...). E agora tinham-nos tirado o Ronaldo, num lance em que nem sequer foi marcada falta. Esta nem sequer seria a última jogada violenta por parte dos franceses: Ricardo Quaresma apanharia umas duas. E nós é que jogávamos de forma nojenta...

 

Basta!, pensei eu, naquele momento. Os franceses não mereciam ganhar o Europeu jogando assim. Eles tiraram-nos o Ronaldo? Nós tirar-lhes-íamos o campeonato! Que ninguém se atrevesse a atirar a toalha ao chão!

 

Felizmente, o resto dos Marmanjos também pensou assim. Mesmo sem o seu elemento mais importante, a Equipa de Todos Nós não vacilou. A França dominava, tinha o árbitro do seu lado (a sério, os franceses fizeram jogo sujo mas, na primeira parte, só os portugueses é que viram amarelos), mas era incapaz de traduzir essa vantagem em golos graças a Pepe, José Fonte e, sobretudo, Rui Patrício. Mais do que qualquer um dos outros Marmanjos, via-se que o guarda-rede estava a fazer o jogo da vida dele, pela maneira como se atirava, sem hesitações, para a bola, como se esta fosse o filho que tem por nascer, arriscando-se a levar com outros jogadores em cima. Dizer que ele "estava inspirado", como ia comentando a minha mãe, é quase insultuoso. Aquilo não é "sorte", ou "inspiração", são anos de experiência, perícia e muita entrega. Teve uma única falha que poderia ter deitado tudo a perder, arruinar-lhe um jogo até ao momento perfeito, em cima dos noventa minutos (a meia-final de 1984, em que o três vezes maldito Michel Platini marcou à beira do fim, passou-me pela cabeça) mas, por uma vez, o poste esteve do nosso lado.

 

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Com o tempo, incapazes de quebrar Portugal, os franceses foram perdendo o ânimo. Não lhes terá ajudado a cantoria constante dos adeptos portugueses. A sério, eles não deviam passar de um quinto da ocupação das bancadas e foram os que mais se ouviram. Só uma vez ou outra é que os franceses se puseram a fazer o haka islandês, que nem sequer é originalmente deles (e, na minha opinião, não tinham o direito de usá-lo). Por usa vez, não me lembro de alguma vez ter ouvido cânticos assim da parte dos portugueses num jogo da Seleção. Parecia a curva sul dos jogos do Sporting, e isso é um elogio. Não será por acaso, que ouvi dizer que elementos dos Super Dragões e da Juve Leo estiveram em França, liderando os adeptos portugueses durante o Europeu. Para além de ser sempre bonito por princípio ver adeptos deixando as rivalidades clubísticas de lado e unindo-se pela Seleção (algo que devia acontecer sempre), tornou o décimo-segundo jogador mais ativo e determinante nesta vitória. Foi uma ótima ideia, que devia ser aplicada em todos os jogos da Seleção.

 

A equipa soltou-se mais no ataque depois de João Moutinho e Éder substituírem Adrien e Renato Sanches, respetivamente (e o pobre Adrien teve de aturar Ronaldo no banco... Não estava fácil para ninguém!). Mais ou menos nessa altura comecei a acreditar que, se marcássemos um golo, ganharíamos o jogo. Mas, naturalmente, não me atrevia a verbalizar esse pressentimento.

 

Não sei como foi com vocês, no sítio onde vivem, mas na minha rua, depois do noventa, desatou tudo a gritar por Portugal, à janela. Eu aproveitei a ocasião, aliás, para estrear a transmissão em direto da página de Facebook, filmando a cena (obviamente, a qualidade deixou muito a desejar...). Como podem ver, houve ali uma mistura de gritos de apoio e celebrações do empate. Ao mesmo tempo, no Stade de France, Ronaldo andava à volta dos companheiros de equipa, dando-lhes força para o prolongamento.

  

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Muitos contavam com um desempate por grandes penalidades mas eu, sinceramente, preferia resolver a situação antes dos cento e vinte ou era desta que me ia dar uma coisinha má. Estivemos perto com aquele livre do Raphael Guerreiro que bateu na trave. Para ser sincera, fiquei um bocadinho aliviada por a bola ter batido na trave nesse lance, visto que aquele livre fora mal marcado a nosso favor (a mão na bola não era de Koscielny, era de Éder. Uma pessoa pergunta-se como que é o árbitro se confundiu, quando os dois jogadores tinham cores de pele bem distintas... Confesso que me fartei de rir com esse momento). Não que fosse propriamente injusto, tendo em conta a maneira como Ronaldo saiu do jogo, e que não fosse de uma ironia deliciosa depois da mãozinha do Abel Xavier no Euro 2000. No entanto, se já como foi os franceses se têm queixado de injustiça (ao ponto de pedir repetição da final, o que acho pura e simplesmente patético), o que não diria se o golo viesse de um livre irregular.

 

No fim, as coisas desenrolaram-se de maneira perfeita. Ou quase perfeita. Estamos muito avançados tecnologicamente e tal, mas ainda ninguém arranjou maneira de resolver os lapsos na transmissão entre rádio e televisão, quer por fibra ótica quer por box, para evitar spoilers em jogos como este. A nossa rua explodiu de alegria antes de o golo passar na nossa televisão. Não que isso tenha estragado muito a coisa. Quando vi a bola ir às redes, não gritei "GOLO!", gritei antes como uma menina de doze anos num concerto do Justin Bieber. No Stade de France também não faltaram emoções, com toda a gente abraçada ao Éder, o Renato Sanches por cima do novelo humano, o Cristiano Ronaldo a chorar outra vez, desta feita de alegria.

 

Adaptando as célebres declarações de Ricardo Araújo Pereira ao meu caso, eu leito e escrevo livros, oiço música, vou a concertos, vejo séries e filmes, já viajei imenso para uma pessoa da minha idade, mas muito poucas coisas que emocionaram mais do que este golo de Éder, de fora da área, que as lágrimas de Cristiano nas celebrações - vou dizer isto durante toda a minha vida.

 

 

Mas, na altura, não me atrevi a dar nada por garantido antes do apito final. A Equipa das Quinas também pensou assim. Foi, aliás, depois deste golo que Cristiano Ronaldo se fez treinador-adjunto, para delícia do Mundo inteiro. Noutras circunstâncias e se isto ocorresse com frequência, treinador nenhum acharia assim tanta graça - sobretudo tendo em conta em que o Cristiano é um bocadinho bruto com Fernando Santos, que já está longe de ter trinta anos - mas eram os últimos minutos de uma final, estava muita coisa em jogo. Qualquer um deixaria passar. E, sejamos sinceros, teve imensa piada. Felizmente, Portugal conseguiu aguentar a vantagem até aos cento e vinte minutos.

 

Sabem durante quantos anos sonhei com o momento em que a Seleção recebeu a Taça Henri Delaunay? Quantas entregas de taças em futebol vi ao longo dos anos, imaginando a nossa Seleção no lugar dos vencedores? Quantas vezes vi, com os olhos da mente, o Cristiano Ronaldo erguendo a Taça bem no ar, os colegas à volta dele explodindo de alegria, os coffetis verdes e vermelhos, o fogo de artifício? Não cheguei a chorar, mas estive perto disso quando, finalmente, vi com os meus próprios olhos aquilo que, durante anos, só via nos meus sonhos.

 

 

No dia seguinte, tal como tinha prometido, fui receber a Seleção ao aeroporto. Só mais tarde é que descobri que a Seleção ia festejar para a Alameda. Não sei, no entanto, se teria disponibilidade para passar a tarde toda à espera da Equipa de Todos Nós. Além de que aquelas horas todas no calor e no meio da multidão ainda me davam outra coisinha má. Eu queria fazer parte da festa, de uma maneira ou de outra, que eu passei demasiado tempo à espera disto e fiquei satisfeita. Ainda estive um par de horas à espera no aeroporto, eu e uma multidão generosa que se prolongava até ao Palácio de Belém, provavelmente. Não nos aborrecemos pois houve cantoria do princípio ao fim: quer o hino nacional, quer cânticos de louvor ao herói de Paris, invocações a um episódio icónico deste Europeu e aquele que está em vias de se tornar o tema oficial da nossa participação no Euro 2016. Finalmente, o autocarro saiu e fez-se a festa, que se prolongou pela tarde fora.

 

 

Uma parte de mim ainda tem dificuldades em acreditar, mesmo passada uma semana, que isto aconteceu mesmo, que Portugal ganhou mesmo um título. Que estes 23 conseguiram aquilo que as Seleções Portuguesas de 1966, 1984, 2000, 2004, 2006 ou 2012 não conseguiram. Estão a ver a frase-feita que os Marmanjos iam repetindo, no rescaldo do jogo com a Islândia, à laia de desculpa? Que não era como se começava, era como se acabava? Bem, a frase-feita confirmou-se. O início de Portugal neste Europeu não foi famoso. Houve muita ansiedade, muitos erros, umas quantas más escolhas, alguns momentos medíocres e, há que admiti-lo, mérito dos nossos adversários, sobretudo da Islândia. Portugal soube melhorar, corrigir os erros, transformar as fraquezas em forças e isso foi fundamental para o nosso sucesso. Não foi um Europeu brilhante nem particularmente empolgante no que toca a Portugal e não deixei de assinalá-lo. Há quem diga que tivemos imensa sorte, por a Islândia ter marcado aquele golo à Áustria no tempo de compensação, que nos atirou para o caminho mais fácil até Paris. Não estão errados mas, como assinalei antes, é tudo uma questão de perspectiva, pois equipas como a Croácia, Polónia e País de Gales chegaram a onde chegaram por mérito próprio, não apenas por sorte.

 

Numa coisa concordo: dificilmente se repetirão circunstâncias tão favoráveis a Portugal. Mas isso acontece em todos os campeonatos, de seleções e não só: o mérito de uns coincide sempre com o demérito de outros. Acham, por exemplo, que o Leicester teria conseguido ganhar a Premier League se o Manchester United, o Chelsea e os outros clubes ditos grandes do futebol inglês estivessem a fazer tudo bem? O futebol é mesmo assim. 

 

 

Neste final feliz, o nosso primeiro, no meu coração ficam os vinte e três Marmanjos, o nosso Selecionador (cuja fé estava corretíssima) e o restante staff. Se tivesse de escolher entre pegar na Taça Henri Delaunay e um abraço a pelo menos um dos jogadores, escolhia a segunda opção. A Taça em si nada me diz sem os meus Marmanjos, que tanto lutaram para a levar "para o nosso Portugal". Um dia hei de fazê-lo. Hei de abraçá-los e agradecer-lhes esta vitória. Depois de anos e anos acompanhando-os (uns mais do que outros, evidentemente), ouvindo outros dizendo que eles são apenas os protegidos de Jorge Mendes, os mais-dez do Ronaldo, não tinham tanta qualidade como os seus antecessores ou elementos de outras seleções, foi um orgulho enorme vê-los dando cartas neste Europeu, fazendo frente a jogadores com mais prestígio, impressionando um pouco por todo o mundo, sendo eleitos para a equipa ideal do Europeu. Adrien, William, João Mário, Raphael Guerreiro, Cédric, Quaresma, Nani... e, claro, Éder.

 

Quero, aliás, comentar a atenção toda que tem sido dedicada ao "herói improvável" da final do Europeu. Atenção essa que tem o seu quê de hipocrisia. Escrutina-se a vida toda de Éder, comenta-se que ele cresceu quase como um órfão, mas quem queria saber disso quando, mesmo antes do Europeu, lhe chamavam "cone" ou diziam que era "menos um"? Há sites onde as pessoas se inscrevem para pedir desculpa a Éder, mas eu não assino por baixo. Todas as críticas que lhe teci relacionavam-se apenas com o seu desempenho em campo (e, vejamos os factos, ele só começou a marcar pela Seleção há um ano), penso que nunca resvalaram para o insulto. Como poderão ler aqui, não me passou despercebido o seu bom desempenho no Lille e, quando ele foi Convocado, dei-lhe o benefício da dúvida. Por sinal, o Éder até marcou em dois dos três particulares antes do Europeu. Desse modo, ao contrário do que aconteceu com muitos, o golo na final não me pareceu surgido do nada. Acho possível, até, que o Éder marcasse mais neste Europeu se tivesse tido mais tempo em campo.

 

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Este nosso triunfo serviu, aliás, para desmontar uma série de mitos sobre a Seleção, para, mais uma vez, matar demónios, quebrar maldições, as maiores que nos assolavam. Depois deste Europeu, mais ninguém vai dizer que o Éder não é opção para o ataque. Mais ninguém vai dizer que a Seleção não tem estaleca para equipas grandes e falha sempre nos momentos cruciais. Mais ninguém vai dizer que a Seleção é só Ronaldo-mais-dez - nós ganhámos literalmente uma final contra a França com Ronaldo no banco, lesionado. Mais ninguém vai, aliás, dizer que Portugal não tem nenhum título em seleções A. O nosso trajeto até à final de Paris pode não ter sido o mais empolgante, mas tudo o que ocorreu no Stade de France, tudo o que enumerei acima, é a matéria da qual são feitas as lendas.

 

Dito isto tudo, esta vitória não desvaloriza o trabalho de outras grandes figuras da Seleção Portuguesa, só porque estas não conqusitaram nenhum título com a Camisola das Quinas. Pelo contrário, este título também é um pouco deles, pois foram eles que criaram as tradições, que deram o exemplo e a inspiração aos vinte e três que foram a França. Enquanto viveu, Eusébio esteve sempre ao lado da Equipa de Todos Nós, a sofrer - e os campeões da Europa não se esqueceram dele nesta vitória. Cristiano Ronaldo via Luís Figo, Rui Costa e restante Geração de Ouro enquanto crescia, ainda apanhou alguns deles na Seleção e estou certa que os veteranos lhe serviram de mentores - tal como hoje Ronaldo apadrinha os mais novos das Convocatórias. Se não fosse Eusébio, Chalana, Luís Figo, entre tantos outros, não estaríamos aqui, a celebrar esta vitória

 

E não é só a eles que devemos estar gratos. Também a todos os outros que vestiram a Camisola das Quinas, com maior ou menor sucesso. Tudo o que aconteceu na Seleção até agora, todas as derrotas dolorosas, todas as pequenas e grandes crises, todas as trocas de treinadores, todos os momentos em que estivemos à beira de perder a fé valeram a pena pois prepararam-nos para isto, tornaram-nos mais fortes, permitiram-nos conquistar aquilo que nos escapou drante demasiado tempo.

 

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Esta parte, agora, é nova. Não se sabe ainda ao certo qual será o impacto prático da conquista do primeiro título. A curto prazo já deu para ver: não se falou de outra coisa durante dias, havia sempre um novo vídeo de Ronaldo no banco de Portugal, uma nova reação ao golo de Éder, uma nova entrevista, uma nova crónica sobre o jogo. Ficamos, agora, à espera do efeito a médio e longo prazo nas aventuras e desventuras da Seleção.

 

Uma das consequências já conhecidas deste triunfo é a presença na Taça das Confederações. Esta é, na minha opinião, uma das melhores: um campeonato de seleções num ano ímpar! É certo que não tem o mesmo prestígio que um Europeu ou um Mundial, mas sempre serão jogos interessantes, sempre é uma desculpa para a Equipa de Todos Nós se concentrar durante algumas semanas e para aqui a "je" escrever neste blogue!

 

Não quero pensar muito nisso, ainda, nem no Mundial 2018 e respetiva Qualificação. Para já, quero saborear este nosso primeiro título, pelo qual esperámos tanto tempo.

 

 

Quero terminar com um sentido agradecimento a todos os que acompanharam este feito inesquecível comigo, quer através deste blogue, quer através da página do Facebook. Tanto àqueles que só me descobriram há pouco mais de uma semana, como àqueles que já me seguem há anos. Esta vitória pertence a todos os portugueses mas nós, que já vimos a Seleção no seu pior e recusámo-nos a virar costas, merecemos esta vitória mais do que o adepto comum. Reservámo-nos a esse direito. Sabe tão bem conquistar finalmente um título...

Portugal 2 Gales 0 - Isto está mesmo a acontecer?

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Na passada quarta-feira, dia 10 de julho, a Seleção Portuguesa de Futebol venceu a sua congénere galesa por duas bolas sem resposta, em jogo a contar para as meias-finais do Campeonato Europeu da modalidade. A Seleção segue agora para a final de Paris, onde vai enfrentar a sua congénere... francesa.

 

Esta é a minha ducentésima publicação aqui no blogue (publicação número duzentos, para os amigos). Dificilmente o timing seria melhor - só mesmo se esta crónica fosse sobre a conquista de um título. Foi para ocasiões como a que estamos a viver neste preciso momento que inaugurei O Meu Clube é a Seleção. Esperei oito anos pela oportunidade de escrever sobre a presença da Equipa de Todos Nós numa final de um campeonato de seleções. Valeu a pena. 

 

Mas falemos do jogo das meias, antes. Não que haja muito a dizer. A primeira parte foi razoavelmente aberta, não desgostei do futebol praticado pelos portugueses, ainda que não tenham havido muitas oportunidades de golo. Da Gales, os lances de maior perigo partiram de Gareth Bale, naturalmente. Em várias ocasiões, valeu-nos Rui Patrício.

 

Na verdade, o jogo resume-se aos dois golos portugueses, aos cinco minutos da segunda parte. Na sequência de um pontapé de canto, Raphael Guerreiro centrou para o meio da grande área galesa. Cristiano Ronaldo deu um salto de quase oitenta centímetros - um daqueles que ele faz de vez em quando e deslumbram toda a gente - e cabeceou a bola diretamente para as redes. Cá em casa estávamos a jantar por esta altura e não consegui gritar "GOLO!" pois estava com a boca cheia de cenoura ralada - à semelhança do que já tinha acontecido antes, só que com esparguete.

 

Ronaldo não se ficou por aqui. Três minutos depois, fez nova tentativa à baliza galesa. A bola acabou por sobrar para Nani, que ampliou a vantagem para as duas bolas. Já conta três golos neste Europeu, mas continua a receber poucos louvores por isso. 

 

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Pouco mais aconteceu no jogo depois destes golos. A Gales ainda tentou reduzir a desvantagem, sem sucesso. Portugal podia ter marcado pelo menos mais um golo, teve oportunidades para isso. O marcador não se voltou a alterar até ao fim do jogo.

 

Acreditam que, mesmo passado este tempo todo, ainda não estou cem por cento convencida de que isto não é um sonho? Que Portugal está mesmo na final do Europeu? Que me sinto como aquele miúdo, meio anestesiado depois de ir ao dentista? Eu e a minha irmã, nos primeiros minutos após o apito final, perguntávamos isso uma à outra:

 

- Estamos mesmo na final?

- Isto está mesmo a acontecer?

 

Ainda ontem à tarde estava a comentá-lo para a minha cadela (sim, eu falo para a minha cadela, que é a única que tem sempre paciência para mim...) e, um pouco do nada, comecei a rir-me e não consegui parar durante minutos. Só depois de a França derrotar a Alemanha, conquistando um lugar na final, é que a verdade me atingiu. Portugal vai à final do Europeu. Com a França.

 

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Não é que Fernando Santos tinha razão? Não é que a Seleção vai ficar em Marcoussis até dia 11? Não é que a fé que resolvi adotar no início da preparação do Europeu se está a justificar?

 

Estive doze anos à espera deste momento - quase metade da minha vida. Desde aquela malfadada derrota perante a Grécia. À espera de uma oportunidade concreta de ver Portugal conquistar um título que lhe escapa há demasiado tempo, de desforrar, dentro do possível, a final do Euro 2004, as meias-finais do Mundial 2006 e do Euro 2012.

 

De certa forma, é perfeito. Foi frente à França, no próprio palco da final, que Fernando Santos se estreou como Selecionador. Não vencemos esse jogo (nem qualquer jogo com a França nos últimos quarenta anos, diga-se de passagem...). Mas foi nesse dia, nesse balneário, que jogadores e Selecionadores prometeram tudo fazer para regressarem a esse palco, daí a quase exatamente 21 meses, e sagrarem-se campeões da Europa. 

 

Também é perfeito de outra forma. Perfeito por o nosso adversário ser um dos nossos maiores "inimigos" no futebol. O adversário que nos derrubou nas meias-finais de 1984, 2000 e 2006 (de forma injusta no último caso, pelo menos). Houve até uma altura, após o Mundial 2006, em que fantasiei com uma final Portugal-França, precisamente para nos desforrarmos disso tudo (fantasia essa que contribui para a minha sensação de irrealidade). Além do mais, os franceses têm tido anos e anos de colinho por parte da FIFA e da UEFA, destaque para aquela mão de Deus do Thierry Henry, nos playoffs para o Mundial 2010. Por fim, têm passado o Europeu a criticar-nos, e continuam a fazê-lo. Existirá vingança mais doce do que dar-lhes o seu próprio Euro 2004? Uma derrota caseira na sua final para lamentar para o resto das suas vidas? 

 

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Mas isto eu a fantasiar. Voltando à realidade, sei perfeitamente que isto não vai ser nada fácil, raia mesmo o impossível. Como disse antes, a França é um dos nossos maiores demónios e, ainda por cima, joga em casa. Em termos de qualidade, na minha opinião, estão abaixo dos alemães, que perderam a meia-final por erros seus, mas, mesmo assim, os franceses estão muito acima das equipas que temos enfrentado neste Europeu. Vou ser brutalmente sincera: a possibilidade de perdermos é forte. 

 

No entanto, Fernando Santos também tem razão quando diz que é difícil ganhar a Portugal. Não convém esquecer que não perdemos nenhum jogo oficial no seu "mandato". Também acredito no empenho, no espírito de equipa,de sacrifício dos nossos jogadores. 

 

De qualquer forma, aconteça o que acontecer, no dia 11, a seguir à final, estarei no aeroporto da Portela para receber os jogadores, tal como fiz em 2012. Se nem depois do Mundial 2014 fui capaz de virar as costas à Seleção, muito menos fá-lo-ei agora.

 

Feita essa promessa, quero deixar uma mensagem aos jogadores (*põe a tocar como música de fundo um tema épico, estilo Heart of Courage dos Two Steps From Hell. O This One's For You também serve*).

 

Ganhem a final. 

 

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Ganhem pela vossa família e amigos, colegas e treinadores, antigos e atuais, as pessoas que acreditaram em vocês, que tomaram conta de vocês, que vos deram oportunidades para mostrarem o vosso valor, que vos ensinaram, que vos ajudaram, de uma forma ou de outra, a chegar a onde estão agora.

 

Ganhem pelo Eusébio e pelos outros Magriços, pelo Jordão, pelo Chalana, pelo Paulo Futre, pelo Luís Figo, o Rui Costa, o Pedro Pauleta, toda a Geração de Outro, pelo Deco, pelo Maniche. Por todos os jogadores portugueses que também tentaram tornar este sonho realidade, que vos ensinaram direta ou indiretamente, que vos serviram de exemplo e inspiração para se tornarem nos jogadores que são hoje.

 

Ganhem para acertarmos contas com o Destino pela derrota aos pés da Inglaterra há cinquenta anos, pelo golo de Michel Platini a um minuto do prolongamento das meias-finais de 84, pela mão de Abel Xavier em 2000, pela Grécia em 2004, pela falta do Ricardo Carvalho em 2006, pelos penáltis falhados em 2012. Ganhem para vingarmos os inúmeros favorecimentos descarados à seleção francesa e que, a nós, chegaram a ser negados, pelas desconsiderações que pessoas como Michel Platini e Joseph Blatter nos têm feito ao longo dos anos, pelas críticas que franceses (e não só) nos têm dirigido neste Europeu.

 

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Ganhem pelos vossos admiradores, pelos adeptos da nossa Seleção espalhados pelo Mundo inteiro (que não se limitam a portugueses), pelos que têm estado convosco nos bons e nos maus momentos. Por mim. Pelos emigrantes em França, porteiros, empregados de limpeza, trabalhadores das obras, que durante anos lutaram por sobreviver à precariedade, à arrogância e xenofobia de muitos franceses. Ganhem para que eles tenham orgulho, por pouco e fútil que seja, na sua nacionalidade.

 

Ganhem para que todos nós possamos falar de vocês aos nossos filhos e netos. Falar da capacidade de liderança de Cristiano Ronaldo, que obrigou João Moutinho a bater o penálti contra a Polónia. Da constante entrega de Nani. Da magia e perseverança de Ricardo Quaresma. Do ímpeto de Renato Sanches. Da elegância de William. Do talento deslumbrante de Raphael Guerreiro. Do imperialismo de Pepe. Das defesas milagrosas de Rui Patrício. Do empenho de todos os que não mencionei aqui, que se têm ajudado uns aos outros a melhorar e que têm honrado a Camisola das Quinas. Da crença inabalável de Fernando Santos. Ganhem por tudo isto e por muito mais.

 

Este vai ser o jogo das vossas carreiras, das vossas vidas. De todas as nossas vidas. Ajam de acordo com isso. 

 

Sem pressão.

 

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(Se por acaso exagerei no dramatismo, peço desculpa. Mas também, se existe altura para palavras grandiosas e dramáticas, é esta).